Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2016)
TEXTO: Orlando Caió
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| Horácio "Piquica" sentado numa pipa na rua Júlio Dinis (década de 70) |
O Horácio
era uma humilde figura de estatura mediana, rosto moreno e quase sempre
descalço, com notória dificuldade em se expressar.
O seu
vocabulário era bastante pobre. Poucas eram as palavras que conseguia articular com
clareza, à exceção
de algumas como, por exemplo, olá, pão, água, vinho, e mais três ou quatro
palavrões.
Costumava
vaguear pelas tascas existentes junto à estação dos caminhos de ferro, pela taberna e loja de mercearia
do Zé Rico, junto ao Jardim dos Campos, pelas tascas da Arruela e Praça da
República. Pelo caminho ia parando e cumprimentando as raparigas com um “Olá”,
e se visse alguém a fumar dirigia-se à pessoa, pedindo um cigarro.
Com alguma
frequência entrava no estabelecimento de almoços, vinhos e petiscos do Manuel
Mal-Casado, do Gato Preto e do João Gomes, no intuito de encontrar uma alma
caridosa que lhe pagasse um bolinho de bacalhau, uma isca de fígado ou, com
muita sorte, uma sande de bacalhau frito e um copo de vinho.
Costumava
ajudar em fretes que outras figuras populares faziam, e nas décadas de 1950 e
1960, era habitual vermos passar o Horácio ajudando a empurrar um carro de mão
de rodas altas conduzido por outra figura popular, concretamente o João “Patachão”,
pela então estrada de paralelo em frente à antiga fábrica de telhas e tijolos da
SIOL, onde atualmente
se situa a rua de Timor.
O Horácio
era um fumador inveterado. Por vezes, na Praça da República e a pedido de
alguém, para obter um cigarro entrava em parceria com outra figura típica, o Zé
Luta, o qual consentia em levar um ou dois “borrachinhos” aplicados pelo
“Piquica” e, logo a cena se invertia, com o Piquica a encher a boca de ar e a
consentir um ou dois “borrachinhos” aplicados pelo “Zé Luta”.
Pela
demonstração recebiam dois tostões cada um, dinheiro que logo era gasto em
cigarros.
Finalmente,
na década de 1980, alguém se lembrou do Horácio, e em boa hora decidiram
interná-lo no asilo da Santa Casa da Misericórdia de Ovar.
Terminava
assim um longo período de carências de toda a ordem, das quais o Horácio seria
o menos culpado.
Não é sem
alguma emoção que recordo esta humilde figura, que bem conheci ao longo de
quase 40 anos.
Horácio
Lopes, o popular “Piquica”, faleceu em Ovar, na referida instituição que o
acolhera, no dia 12 de Dezembro de 1991, com 63 anos de idade.
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de julho de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/08/horacio-lopes-o-piquica.html
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