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14.10.10

O ferro e os serralheiros em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/01/2006)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Andava, desde há tempos, com a ideia de escrever um texto sobre o ferro e os serralheiros em Ovar no início do séc. XX.
Conversando acerca do assunto com o Sr. Padre Bastos, este indicou-me o número do “João Semana” de 15 de Dezembro de 2003, onde vem um magnífico artigo do Sr. Padre Pinho Nunes intitulado “Ferros de Ovar”, cuja leitura ainda mais me estimulou a prosseguir as minhas buscas, de que passo a dar o resultado.

Portão da antiga fábrica dos Bonifácios


Contexto histórico
Os historiadores não sabem com exactidão a data do início da utilização do ferro, supondo-se já ser usado 6 000 anos a.C., referindo-se a Assíria ou o Egipto como local da descoberta.
Durante a Idade Média – período no qual o ferro se tornou mais vulgar do que o cobre ou o bronze, primeiros metais a serem descobertos na Pré-História –, os mestres armeiros de Toledo, Solingen, Milão e Damasco gozaram de enorme prestígio, pelas lâminas saídas das suas forjas.
São várias as profissões com origem na laboração deste metal, das quais destaco três mais conhecidas: Serralheiros (indivíduos que fazem obras de ferro mais delicadas); Ferreiros (fabricantes de trabalhos mais grosseiros, como alfaias agrícolas); e Ferradores (artífices que dão forma às ferraduras e que, posteriormente, ferram as cavalgaduras, os bois, etc.).
Em Ovar havia, nos anos 30, oficinas específicas para cada um desses ofícios. Mas de acordo com os objectivos da minha investigação, quero aqui salientar apenas os serralheiros, a quem também chamavam ferreiros, alguns dos quais vinham do início do séc. XX.

Serralheiros de Ovar
Eram cinco as principais zonas de onde se exercia essa profissão:
Rua Alexandre Herculano – Guilherme Serralheiro e Evaristo;
Rua José Falcão – Francisco Maria Oliveira Dias (Francisco Maria das Pombas);
Alto de Saboga – Sevintes;
Ribeira – Francisco Nunes Matos (Porrinha de menino).
Fabricavam engenhos de tirar água dos poços, grades para sepulturas, varandas, corrimões, fechaduras, portões, ramadas, fogões para queima de lenha, bandeiras de portas e janelas, etc.
Nos Invernos dos anos 30 e das duas décadas seguintes, em Ovar, como noutras terras do país, os jovens adultos da classe média, tal como os mais desfavorecidos, usavam chancas e tamancos, um tipo de calçado em que a parte superior era de cabedal, assente numa base de madeira. (As chancas eram mais utilizadas pelo sexo masculino; os tamancos pelo feminino.)
Nos meses invernosos, este género de calçado dava muito trabalho aos serralheiros. Tanto que dedicavam um dia, geralmente o Sábado, para esse serviço, ferrando as suas bases, particularmente as biqueiras e os respectivos lados, com pequenas chapas de ferro, para durarem mais tempo.
Recordo ainda o barulho que faziam os tamancos ao pisarem o empedrado das estradas daquela época ou ao entrar na Igreja. (Na de Arrifana ainda se conserva, ao lado da entrada principal, uma pequena chapa de ferro em meia lua, para a limpeza desse calçado.)
Ainda nos princípios do séc. XX, todos os trabalhos de serralharia se faziam de forma manual. As uniões das peças, que hoje se conseguem facilmente através da soldadura com eléctrodos, eram, nessa época, ajustadas com grampos de ferro penosamente batidos e aplicados em furos executados com máquinas furadoras, de funcionamento manual.
Até mesmo a forja, elemento principal de todas as artes do ferro forjado, [CLIQUE NO LINK A AZUL] era alimentado com o ar fornecido por um fole ou uma ventoinha que, manejados pela força do homem, mantinham ao rubro o carvão de pedra – o Cardiff (designação da hulha oriunda do País de Gales, na época, a única a ser utilizada para esse serviço).

Crise da II Grande Guerra
Nos anos 40, após o final da chamada Grande Guerra, o ferro sofreu uma enorme subida, já bastante notada na década anterior devido à sua grande utilização em material bélico.
Foi um período crítico para a arte de ferreiro, tanto mais que, para agravar o problema, começou por essa altura a ser utilizado o motor eléctrico no regadio das terras de cultivo, destronando os engenhos ou noras, cuja feitura era uma boa fonte de rendimento para os serralheiros.
Devido a estas circunstâncias acentuou-se a crise de trabalho para os artistas deste ofício em todo o país, dando origem ao encerramento de algumas oficinas de serralharia na nossa terra.

Hoje, de novo a crise
Segundo me informou o serralheiro José Augusto da Silva Oliveira Soares (José Nota), que exerce a sua profissão na rua Daniel das Pupilas (aos Campos) existem, neste momento, em Ovar, além dele, mais dois profissionais do ferro. Um em Enxemil e outro na Ponte Nova.
José Soares (Nota) aprendeu o ofício com Francisco Matos (o “Porrinha de menino”), no tempo em que os trabalhos ainda eram feitos com maquinaria manual, sem aparelhos de soldadura eléctrica.

Campa em ferro forjado no cemitério de Ovar. Recuperar esta arte é preservar
 o riquíssimo património local
– “Hoje, qualquer um é serralheiro, se tiver uma forja, uma máquina de soldar com eléctrodos e alguma ferramenta.” – afirma, mostrando-me os ferros com que batia nos cravos de forma manual para unir as peças feitas separadamente.
Disse-me ainda o meu interlocutor que, presentemente, os serralheiros estão com muita carência de serviço, devido ao pouco trabalho existente na construção civil e à expansão dos materiais de alumínio que, em muitos casos, passaram a substituir o ferro.
Tal como nos anos 40, os ferreiros de Ovar sentem que os dias de hoje são de crise.
Oxalá, passem depressa, para bem dos que ainda vivem da apaixonante arte de trabalhar o ferro e que, simultaneamente, podem, através dessa arte, contribuir para melhorar a economia do nosso país!...

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de janeiro de 2006)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/10/o-ferro-e-os-serralheiros-em-ovar.html

31.7.09

A arte do “Ferro Forjado” em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/11/1995)
TEXTO: António Valente de Almeida

Os nossos Serralheiros Civis, mais conhecidos, antigamente, por Ferreiros, criaram fama dentro e fora de portas.
A sua competência, aliada à sua honradez, foi a principal causa de tanto sucesso no seu mister.
Aqueles que tive a honra de conhecer – e ando aqui desde 1920 – deram-me a convicção de que assim era não só pelo seu trato pessoal, mas também por tudo aquilo que eu ouvia a seu respeito: serem fieis seguidores de seus antecessores, realizando verdadeiras obras-primas que ainda hoje, apesar de mal tratadas, extasiam os nosso olhos. Seis oficinas, cada uma delas regida pelo seu proprietário-trabalhador, foram autênticos atelieres dessa nobre arte, escolas onde uma juventude ávida de saber do ofício se preparava para a vida.
Por curiosidade, aqui deixo os nomes dos proprietários das oficinas de Serralharia que conheci, bem como a sua localização:
Guilherme Nunes de Matos, na Rua Alexandre Herculano n.º 83-85; José António Valente (Ti Zé Nau), que, além de varandas e engenhos, fazia os gradeamentos das campas do cemitério, e seu sobrinho Evaristo Valente, na Rua Alexandre Herculano, 106; Francisco Oliveira Dias, na Rua José Falcão, 107; Manuel Paciência, no Largo 1.º de Dezembro (São Miguel); Francisco Sevintes, na Rua Manuel Arala (entrada onde hoje é a “Garrafeira”); Francisco Matos, na Rua Alexandre Sá Pinto (Rua das Ribas) 85.
O pai do Ti Zé Nau, de nome José Valente, executou o artístico portão do cemitério de Ovar (na foto) enquanto o seu neto Evaristo Valente foi o executor do portão lateral.
Com ferramentas rudimentares – forja, accionada por um fole, martelo, malho, talhadeira e um gancho, a que chamavam “gato” –, fizeram aquilo que hoje contemplamos: um maravilhoso património que constitui um verdadeiro Museu a céu aberto, com peças as mais simples e as mais complicadas, a exporem-se aos curiosos ao longo das ruas da velha urbe vareira, nos balcões das varandas, nos peitoris das janelas, nas grades de portadas, nos resguardos de vitrais, e até nos gradeamentos do nosso Campo Santo. Para não falarmos dos rendilhados portões do Cemitério e das duas capelas laterais da Igreja, estes fabricados por artistas de fora.


Ao contemplarmos este espólio precioso, sentimos, em alguns casos, uma sensação de horror, por verificarmos que a seu lado se constroem autênticos mamarrachos, não tendo os seus construtores e os seus proprietários sabido conjugar com gosto as duas épocas, deixando um mau exemplo aos vindouros.
Lamento ainda não se notar, por parte de quem deveria ter mais responsabilidade na matéria, o devido empenho na salvaguarda desse património histórico e cultural.

Se Ovar se ufana de ser a Cidade do Azulejo – e até propaga este título como cartaz turístico –, com a mesma propriedade se deveria ufanar de ser considerada também a Cidade do Ferro Forjado, Arte que saiu das mãos de filhos seus, muitos dos quais, não cabendo em sua própria casa, se espalharam, mundo fora, levando consigo o nome da sua terra e capitalizando fama e algum proveito.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Novembro de 1995)

http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2009/07/arte-do-ferro-forjado-em-ovar.html