A RABOR, uma joia, uma águia que levou o nome de Ovar a
todos os recantos do mundo, conheci-a ainda embrulhada em pequenos e humildes
trapos num sótão da rua Alexandre Herculano, numa casa pertencente ao senhor
Pinto, pai dos irmãos José e Eduardo Pinto, dois vareiros de bom quilate. O meu
pai tinha um motor que precisava de uma reparação urgente, a minha mãe tratou
de se informar da capacidade dos donos da oficina e como se tratava de um
objeto de fácil transporte na bicicleta, lá vim eu a caminho da Rabor. Nesse
dia, encontrei-me com um jovem a cujo apelido – Ramos – foi roubada a primeira
sílaba, RA, para juntar à sílaba BOR – roubada ao apelido de outro jovem,
Borges –, assim se obtendo o nome de guerra para o motor “Rabor”.
Família sempre unida
Quando voltei ao convívio da Rabor, ela já funcionava
frente ao troço da 109 nas costas do Temido. Agora ela já só pertencia à
família Borges, que nela empregou todas as suas economias, todo o seu sangue,
todo o seu suor, toda a sua inteligência.
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O n.º 45 da Rua Alexandre Herculano.
Ali nasceu a Rabor |
A Rabor era a filha dileta dos quatro irmãos e do
cunhado, também ele Borges (cunhado do Manuel Borges, por ser irmão da esposa
deste, e, depois, cunhado de todos os três irmãos Borges por ter casado com o
único elemento feminino dos três Borges).
Aquilo parece que foram escolhidos a dedo; e se alguém
estava à espera de desentendimentos com a morte do pai, enganou-se redondamente,
pois eles mantiveram-se sempre unidos. Tal como os motores Rabor, que se
transformaram numa só peça de real valia, também eles, embora quatro seres
perfeitamente independentes e cada um com a sua missão, sempre se entenderam às
mil maravilhas. E assim foi sempre. Nunca alguém se apercebeu de que houvesse
birras entre eles, pois, se as houve, os interesses da firma e da família tudo
superavam. Só lamento a venda da fábrica à ITT, em 1965, passando a chamar-se
ITT/ Rabor, pois isso deu origem à cobiça daqueles que, pela sua incapacidade,
acabaram por transformar uma relíquia, uma joia de Ovar, num montão de
ruínas, depois de tudo terem sumido. Foi pena, pois o esforço dos Borges
primeiro, e da ITT até 1975, mereciam um fim mais de acordo com o esforço, a
inteligência e o amor de quem tudo dava pelo engrandecimento da nossa Rabor.
Sim, digo nossa, porque, como professor em Cabanões, também ela contribuiu
com os ordenados dos seus empregados para que os meus alunos tudo tivessem
para uma aprendizagem capaz.
Rabor: uma casa vareira
Mas a Rabor não foi só o que fica exposto. Para mim, para
os professores de Ovar, para os vareiros, a Rabor era muito mais: um abrigo,
uma casa vareira. E eu que o diga: Manuel Borges, sempre que lhe
batia à porta, por Ovar, era um coração (que o digam também as vetustas raízes
do eucalipto de Cimo de Vila, junto à padaria Godinho, o leito do Rio Cáster
junto à ponte da Rua Elias Garcia, o rio da Senhora da Graça, na Giesteira, a
sirene dos nossos Bombeiros, e por aí fora); o Zé Borges, com a sua linda casa
e o seu belo roseiral, e a sua explosão de alegria quando nos encontrávamos e
ele me cumprimentava dizendo, alto e bom som: “Este foi o professor do meu
Manecas!” (e que bem isto me sabia!); o cunhado, Manuel Borges, com a festa que
ofereceu a tanta gente quando da inauguração da sua casa (hoje Centro Médico da
Praça); estando muito feliz, quis repartir essa felicidade por um grande
número daqueles que sabia serem seus amigos; o João, cuja filha, na década de
sessenta, foi aluna de minha mulher.
Claro que, quando se tratava de ofertas de mais valia, a
oferta era de todos, e não apenas de um. Assim aconteceu na festa de homenagem
à D. Margarida Coentro de Pinho. Foi tamanha a avalanche de inscrições, que
graciosamente não se arranjava espaço para acomodar tantas pessoas. Foi então
que surgiu uma alma boa a sugerir o salão de festas da Rabor. Falámos à
gerência, e logo as portas da Rabor se escancararam, permitindo que esta festa
fosse mesmo aquilo que era merecido pela elevada categoria da professora homenageada.
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| Rabor, Ovar |
No seu auge, a Rabor chegou a ter 650 trabalhadores – muitos
deles admitidos depois de terem passado pelas carteiras da escola de Cabanões –,
e que lá trabalharam até à sua reforma ou até perto de a alcançarem.
O descalabro
Em fevereiro de 1981, depois da intervenção estatal, que
durou até agosto de 1980,a ITT Rabor passou a ser agregada à EFACEC da Maia,
perdendo Ovar os serviços administrativos, ficando apenas com a produção. Em
1994 houve o despedimento coletivo de 17 trabalhadores, e em 1999 a fábrica
passou para a família Rica, com a designação EFACEC Universal Motors, nome que
em 2002 mudou para Universal Motors, com o qual viria a morrer em 15 de julho
de 2005, data em que foi decretada a sua falência.
Obrigado, Rabor! Recebe um abraço de ternura por quantos
em ti trabalharam. Por mim, enquanto for vivo, quando por lá passo vejo a Rabor
dos Borges, e não as ruínas do que foi um colosso.
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de junho de 2015)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/p/textos-editados-neste-sitio-172.html
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