Mostrar mensagens com a etiqueta ESMORIZ. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ESMORIZ. Mostrar todas as mensagens

16.12.15

Tanoaria JOSAFER (“Farramenta”) Esmoriz

Jornal JOÃO SEMANA (01/01/2015)
TEXTO: Fernando Pinto

O jornal “João Semana” dá-lhe a conhecer, nesta e na próxima edição [01/01 e 15/01/2015], duas fábricas de Es­moriz que fazem parte da Rede Museológica de Ovar: a Tanoaria JOSAFER (“Farramenta”) e a Tanoaria Ramalho.
Filipe Octávio Fernandes (na foto), um dos filhos de José António Fernandes (atual sócio gerente), mostrou-nos as várias fases do fabri­co de um barril, e revelou ao nosso jornal que a empresa onde é diretor de vendas está a modernizar-se de forma a poder cumprir com as exigências do mercado internacional.

Fomos de Ovar a Esmoriz pela velhinha Estrada Nacional 109. Em vez de virarmos para a Avenida da Praia, perto do edifício da Junta, seguimos mais alguns metros pela Av. 29 de Março, até encontrarmos, do lado esquerdo, o n.º 779.
Filipe Octávio Fernandes, di­retor de vendas da tanoaria JOSA­FER, um dos filhos de José António Fernandes (atual sócio gerente), foi o nosso anfitrião. Começou por explicar o porquê do nome “Farra­menta”, alcunha pela qual também é conhecida esta tanoaria centenária:
“O meu avô Joaquim Dias Ferreira era conhecido em Esmoriz por Farramenta. Antigamente os tanoeiros tinham nas suas praças, no local onde se faziam os barris, uma caixa para guardar a ferramenta depois de um dia de trabalho. O meu avô achava que não valia a pena estar a arrumar a ferramenta toda e deixava-a pousada na praça dele. Então, os colegas, por brinca­deira, escondiam-lhe os utensílios de ta­noeiro. De manhã, o meu avô perguntava aos colegas quem é que lhe tinha rou­bado a farramenta. Ficou a alcunha. Em 1962, por questões comerciais, alterá­mos o nome para JO­SAFER, que é João António Fernandes, o nome do meu pai”.
Tanoaria Farramenta - Esmoriz
Foto: Fernando Pinto
A primeira ta­noaria foi fundada em 1912 numa ga­ragem, por Manuel Dias Ferreira, bisavô de Filipe Fernandes. São várias gerações a trabalhar neste tipo de indústria familiar, que tem passado por altos e baixos. Existiam mais de 40 tanoarias em Esmoriz. Agora são duas: esta e a tanoaria Ramalho, que fica ali bem perto, na Rua Abade Pinheiro. Alguns tanoeiros reformados traba­lham em casa, em garagens, mas são processos muito artesanais.

No estaleiro de madeiras
“Isto que está aqui a ver é ma­deira de castanho português e car­valho francês e americano, acácia ou austrália portuguesa. O castanho compramos nas zonas altas de Por­tugal, na Serra da Estrela, na Guar­da, Gouveia e Manteigas. Vêm para cá em toro e nós serramos a madeira e fazemos estas aduelas. Depois é engradada de forma que esteja a secar e a apanhar vento”, diz Filipe Fernandes, apontando para as torres de madeira.
Segundo alguns entendidos na matéria, esta zona é especial para o tratamento da madeira, porque o mar está muito próximo das ta­noarias e a aragem ajuda a tratá-la, mas tem de estar a secar no estaleiro durante 24 meses.
“Aquela ali, a escura, já está seca, em condições de ser levada ali para dentro da fábrica. Cinquenta por cento do nosso mercado são barris novos, e os outros cinquenta são barris usados”, refere o jovem empresário, enquanto nos dirigimos para o interior da tanoaria. “Faze­mos todos os tipos de barris, mas hoje estamos a fazer charutos. São pipos, mas com um formato diferen­te, de 150 litros.
Tanoaria Farramenta - Esmoriz
Foto: João Elvas
Antigamente, estes charutos eram muito usados nas tascas de Lisboa, porque, como não havia muito espaço, eram colocados ao alto”, esclarece.
Após termos apreciado as vá­rias fases do fabrico daquele pipo, fomos levados para um canto da tanoaria que se encontra em obras.

Produção de pipos em linha
No início do ano, para finais de fevereiro de 2015, esta forma de trabalhar vai acabar nesta tanoaria. Em vez de trabalharem duas pessoas na montagem dos pipos, vão estar cinco, e um mestre tanoeiro vai acompanhar o processo de fabrico.
“Produzimos para a Europa, Ásia e América, e não temos capaci­dade produtiva para as encomendas que temos. A pista já está montada, como pode ver ali, mas ainda não está completa. Os fogachos estão en­terrados no chão, e vamos ter ali uma turbina a criar ar, para que o fogacho não abafe. No processo tradicional, quando se colocava a madeira dentro dos fogachos, demorava 15 minutos a atingir a temperatura ideal, e per­díamos tempo. Vamos trabalhar em linha, porque neste caso estamos a fazer 24 charutos por dia, o que é muito pouco. Temos de fazer, no mí­nimo, 60, esse é o nosso objetivo”, adianta Filipe Fernandes.
Esmoriz é a capital da Tanoaria, mas este setor, para poder vingar, tem de se modernizar e de apostar na formação de jovens tanoeiros.
“Acabámos de alcançar o mer­cado indiano. Vender para a Índia era uma meta que tínhamos”, conta Filipe Fernandes, com os olhos a brilhar, como se, por instantes, um fogacho lhe acendesse a alma.
O Núcleo Museológico da Ta­noaria “Farramenta” está aberto de segunda a sábado, das 8h às 12h e das 13h às 17h. Encerra aos domin­gos e feriados.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de janeiro de 2015)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/12/tanoaria-josafer-farramenta.html

15.12.15

Tanoaria Ramalho - Esmoriz

Jornal JOÃO SEMANA (15/01/2015)
TEXTO: Fernando Pinto


Augusto Manuel Castro de Sá (Tanoaria Ramalho)
Foto: Fernando Pinto
Na edição de 1 de janeiro de 2015 visitámos a Tanoaria JOSAFER, também conhecida por “Farramenta”. Hoje vamos até à Tanoaria Ramalho, outra oficina que também faz parte da Rede Museológica de Ovar, e onde ainda se trabalha à moda antiga.
Augusto Manuel Castro de Sá recebeu o jornal “João Semana” na sua tanoaria, fundada em 1952 pelo seu pai, Manuel Augusto de Sá (Manuel “Ramalho”).
Esta empresa familiar, espe­cializada no fabrico e reparação de barris e cascos para o arma­zenamento e envelhecimento de vinhos e whiskys, faz parte da Rede Museológica de Ovar.

Estamos na cidade de Esmoriz, perto da Junta daquela freguesia do Concelho de Ovar. Seguimos pela Avenida da Praia e entramos na Rua Abade Pinheiro. No n.º 304 esperava-nos Augusto Manuel Castro de Sá [na foto], gestor desta empresa familiar especializada no fabrico e reparação de barris e cascos para o armazenamento e en­velhecimento de vinhos e whiskys.
A Tanoaria Ramalho foi funda­da em 1952 por Manuel Augusto de Sá, pai do nosso anfitrião, que era conhecido na localidade por Manuel Ramalho. “Como o meu pai e os meus tios ficaram sem pai muito cedo, eles eram conhe­cidos pelo apelido da minha avó, que se chamava Rosa Rodrigues Ramalho. O meu pai, quando o meu avô Augusto Manuel Chêdas faleceu, foi substitui-lo no seu lo­cal de trabalho. Como ele só tinha oito anos, a minha avó, por ter ficado sem meios de subsistência, foi pedir ao patrão para que o meu pai fosse trabalhar para lá. Um dia, no fim do trabalho, o patrão pediu-lhe que levasse um gigo de retalhos de Gaia à Foz. O rapaz encheu-se de brio e atirou os retalhos ao chão. Meteu-se no comboio e veio para cá. E por aqui ficou”, conta o em­presário.
Manuel Au­gusto de Sá, como aconteceu com a maioria dos seus colegas tanoeiros, começou por trabalhar primeiro num telheiro. “Depois o irmão casou e deixou o meu pai ocupar junto aos Bom­beiros um espaço para ele ir tra­balhando. Entretanto, começou a comprar isto, onde estamos. Eram terrenos onde se cultivava arroz, arrozais... O meu pai começou aos poucos e poucos. Trabalhou depois com os meus irmãos mais velhos. Um deles já faleceu e o outro ainda trabalha na tanoaria. Vieram para aqui desde meninos. Queriam acabar com isto, por não ser rentá­vel, e eu, apesar de tra­balhar noutro ramo, em contabilidade de custos numa empresa, aceitei o desafio. Pedi uma licença sem vencimento e comecei a entrar em contacto com os ingleses. E nunca mais larguei isto... Como pode ver, precisamos de fazer algumas obras. Temos de dar um jeito ao chão da tanoaria, pintar as paredes, colocar umas janelas, reparar o telhado, para que isto fique mais airoso”, diz Augusto Manuel de Sá, apontando para a cobertura do velho edifício.

Museu da Tanoaria
“Com a chegada do novo Presidente da Câmara Muni­cipal de Ovar [Salvador Ma­lheiro], parece que surgiu a ideia de fazerem um museu da tanoaria. Se quiserem avançar com a criação de um museu, os autarcas devem entrar em contacto com as duas tanoarias que fazem parte da Rede Mu­seológica de Ovar, de forma a ouvirem a nossa opinião sobre o assunto”, refere Augusto de Sá, acrescentando: “Eu acho que deviam criar antes um circuito turístico em que todas as insti­tuições que fazem parte da Rede pudessem entrar. Museus vivos já são as tanoarias... Podíamos era construir uma loja para vendermos os nossos produtos, o artesanato”.

Tanoaria Ramalho, de Esmoriz - Foto: Fernando Pinto

No interior da Tanoaria res­pira-se uma atmosfera de outros tempos. Ouvem-se marteladas na praça, na pedra redonda onde o barris e os pipos vão ganhando forma [na foto].
“Neste caso, estamos a fazer barris de madeira recuperada de carvalho, que se destina a levar vi­nho de novo. Vão para a Coreia do Sul”, diz o Sr. Augusto, explicando que esta encomenda surgiu através de uma parceria com uma empresa sueca para a qual estão a fazer va­sos de cortiça. Também fabricam celhas e outras peças de decoração.

Tanoaria Ramalho - Foto: Fernando Pinto
A arte do mestre tanoeiro
Esta arte, na opinião do res­ponsável pela Tanoaria Ramalho, requer sacrifício e persistência: “Aprender, todos aprendem, o mais difícil é continuar nesta profissão, porque as coisas nem sempre cor­rem bem”. Segundo aquele gestor, os produtores de vinho nacionais têm um papel fundamental na divulgação do excelente trabalho realizado pelos nossos mestres tanoeiros. “Se pedir­mos a um francês para ele fazer um determinado barril, ele não o faz, porque os franceses tra­balham em série, como numa fábrica moderna. Os nossos tanoeiros começam e acabam um barril. Mas hoje ninguém enriquece com este negócio, porque há muitas alternativas ao barril, como as cubas de inox”, esclarece.
O Núcleo Museológico da Tanoaria Ramalho pode ser visitado de segunda a quinta­-feira, das 8h às 12h e das 13h às 18h. À sexta-feira apenas abre da parte da manhã, encerrando aos sábados, domingos e feriados.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de janeiro de 2015)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/12/tanoaria-ramalho-esmoriz.html