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20.7.13

Para a história do Cine-Teatro de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/1983)
TEXTO: António Dias Fernandes

Foi na década de 40 que se iniciou a construção do novo cinema de Ovar. À volta dela surgiu uma história que, pelas suas circunstâncias, podemos considerar lamentável.
Era então pároco de Ovar o Padre Boaventura Valente de Matos. Ao iniciarem-se as obras para o novo cinema, o Sr. Augusto Pinho dirigiu-se ao Pároco, informando-o da obra que se ia iniciar. Seria uma construção relativamente baixa, que não “assombraria” a Igreja. Perante isto, o referido Pároco concordou com o novo empreendimento.
Todavia, em fins de 1943 a obra tinha tomado proporções que contrariavam ostensivamente a promessa feita ao Padre Boaventura.
O Cine-Teatro de Ovar quando da sua inauguração, "contrariando ostensivamente
a promessa feita ao Pároco Boaventura"

A partir daqui, formou-se uma comissão chefiada por Francisco Belo, que, tentando zelar pelos interesses da Paróquia, apresentou ao Bispo do Porto, D. Agostinho de Jesus e Sousa, uma exposição bastante sintética, em que era posto o problema, e em que se pediam providências.
A consequência imediata foi a nomeação do Padre Boaventura, em Fevereiro de 1944, para a freguesia de Maceda, decisão esta que ele não acatou, preferindo ser colocado como professor no Liceu Alexandre Herculano, no Porto.
Por deliberação de D. Agostinho, foi então nomeado para a freguesia de Ovar um sacerdote de reconhecida experiência, o Padre Crispim Gomes Leite, que fora Pároco e Presidente da Câmara de Gondomar.
A sua primeira preocupação foi mostrar a inconveniência da construção do Cinema naquele local, conseguindo embargar as obras.
No entanto, a Sociedade empenhada no empreendimento também não cruzou os braços, procurando solucionar o problema a seu contento.
Foram contactados o Bispo de Vila Real, D. António Valente da Fonseca, e o Cónego Dr. Manuel Valente, naturais de Válega. Querendo ouvir a opinião de D. Agostinho, fazem com ele, de imediato, uma visita ao local, concluindo ser já tarde demais para travar a obra. Ela tinha já atingido tais dimensões que, no seu entender, era inaceitável qualquer ideia de retrocesso. E até porque, concluíam, “a Igreja não pode impedir o progresso”.

O Cine-teatro de Ovar em 1960

Entretanto, a construção do Cinema retomara o seu ritmo, sendo feita a sua inauguração a 30 de Dezembro de 1944.
Perante tal desfecho, o Padre Crispim, que viera para Ovar, a pedido do Prelado, para tentar evitar a construção, passou a interrogar-se: Qual o meu papel no meio disto tudo? E resolutamente acabou por pedir a dispensa do seu cargo, pois jamais se sentiria bem com a sua consciência, ele que tanto se esforçou pela defesa da Igreja e pelo progresso de Ovar.
Nomeado Pároco da Sé do Porto, regressou, anos depois, a Gondomar, terra da sua predileção, a que se devotou de corpo e alma, e de onde partiria ao reencontro com Deus.
O tempo passou. Mas ficou uma história que eu entendi ser o meu dever contar. Até porque é uma história amarga, que nunca mais esquece a quem, amando a paróquia de Ovar, a viveu muito por dentro.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de junho de 1983)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/07/para-historia-do-cine-teatro-de-ovar.html

14.4.13

Casa-Museu de Arte Sacra da Ordem Franciscana Secular de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/04/2013)
TEXTO: Fernando Manuel Oliveira Pinto

A Casa-Museu da Ordem Terceira de S. Francisco foi inaugurada há 40 anos, em 17 de fevereiro de 1973, pelo Bispo-Auxiliar do Porto D. Domingos de Pinho Brandão. O seu fun­dador, João Fernandes Arada e Costa, no livro História Religiosa de Ovar (Algumas achegas), lembra o velho adágio: “não é bom vareiro quem não é Terceiro”. Esta Instituição, criada em 1660, para além de albergar um valioso espólio, tem sido a principal dinamizadora das nossas Procissões Quaresmais. No trabalho que estamos a realizar
sobre a Rede Museológica de Ovar já demos a conhecer a Igreja Matriz e as Capelas dos Passos, e já fomos até ao Pólo Central da RMO em Arada. Vamos agora entrar no único museu ovarense dedicado exclu­sivamente à mostra de objetos de cariz religioso.

A Casa da Ordem

Brasão que se encontra na fachada
da Casa-Museu de Arte Sacra da Ordem
Franciscana Secular de Ovar

FOTO: Fernando Pinto
Encontramo-nos junto a uma das entradas do renovado Mercado Municipal. À nossa frente temos a Casa-Museu de Arte Sacra da Ordem Franciscana Secular. Não entramos ainda. Permanecemos no exterior do edifício, porque os azulejos do século XVIII e o brasão com as insígnias da Ordem que embelezam a fachada do n.º 27 da Rua Gomes Freire assim o exigem (ver fotos em cima).
A Casa da Ordem, segundo es­creve o irmão franciscano Arada e Costa na obra mencionada no introito deste nosso texto, foi adquirida ao alfaiate Pedro de Campos, de Ovar, por 26 500$000 reis: “Em 1776 foi vendida na antiga rua da Graça hoje ruas Elias Garcia e Gomes Freire uma casa pelos filhos de Maria Vitória Pereira, Maria Clara e marido, Francisco Rodrigues, do Sobral, e Maria da Conceição (...). Os Terceiros aspiravam possuir esta casa pela sua boa localização, entre a Matriz e Capela de Nossa Senhora da Graça”, e o alfaiate acabou por cedê-la à Ordem, sendo lavrada es­critura a 24 de maio de 1780.
Ao longo dos anos, a Casa-Museu sofreu várias remodelações. Em 1942 a sua frontaria foi alterada e acrescen­tado um primeiro andar. Foi neste piso que entabulámos uma conversa com Porfírio Ferreira, atual Ministro da Ordem, no dia em que se concluía a montagem da exposição “Devoções & Legados – um património com futuro”.
“Esta é uma instituição religiosa assente nos valores de S. Francisco de Assis”, lembrou o Ministro da Ordem, enquanto trabalhava, auxiliado por um dos voluntários que costumam ajudar no que é preciso. “Até o novo Papa nos veio dar uma grande alegria... Foi uma grande emoção para mim, para os franciscanos espalhados pelo mundo, quando soubemos da notícia que o Papa tinha escolhido o nome de Francisco, um nome que tem tudo a ver com esta Casa. Para nós, é mais uma responsabilidade acrescida, para continuarmos a praticar o bem e a olharmos pelos mais pobres”, revelou, enquanto subíamos mais um lanço de escadas.
“Aqui em cima ficam as reservas da Casa-Museu”, disse Porfírio Fer­reira, apontando para algumas das esculturas que enchem as prateleiras que servem para acondicionar aquilo que não está exposto no outro piso, mas que pode ser visitado. “As alfaias e tudo o que pertence aos andores das procissões estão aqui guardados nesta divisão”, referiu. Antes de o visitante subir ao primeiro andar, onde, desde 2010, são feitas as exposições temporárias, e de ter tido a oportunidade de dar uma olhadela nas reservas, começa por descobrir no hall de entrada as insígnias da Ordem e uma imagem de S. Francisco. Entrando no salão que se encontra no lado direito, pode apreciar as belas imagens da Procis­são dos Terceiros que se encontram nos respetivos nichos. Este ano, devido ao mau tempo, foi a única das procissões quaresmais que saiu à rua: “Como somos nós que organizamos também as outras pro­cissões, preparamos tudo na mesma, ficando os andores em exposição na Igreja e na Capela do Calvário”, adiantou Porfírio Ferreira.


Pormenor da fachada da Casa da Ordem Terceira de OvarFOTO: Fernando Pinto

No 3.ª domingo de cada mês, os Irmãos Franciscanos reúnem para orar e refletir. Estas reuniões mensais, segundo o Ministro da Ordem, “eram feitas antigamente nos pisos supe­riores, mas como algumas pessoas têm dificuldade em subir os degraus, atualmente é ali que as reuniões se fazem”. O Conselho da Ordem tam­bém reúne naquele espaço sempre que é preciso resolver problemas, como a falta de dinheiro, saídas para fora de Ovar, etc. No rés-do-chão existe ainda um balcão onde o visitante pode adquirir pequenas lembranças, como livros, terços, medalhas, etc. O preço de entrada na Casa-Museu é simbólico. “É só para ajudar a pa­gar a luz. Se vierem em grupo, ainda é mais barato”, explicou Porfírio Ferreira.
Sendo um edifício muito an­tigo, quando chove muito caem alguns pingos cá dentro. Mas já foi pior, segundo nos rela­tou o atual responsável por aquela casa: “Precisávamos, urgentemente, de, pelo menos, um desumidificador em cada piso, para que a humidade não estrague este nosso valioso património. Se alguma empresa ou particular quiser ajudar este Museu, essa dádiva será recebida de braços abertos, porque, como sabe, esta é uma Instituição sem fins lucrativos”.

“O grande objetivo da Casa-Museu é legar este património às gerações vindouras”

Jesus Menino
(uma das peças expostas)

FOTO: M. Pires Bastos
Desde 2009 que Sofia Vechina colabora voluntariamente com a Rede Museológica de Ovar, como coorde­nadora técnico-científica de várias exposições ligadas à Arte Sacra.
Ao jornal “João Semana”, Sofia Vechina frisou que “o grande ob­jetivo da Casa-Museu é legar este património às gerações vindouras”, e que ultimamente estão a organizar programas educativos de forma a apostar fortemente nas escolas: Queremos chamar os jovens e mostrar-lhes que estas peças que aqui estão expostas não falam só de religião, mas também das pessoas que as criaram, das técnicas utilizadas. E para isso é preciso usarmos uma linguagem diferente, que atraia a atenção dos mais novos”.
Segundo a jovem coordenadora, a montagem destas exposições pres­supõe sempre investigação científica: “É preciso que haja um trabalho de conservação do espólio, que é feito por alguém da área de conservação e res­tauro, e, por outro lado, alguém ligado à História de Arte, que possa mexer na documentação para descobrir as potencialidades de cada objeto exposto. Em qualquer exposição temática existe sempre um fio condu­tor que devemos seguir com atenção”.
A vantagem deste Mu­seu, na opinião de Sofia Vechina, é não trabalhar apenas com o espólio que esta casa guarda, mas tam­bém com as peças de arte que se encontram dispersas pela Vigararia de Ovar: “A última exposição que fizemos foi sobre S. Francisco. Veio uma imagem da Paróquia de Válega, e já tivemos exposições em que vieram peças de outras freguesias do concelho”, concluiu.

O testemunho do Pároco

Não quisemos terminar este trabalho sem ouvirmos o Padre Manuel Pires Bastos: “Os paroquianos de Ovar muito devem à Ordem Ter­ceira pela sua colaboração com a Paróquia ao longo dos últimos séculos”, disse o Pároco, parabenizando os irmãos franciscanos pelos 40 anos da Casa-Museu, e, porque, apesar de os tempos serem outros, “se terem es­forçado em remodelar as in­stalações de forma a atrair e a cativar os visitantes”.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de abril de 2013)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/04/casa-museu-de-arte-sacra-da-ordem.html

5.12.12

Os barracões-hangar do Carregal

Jornal JOÃO SEMANA (15/05/2011)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Não vou aqui fazer a narração do Carregal no início do séc. XX, uma vez que já me referi a esta zona vareira no “João Semana” de 1 de Janeiro de 2005.
Este novo trabalho tem como objectivo recordar aos nossos conterrâneos que visitam aquele local, especialmente os mais jovens, a história dos dois barracões erguidos, há mais de 70 anos, junto de uma enseada existente no começo do cais, a sul daquele lugar. (Na minha juventude, na década de 40, já se encontravam instalados naquele sítio).
Barracões-hangar do Carregal
Com traseiras construídas em terra firme e as frentes voltadas para a Ria, assentes em estacas sobre as águas, como palafitas, os barracões-hangar do Carregal são autênticas garagens lacustres para recolha de barcos, que permanecem dentro delas, na água, aptos para navegar.
Antes da inauguração da estrada marginal Ovar – S. Jacinto, nos anos 50, aqueles barracões surgiam-nos como duas sentinelas num sítio ermo, onde apenas se ouvia o sussurrar das águas e o coaxar das rãs, que saltitavam para os ribeiros vindos do Tremedal, no Carregal do Norte, e a sua história está intimamente ligada à dos pioneiros da Ria de Ovar, daqueles que tinham os seus barcos de recreio movidos com motor ou vela – prevalecendo, nestes últimos, a classe “Andorinha” –, construídos alguns deles pelos próprios donos, para se deleitarem a navegar nos fins-de-semana com as famílias ou amigos, como acontecia com o Zé Gorinha, que fabricou o seu barco “Rosita”.
Pormenor da entrada dos barracões-hangar do Carregal
Os terrenos onde estes barracões se encontram erguidos pertenciam à Capitania do Porto de Aveiro, a quem os seus utilizadores pagavam uma taxa de ocupação; mas as casas-hangar eram propriedade dos ocupantes que as construíram. (Ainda hoje, o Ministério do Ambiente e Ordenamento do Território e a Administração da Região Hidrográfica do Centro continuam a receber uma taxa pela sua utilização.)
Nas décadas de 40, 50 e 60 do séc. XX, o barracão do lado nascente era ocupado pelo Camossa, com o “Eugénia”, uma lancha a motor, e por Alfredo Alves (Arroz), com o barco “Estrela” (que acabou destruído por um incêndio), e, posteriormente, com o “Vouga”. Depois de passar por obras de ampliação, começou a receber mais duas embarca-ções: uma de Adolf Beck, primeiro administrador da Nestlé em Avanca, e residente em Ovar, e outra do Meireles (?) – mais tarde do Neca Valente –, ficando ainda espaço para outras serventias.
No barracão a poente abrigavam os seus barcos, naquela época, Lino Brandão – dono das instalações e sócio da Fábrica de Conservas “A Varina”, em Matosinhos e Ovar – e o alfaiate Manuel Paulino.

Em 1951, junto à lancha do Camossa (?) e do seu barracão-hangar,
vê-se, à direita, Manuel Paulino, e, à esquerda, de pé, um seu amigo 
do Brasil. Ao fundo, o denso pinheiral existente nessa época
A lancha do Lino, construída em madeira de teca, com a configuração de uma tainha, por vontade expressa ao construtor, Manuel Bastos, de Pardilhó, e com a denominação de “A Varina” – igual à da empresa –, possuía um motor ao meio, que funcionava a gasolina ou petróleo.
Embora vivesse em Matosinhos, Lino Brandão nunca esqueceu Ovar, onde tinha muitos amigos. Enamorado pela Ria, de tal maneira se apaixonou por ela que para ali se deslocava quase todas as sextas-feiras, dormindo no barracão até que o sol despontasse no Sábado, para seguir viagem até S. Jacinto…
A embarcação de Manuel Paulino – de nome “Isilda”, em homenagem a sua irmã – era igualmente uma lancha com motor (marca “Penta”), accionado com gasolina ou petróleo.

Anos 50. Passeio na ria das empregadas da alfaiataria e familiares de Manuel Paulino,
 na sua lancha “Isilda”
. Da esquerda para a direita: Eduarda, Lurdes, Maria do Carmo, Domingos Paulino, Manuel Paulino, Regina Formigal, Ester e Berta

Os barracões-hangar do Carregal são construções muito típicas e que, segundo alguns frequentadores da Ria com quem falei, eram únicos nas margens da Ria até metade do séc. XX, só mais tarde começando a surgir outros do mesmo género. O do Lino Brandão, onde entrei várias vezes no início dos anos 60, tinha no seu interior, lateralmente, dois passadiços que, através de uma escada, davam acesso a um aposento tipo águas-furtadas, que servia para pernoitar. A sua iluminação era feita por intermédio de uma hélice de avião comprada num sucateiro de S. Jacinto, accionada por um dínamo e acondicionada sobre o telhado, fixa numa estrutura em ferro que ainda hoje se pode observar, embora muito deteriorada pelo decorrer dos anos.
No interior, havia uma bica por onde saía água muito boa e fresca, extraída de um furo artesiano mandado abrir pelo proprietário, com a qual os visitantes se deliciavam, bebendo-a por uma caneca especial que o Sr. Lino guardava, com muita estimação, num velho baú, com outras do mesmo conjunto.
Nos barracões-hangar do Carregal preparavam-se boas caldeiradas de peixe e outras iguarias, para além daquelas que eram cozinhadas dentro do barco, muitas vezes em andamento.
Alguns dos barcos eram recolhidos na enseada junto dos barracões, e a outros ancoravam-nos na Cirbela da Azurreira. Só mais tarde, depois da construção do porto de recreio do Carregal, inaugurado em 31 de Dezembro de 1974, começaram a ser recolhidos aqui.
Muitos dos pioneiros da Ria eram companheiros de viagem diária para a cidade do Porto, onde tinham os seus empregos. Formavam um grupo unido, a que chamavam de “ida e volta”.

Anos 50. O grupo de “ida e volta” perto dos barracões, no Carregal,
antes de partirem para um passeio na Ria
A grande festa destes amigos da Ria era a viagem para Águeda, geralmente feita de forma colectiva, com regresso, quase sempre, de 1 a 3 de Maio, datas preferidas quando coincidiam com fins-de-semana ou feriados.
No primeiro dia, tomando a direcção do Bico do Muranzel, entravam no rio Vouga e seguiam pelo Rio do Príncipe, navegando até à Ponte de Cacia, junto da qual atracavam os barcos para neles pernoitarem.
No segundo, abalavam para São João de Loure através do rio Águeda, prosseguiam até à Ponte da Rata, onde preparavam o almoço, continuando a viagem até Águeda, onde pernoitavam nas suas embarcações, regressando a Ovar no dia seguinte, seguindo o itinerário inverso. (Havia aficionados que prolongavam a estadia, e outros que faziam o mesmo percurso demorando mais tempo.)
Hoje, a Ria continua a ser um atractivo para muita gente da nossa terra, especialmente para a mais jovem, mas não tem o encanto que exibia nas primeiras décadas do século passado. Faltam os barcos moliceiros, e até o calado e a limpidez das suas águas. E que saudade do odor fresco do moliço e dos terrenos cultivados ao longo das margens, que nos ofereciam uma paisagem bucólica e de ar sadio!…

Barracões-hangar do Carregal
[FOTO: jornalista Fernando Pinto

Há muito que não visitava aqueles sítios. E foi com enorme nostalgia que fotografei os velhos barracões do Carregal, agora degradados, principalmente o do lado poente, que pertenceu a Lino Brandão. (O de Nascente, outrora também do Camossa, porque tem passado por algumas reparações, continua a ser utilizado para recolha de barcos…)
As águas da Ria, escuras, cor de azeite, e o matagal envolvente, onde abundam atoleiros resultantes de pequenos riachos que alimentam aquela mal amada toalha líquida, dão ao local uma paisagem triste, diferente daquela que conheci nos anos 40/50 do séc. XX. O tempo tudo destrói. Só não destrói a saudade.

P.S. Agradeço a José Pinto, José Eduardo, João Nunes Branco e Álvaro Malaquias a cedência de fotos e informações úteis para a realização deste trabalho.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE MAIO DE 2011)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/12/os-barracoes-hangar-do-carregal.html

14.10.11

Lembranças do velho Teatro Ovarense

Jornal JOÃO SEMANA (01/11/2004)
TEXTO: Mário Miranda

Foi inaugurado em 1875, a partir de uma Sociedade constituída por acções e formada por pessoas ligadas a grupos locais de Teatro. Em 1899, num período de crise, uma grande parte dos accionistas ofereceu as suas acções aos Bombeiros, que, algum tempo depois, se assumiram como proprietários do edifício, acrescentando-o com a sala sul. A ala de espectáculos era, segundo se afirmava, uma réplica do Teatro Baquet, do Porto, vítima do fogo em 1888.

O velho Teatro Ovarense
Fiz parte de uma Comissão, o chamado grupo de Reflexão Pró-Ovar que, no intuito de não deixar morrer o velho Teatro, alertou a Câmara e a população vareira para a sua reconstrução. Isto no tempo em que as paredes ainda estavam de pé! Essa comissão era constituída por Cascais de Pinho, Dr.ª Deolinda Palavra, Mário Carapinha, José Maria da Graça, Armindo Pereira e Mário Miranda.
Apesar de se dar, hoje, muita importância às coisas muito antigas, ao nosso velho Cine-Teatro deixaram-no cair em ruínas!
Estou a lembrar-me dele, no tempos em que pedia à minha mãe cinco tostões para um bilhete da geral na matiné do Cinema, e ela me dizia que era muito caro! Devia ter uns 9 anos. (Já lá vão 80!)
Era uma sala pequena, muito aconchegada, com boa acústica, uma plateia muito jeitosa, uma geral composta por quatro bancadas extensas, ao comprido com a plateia e separada desta por um varandim em madeira, e pintada com arabescos. Os camarotes ficavam por cima da geral, e a entrada fazia-se pelo extremo norte.
O palco tinha um tamanho razoável em relação à sala, que era pequena.
Tudo isto eu conheci desde criança. E não posso esquecer-me de muitos filmes que ali vi, com dois artistas cómicos, Pat e Patachon, um alto e outro baixo, que eram impagáveis, e que a miudagem já não dispensava. Um outro artista admirado era o nosso conhecido Charlot, que aparecia em muitas curtas-metragens. Quando estes filmes cómicos eram exibidos, a geral ficava superlotada.
Um pouco posteriormente, apreciei ali um outro actor cómico, com muita graça, Harold Loyd. Parece que ainda estou a vê-lo, agarrado aos ponteiros de um relógio, num edifício muito alto, em Nova Iorque. (Nesse tempo, ainda não havia muitos edifícios em altura, os chamados arranha-céus). Tudo isto de tal modo me ficou gravado na memória, que nunca mais o esquecerei.
Mais tarde, vi ali um outro filme, “Barqueiros do Volga”, acompanhado de uma bonita canção. Quando o filme aqui chegou, já havia pessoas que conheciam bem a música, tal a sua divulgação através do país. O projectista e arrendatário do cinema, o “Sr. Soares Pais”, como nós o conhecíamos, colocou o disco na grafonola e, porque a sala era pequena e com boa acústica, a canção ouvia-se perfeitamente em todo o lado. Curiosamente, o disco entrou em funcionamento precisamente quando os barqueiros puxavam, desde a margem, com cordas, a embarcação, havendo perfeita sintonia entre os barqueiros e a assistência, todos eles a cantarolarem em uníssono.
Foi um sucesso na época, quando já se falava no cinema sonoro, sobretudo através da canção “Teodoro Não Vás ao Sonoro”, cantada numa Revista de Lisboa.

Largo dos Combatentes, com o Teatro Ovarense no lado direito
Antes de começar cada sessão de cinema, Soares Pais vinha cá fora ver se chegavam os “habituais” retardatários. Só que a miudagem não compreendia o atraso, e já então manifestava o seu protesto, fazendo um barulho ensurdecedor.
A propósito: creio ter sido no princípio da minha adolescência que vi, em Espinho, no Cinema do Casino Peninsular, como então se chamava, o primeiro filme sonoro com estreia mundial, chamado “Cantor Louco”, com All Johnson.
Uma particularidade do nosso velho Teatro era receber grandes companhias teatrais vindas de Lisboa, a caminho do Porto, e que gostavam de dar aqui um espectáculo, como se fosse um ensaio geral, para aquilatarem, pela reacção do público ovarense, o sucesso que poderiam ter na Cidade Invicta.
Cheguei a ver uma dessas companhias, vindas no Sud-Expresso, um comboio rápido, com um bom salão, que excepcionalmente parou em Ovar. Tratava-se da Companhia, muito afamada, de Chaby Pinheiro, grande actor e pessoa de estatura avantajada, que vi embarcar na estação dos caminhos-de-ferro em direcção ao Norte.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Novembro de 2004)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 141) 

30.1.10

Hotel Mar e Sol do Furadouro

Jornal JOÃO SEMANA (15/11/2009)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Seguindo, ao cimo da Rua Jornal “O Comércio do Porto” (paralela à Avenida Central), na direcção do Norte (onde actualmente se situa a Rua dos Patrícios de Lisboa), havia algumas casas de pedra e cal e vários palheiros, a que se seguia, na mesma direcção, e até à costa, para lá da floresta, um enorme emaranhado de dunas.
O Hotel Mar e Sol nasceu a norte do Furadouro, sobre as dunas, frente ao mar



Foi num sítio destes, rodeado de dunas e virado para o mar e para a futura Avenida do Infante D. Henrique (a Avenida marginal, construída posteriormente, tal como a nova Rua Gago Coutinho, mais tarde a passar-lhe ao lado), que um conjunto de vareiros amigos da sua terra resolveu edificar o Hotel Mar e Sol.
O “João Semana” de 28/12/1944 publicou a escritura da sociedade construtora, indicando a designação social e os nomes dos sócios, documento que passo a transcrever:
“Sociedade de Melhoramentos da Praia do Furadouro”
“Por escritura desta data lavrada pelo notário abaixo assinado, foi constituída uma sociedade por quotas de responsabilidade limitada, entre Álvaro Ferreira Malaquias, António Cândido Soares de Almeida, Doutor Augusto Júlio Arala Chaves, Crispim José da Rocha, Colares Pinto Irmãos, Fernando Hugo de Araújo Sobreira, Joaquim Correia Dias, Manuel Gomes da Silva Bonifácio, Manuel Rodrigues de Almeida & Irmão, Manuel Rodrigues Pepolim, Manuel Soares Pinto e D. Maria Eugénia Gomes Rodrigues Leite Arala Chaves, também conhecida por Maria Eugénia Leite Arala Chaves, e sob a denominação supra.
Ovar, 28 de Novembro de 1944
O Notário: António Gonçalves Santiago”
Nas várias investigações que fiz, não consegui descobrir a data do início da construção do hotel. Mas recordo-me muito bem de que andava ainda na Escola Primária, não devendo errar muito se escrever que começaram em 1944, logo após a conclusão da escritura, cabendo ao nosso conterrâneo Eng. Arala Chaves fiscalizar e acompanhar a obra durante os trabalhos de edificação.
O “João Semana” de 28/3/1946 informava:
“A nossa praia vai acordando do marasmo de praia esquecida e desprezada, felizmente. O seu bairro piscatório já tem algumas construções, novas ruas se vão preparando, e um grande hotel lá anda em construção e em estado de andamento tal, que é de crer seja inaugurado ainda este ano”.

O Mar e Sol, após a abertura da rua marginal (actual Avenida Infante D. Henrique).
Nos anos 75-80, antes da sua demolição, o Hotel deu guarida a famílias regressadas de África  
Na sua “Monografia de Ovar”, o Dr. Alberto Lamy afirma que o Hotel Mar e Sol foi inaugurado em Junho de 1946.
Num folheto publicitário desta unidade hoteleira arquivado na Biblioteca Municipal de Ovar podemos ler:
“Os seus aposentos são, sem excepção, dotados de água corrente e todos os requisitos higiénicos, possuindo também ‘apartments’.
O Hotel Mar e Sol, um edifício com 50 quartos e uma arquitectura no estilo “Português Suave” foi, durante muitos anos, a melhor unidade hoteleira doconcelho e o ponto de encontro e recreio dos banhistas mais abastados.

Foi, também, o palco de grandes bailes, cujas receitas reverteram, parcialmente, a favor de actividades caritativas, nomeadamente a chamada ‘Sopa dos Pequeninos Pobres do Furadouro’ que teve início a 18/8/1953”.Até meados dos anos 60, era naquele hotel que se faziam os grandes banquetes e se celebravam as festas de casamento e outros eventos das famílias ovarenses com mais recursos.
Entretanto, porque nas margens da Ria se iam desenvolvendo novas atracções turísticas captadoras de muitos frequentadores da nossa Praia, o Hotel Mar e Sol passou por diversas vicissitudes, estando em vias de encerrar em 1953 e 1959.
Com o propósito de ser reestruturada, a empresa passou, em 1966, a ser propriedade da Sociedade Hoteleira do Furadouro, Lda., criada por escritura de 2 de Agosto desse ano.
Não conseguindo resolver os problemas existentes num edifício cada vez mais degradado, a mesma sociedade resolveu vendê-lo, em 1981, a Fernando Pereira Marrafa, comerciante de antenas de TV e artigos para campismo, que alugou a cave do prédio para ali funcionar uma discoteca (“A Pildra”).Em 1985 já o hotel tinha sido derribado.Hoje, quem passar pelo local, encontra uma obra em vias de acabamento, incaracterística, inacabada, desalinhada, deixando-nos em situação de expectativa em relação ao que há anos para ali fora projectado.
Oxalá se conclua brevemente e surja ali um edifício que dignifique a nossa praia.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Novembro de 2009)

6.4.09

O Cine-Teatro que (não) temos

Jornal JOÃO SEMANA (01/12/2002)
TEXTO: Fernando Pinto

Parece mesmo um filme: a cidade de Ovar continua a não ter uma sala de cinema!!! O velho Cine-Teatro, encerrado “há séculos”, está a cair aos poucos. Se não fossem o Cantar os Reis, o Festival da Canção, o Ovarvídeo e o Festovar a ressuscitá-lo nos últimos anos, os vareiros nunca lá punham os olhos. (A companhia de teatro CONTACTO, felizmente, já arranjou palco, já não precisa dele para realizar mais uma edição do Festival de Teatro de Ovar.)



Como escreveu o encenador Manuel Ramos Costa, no boletim n.º 6 da CONTACTO, “a bomba rebentou em Julho durante a realização do Festival da Canção de Ovar, que foi (caso se mantenham os resultados das vistorias e a trajectória dos interesses imobiliários pouco importa!) o último dos incontáveis eventos artísticos e culturais que nele se fizeram ao longo de décadas. Paciência, quem viu, como eu vi, demolirem o velho Teatro Ovarense, já nada lhe dói que possa ver delapidada toda a Ovar antiga. Por mim até podiam destruir a nossa Igreja, a nossa Câmara, os Passos todos, o chafariz e as fontes para construírem tudo de novo em betão, conforme os arbítrios da modernidade e todo esse mau gosto dos nossos arquitectos. Não me bulia o coração. Neste capítulo, Ovar tem o que merece e ponto final”.


Ouvem-se algumas vozes críticas, como a deste homem do teatro, mas tudo continua na mesma nesta terrinha banhada pelo mar, mas sem sal.

30/12/1944: a inauguração
Folheando o arquivo deste jornal, encontrei dois textos muito interessantes relacionados com este edifício. No “João Semana” de 4 de Janeiro de 1945, li que “foi inaugurado o Cine-Teatro, propriedade da Empresa de Melhoramentos de Ovar, Ld.ª. A inauguração deu-se no dia 30 de Dezembro, sendo precedida de uma sessão de abertura realizada às 4 horas da tarde. (…) Fazemos votos para que a nova casa de espectáculos corresponda às necessidades de diversão de uma terra como a nossa, que quer seguir na esteira das suas tradições de trabalho, honestidade e fé. Do bom critério da Empresa é de esperar que haja selecção no elenco dos espectáculos, pondo de lado tudo quanto seja condenável sob o ponto de vista moral e educativo. Parece-nos que isso mesmo é aconselhável no interesse do bom nome e vantagens económicas do Cine-Teatro”.

Quase o argumento de um filme…
No “João Semana” de 15 de Junho de 1983, António Dias, funcionário da Igreja Matriz contava: “Foi na década de 40 que se iniciou a construção do novo cinema de Ovar. À volta dela surgiu uma história que, pelas suas circunstâncias, podemos considerar lamentável. Era então pároco de Ovar o P.e Boaventura Valente de Matos. Ao iniciarem-se as obras para o novo cinema, o Sr. Augusto Pinho dirigiu-se ao pároco, informando-o da obra que se ia iniciar. Seria uma construção relativamente baixa, que não ‘ensombraria’ a Igreja. Perante isto, o referido pároco concordou com o novo empreendimento. Todavia, em fins de 1943 a obra tinha tomado proporções que contrariavam ostensivamente a promessa feita ao P.e Boaventura.

A partir daqui, formou-se uma comissão chefiada por Francisco Belo, que, tentando zelar pelos interesses da Paróquia, apresentou ao Bispo do Porto, D. Agostinho de Jesus e Sousa, uma exposição bastante sintética, em que era posto o problema, e em que se pediam providências.
A consequência imediata foi a nomeação do P.e Boaventura, em Fevereiro de 1944, para a freguesia de Maceda, decisão desta que ele não acatou, preferindo ser colocado como professor no Liceu Alexandre Herculano, no Porto. Por deliberação de D. Agostinho, foi então nomeado para a freguesia de Ovar um sacerdote de reconhecida experiência, o P.e Crispim Gomes Leite, que fora Pároco e Presidente da Câmara de Gondomar.
A sua primeira preocupação foi mostrar a inconveniência da construção do cinema naquele local, conseguindo embargar as obras. No entanto, A Sociedade empenhada no empreendimento também não cruzou os braços, procurando solucionar o problema a seu contento. Foram contactados o Bispo de Vila Real, D. António Valente da Fonseca, e o Cónego Dr. Manuel Valente, naturais de Válega. Querendo ouvir a opinião de D. Agostinho, fazem com ele, de imediato, uma visita ao local, concluindo ser já tarde demais para travar a obra. Ela tinha já atingido tais dimensões que, no seu entender, era inaceitável qualquer ideia de retrocesso. E até porque, concluíam, ‘a Igreja não pode impedir o progresso’. Entretanto, a contrução do Cinema retomara o seu ritmo, sendo feita a sua inauguração em 30 de Dezembro de 1944. Perante tal desfecho, o P.e Crispim, que viera para Ovar, a pedido do Prelado, para tentar evitar a construção, passou a interrogar-se: – Qual o meu papel no meio de tudo isto? E, resolutamente, acabou por pedir a dispensa do seu cargo, pois jamais se sentiria bem com a sua consciência, ele que tanto se esforçou pela defesa da Igreja e pelo progresso de Ovar.
Nomeado Pároco da Sé do Porto, regressou, anos depois, a Gondomar, terra da sua predilecção, a que se devotou de corpo e alma, e donde partiria ao encontro de Deus. O tempo passou. Mas ficou uma história que eu entendi ser meu dever contar. Até porque é uma história amarga, que nunca mais esquece a quem, amando a Paróquia, a viveu muito por dentro.”
Parece o argumento de um filme este relato de António Dias. Agora pergunto: para que serve, hoje, aquele monumental edifício? Para fazer sombra à Igreja?


Um cinema à moda antiga
Os dias correm e o triste destino do Cine-teatro parece já estar tratado há muito.
Paulo Rocha, realizador do filme “Mudar de Vida” – rodado na Praia do Furadouro, na década de 60 – numa conversa com Pedro Costa, que veio a lume no livro “Utopia do Real”, confessou:
“(…) Às vezes, o filme volta à zona onde foi filmado, no Furadouro. Há lá um daqueles cinemas à moda antiga e ainda vêm os descendentes, os netos das pessoas que estão no filme, é uma berraria. Passam o tempo a dizer: ‘Olha a minha avó’. Não se ouve uma palavra do diálogo e cantam as canções em coro com os actores do filme”.



Paulo Rocha, figura central do Cinema Novo português, já deve sentir saudades da “berraria” que se ouvia no Cine-Teatro quando ele cá vinha assistir à passagem desta sua obra. Agora só escutará o murmúrio das paredes gastas e húmidas daquele edifício construído “à moda antiga”. É uma vergonha para os vareiros não poderem assistir a um bom filme “em casa”. Assim, com tudo a escassear nesta nossa rica cidade, os jovens são muitas vezes obrigados a… mudarem de vida! Onde é que eu já vi este filme?

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de dezembro de 2002)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2009/07/o-cine-teatro-que-nao-temos-texto.html