Jornal JOÃO SEMANA (15/05/2011)
TEXTO: José de Oliveira Neves
Não vou aqui fazer a narração do Carregal no início do
séc. XX, uma vez que já me referi a esta zona vareira no “João Semana” de 1 de
Janeiro de 2005.
Este novo trabalho tem como objectivo recordar aos nossos
conterrâneos que visitam aquele local, especialmente os mais jovens, a história
dos dois barracões erguidos, há mais de 70 anos, junto de uma enseada existente
no começo do cais, a sul daquele lugar. (Na minha juventude, na década de 40, já
se encontravam instalados naquele sítio).
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| Barracões-hangar do Carregal |
Com traseiras construídas em terra firme e as frentes
voltadas para a Ria, assentes em estacas sobre as águas, como palafitas,
os
barracões-hangar do Carregal são
autênticas garagens lacustres para recolha de
barcos, que permanecem dentro delas, na água, aptos para navegar.
Antes da inauguração da estrada marginal Ovar – S.
Jacinto, nos anos 50, aqueles barracões surgiam-nos como duas sentinelas num
sítio ermo, onde apenas se ouvia o sussurrar das águas e o coaxar das rãs, que
saltitavam para os ribeiros vindos do Tremedal, no Carregal do Norte, e a sua
história está intimamente ligada à dos pioneiros da Ria de Ovar, daqueles que
tinham os seus barcos de recreio movidos com motor ou vela – prevalecendo, nestes
últimos, a classe “Andorinha” –, construídos alguns deles pelos próprios donos,
para se deleitarem a navegar nos fins-de-semana com as famílias ou amigos, como
acontecia com o Zé Gorinha, que fabricou o seu barco “Rosita”.
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| Pormenor da entrada dos barracões-hangar do Carregal |
Os terrenos onde estes barracões se encontram erguidos pertenciam
à Capitania do Porto de Aveiro, a quem os seus utilizadores pagavam uma taxa de
ocupação; mas as casas-hangar eram propriedade dos ocupantes que as construíram.
(Ainda hoje, o Ministério do Ambiente e Ordenamento do Território e a
Administração da Região Hidrográfica do Centro continuam a receber uma taxa
pela sua utilização.)
Nas décadas de 40, 50 e 60 do séc. XX, o barracão do lado
nascente era ocupado pelo Camossa, com o “Eugénia”, uma lancha a motor, e por
Alfredo Alves (Arroz), com o barco “Estrela” (que acabou destruído por um
incêndio), e, posteriormente, com o “Vouga”. Depois de passar por obras de
ampliação, começou a receber mais duas embarca-ções: uma de Adolf Beck,
primeiro administrador da Nestlé em Avanca, e residente em Ovar, e outra do
Meireles (?) – mais tarde do Neca Valente –, ficando ainda espaço para outras
serventias.
No barracão a poente abrigavam os seus barcos, naquela
época, Lino Brandão – dono das instalações e sócio da Fábrica de Conservas “A
Varina”, em Matosinhos e Ovar – e o alfaiate Manuel Paulino.
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Em 1951, junto à lancha do Camossa (?) e do seu barracão-hangar,
vê-se, à direita, Manuel Paulino, e, à esquerda, de pé, um seu amigo
do Brasil. Ao fundo, o denso pinheiral existente nessa época |
A lancha do Lino, construída em madeira de teca, com a
configuração de uma tainha, por vontade expressa ao construtor, Manuel Bastos,
de Pardilhó, e com a denominação de “A Varina” – igual à da empresa –, possuía
um motor ao meio, que funcionava a gasolina ou petróleo.
Embora vivesse em Matosinhos, Lino Brandão nunca esqueceu
Ovar, onde tinha muitos amigos. Enamorado pela Ria, de tal maneira se apaixonou
por ela que para ali se deslocava quase todas as sextas-feiras, dormindo no
barracão até que o sol despontasse no Sábado, para seguir viagem até S.
Jacinto…
A embarcação de Manuel Paulino – de nome “Isilda”, em
homenagem a sua irmã – era igualmente uma lancha com motor (marca “Penta”),
accionado com gasolina ou petróleo.
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Anos 50. Passeio na ria das empregadas da
alfaiataria e familiares de Manuel Paulino, na sua lancha “Isilda”. Da esquerda para a direita: Eduarda, Lurdes, Maria do Carmo, Domingos
Paulino, Manuel Paulino, Regina Formigal, Ester e Berta |
Os barracões-hangar do Carregal são construções muito
típicas e que, segundo alguns frequentadores da Ria com quem falei, eram únicos
nas margens da Ria até metade do séc. XX, só mais tarde começando a surgir
outros do mesmo género. O do Lino Brandão, onde entrei várias vezes no início
dos anos 60, tinha no seu interior, lateralmente, dois passadiços que, através
de uma escada, davam acesso a um aposento tipo águas-furtadas, que servia para
pernoitar. A sua iluminação era feita por intermédio de uma hélice de avião
comprada num sucateiro de S. Jacinto, accionada por um dínamo e acondicionada
sobre o telhado, fixa numa estrutura em ferro que ainda hoje se pode observar,
embora muito deteriorada pelo decorrer dos anos.
No interior, havia uma bica por onde saía água muito boa
e fresca, extraída de um furo artesiano mandado abrir pelo proprietário, com a
qual os visitantes se deliciavam, bebendo-a por uma caneca especial que o Sr.
Lino guardava, com muita estimação, num velho baú, com outras do mesmo
conjunto.
Nos barracões-hangar do Carregal preparavam-se boas
caldeiradas de peixe e outras iguarias, para além daquelas que eram cozinhadas
dentro do barco, muitas vezes em andamento.
Alguns dos barcos eram recolhidos na enseada junto dos
barracões, e a outros ancoravam-nos na Cirbela da Azurreira. Só mais tarde,
depois da construção do porto de recreio do Carregal, inaugurado em 31 de
Dezembro de 1974, começaram a ser recolhidos aqui.
Muitos dos pioneiros da Ria eram companheiros de viagem
diária para a cidade do Porto, onde tinham os seus empregos. Formavam um grupo
unido, a que chamavam de “ida e volta”.
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Anos 50. O grupo de “ida e volta” perto dos barracões, no Carregal, antes de partirem para um passeio na Ria |
A grande festa destes amigos da Ria era a viagem para
Águeda, geralmente feita de forma colectiva, com regresso, quase sempre, de 1 a
3 de Maio, datas preferidas quando coincidiam com fins-de-semana ou feriados.
No primeiro dia, tomando a direcção do Bico do Muranzel,
entravam no rio Vouga e seguiam pelo Rio do Príncipe, navegando até à Ponte de
Cacia, junto da qual atracavam os barcos para neles pernoitarem.
No segundo, abalavam para São João de Loure através do
rio Águeda, prosseguiam até à Ponte da Rata, onde preparavam o almoço, continuando
a viagem até Águeda, onde pernoitavam nas suas embarcações, regressando a Ovar
no dia seguinte, seguindo o itinerário inverso. (Havia aficionados que
prolongavam a estadia, e outros que faziam o mesmo percurso demorando mais
tempo.)
Hoje, a Ria continua a ser um atractivo para muita gente
da nossa terra, especialmente para a mais jovem, mas não tem o encanto que
exibia nas primeiras décadas do século passado. Faltam os barcos moliceiros, e
até o calado e a limpidez das suas águas. E que saudade do odor fresco do
moliço e dos terrenos cultivados ao longo das margens, que nos ofereciam uma
paisagem bucólica e de ar sadio!…
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Barracões-hangar do Carregal [FOTO: jornalista Fernando Pinto |
Há muito que não visitava aqueles sítios. E foi com
enorme nostalgia que fotografei os velhos barracões do Carregal, agora
degradados, principalmente o do lado poente, que pertenceu a Lino Brandão. (O
de Nascente, outrora também do Camossa, porque tem passado por algumas reparações,
continua a ser utilizado para recolha de barcos…)
As águas da Ria, escuras, cor de azeite, e o matagal
envolvente, onde abundam atoleiros resultantes de pequenos riachos que alimentam
aquela mal amada toalha líquida, dão ao local uma paisagem triste, diferente
daquela que conheci nos anos 40/50 do séc. XX. O tempo tudo destrói. Só não
destrói a saudade.
P.S. Agradeço a José Pinto, José Eduardo, João Nunes Branco e
Álvaro Malaquias a cedência de fotos e informações úteis para a realização
deste trabalho.