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22.12.14

Caça ao pato na Ribeira de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/10/2014)
TEXTO: Fernando Pinto

“Um dia é da caça, o outro do caçador”

Nos dias 7, 21 e 28 de setembro o jornal “João Semana” acompanhou a aber­tura da caça às aves aquáticas em Ovar. Nesses três domingos convivemos com dezenas de caçadores, vindos do norte e centro do país, e pudemos constatar que Ovar tem neste desporto, que ainda é visto com algumas reservas pela opinião pública, uma fonte de turismo a explorar.

O bucólico lugar da Ribeira, em vez de despertar com o habitual can­to do galo, acordou, na manhã de 7 de novembro último, dia da abertura da caça às aves aquáticas em Ovar, com os tiros dos caçadores.
“Aquela placa retangular, a vermelho e branco, quer dizer que ali para dentro é um santuário, que não se pode caçar”, disse um dos caçadores veteranos ao jornal “João Semana”, quando se prepa­rava para guardar na mala do carro a espingarda e as peças de caça que tinha abatido.
“A sinalização venatória é para ser cumprida, porque a caça rege-se por leis bem específicas e, se o caçador não as seguir à ris­ca, sujeita-se a uma coima”, lem­brou António Alcides Sousa, pre­sidente do Clube de Caça e Pesca de Ovar (CCPO), em entrevista ao nosso jornal.
Alguns caçadores facilitam e não cumprem as leis, mas o verda­deiro caçador, segundo o Presiden­te do CCPO, não anda por aí aos tiros a tudo o que lhe aparece pela frente. “No caso dos patos, nós, caçadores, quando ferimos um e não o apanhamos, preferíamos ter falhado o pato”, assegurou Antó­nio Alcides Sousa. “Estou conven­cido de que os erros que são co­metidos por alguns caçadores são por ignorância, daí a importância de a GNR e o ICNF [Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas], irem também para o terreno sensibilizar as pessoas para determinadas ações, em vez de ficarem apenas pelas coimas aos caçadores que prevaricam, que transgridem as regras”.
A zona de caça em Ovar tem o n.º 3870, e é municipal. Ainda não há caça associativa.
“Nós não passamos nenhuma autorização de caça se o caçador não estiver legal, se não tiver li­cença de caça e uso de porte de arma. E para tirar a licença tem de ter seguro de caça. Se quiser ser sócio do CCPO, a joia de inscri­ção é de 100 euros e depois paga por ano 42 euros de quotas”, ex­plicou Alcides Sousa.
“Temos caçadores de Gaia, Barcelos, Anadia, Covilhã, do norte e do centro do país”, disse o jovem Frederico Muge, vice-presidente do CCPO, também ele caçador.
Francisco, carteiro da Ribeira, uma das pessoas responsáveis pela logística e pelo repasto ao ar livre, é uma espécie de anfitrião dos ca­çadores que nos visitam nesta altu­ra do ano. Da sua horta biológica, regada pela água da chuva e do rio Cáster, colhe os legumes que plan­tou e que irão servir de acompanha­mento às febras na brasa. “Durante o almoço convivemos uns com os outros, há muita camaradagem”, disse aquele caçador.
“Nós, aqui em Ovar, temos a preocupação de só caçarmos até à uma hora da tarde, para que as aves regressem ao seu habitat”, escla­receu Frederico Muge, apontando para a zona do sapal, santuário que abriga, para além dos patos, garças, flamingos, maçaricos, entre outras aves aquáticas, algumas das quais se encontram em perigo de extinção, como é o caso da garça-vermelha.
Aos magotes, os caçadores vão saindo do meio dos caniçais, en­vergando o tradicional camuflado, com as peças que caçaram presas à cintura. O pato é a ave mais apete­cida, mas podem caçar o galeirão, a galinha-d’água, a narceja, a ta­rambola, entre outras espécies.
Para caçar na zona de Ovar, o caçador terá de fazer a respetiva inscrição dentro dos prazos estabe­lecidos. “Tem de vir cá dois dias antes, ou na véspera, e levantar a respetiva credencial, uma braça­deira de identificação. Se não a tiver consigo, está ilegal”, expli­cou o presidente do CCPO, acres­centando: “Os proprietários dos terrenos têm benefícios ao fazerem a sua inscrição, desde que as suas propriedades estejam dentro da zona de caça, como as da Ribeira e Marinha, por exemplo”.
Durante muitos anos, as pes­soas iam ao armeiro, compravam uma arma, e davam uns tiros, por­que o caçador não tinha de pagar o local onde caçava. Hoje tem de pagar tudo. Para se ser caçador é preciso gastar cerca de 2 mil euros.


As malhas da lei começaram a apertar desde 2005. Na caça em zonas húmidas não se pode caçar com munições de chumbo, para que as águas não fiquem contami­nadas. Os cartuchos são carrega­dos com granalha de metais como o aço, bismuto e tungsténio.
Se o caçador vier com uma peça de caça e não trouxer o respetivo cartucho vazio, é autuado. Há tam­bém regras para o abate das respeti­vas espécies. Cada caçador só pode caçar cinco patos por dia, e é permi­tido ir à caça uma hora antes do nas­cer do sol, embora a jornada possa ser preparada a partir da meia noite, e, ao fim do dia, a recolha acontece uma hora depois do pôr do sol.
Em novembro, o pato-real vol­ta a estar na mira dos caçadores e os tiros voltarão a ecoar lá para os lados da foz do rio Cáster.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de outubro de 2014)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/12/caca-ao-pato-na-ribeira-de-ovar.html

22.5.13

Recordar António Nota

António "Nota" (1908-1958)
Jornal JOÃO SEMANA (01/06/2006)
TEXTO: Orlando Caió

António Augusto de Oliveira Soares de seu verdadeiro nome, nasceu em Ovar no seio de uma família humilde, a 26 de Novembro de 1908. 
Era vulgarmente conhecido por “Nino” do Nota, rachador de lenha no Inverno e pescador na Praia do Furadouro no Verão.
Convém aqui referir que a razão do apelido Nota tem a sua origem no facto de seu pai pagar, habitualmente, não com moedas, mas sim com uma nota, a despesa feita na loja durante a semana.
Bem cedo viria a despontar para o atletismo, tendo representado o Estrela Futebol Clube e o Aliança Futebol Clube, colectividades que há muito deixaram de existir em Ovar.
António Nota era um atleta de grande resistência, astuto, passo cadenciado e boa ponta final, que normalmente se posicionava entre os seis primeiros lugares.
Participou em cerca de 12 provas de atletismo, entre Léguas e Crosses, realizadas em Ovar e região do Porto. Entre as suas melhores prestações constam um 2.º lugar, obtendo, por duas vezes o 3.º e o 5.º lugar na tabela classificativa.

A equipa de atletismo do velho Aliança FC de Ovar, vencedora, por equipas,
do Cross de 7.000 metros realizado no Porto em 03/02/1935, arrebatando a “Taça
 D. Francisco Sotto-Mayor”. Da esquerda para a direita: António Nota (3.º lugar),
Mário Loureiro (4.º), António Carriola (6.º) e Manuel Nunes (13.º lugar).

(Foto de “O Primeiro de Janeiro” de 05/02/1935)

Estreou-se oficialmente pelo Estrela FC na VII Légua Ovar – Furadouro, em 3 de Setembro de 1933, tendo obtido o 6.º lugar, e com a camisola do Aliança de Ovar correu, pela última vez, em 31 de Janeiro de 1943, com 34 anos, na “Légua do Operário FC”, no percurso Porto – Gaia, classificando-se na 3.ª posição.
António Nota esteve ainda para participar, em 17 de Setembro de 1944, até ao último instante do início da corrida, na XII Légua de Ovar, mas algo de estranho aconteceu.
Relatam os jornais da época que, por influência de alguém, António Nota exigira ao Aliança, para correr, uma determinada quantia. O Aliança, clube meramente amador, não cedeu, e ali mesmo dispensou o concurso do seu atleta mais antigo. E assim, não sem alguma mágoa e desilusão, terminou a carreira do “Nino do Nota”, sem sombra de dúvida um dos melhores atletas vareiros dos anos 30 e 40 do século passado.
António Augusto de Oliveira Soares faleceu no Furadouro a 23 de Outubro de 1958, com 49 anos de idade.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de junho de 2006)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/05/recordar-antonio-nota.html

7.5.13

Manuel da "Morga" – Guarda-redes de excelência

Jornal JOÃO SEMANA (15/04/2012)
TEXTO: Orlando Caió 

Manuel da “Morga”, de seu verdadeiro nome Manuel Gomes de Sousa, foi um guarda-redes de futebol que durante a década de 1930 do século passado defendeu as cores da Associação Desportiva Ovarense.
Este nome decerto que pouco ou nada diz à geração atual. Somente os amantes de futebol atualmente na faixa etária dos 80 e 90 anos o viram atuar, e o recordam com saudade.

A equipa da Ovarense, Campeã do Distrital de Aveiro Divisão de Honra, e vencedora do Campeonato
da Província da Beira Litoral, na época de 1938/39. De pé, da esquerda para a direita: Zeferino
Gomes Pinto, António Ferraz de Liz, Alberto Capitão, Armando Catalão, Alfredo Alves e Artur
 Serrano. Em baixo, e pela mesma ordem: João Estarreja, Amílcar Azevedo,
 MANUEL DA MORGA, João Sanfins e Jacinto Martins

Nascera em Ovar na rua Dr. Manuel Arala, no dia 2 de junho de 1913, no seio de uma família modesta. O pai, Manuel de Sousa, era natural da freguesia de Cedofeita, Porto, e marítimo de profis­são. A mãe, Deolinda Gomes, natural de Ovar, tinha a profissão de costureira. Acresce que, como mera curiosidade, o nome ou apelido Morga tem origem em familiares do lado materno.
A inclinação para jogar à baliza foi-se manifestando bem cedo, menino ainda, em partidas de futebol disputadas entre os diversos clubes de rua e de bairro. Era guarda-redes por convicção, e não por simples conveniência ou por falta de jeito para jogar à frente.
Manuel da Morga começou por representar o "Sportezinhos", um clube popular que existiu em Ovar entre 1926 e 1929. Nos primeiros anos da década de 1930 transferiu-se para o Aliança Futebol Clube, outro clube popular fun­dado em Ovar em 1922, e, por último, representou a Associação Desportiva Ovarense a partir de meados dos anos 30 do século passado até concluir a gloriosa época de 1938/39, em que a Ovarense se sagrou campeã da Divisão de Honra do Distrito de Aveiro e vencedora do Cam­peonato da Província da Beira Litoral.
Pessoas que o viram jogar e que, felizmente, ainda se encontram entre nós, como António Laborim, Mário Carapinha, António Rabão, Jorge Teles e o antigo jogador da Ovarense e do FC Porto Manuel Sanfins, contam que o Manuel da Morga, à semelhança do então famoso guardião do Sporting João Azevedo, não tinha, entre os postes da baliza, uma presença imperial ou exuberante. Tal como Azevedo, a sim­plicidade era a sua imagem de marca.
Extremamente eficaz a voar para a bola, a blocar ou a afastar o esférico com os punhos da sua zona de intervenção, a sua coragem causava espanto ao arrojar­-se aos pés dos adversários, anulando as investidas da equipa contrária com intervenções de precisão. Como ainda hoje se diz na gíria do futebol, Manuel da Morga era um guarda-redes completo, mentalmente sólido, que parecia usar régua e esquadro.
Nos cruzamentos, raramente fa­lhava o tempo de saída da baliza, e não ficava a meio do caminho, fazendo questão de honra em tocar na bola.
Transmitia segurança à equipa, e não era fácil marcar-lhe um golo de penalti. Possuidor de uma elasticidade fantástica, atirava-se à bola só depois de o jogador adversário chutar o esférico, bem ao contrário de certos guarda-redes de hoje que pontificam na Primeira Liga e que, erradamente, se atiram para qual­quer dos lados da baliza sem convicção, antes de a bola partir.
Pelas brilhantes exibições que realizava, Manuel da Morga foi, por diversas vezes, considerado o melhor jogador em campo. Ao tempo, o seu nome granjeara certa fama no meio futebolístico do Distrito de Aveiro e Beira Litoral, a ponto de alguém lhe ter dedicado duas quadras em verso que, pelos mais diversos lugares, as gentes de Ovar trauteavam – porque era moda –, e que diziam assim:


Manuel da Morga,
Defende a bola,
Não tenhas medo
De sujar a camisola.
A camisola,
Azul e verde,
Manuel da Morga
Não deixa furar a rede.


Vestiu pela última vez a camisola da Ovarense num jogo particular disputado em Monção contra o clube local, o Des­portivo de Monção, no dia 20 de maio de 1939, numa festa de beneficência, em prol da construção de um quartel para os bombeiros da referida vila. O jogo saldou-se por uma vitória da Ovarense por 2-1, com golos de Manuel Marques e de João Estarreja.
Um ano depois, as balizas da Ova­rense seriam entregues a Manuel Cape­la, guarda-redes vindo do Beira-Mar, que viria a ingressar no Belenenses e, mais tarde, na Académica de Coimbra.
Poucos meses após o final da bri­lhante época de 1938/39, Manuel da Morga, que trabalhava como marceneiro em Ovar, na Marcenaria Modelo, e que residia no n.º 24 da rua Dr. Manuel Arala, então com 26 anos, decidiu dar novo rumo à sua vida, emigrando para os Estados Unidos, via Cuba, em busca de uma vida melhor. E por lá ficou.
No dia 18 de janeiro de 1997, em Naugatuck, Estados Unidos da América, país onde constituíra família com uma senhora natural da Murtosa, Manuel Gomes de Sousa desapareceria do convívio dos seus, aos 83 anos de idade. Nesse dia chegava ao fim do seu caminho, o lendário guarda-redes da Associação Desportiva Ovarense Manuel da “Morga”, que pelos anos 30 do século passado passeara a sua classe pelos campos de futebol do Distrito de Aveiro e da Beira Litoral.
Ficou a lenda e a saudade.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de abril de 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/05/manuel-da-morga-guarda-redes-de.html

18.12.10

A vitalidade do mito de Santa Camarão

Jornal JOÃO SEMANA (15/2/2003)

TEXTO: Luís Filipe Maçarico

“(…) Como fui envolvido

Na sequência da sugestão de um grupo de cidadãos (O Grupo de Reflexão Pró-Ovar), foi decidido pelo Pelouro do Desporto da Câmara Municipal de Lisboa elaborar a biografia de José Santa e fui incumbido da sua realização. A pesquisa, a análise dos dados, a criação e a digitalização do texto efectivaram-se num curtíssimo período (quatro meses), pois era objectivo inicial meu e da autarquia onde exerço funções trazer-vos o livro “Com o Mundo nos Punhos – Elementos para uma biografia de José Santa “Camarão”, cujo compromisso de publicação foi assumido pelo vereador Dr. Pedro Feist.
(…) Além da Biblioteca Municipal e das entrevistas realizadas nesta cidade, a pesquisa desenvolveu-se na Hemeroteca Municipal de Lisboa, no Gabinete de Estudos Olisiponenses, no Arquivo Fotográfico Municipal da capital, na Biblioteca do “Diário de Notícias”, na Biblioteca do Centro de Estudos de Antropologia Social do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa e Mediateca do Museu Nacional de Etnologia. Todavia, a consulta mais surpreendente decorreu na Biblioteca Nacional e na Mediateca de Centro de Estudos e Formação Desportiva, onde encontrei livros supostamente escritos pelo próprio Santa e diversos títulos sobre boxe de autores portugueses ligados à modalidade.
Durante a recolha efectuada em Ovar, primeiro em Julho, depois em Agosto, pude conhecer pessoas notáveis, generosas, de grande valia para a memória colectiva da cidade, todos empenhados em não deixar no esquecimento o exemplo de percursos que marcaram a história do povo vareiro.
(…) Fantástico foi, entretanto, ser divulgado de forma premonitória pelo “João Semana” de 15 de Julho – quando eu ainda pensava que a minha tese de mestrado em antropologia teria como tema o museu de uma popular colectividade de Lisboa – que o tema dessa prova académica seria o Santa “Camarão”… (…)

Algumas descobertas ao longo da pesquisa

A primeira descoberta que a elaboração da biografia de José Santa proporcionou foi a da obra existente na Biblioteca Nacional “A Vida de José de Santa Camarão por ele mesmo”, um livrinho dos anos 20, antes do jovem correr Mundo, onde se relatam episódios marcantes como este: “Eu tinha ido à terra, contente por ver a minha mãe e por levar alguns tostões comigo. Quis comprar umas botas… Mas não havia em parte nenhuma botas que servissem aos meus pés…
Então, desesperado, agarrei minha mãe pelos hombros e gritei-lhe com a voz cortada por soluços de desespero: – Porque foi que vocemecê me fez assim tão grande, porquê, porquê?”
Mais adiante, Santa conta: “Consegui fazer várias vezes o que a mais ninguém era permitido (…) É à minha força que eu devo ter tido certo desafogo na minha vida marítima. As minhas costas aguentaram as cargas mais difíceis. Isto hoje custa um pouco a contar, mas não se resiste a um certo orgulho. Não havia ninguém que levantasse como eu a carga pesada dos sacos. Apostavam comigo. Eu sorria. Aceitava. E lá ia ganhando sempre. Eram esses os únicos momentos em que me sentia feliz. À nossa vida à parte, num mundo só nosso, não chegava o conhecimento do sport. A gente sabia lá o que isso era!”
A ida ao Coliseu dos Recreios é assim recordada:
SANTA CAMARÃO

“Uma noite entrei no Coliseu e li por todos os lados – luta, luta… (…) Com alvoroço vi abrirem-se as cortinas. E na sala começaram a entrar (…) homens enormes, pesados, fortes, gigantescos!
Que hora de comoção a minha. Estaria ali o meu futuro (…) O público a cada um que entrava tinha um ah! Prolongado de espanto e de admiração.
E eu pensava alvoroçadamente: – Mas então aqueles não são ridículos, ninguém se ri deles! Toda a gente os respeita…”
Posteriormente, descobri um outro volume com José Santa no frontispício “Para ser um bom boxeur”.
“O motivo – explica o editor – justifica-se pelo facto de Santa ser a única esperança portugueza. O único cartaz vivo do que foi o boxe portuguez alguns anos atráz. O principiante necessita que o homem que o aconselha lhe inspire confiança, o lance decididamente no campo prático. Para isso é necessário um nome, um campeão”.

(Extracto da palestra apresentada por Luís Filipe Maçarico na Biblioteca Municipal de Ovar, em 28/12/2002).

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Janeiro de 2003)
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“Homem grande, mas modesto e humilde”

Jornal JOÃO SEMANA (15/2/2003)

TEXTO: Aníbal dos Santos Gomes

Embora conhecesse o Santa Camarão na década de 40, convivi com ele diariamente a partir de 1952 e até à sua morte, ocorrida em 5 de Abril de 1968, até porque trabalhei, durante cerca de 15 anos, no “Café Neves”, local onde o Santa Camarão passava os seus tempos livres, jogando dominó, as damas clássicas e a sueca, e cavaqueando com os seus amigos frequentadores deste espaço de lazer.Tive o privilégio de lhe servir milhares de cafés a 1$00, 1$20 e, mais tarde, a 2$50.
José Santa junto ao café Neves
Acompanhava os seus passos nessa época em que ele era visitado por excursões oriundas de vários pontos do país, sendo solicitado para entrevistas para os jornais e revistas desse tempo.
Homem grande, mas modesto e humilde, foi figura de relevo a nível nacional e até internacional através de boxe, desporto em que se tornou um ídolo mundial.
Recordo-me de que, na década de 50, tendo ele ido ao Porto, o que fazia mensalmente, para receber umas rendas, e quando subia a rua dos Clérigos, tropeçou e caiu, tendo feito algumas escoriações ligeiras pelo rosto.
Prudentemente, resolveu passar pelo Serviço de Urgência de Santo António, ali bem perto, onde foi tratado.
No dia seguinte, o “Jornal de Notícias” fazia, na 1.ª página, o destaque do acontecido e desenvolvia a notícia, com algum sensacionalismo jornalístico, nas páginas interiores.
Quando chegou ao café e lhe mostrei a notícia, ele ficou surpreendido com o relevo que lhe era dado.
Por esse sensacionalismo do “JN”, o jornal diário que ele lia no Café Neves, se constata que, nessa época, ele era ainda uma figura desportiva de destaque nacional.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Janeiro de 2003)




NOTA: José Soares Santa “Camarão” foi incluído na lista “Cem Desportistas, Cem Anos da República”, uma iniciativa da Confederação do Desporto de Portugal, cuja distinção foi entregue em 16 de Novembro de 2010 na 15.ª Gala do Desporto, efectuada no Casino Estoril, ao seu biógrafo Luís Filipe Maçarico, em representação da Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura e Desporto. Este reconhecimento deve-se em grande parte à colaboração dada por diversos elementos da comunidade vareira que conviveram com o pugilista ou que possuíam elementos preciosos sobre esta ilustre figura ovarense. O VÍDEO QUE LHE OFERECEMOS É UM FRAGMENTO DO FILME "AMOR NO RINGUE" (1930).

3.3.10

Figuras Populares – O “Ben Barek”

Francisco de Jesus Ferreira
(O "Ben Barek")
Jornal JOÃO SEMANA (15/1/2008)

TEXTO: Orlando Caió

Para uns, era o Ferreira, para outros Chico Moreno, mas no nosso meio futebolístico era conhecido por “Ben Barek”. O apelido tem a ver com o codicioso avançado da selecção francesa de futebol Ben Barek, de tez morena e origem marroquina que, nos anos 50 do século passado, passeou a sua classe pelos estádios de futebol de França e de Espanha.
O nosso “Ben Barek” é natural de Ovar, do lugar da Ponte Nova, onde nasceu há 74 anos.
Enquanto menino, Francisco de Jesus Ferreira – o seu verdadeiro nome – também sonhava, naturalmente, vir a ser um futebolista famoso. Mas o destino trocou-lhe as voltas, para ajudar ao sustento da família, e bem cedo teve de começar a trabalhar como cortador de tijolo na antiga fábrica da SIOL, situada na actual rua de Timor.
Para o futebol viria a despontar num torneio popular realizado em 1950 no Parque Marques da Silva, onde, como extremo-direito ou interior-direito, se viria a destacar ao serviço do Clube Recreativo da Ponte Nova. Mais tarde, envergando a camisola da Ovarense, vi-o actuar por diversas vezes nas equipas de seniores. Era um jogador bastante rápido, imprevisível, que possuía uma notável capacidade de drible, sendo quase sempre alvo de marcação cerrada por parte dos defesas adversários.
O popular “Ben Barek” vive hoje de recordações, numa humilde casa situada perto do Parque Marques da Silva, local onde tantas vezes recebeu merecidos aplausos dos amantes do futebol.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Janeiro de 2008)

5.11.09

ALBANO CAMPOS: o “lorde” pugilista

NO CENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO


Albano Campos (1903-1980)
Jornal JOÃO SEMANA (01/03/2003)
TEXTO: Fernando Pinto

Para além de ter sido Campeão Nacional de Boxe, na categoria Professional de meios-leves, Albano Campos foi árbitro e treinador desta modalidade desportiva, bombeiro, camionista, pegador de toiros no Campo Pequeno, jogador de râguebi e massagista! Verdadeiro homem dos sete ofícios, nasceu em 2 de Março de 1903, na freguesia da Sé, no Porto, ou seja, há precisamente 100 anos.
Numa altura em que se está a comemorar o Centenário do seu colega e amigo Santa “Camarão”, o “João Semana” – como tinha anunciado na edição de 15 de Janeiro último – presta-lhe esta merecida homenagem.
Fomos até à casa onde viveu o pugilista, na Ponte Nova, Ovar, e falámos com o filho Rui Campos, de 53 anos. Em cima de uma mesa esperava-nos uma pilha de fotografias, a sépia e a preto e branco, que ilustram a brilhante carreira de seu pai, e algumas medalhas e outras condecorações.
Logo a abrir a conversa, mostrou-nos um recorte amarelado do “Jornal de Notícias” de 31 de Março de 1980, dando conta do desaparecimento de seu pai, aos 77 anos de idade:“Em Ovar, onde se radicara há mais de vinte anos, faleceu ontem o antigo campeão de “box” Albano Campos, que foi uma das figuras de proa da modalidade na década de 20 e começos da seguinte. O “box” era então um desporto extraordinariamente popular, com muitos e bons espectáculos, quer em Lisboa quer no Porto, e até aos “rings” portugueses vieram nesses tempos alguns pugilistas famosos estrangeiros (e não apenas espanhóis…), que aqui defrontaram as nossas mais destacadas vedetas da época – como, por exemplo, Tavares Crespo e José Santa “Camarão”, para citar apenas os dois nortenhos de maior fama e popularidade. Albano Campos era homem da mesma estirpe desses campeões (…).”

Tanto era verdade que conseguiu roubar, aos 21 anos, o título de Campeão Nacional, na sua categoria, a Tavares Crespo, o que lhe permitiu subir ao ringue com pugilistas de nomeada, como foi o caso do francês Carpentier.
– “O meu pai contou-me que fez uma viagem ao Brasil com o José Santa “Camarão” e outros “boxeurs”, isto depois de ser Campeão Nacional. No país irmão arrecadou o título de campeão Portugal-Brasil”, recorda Rui Campos, frisando que, ao contrário do que se diz por aí, o gigante Santa “Camarão”não lhe ensombrou a carreira porque “cada um tinha o seu valor e as classes em que lutavam eram diferentes: a do Santa era pesos pesados.”

Bombeiro destemido
Na tarde de 8 de Fevereiro de 1927, Albano Campos Júnior (o seu nome de registo) desafiou as chamas que consumiam o Edifício dos Correios e Telégrafos do Porto, sendo condecorado com a Medalha de Prata de Mérito Filantropia e Generosidade, pelas mãos do marechal Craveiro Lopes. “Atendendo aos relevantes serviços prestados por Albano Campos, bombeiro da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Porto, o qual tendo-se comportado com o maior denodo e extrema valentia, levou a sua audácia ao ponto de, com manifesto desprezo pela sua própria vida, enfrentar o perigo iminente que se lhe antevia”, leu Rui Campos, em voz alta, o primeiro parágrafo da curiosa distinção, reacendendo na sua memória um dos primeiros feitos de seu pai.

– “O Porto era tudo para ele. Quando íamos a passar de carro pela Ponte da Arrábida tirava o chapéu e dizia: – ‘Atenção… que estou na minha terra!’ ”, afirma o filho, com saudade, repetindo aquele gesto. – “Ele gostava das festas de S. João. As velhotas, que estavam a vender os alhos porros, vinham ter com o meu pai e diziam, abraçando-o: – ‘Ai o nosso querido Albaninho!’ – Era muito conhecido por aquelas bandas.

Começou por ser amador no boxe e, mais tarde, devido à sua técnica, passou a Profissional, travando inúmeros combates em Portugal – no Porto (Palácio de Cristal) e Lisboa (Coliseu dos Recreios) –, na vizinha Espanha e em França. Foi também, durante mais de duas décadas, chefe da secção de boxe do Futebol Clube do Porto, o seu clube de sempre.”

A vinda para terras vareiras
Albano Campos Júnior veio viver com a família para Ovar em 1954, porque a sua profissão de camionista assim o obrigou: transportava pedra da então Vila da Feira para o Carregal. Trabalhou também na Cavan. – “O meu pai era muito pândego… Gostava de ir jogar dominó até ao café da Emília, em frente aos Bombeiros velhos”. Em 1933 montou uma Escola de Boxe, onde dava aulas a quem tivesse jeito para aquele exigente desporto. Artur Loureiro, Manuel Santos (conhecido por Manuel Guarda-redes) e António Pinho (já falecido) foram alguns dos seus pupilos.
Em 1944 lutou em Ovar contra Santa “Camarão” durante umas Verbenas que tinham como objectivo recolher fundos para a equipa de basquete do Aliança.
Foi ainda massagista da Associação Desportiva Ovarense, como podemos comprovar na foto tirada na época desportiva 1957/58, publicada na edição anterior do nosso jornal, na recolha quinzenal para a história da ADO, assinada por José Pinto.
Em 1967 foi convidado para arbitrar um combate entre pugilistas do Porto e do Benfica, no Palácio de Cristal – era árbitro de 1.ª classe da Federação Portuguesa de Boxe –, sendo-lhe oferecida uma faixa de campeão e uma luva de prata pelo núcleo de amigos do pugilismo “Os Formidáveis do Boxe – Agrupamento dos ex-Boxeurs Portugueses”, do qual era o membro 115. Uma homenagem que pretendeu relembrar os méritos patenteados ao longo da sua carreira desportista.
Durante a década de 70 chegou a receber várias condecorações.
Albano Campos faleceu em terras vareiras no mês que o viu nascer, faz 23 anos. Amanhã, se fosse vivo, apagaria 100 velas. Mais um Campeão Nacional cujo espólio poderia enriquecer o tão falado, mas pouco desejado, Museu do Desporto. Campeões que nasceram em Ovar, ou que deixaram cá as suas raízes não faltam nesta terra. Disso é um bom exemplo este “boxeur”, homem simples com pose de “lorde”, que fumava cachimbo, cantava ópera quando lhe apetecia e declamava versos à sua maneira…

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Março de 2003)

http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 69)
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NOTA: "Na sessão de boxe efectuada em 1-1-1938 no Estádio Mário Duarte, em combate de fundo, Horácio Velha bateu João Carvalho por K. O. ao quarto round. Arbitrou Albano Campos". (Clique no link).

21.11.08

O extraordinário Rui Cunha

Jornal JOÃO SEMANA (01/06/2005)


TEXTO: Mário Miranda

O que vou contar sobre o Dr. Rui Cunha é baseado não só nos conhecimentos colhidos quando, ainda muito novo, fui sócio do velho Aliança, mas também em informações fornecidas por sua irmã, D. Palmira Cunha, e por uma obra de Armando Sampaio dedicada à Associação Académica de Coimbra, de que foi atleta, depois de ter sido seu presidente durante vários anos, e por isso, pessoa muito conhecida no meio desportivo do país.

Um garoto de Ovar na Académica

Um dia, Armando Sampaio disse: – “ Precisamos de um avançado centro. Logo alguém respondeu: - “ Está no Liceu de Aveiro um garoto de Ovar, que é formidável. – Pois que venha já, à experiência”.

Quando chegou, perguntaram-lhe o seu nome, e ele respondeu, com uma certa timidez: – Salviano Rui de Carvalho Cunha e Costa.

De início, não me pareceu que podia ser o jogador de que tanto necessitávamos. Como me enganei!... Ao experimentá-lo, horas depois, tive o prazer de apreciar a mais extraordinária revelação do futebol português. Eu tenho vinte e tal anos de contacto permanente com o desporto nacional, e nunca os meus olhos viram coisa semelhante: um gaiato de dezasseis anos, com uma velocidade e um “dribling” desconcertantes, um pontapé fácil, certeiro, e tão valente que suplantou o de muitos internacionais. Que assombro!
Aprovado por unanimidade, sendo aluno do 4.º ano do Liceu, só abandonou a Associação Académica quando, já médico, a sua vida profissional o obrigou a isso!...
Uma tarde, contra o Santa Clara, obteve, à sua conta, 12 pontos!... Passou, desde então, a ser considerado o “recordman”, a nível nacional, destronando o então saudoso Pepe, do Belenenses, que, dias antes, alvoraçara a crítica ao marcar 10 bolas num jogo!
Rui tinha começado a carreira com 10 anos de idade, no nosso velho Aliança, clube de que era muito amigo.
Muito humano, muito modesto, ofereceram-lhe, em Coimbra, as mais vantajosas ofertas materiais, mas nada o moveu. Manteve-se fiel até ao fim no seu posto académico, sem nunca receber um centavo de retribuição. Até as botas, mandadas vir de Inglaterra, eram pagas por ele.

Um dia, em Alcobaça, num jogo em que não alinhara por trazer um braço ao peito, ao ver o grupo a perder, não se conformou e, num esforço que teve o seu quê de leviandade, tirou as ligaduras e foi jogar também! Hoje algum jogador faria isso?
O Futebol não era, contudo, a sua maior paixão. Na realidade, só o amor à Associação Académica o manteve tantos anos na actividade desportiva. O mar, isso sim! E se assim falo é porque sei que, já depois de casado, por ser um apaixonado da Ria e, claro, por gostar de navegar, construiu uma casa em frente ao Areinho, onde fazia férias. Ultimamente passava ali, com a família, durante metade do ano, os seus melhores dias.
Como se tratava de um jogador de excepção, o seleccionador Cândido de Oliveira chamou-o à Selecção Nacional. Mas, como já anteriormente tinha vestido a camisola verde-rubra, sempre como suplente, o Rui entendeu ser altura de dizer basta a tanto “gozo”. E mandou-os “rifar” para sempre! Nessa altura, os seleccionadores só escolhiam jogadores de Lisboa e Porto. O resto do país não contava!


Médico, arrisca a vida!

Uma vez formado em Medicina, concorreu à Armada, sendo admitido com elevada classificação. Daí em diante ficou absorvido pelas suas viagens através do mundo.
Foi numa dessas digressões que praticou um acto que, pela verdadeira coragem demonstrada, o notabilizou.
Estava-se em plena II Grande Guerra Mundial. O barco onde prestava serviço recolheu alguns náufragos, vítimas inocentes da terrível conflagração. Como médico, sabia que o seu dever era tratá-los, minorar-lhes o sofrimento. Mas, podendo aguardar comodamente a chegada das vítimas, o seu temperamento de lutador e a bondade do seu coração não lhe permitiram esperar que os marinheiros transportassem os feridos à sua presença. Vendo que alguns infelizes ainda se debatiam nas ondas e que pediam socorro, tomou lugar nas pequenas lanchas e, com a sua energia de atleta, saltou também para o mar, arriscando a sua vida para salvar a vida dos outros. O Governo condecorou-o por este acto de abnegação, mas ele, uma vez em terra, não dissera a ninguém que o fez!
Já casado com uma senhora açoriana e com filhos, resolveu, um dia, fazer um cruzeiro no Mediterrâneo com a família. Atracado o paquete a um porto italiano, reparou, ao desembarcar, que estavam ali pessoas à espera. A dada altura, um cavalheiro inquiriu, com voz forte, se eram portugueses. Como a resposta foi positiva, logo ele perguntou se estava presente o Sr. Dr. Salviano Rui de Carvalho Cunha e Costa. O Rui ouviu, não se moveu, mas levantou o braço. Rapidamente o cavalheiro, um italiano, correu para ele, lançou-se ao seu pescoço e, abraçando-o efusivamente, disse, emocionado: – Se estou vivo, devo-o ao Senhor Doutor, que me salvou daquela tragédia em alto mar. Claro que as lágrimas de imediato lhe correram pelas faces. Foi uma coincidência muito feliz e inesquecível!
Um dia, colocaram no balneário de Santa Cruz uma lápide dedicada ao Rui. Homenagem justa, que alguma coisa ficará dizendo às gerações vindouras, mas pequena, mesmo muito pequena, para quem foi tão grande e tão valorosamente se soube impor.
Rui Cunha jamais será esquecido por Ovar. Mas algo falta fazer: prestar-lhe uma homenagem justa: dar o seu nome a uma das artérias da nossa cidade.




Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Junho de 2005)

6.9.08

JOSÉ SANTA CAMARÃO - Um coração maior do que o corpo

Jornal JOÃO SEMANA (15/08/1982)

TEXTO: Maria José Vinga

Ali na Poça, na casa onde hoje está o Café Stop, existiu um estabelecimento de ensino. Era a Escola de S. Francisco. Foi fundada pelo Padre Francisco Pedroso Lopes Vinga, e era custeada pela Associação de S. Francisco de Sales. Era gratuita, e oferecia os livros às crianças pobres, a quem, pelo Natal, dava ainda um fatinho novo. Como não havia a Escola de S. Miguel, frequentavam-na muitas crianças daquelas redondezas. Eu própria lá andei de 1907 até 1911, ano em que foi fechada, por ordem dos Republicanos.
Ao morrer, em 1909, o Padre Vinga deixava a escola bem estruturada. Lembro-me de que a mestra que ensinava as primeiras letras, bem como a doutrina, era a senhora Rosa Tanoeira. As outras disciplinas eram dadas pelo Sr. P.e Torres e por um outro professor de fora, o Sr. Freire.
A senhora Margarida Luzes, conhecida por Nabiça, ensinava costura e a fazer croché, meias e mantas. Era ela que olhava pela limpeza da escola, e que guardava a chave, trabalhos inerentes ao seu cargo da Associação de S. Francisco.
A República, implantada, como é sabido, em 5 de Outubro de 1910, no seu ataque às instituições religiosas, proibiu os estabelecimentos de ensino confessionais. A escola de S. Francisco foi fechada em 1911, sendo arrolados todos os seus mobiliários e bens, que ficaram lacrados durante mais de um ano.
Ainda guardo na memória alguns casos pitorescos passados comigo nesse tempo. Um dia, quando eu saía da escola, um rapazito muito espertalhão, o Joaquim Caleira, filho único, que morava na Rua Nova, meteu-se comigo sem motivo algum e empurrou-me, começando a cantar uma cantiga que me fez chorar e que nunca mais esqueci:


“Nas escadas de S. Pedro
que S. Francisco cobiça,
no lugar de cada cedro
planta-se lá uma nabiça”.


Como eu conhecia a razão daquela cantiga, chorei de verdade. Quem veio em meu auxilio, quem veio por mim, impondo-se ao rapaz, foram os Santas, que também andavam na escola, e que eram meus colegas: o Manuel, o António e o Artur. O Manuel Santa de tal modo deitou mão ao rapazito, que o fez girar, amedrontado.

A família Santa 

José Soares Santa (Camarão)
Acontece que os três rapazes eram os irmãos mais velhos de José Soares Santa (Camarão), que foi campeão de boxe em Portugal, e que nasceu a 25/12/1902 ali, na Rua Visconde de Ovar, onde a rua atravessa o largo da Poça. Sua mãe, Josefa Santa, cozia pão para fora, e, em outros períodos, também fabricava roscas. Era casada com José Santa Camarão, que trabalhava em Lisboa nas fragatas. Bem conceituado pela sua seriedade, e bem adestrado no seu serviço, foi fragateiro toda a vida. Logo que os seus filhos, aos treze ou catorze anos, faziam o segundo grau, levava-os para Lisboa para trabalharem nas fragatas.
José, o mais novo, o futuro boxeur, já ao nascer era excepcional. Segundo dizem, veio ao mundo com um tamanho invulgar, de tal modo que todos os vizinhos fizeram romaria para o verem. Criado sem doenças, foi, bem novo, posto na escola de S. Francisco, ali a dois passos de sua casa, vigiado e amparado pelos irmãos. Tive-o como colega. Era um companheiro bom e amigo. Um pouco tímido e bastante sossegado, não gostava muito de estudar. Apesar do seu tamanho, preferia as brincadeiras infantis. Naquele tempo era vulgar fazerem-se papagaios, ou estrelas de papel, com um rabicho de trapos e um cajão de brim. Durante horas, 4 ou 6 crianças entretinham-se santamente a manipular e a colar pedaços de papel fino, cor-de-rosa. Era a brincadeira preferida do José.
Muitas vezes o vi, rapaz dos seus onze anos, a ajudar a sua mãe, Ti Josefa Santa. Um dia em que fui levar-lhe a farinha para nos cozer uma broa, lá estava o Zé a amassar numa e noutra maceira.

Desmesuradamente alto, de mangas curtas e com um lenço que a mãe, por motivos higiénicos, lhe atara à cabeça, o bondoso Zé estava excêntrico de verdade! Quem havia de dizer perante aquela figura de menino estranho, que estava ali um futuro campeão que ergueria bem alto o nome de Ovar e que entusiasmaria as multidões com os seus murros colossais. (Conta-se que um adversário viria a sucumbir após um dos seus combates).
Com os meus oitenta e tanto anos, não me sai da memória o José Santa Camarão, um homem que seria tão falado, tão desejado, tão admirado, ali ao pé de sua mãe a ajudá-la carinhosamente, mostrando que tinha um bom coração e que aprendera bem as lições da Escola de S. Francisco de Sales.
Devido ao seu tamanho e força, o pai levou-o bem cedo para Lisboa, a substituir um irmão que se tinha “pisgado” para o Brasil. Feito fragateiro por obrigação na idade de crescer, dia a dia se tornava mais corpulento e grandalhão, características que o impunham na faina do mar, tornando-se, agora, fragateiro por gosto, familiarizado na vida das embarcações e respeitado pelos patrões e companheiros.
Verdadeiro S. Cristóvão tinha, na verdade, uma alma de criança. Era um bom.Certo dia, a sua vida mudou. Foi quando, faltando por doença, no Coliseu dos Recreios, um lutador de boxe, o empresário Manuel Grilo o preparou para combater. Foi o início de uma carreira fulgurante. Alexandre Cal, do Porto, convenceu-o a deixar definitivamente as fragatas. Era o ano de 1921.
A fama que granjeou nos anos imediatos, como Campeão de Portugal, fê-lo partir para o Brasil em 1926, onde fez fortuna. Ao regressar a Portugal, trouxe um treinador exclusivo, de nome Sebastião. Porque vivia com os pais, em Ovar, arrendou uma outra casa para se treinar.
Um contrato para os Estados Unidos reteve-o durante bastantes anos em terras americanas, onde casou e onde não foi feliz na carreira de lutador, devido ao pouco escrúpulo dos seus managers. De novo no Brasil, ali realizou, em 1934, o último combate oficial, que perdeu. Desiludido, regressou a Ovar. A própria mulher, por não se ambientar com os ares vareiros, preferiu voltar à sua pátria. O filho do casal, de nome Arnaldo José, por cá ficou a criar-se, seguindo, mais tarde, para a América, numa das vezes em que a mãe se deslocou a Portugal.

CAMPEÃO DE PORTUGAL

Em 1925, Santa Camarão era Campeão de Portugal em todas as categorias. Dos 19 combates em que participou, ganhou 17, perdeu 1 (por pontos), com Humbeeck, no Porto, e viu outro anulado, em Lisboa, com Barrick.
Contratado, em 1926, para o Brasil, onde esteve 3 anos, quase sempre vitorioso, regressou a Portugal em 1929, vencendo então Humbeeck (ao 6.º assalto, por K.O.) e Barrick (ao 2.º assalto, por K.O.).
Em 5 anos, o seu palmarés era impressionante: Em 38 combates, 31 vitórias, 5 derrotas (por pontos) e 2 nulos.Horácio da Velha, outro campeão nacional, afirmou que José Santa tinha um coração maior que o próprio corpo.
Pelos anos 30, o cinema imortalizou-o em luta com os campeões do mundo Max Baer e Primo Carnera, no célebre filme “Amor e Boxe”, sobre a vida do primeiro daqueles gigantes dos ringues.
Diz-se que num combate em simultâneo, realizado no Furadouro, Santa Camarão destroçou, em cinco minutos apenas, e perante o gáudio dos seus conterrâneos, que o acicatavam, os lutadores portuenses David Martins (King Kong) e Aníbal Abreu.
Ovar aguarda a melhor hora para a homenagem que lhe é devida. Talvez 1984, meio século após o abandono definitivo dos ringues…

UMA HOMENAGEM QUE TARDA

Cada vez mais só, o José Santa abriu, em sua casa, um café, que pouco tempo durou. A sua presença em alguns corsos do Carnaval de Ovar, ao lado do seu amigo João Gomes Costa, constituía sempre motivo de admiração e graça.
Em 5 de Abril de 1968 foi o seu último e definitivo combate. Agora com a morte. Perdida a peleja, foi a sepultar no cemitério de Ovar, onde jaz quase esquecido dos seus conterrâneos.


Campa onde repousa Santa Camarão
(Cemitério de Ovar)
Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Agosto de 1982)