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22.2.12

Colégios da Estação de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2007)
TEXTO: Isabel Almeida Ferreira
Isabel Almeida Ferreira

Da Dr.ª Isabel Almeida Ferreira, ilustre vareira residente na Póvoa do Varzim e sempre atenta às notícias da sua terra natal, recebemos uma amável carta com achegas ao artigo intitulado “Colégios da Estação de Ovar”, assinado pelo P.e Pinho Nunes e publicado na edição de 1 de Abril de 2007. [Ler artigo em baixo]
Com o seu escrito, a Dr.ª Isabel Ferreira pretende “rectificar um detalhe (de pouca monta) em nome apenas do rigor histórico da informação, e acrescentar algo que no artigo não vem referido”.
Estado actual do antigo Colégio Júlio Diniz, no Largo da Estação, Ovar
O edifício onde funcionou o Clégio de N.ª Sr.ª da Esperança e depois uma fábrica de confecções pertenceu ao meu avô paterno, cujo nome completo era José António Rodrigues de Almeida, conhecido, sim, por “Almeida dos Vinhos” (porque negociava e era proprietário de um armazém de vinhos, contíguo ao Colégio). O meu avô nasceu em Maceda, e vivia em Ovar, num casarão de esquina, que ele comprou ao Padre Luzio, rente à passagem de nível da linha-férrea, em direcção a S. João de Ovar. Além do negócio dos vinhos, o meu avô tinha também a Agência de Viagens Almeida, onde hoje se encontra a Agência Delmar (aliás, a ele comprado pelo Sr. Delmar).
Em Válega, vivia o irmão do meu avô, Manuel Rodrigues de Almeida, seu sócio dos vinhos, e também nascido em Maceda.
No tempo em que frequentei o Colégio (entre 1958 e 1962) ele era um estabelecimento de ensino exclusivamente feminino. Os rapazes frequentavam o Colégio Júlio Diniz, instalado num grande edifício frente à estação de Caminhos-de-ferro, este edifício pertencia ao meu avô materno, Manuel Ferreira Soares, juntamente com mais dois sócios (a sociedade era conhecida por Soares Amaral & Cia.) que tinham um comércio de material de construção civil, precisamente onde se encontra hoje a “Casa Coutinho”.
Na altura, eu era uma adolescente com fantasias e vaidades, como todas as adolescentes, e achava interessante ter um avô “dono” do Colégio das meninas”, e o outro avô “dono” do Colégio dos rapazes. Isto não me fazia nem melhor nem pior do que as outras. Apenas apresentava-se como um saudável “despique” entre os meus dois queridos e saudosos avós, e eu entre eles, a não atinar com qual dos dois colégios era o mais “bonito”.
Colégio Júlio Diniz (Largo da Estação, Ovar)
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE MAIO DE 2007)

ENDEREÇO PARA COLOCAR NUMA BIBLIOGRAFIA
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/02/colegios-da-estacao-de-ovar.html

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Colégios da Estação de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/04/2007)
TEXTO: António Pinho Nunes

Pode chamar-se-lhes assim. De facto, estão naquela área, um a Norte e outro a Sul.
O Dr. A. Lamy refere-se a este estabelecimento de ensino, bem como aos demais que existiam em Ovar, nos 2.º e 3.º vols. da “Monografia de Ovar” e no livro “Datas da História de Ovar”.
O Colégio Júlio Dinis esteve instalado num grande edifício frente à Estação, da parte Norte. Na esquina do prédio está a “Casa Coutinho”. É curioso notar que, do nome do colégio, pintado na fachada, resta apenas o nome “Diniz”.
Antigo colégio de N.ª Sr.ª da Esperança (Ovar)
A sul do edifício da Estação, frente à gare, está o prédio em que funcionou o Colégio de N.ª Sr.ª da Esperança. Antes que se apague totalmente o que está escrito na fachada, aqui fica o registo fotográfico. Assim, do lado direito da varanda, lê-se: “Para Meninas e Rapazes”, do lado esquerdo “Confecções”, por baixo da varanda: “Formação de Nossa Senhora da Esperança” (por cima teria “Colégio”). Funcionou aí uma fábrica de confecções, depois do Colégio. O edifício pertencia a António Rodrigues de Almeida, mais conhecido por “Almeida dos Vinhos”, de Válega, proprietário de um armazém de vinhos contíguo.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE ABRIL DE 2007)

ENDEREÇO PARA COLOCAR NUMA BIBLIOGRAFIA
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/02/colegios-da-estacao-de-ovar.html

14.9.10

O encerramento do Colégio das Doroteias em Ovar (1910)

TEXTO: Madre Virgínia Roque

Depois de um primeiro artigo (“João Semana” de 1/4/1984) em que se contou a fundação, em 1897, do Colégio dos Sagrados Corações, vamos hoje lembrar um capítulo doloroso na vida daquela instituição, ou seja, a sua extinção compulsiva e a retirada dramática das Religiosas.
Estas descrições são feitas pela Madre Virgínia Roque, protagonista de todos os acontecimentos, e as que hoje publicamos estão transcritas num caderno policopiado da Congregação das Doroteias, da página 74 a 78, sendo-nos cedidas pela Irmã Lurdes Maia, do Colégio da Paz, no Porto.

RENOVAÇÃO DE VOTOS – A SAÍDA

O Ministro da Justiça Dr. Afonso Costa cumprimentando as Irmãs de S. José de Cluny

Depois de proclamada a República, escreve a Madre Virgínia Roque, pensei em mandar sem demora as Irmãs para casas de confiança que se tinham oferecido para as receber enquanto as famílias as não viessem buscar. Antes porém de nos separarmos, reunidas todas ao pé do Tabernáculo, renovámos os nossos votos e fizemos a Sagrada Comunhão no meio de lágrimas. Tirámos, depois, o nosso querido hábito, vestindo roupas que nos tinham oferecido famílias amigas, e na maior angústia começámos a dispersar-nos.
Em 10/10/1910, escreveu a Madre Virgínia à Madre Provincial a carta seguinte: «Minha querida Madre: Abraço-a no S. S. C. de Jesus.
– Deus lhe dê a força precisa! Sem mais peço-lhe que me diga, por qualquer meio, ainda que seja um próprio, se posso separar as Madres, isto é, ficar uma só em casa de confiança. Não posso mais; ainda não sofremos senão o susto, mas a todos os instantes espero os últimos sacrifícios. Se vai alguém para Itália diga-me, minha boa Madre Provincial. N. S. nos ajude. O que será de nós?»
Dias depois, escreve: “A nossa casa está em perigo. Vamos ver se ao menos salvamos a B…Deus lhe pague a consolação que nos deu mandando-nos este anjo (a postulante mandada de casa em casa com as instruções da M. Provincial) dar-nos notícias. Eu disse-lhe tudo e ela dirá a V. R. o que se tem passado, porque por escrito não é possível nem tenho cabeça.


Religiosas saindo (Illustração Portugueza, 30/1/1911)

A primeira a sair, por ser italiana, foi a Madre Pompei, a quem com a Madre Maria José Sousa Alvim, recebeu em sua casa a nossa antiga educanda Glória Carvalho.
Mais tarde retirou-se a M. Sousa Alvim para a sua família, e em seu lugar ficou a Madre Vicência Cardoso, até ir também ela para casa de um irmão.
Do mesmo modo se foram alojando as outras irmãs, ficando eu no colégio com a Irmã Antónia Vaz, cozinheira, e com a Madre Margarida Saraiva, que insistiu em me acompanhar até ao fim do sacrifício para me ajudar no que fosse preciso…

A EXPOLIAÇÃO

Continua a Madre Virgínia:
As autoridades procuraram imediatamente saber do conteúdo do testamento e inventário do falecido Sr. Padre João Saborino, e principiaram logo o arrolamento das quintas pertencentes à casa, impedindo a venda dos produtos e intimando com ameaças os caseiros que não pagassem as rendas. Muitas pessoas aconselharam-me que saísse para evitar insultos, mas entendi que devia esperar a chegada da Madre Joaquina Gomes, proprietária da casa. Chegou ela depois de alguns dias de ansiedade, e sentimo-nos então mais fortes para o que pudesse seguir-se.

INTERROGATÓRIOS E PESQUISAS - ADMINISTRADOR IMPORTUNO

Durante a noite íamos mandando para fora o que nos era possível, deixando apenas a mobília que fora do Sr. Padre João, porque os papéis e livros de importância, assim como as pratas, já antes da República se tinham posto em lugar seguro, porque havia tempo que está se receava.
Quando o administrador, acompanhado do seu Secretário, me fez o primeiro interrogatório, achavam-se comigo só as Madres Gomes e Saraiva. Interrogou-me sobre o número, idade e ofícios das Irmãs, tempo da sua profissão religiosa e outras mil impertinências.
Respondi que, quanto às Religiosas, tendo-se elas já retirado do Colégio, não o podia satisfazer, e, quanto a mim, tinha abraçado a vida religiosa no estrangeiro, para onde voltaria se no meu país não me fosse permitido seguir a minha vocação.
Como era homem de sentimentos baixos, dirigiu-me algumas perguntas atrevidas.
Naquela noite tratei de despachar para a estação de Estarreja diferentes malas com alfaias da capela e roupas, por temer que seriam apreendidas na de Ovar; mas ninguém se queria responsabilizar pela sua condução, até que apareceu um homem que, por uma grande quantia, aceitou o transporte. Era uma hora depois da meia noite. Avisado do que se passava, veio logo no dia seguinte o administrador exigir que lhe dissesse para onde tinha feito o despacho; e eram tão ameaçadoras as suas maneiras, que, por um momento, julguei que iria para a cadeia. Respondi que, tendo as Irmãs saído, tinham pelo menos direito às suas roupas, e que não tendo nós procedido de encontro ao decreto, não podiam obrigar-nos ao que nele não vinha especificado.
Fez uma busca a tudo, e deu ordem que nada saísse. Felizmente a casa estava já quase vazia, e até as imagens da capela, que eram um encanto, tinham sido retiradas, entregando-se a quem as tinha dado.

Religiosas em trajos seculares no Posto de Desinfecção do Arsenal

Das outras casas chegavam-nos notícias incríveis, de horrorosas que eram, mas que vinham aumentar a nossa grande consternação, quando um dia de manhã se nos apresenta a Irmã Ana Maria Reis, vinda de Lisboa, onde partilhara a sorte das mais no Arsenal. É impossível descrever a impressão que nos causou a sua visita e as lágrimas que chorámos com o que lhe ouvimos. Mas havia graves inconvenientes em conservá-la, e com grande mágoa nossa lá a deixámos ir para sua casa.
Tinha ela apenas saído, quando nos aparece a Irmã Isabel Manso, chorando e instando por não voltar para a casa onde fora colocada. Mas era conhecida. E, como se não permitia estarmos juntas mais de três, eu não sabia onde colocá-la.
Nesta angústia, aparecem-nos, disfarçadas, as Irmãs Maria José Costa Nunes e Ana Rodrigues, que vinham pedir notícias. Recebi-as como enviadas do céu, e pedi-lhes que levassem a outra Irmã. Compreendendo o motivo da minha aflição, assim o fizeram, saindo do colégio sem demora.
Poucos momentos depois entrava outra vez o administrador, o qual, sem esperar um instante, principiou nova pesquisa sem deixar canto por visitar.
De tudo suspeitava, e até aos montes de palha que tinham ficado das colheitas da Quinta queria examinar, declarando que devíamos ter em casa uma Irmã que, havia pouco, atravessara a vila e se dirigira para o colégio. O secretário, aparentando interessar-se por nós, pedia que não negássemos a Irmã, para não sofremos algum dissabor.
Afinal lá se foram, depois de muitas ameaças, deixando-nos bem fatigadas. Graças a Nosso Senhor nunca faltou, com eles (dissabores), a coragem necessária; mas, passada a ocasião, o abatimento fazia-se sentir extraordinariamente.

SUSTOS DOS AMIGOS

Correu voz na vila que se ia proceder a uma busca em todas as casas onde se suspeitava haver objectos do colégio. O susto das famílias foi enorme, e nessa noite quase todas nos quiseram restituir o que tinham em depósito, inclusivamente as imagens. Foram de trabalho imenso e de verdadeira agonia aquelas horas, e nem sei como não sucumbi de todo. Pedi que, ao menos, nos guardassem alguma coisa que não desse tanto na vista; mas, sem esperarem que alguém nos auxiliasse a meter dentro de casa o que traziam, tudo nos deixavam à porta, móveis e caixotes.
No dia seguinte efectuou-se a busca nas famílias suspeitas, sofrendo todas muitos incómodos e grosserias.
Tínhamos de novo connosco, no Sacrário, para nosso conforto, o hóspede Divino quando, pelas 10 da manhã, estando nós na capela, se nos apresenta mais outra vez o administrador, o qual, com o seu conselho, nos vinha intimar a saída imediata. Respondi que sairia, visto ser obrigada, mas que a Madre Gomes, como proprietária, tinha direito a continuar ali, que tínhamos em casa o Santíssimo, e que desse ordem para o pároco o vir buscar. Veio este em pessoa, e em menos de um quarto de hora era Nosso Senhor transportado para a freguesia (Igreja), com grande impressão da vila. Saí de casa com a Madre Saraiva, a qual tomou sempre parte em todos os interrogatórios, buscas e trabalhos. Acompanhava-nos uma educanda, filha de um republicano, que tínhamos conservado por conselho do próprio pai, para evitar insultos.
No caminho, outra aluna, Maria da Conceição Carvalho, nos veio oferecer sua casa, na qual estivemos um mês a Irmã Vaz, a Madre Saraiva e eu. A Madre Gomes, como eu pedira ao administrador, ficara no colégio. Mas teve também de sair com a criada depois de um terrível interrogatório antes de principiar o arrolamento, durante o qual não queriam ninguém no colégio. Tinham o lume acesso e a refeição preparada; mas esta ficou para quem eles quiseram. Recolheu-se ela a casa de uma antiga aluna com quem esteve algumas semanas até poder ir para Vilar (Porto). Eu, por minha parte, notando que a família que nos hospedava começava a inquietar-se com os boatos que corriam contra quem hospedava religiosas, tratei de alugar na vila uma pequena casa donde pudesse ir seguindo os acontecimentos, chamar caseiros e receber rendimentos com o auxílio de um óptimo advogado. Ali estive de 15 de Novembro a 22 de Fevereiro, dia em que embarquei para a América do Norte com a Madre Saraiva e a Irmã Maria Castro.
É-me impossível exprimir a minha satisfação ao receber a ordem de partir com minhas queridas irmãs, depois de tão longos meses de aflição e susto.

Texto enviado pela Irmã Maria de Lourdes Maia, do Colégio da Paz (Porto)

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 e 15 de Julho de 1984)

7.9.10

Fundação do Colégio das Doroteias em Ovar (1897)

A propósito da canonização de Santa Paula Frassinetti [na imagem], grande educadora do século passado e fundadora das Irmãs de Santa Doroteia, achamos de interesse a publicação das notas inéditas que se seguem, extraídas de um caderno policopiado daquela Congregação Religiosa, e referentes à fundação do Colégio dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria de Ovar, aberto em 21/10/1897 e encerrado a 8/10/1910. Pelo interesse histórico da descrição, esperamos publicar em seguida as notas referentes ao período de 1900 a 1910, ano da sua extinção compulsiva pelo Governo da República. (P. B.)

Nos últimos anos do século XIX, um venerando sacerdote de Ovar, o Padre João de Oliveira Saborino, já de idade avançada, pensou empregar os seus avultados bens de fortuna numa obra de beneficência em proveito da sua terra natal. Enquanto meditava na modalidade de beneficência que a fundação adoptaria, concebeu o projecto de construir um hospital para velhos, que entregaria às Irmãzinhas dos Pobres (1).
O Padre João Saborino conhecera as Irmãs Doroteias em Vilar (Porto), onde fora capelão, e conhecia, sobretudo, a Madre Ana Barbosa, sua conterrânea. Informada esta Madre dos planos do sacerdote, falou-lhe na fundação de um colégio para meninas de todas as condições sociais. Durante dois anos, o Padre Saborino estudou a proposta, e em 1897 decidiu chamar as Irmãs para a abertura dum colégio.
Quando estavam as paredes do edifício levantadas, a Madre Provincial Luísa Trabucco deslocou-se a Ovar para aí dirigir a divisão dos compartimentos, de acordo com a finalidade da casa. Era a primeira fundação cujo edifício se construía de raiz, e daí o poder obedecer a uma planta traçada pela Madre Provincial.
Um manuscrito anónimo, conservado no Arquivo da Casa Provincial, descreve esta visita da Madre Trabucco a Ovar com duas Irmãs cujos nomes não menciona. O ponto de partida foi Vilar, e o trajecto, percorrido de comboio. Na estação, a esperá-las, “duas senhoras num coupé em que caberiam, quando muito, três pessoas (…)”. Os solavancos do carro, por caminhos quase intransitáveis, atiravam as ocupantes umas contra as outras, em risco sério de “quebrarem as cabeças”, diz o manuscrito. Chegadas a casa do Padre Saborino, encontraram a mesa posta para jantarem (2), e só depois de um passeio de"char à bancs, até à praia, a cerca de uma légua de distância", foram visitar a construção do colégio.
O edifício levantava-se no meio de um extensa cerca e compunha-se de três corpos unidos entre si “numa arquitectura elegante e cómoda” que soubera tirar magnífico proveito do ar e luz circundantes. Depois de combinarem a divisão interna da casa, sentaram-se junto do grande poço aberto na quinta e aí discutiram as cláusulas da fundação que, da parte do Padre João Saborino, se reduziam a querer somente que ali sempre funcionasse uma escola para crianças pobres, sem exigir qualquer garantia material para si.
Uma parte da casa estaria habitável no princípio do ano lectivo 1897/98.
A 18 de Outubro de 1897 no comboio do norte, saíram de Lisboa para Ovar a Madre Ana Barbosa, como Superiora, Sor Guilhermina Sarmento e a Irmã Amélia Duque. Chegaram à estação de Ovar no dia seguinte, às 6h da manhã, e aí as esperavam duas senhoras, uma irmã e outra prima da Madre Barbosa. Dirigiram-se logo a casa do Padre Saborino, onde almoçaram. Sor Sarmento tinha continuado no mesmo comboio para o Porto, acompanhada da postulante Rita Figueiredo, que seguia para o Sardão. De Vilar trouxe a Irmã Gonçalves, destinada também à fundação, chegando ambas a Ovar pelas 13h do mesmo dia.
De tarde, as Irmãs entraram na sua nova casa, ainda em obras. O primeiro trabalho a que procederam foi o da abertura dos fardos trazidos de Lisboa com móveis, roupas, livros, loiças, utensílios de cozinha. Nesse dia, a ceia, mandada pelo Padre Saborino, foi servida em cima dum caixote, por não haver ainda mesas.
A inauguração da casa só pôde efectuar-se a 21 de Outubro. Os dias que mediaram desde a chegada das Irmãs foram ocupados nas limpezas mais urgentes, a que se associaram as zeladoras do Apostolado da Oração, de que o Padre Saborino era director, que espontaneamente se ofereceram para esfregar soalhos e lavar vidros. Ainda as mesmas “ornaram com bandeiras e auriflamas a fachada do edifício” para a inauguração.
No dia 21 chegou do Porto, para benzer a casa,“o cónego da Igreja Lauretana, Padre Ilídio da Costa”, grande amigo do fundador. Vinha com ele sua mãe e um sacristão da Igreja de S. Bento. No mesmo comboio das 9h da manhã chegaram as Superioras do Norte: a Madre Ana do Espírito Santo Morais, Superiora de Guimarães, a Madre Maria do Carmo Cabras, de Vila do Conde, acompanhada pela Irmã Miguel, que devia ficar cozinheira em Ovar, e a Madre Luísa Cervetto, do Sardão, acompanhada da Madre Teresa Sá.
A bênção da casa começou pelas 10h da manhã. Acolitavam o cónego Ilídio da Costa o Padre Saborino e outros eclesiásticos por ele convidados. Presentes, também, os zeladores do Apostolado da Oração, com opas e tochas acesas. Por fim benzeu-se a capela, depois do que o mesmo oficiante celebrou o Santo Sacrifício, a que assistiu numeroso clero e muito povo, que enchia a capela e corredor contíguo. Os operários que construíram a casa homenagearam o Padre Saborino, convidando duas bandas de música para tocarem à Missa. A alocução foi proferida pelo cónego Ilídio, que exaltou a obra do fundador em favor dos seus conterrâneos. Cantou-se, seguidamente, o Te Deum, e, de tarde, houve bênção solene do Santíssimo Sacramento. Estava inaugurado o colégio dos Sagrados Corações de Jesus e Maria, como foi chamada a casa de Ovar.
A abertura das aulas fez-se no dia 3 de Novembro. O colégio começou a funcionar com cinco alunas semi-internas. Ficou mestra de estudo Sor Sarmento; de trabalho, a Irmã Duque. A ”aula externa” abriu com cinquenta alunas. Do estudo e trabalho foi encarregada a Irmã Gonçalves, ajudada pela irmã Duque.

Algumas alunas do Colégio das Doroteias com professores e amigos da Instituição
(Foto extraída do "Dicionário da História de Ovar", de Alberto Sousa Lamy)
A Casa, nos seus inícios, não possuía proventos para se governar autonomamente. Quanto às Irmãs chagaram, o Padre Saborino deu-lhes 50 000 reis para as primeiras despesas, e responsabilizou-se por pagar anualmente a quantia de 300.000 reis até o colégio auferir os lucros necessários para a sustentação das Irmãs.
O acolhimento da população não podia ter sido mais favorável. Contudo, o meio social, pouco culto, não favorecia nem fazia pressagiar grande desenvolvimento ao colégio, sobretudo quanto as alunas internas.
Com grande concurso de crianças deu-se princípio à Obra das Catequeses, no dia 18 de Janeiro de 1898, na Igreja Paroquial.
Em Outubro do mesmo ano, veio como Superiora para Ovar, a Madre Joaquina Gomes. Durante o seu governo foi erecta a Congregação das Filhas de Maria, depois de um retiro preparatório pregado pelo Padre Morais (Sacerdote Jesuíta), de 17 a 21 de Janeiro de 1899. No dia de Santa Inês desse ano foram admitidas cinquenta e oito aspirantes a Filhas de Maria. Como director da Congregação foi nomeado o Padre Magalhães, S. J., que passou a deslocar-se mensalmente do Porto a Ovar para fazer as reuniões prescritas pelo Manual da Congregação.
Entretanto, a Superiora, atendendo talvez ao exíguo número de Irmãs que compunham a comunidade, julgou conveniente suspender o ensino da catequese na igreja paroquial, assim como não permitiu que as Irmãs continuassem a acompanhar as alunas externas à Missa nos domingos.
Desconhecem-se pormenores, mas sabe-se que, a quando da sua visita a Ovar, nos fins do ano 1899, a Madre Provincial Morais ficou na disposição de mudar a Superiora, a Madre Gomes: “(…) O Padre João Saborino está muito descontente e pediu de viva voz, o que já me tinha pedido várias vezes por escrito, que levasse aquela Superiora porque não sabia governar, embora fosse muito santa”. Foi escolhida, provisoriamente, para a substituir, a Madre Almeida Silvano, que partiu para Ovar nos fins de Fevereiro ou princípios de Março de 1900. No fim do ano, a Madre Provincial escrevia para Roma: “(…) Já visitei a casa de Ovar que, graças a Deus, vai indo perfeitamente e o Padre Saborino muito contente com a Madre Almeida Silvano; já mandou construir, à sua custa, um outro andar para as alunas internas”.

O Colégio das Doroteias, aberto a 21 de Outubro de 1897 e encerrado 8 de Outubro de 1910, já com o acrescento para as alunas internas. Com a saída das Irmãs após a implantação da República, o edifício passou a ser a sede da Santa Casa da Misericórdia de Ovar

A Madre Provincial deparou com uma lacuna "(…) e era de não ensinarem a doutrina às crianças, o que deixei recomendado”. Voltou, portanto, a abrir a catequese.

A capela do colégio polarizou a piedade dos arredores: acorria muita gente para tomar parte na Santa Missa, na Comunhão das primeiras sextas-feiras, nas devoções dos meses de Maria e do Sagrado Coração de Jesus.
Em Junho de 1900 foi pregado um retiro para as Filhas de Maria, mas nele poucas participaram devido aos trabalhos dos campos.
No fim do ano de 1900, as alunas semi-internas eram trinta e sete; as internas sete (o internato começou com duas alunas em Maio de 1899); quanto às alunas gratuitas, embora estivessem inscritas noventa, assistia às aulas uma média de cinquenta. A frequência destas era bastante irregular: no inverno, atingia o ponto máximo; a partir de Maio, a escola era trocada pela praia (3).
Neste mesmo ano, há que assinalar, em 10 de Abril, a morte da primeira Superiora da casa (e a quem se ficou devendo a fundação), a Madre Ana Barbosa, que santamente faleceu em Ovar, num acto de perfeito abandono no Santíssimo Coração de Jesus: “Nas Vossas Mãos e no Vosso Divino Coração entrego a minha alma e o meu corpo” foi a sua oração até ao fim, até ao momento da resposta divina ao seu humilde apelo.

Notas:
(1) As Irmãzinhas dos Pobres têm casa no Pinheiro Manso, à Boavista, no Porto.
(2) O jantar era (e ainda se chama nas aldeias), a refeição do meio-dia
(3) Nesse período, os trabalhos piscatórios atraíam ao Furadouro muitas famílias de Ovar

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Abril de 1984)

Leia AQUI um depoimento de Madre Virgínia Roque sobre o encerramento compulsivo deste Colégio, após a implantação da República (1 de Julho de 1984).