Jornal JOÃO SEMANA (01/02/2017)
TEXTO: José de Oliveira Neves
Depois de terminarem os festejos do Ano
Novo e do cantar das trupes de Reis, Ovar prepara-se para viver o Carnaval, que
é hoje um enorme cartaz de propaganda da nossa cidade, atraindo a ela muitos
forasteiros e foliões. Mas nem sempre foi assim.
As cegadas
Contaram-me algumas pessoas que viveram a sua juventude
nas primeiras décadas do passado século XX, que até aos anos 30 havia em Ovar,
pelo Carnaval, as cegadas, uma espécie de representação teatral de rua, com
versos musicados a criticarem certos acontecimentos que decorreram durante o
ano na nossa terra. Entre os vários factos criticados há um que não resisto a
descrever, por ser atual: Trata-se da execução da estrada de Ovar a Pardilhó.
Quando os nossos antepassados necessitavam de se dirigir
a esta e outras localidades vizinhas, bem como à Senhora de Entráguas,
caminhavam através dos pinhais que se estendiam a partir do antigo Matadouro do
Casal. Os políticos de então, sempre que havia eleições, prometiam ao povo
que, se ganhassem, mandariam construir a estrada. Mas nunca cumpriam o
prometido.
Na última metade do século passado, aquela via foi
finalmente construída. Mas enquanto isso não aconteceu, nas antigas cegadas de
Carnaval cantava-se ironicamente:
“A estrada de Pardilhó
Vai ser feita p’ra janeiro
Os carros vão-se arranjar
No Guilherme Serralheiro”.
A serralharia do Guilherme era na Rua Alexandre
Herculano, junto ao Passo do Encontro.
Os entrudos
Embora já tivesse escrito um texto no “João Semana” de 15
de fevereiro de 2002 fazendo alusão aos precursores do Carnaval de Ovar,
recordo agora como era o Carnaval da minha infância, composto essencialmente
pelos entrudos (hoje chamados mascarados), que desfilavam pelas ruas da vila,
dando-lhes bastante alegria desde o domingo gordo até à terça-feira de
Carnaval, também conhecida pelo dia do Entrudo.
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| Santa
Camarão (vestido de guerreiro), Fernando Alçada e o seu cunhado João Costa no desfile do domingo gordo de 1956, saído de S. Miguel |
Fantasiavam-se usualmente enfiando uma meia na cabeça ou
tapando a cara com um pano ou uma máscara, e algumas vezes caricaturando
certas figuras públicas. Vestiam-se com roupa velha de homem ou de mulher,
conforme o gosto de cada um, e alguns seguravam nas mãos placas com inscrições
de piadas, muitas vezes em verso, criticando certos acontecimentos na nossa terra…
No conjunto das brincadeiras mais hilariantes dessa
época carnavalesca destacava-se a do “rabo-levar”, que consistia em colocar um
rabo de pano ou de papel seguro por um alfinete nas costas do Entrudo, sem o
seu conhecimento, provocando imenso riso a quem assistia. Por vezes, os mais
jovens cantarolavam, ao lado dos mascarados: “Ó Entrudo cabeludo, sete saias de
veludo”.
No passeio do lado norte da Câmara, na Praça da
República, junto das antigas lojas do Teixeira e do Camarão, aglomerava-se
muita gente para os ver passar, e algumas pessoas atiravam para a estrada
rebuçados, que os rapazes tentavam apanhar, provocando grande confusão no
trânsito.
João Salvador (João da Vareirinha), pai do António
Salvador (Rei do Carnaval entre 1979 e 1983), era um desses habituais
atiradores de rebuçados.
O corso de domingo
Entretanto, os anos foram correndo, e noutras localidades
portuguesas já desfilavam cortejos carnavalescos, que estimularam alguns
conterrâneos nossos a porem também nas ruas da nossa terra um corso similar.
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| Carro do Bairro da Arruela (1952) |
No extinto jornal “Notícias de Ovar” costumavam encontrar-se três amigos, só um dos quais, o saudoso bairrista José Maria da Graça, era de Ovar. Os outros dois, Aníbal Emanuel da Costa Rebelo e José Alves Torres Pereira, eram naturais do Porto e da Póvoa do Varzim, respetivamente.
Nas suas longas conversas, estes amigos abordavam o tema
do Carnaval, admirando o entusiasmo do povo vareiro que, em grande número, se
fantasiava, em grupos isolados, nos dias de Entrudo. Porque não saírem em cortejo?
Com o apoio de António Coentro de Pinho, presidente da Câmara, e,
posteriormente, de outros ilustres ovarenses, os três começaram a organizar o
primeiro cortejo de Carnaval, formado em S. Miguel, de onde saiu em 1952.
Nos primeiros anos o cortejo desfilava apenas no
domingo gordo, com carros alegóricos enfeitados a cargo de comissões de
pessoas dos respetivos bairros ou de empresas locais.
O Carnaval sujo
Na terça-feira de Carnaval, por volta das 17h00, com anúncios
de morteiro, dava-se início ao chamado Carnaval sujo, onde muitos dos participantes
atiravam casca de arroz, serradura, farinha e outros produtos. Era no Largo
Serpa Pinto, em redor do chafariz do Neptuno, que essas brincadeiras atingiam
o auge, provocando as gargalhadas de quantos a isso assistiam.
Durou poucos anos esse tipo de divertimento, passando a
repetir-se na terça-feira o cortejo de domingo, conforme acontece nos nossos
dias.
O Carnaval de Ovar da minha juventude era diferente
daquele a que assistimos hoje. Sem ambições comerciais ou turísticas, não
possuía escolas de samba, nem outras imitações brasileiras, que hoje atraem à
nossa terra milhares de forasteiros e foliões. No entanto, embora fosse um
Carnaval caseiro, genuíno e espontâneo, também era muito alegre e divertido.Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de fevereiro de 2017)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/o-carnaval-da-minha-juventude.html




