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1.3.11

À descoberta do azulejo

Jornal JOÃO SEMANA (01/11/2002)
TEXTO: Fernando Pinto

O grupo de crianças que frequenta o ATL “Projecto Educando Valores”, da Paróquia de S. Cristóvão de Ovar visitou o Atelier de Conservação e Restauro de Azulejo da Câmara Municipal, situado na Rua Heliodoro Salgado, perto da Capela de Santo António. Este espaço, criado há cerca de um ano, tem como principal objectivo a preservação do azulejo de fachada da nossa cidade, já que Ovar ainda continua a ser um autêntico museu vivo desta arte milenar.

Isabel Ferreira recebendo a visita de algumas crianças no Atelier de
Conservação e Restauro de Azulejo da Câmara Municipal de Ovar

FOTOS: Fernando Pinto
“Tantos cacos no chão”, atirou uma das crianças, mal entrou no atelier. “As pessoas que tiverem azulejos doentes podem trazê-los para aqui”, explicou Isabel Ferreira (na foto), a técnica de conservação e restauro do “Hospital dos Azulejos”, acrescentando que estas placas – geralmente quadradas, de barro cozido, vidradas numa das faces, com desenhos pintados, que servem para ornar ou guarnecer paredes e fachadas de casas – não podem ser recuperadas de qualquer maneira. “O cimento-cola não é aconselhável para a colocação dos azulejos, porque não os deixa respirar. A argamassa que utilizamos aqui é composta de cal e areia, porque é mais resistente. A antiga é de saibro, por isso é que eles são retirados muito facilmente. Por vezes, fazemos a recuperação no local. A ideia é manter o original, mas, quando isso não é possível, fazemos réplicas”, acrescentou a técnica de azulejaria.


“Uma, duas, três, quatro, cinco cores. Tantas cores”, contaram todos com os olhos colados no azulejo. O que é um painel?”, perguntou um dos miúdos. “É um conjunto de azulejos”, respondeu outro.
Isabel Ferreira pegou num dos ladrilhos e mostrou a marca da trincha, que fica bem visível no azulejo quando este é pintado à mão, sem as pessoas terem a preocupação de o pintar muito certinho.
“Em todos os azulejos de Ovar nota-se esta marca”, revelou a técnica, atraindo mais a atenção das crianças, quando lhes mostrou o forno onde são cozidas as placas de barro.
A visita prosseguiu até todos estarem satisfeitos. Na próxima visita, Isabel Ferreira prometeu que estes meninos e meninas vão poder pôr a mão na massa e criarem os seus próprios padrões.


O “Hospital dos Azulejos”, como também é conhecido o atelier, para além de promover o acompanhamento técnico de intervenções nas várias áreas de património móvel e imóvel, tem também um banco de azulejos (depósito, conservação e distribuição de espólio antigo, adquirido por compra ou doação), produz réplicas de azulejos antigos e organiza ateliers articulados com as Escolas, nas áreas de “História do azulejo”, “Pintura e Manufactura de azulejos”, cerâmica em geral e olaria, entre outros.
Ovar começou a apresentar, a partir da segunda metade do século XIX, um bom número de casas cujas fachadas eram revestidas com azulejos, porque este material, além de ser resistente, de funcionar como isolamento térmico e de ser higiénico, dá outra vida aos edifícios. A “moda” veio do Brasil, trazida pelos emigrantes, e ficou. As fábricas do Porto, de Vila Nova de Gaia e de Aveiro também ajudaram a fixar o azulejo, não permitindo que esta arte de embelezar as fachadas e os interiores dos edifícios caísse por terra.

A origem do azulejo

O emprego deste material na ornamentação é antiquíssimo, sendo encontrado no Egipto há cinco mil anos.
Na Península Ibérica os azulejos têm origem árabe – a palavra azulejo deriva do termo árabe “Al zulej”, que significa pequena pedra lisa e polida – e surgiram a partir do século VIII. Há azulejos maravilhosos, de Norte a Sul de Portugal, muitos deles a precisarem de trato.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de novembro de 2012)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2011/03/descoberta-do-azulejo.html

22.12.08

Jóias de Azulejaria na Estação de Ovar - A persistência contra a displicência…

Jornal JOÃO SEMANA (01/06/1986)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Há uma década, preocupada com o mau estado de conservação da estação de caminhos de ferro de Ovar, a Junta de Turismo local conseguiu não só provocar o restauro do edifício, mas ainda evitar que se perdessem para sempre, como coisa inútil, algumas jóias artísticas da azulejaria ovarense.
O processo iniciou-se em 13/10/1976, na Direcção do Dr. José Macedo Fragateiro, através de uma carta ao Director da Região Norte da CP, em que se pedia, entre outras obras, “o restauro dos painéis em azulejo existentes na gare da estação desta vila, peças consideradas de certo valor e que convém preservar quanto antes”.
Após insistência, vem a resposta em 30/8/1977: Quanto aos azulejos artísticos, “dado o mau estado dos mesmos, quase em ruína os do lado da plataforma, não é possível, pelo menos nestes últimos, qualquer reparação”, aceitando que os primeiros sejam substituídos por outros com motivos vareiros e os segundos /os voltados para o Largo Serpa Pinto), caso a Junta de Turismo os queira conservar, poderão ser objecto de apreciação.
A Junta rejubila com esta decisão, pedindo, de imediato (6/9/1977), “que sejam preservados todos aqueles que ainda o mereçam, e que aqueles que vierem a ser retirados nos sejam cedidos para, em colaboração com o Museu de Ovar, serem reaproveitados”.Em 27/9, a CP (F. Ávila) insiste em que “não podem ser aproveitados os azulejos” para os fins em vista. Mas a Junta de Turismo, agora presidida por Afonso Themudo, não desarma, pedindo a visita de um técnico.
Novo e feliz capítulo se abre neste processo com a vinda a Ovar do Dr. Rafael Salinas Calado, do Museu Nacional de Arte Antiga, que dá preciosas indicações, e que confessa: – “Surpreendido pela riqueza de azulejos dessa Vila, manifesto o meu sincero entusiasmo pela obra que vêm realizando no sentido da defesa do seu património (…)”.Pelo que se depreende das referências displicentes e das intenções demolidoras da CP quanto a este assunto, é unicamente à então Junta de Turismo do Furadouro (e em particular ao seu dedicado funcionário José Maria Fernandes da Graça) que Ovar fica a dever a recuperação e a preservação dos artísticos painéis azulejados da Gare da nossa Estação dos caminhos de ferro, seis dos quais ficaram propriedade da Junta de Turismo e um na posse do Museu. (O único que saiu de Ovar, e que representa uma ponte ferroviária – Pego, Macinhata da Seixa, Oliveira de Azeméis –, foi entregue à CP, de acordo com o pedido feito por esta em carta de 18/12/1978, quando era preciso tomar uma decisão definitiva, por se terem já iniciado as obras de restauro da estação).
Todo o trabalho de arranque, colagem, marcação, encaixotamento, restauro e montagem (em caixilhos) dos azulejos importou apenas – pasme-se! – em 30 000$00. E pense o leitor que, na opinião dos responsáveis da CP, todo este espólio artístico estava condenado a ir parar a uma entulheira!

Questões de Arte à volta dos painéis
Para substituir os painéis removidos, tinha a nossa Junta de Turismo encomendado novos motivos pictóricos originais à Pintora vareira Beatriz Campos, que aceitou gostosamente o encargo, entregando os trabalhos para serem passados ao azulejo.
Lá estão, de facto, na gare da estação de Ovar, as reproduções dessas pinturas, mas com um senão: não consta nelas o nome da sua Autora. É que, embora a um leigo na matéria tudo pareça estar perfeito, à Artista não passaram despercebidos graves deficiências. E de tal forma ela sentiu a ofensa que proibiu que nesses registos figurasse a sua assinatura.

Lugar da Ponte Reada, Ovar. Em primeiro plano, "As Alminhas do Bacalhau"

Já em 1917, com os antigos painéis, surgira um problema idêntico, com a curiosidade de também se relacionar com artistas vareiros – Ricardo Ribeiro e seu filho António –, cujos trabalhos fotográficos, considerados de grande perfeição (na foto), terão sido também prejudicados com a transposição para o azulejo.
Isso mesmo nos é referido no texto “Azulejos da Fonte Nova”, publicado pelo historiador aveirense Marques Gomes no “Campeão das Províncias” de 21/7/1917, transcrito no “Litoral” de 28/2/1986, na secção “Arca de Antiguidades”, de Humberto Leitão.


"AZULEJOS DA FONTE NOVA
É enorme a azáfama que vai na Fábrica da Fonte Nova com a confecção de azulejos artísticos, a fim de se concluir uma importante encomenda do sr. conde de S. João de Ver, em que figura um largo e lindíssimo lambrim, para o seu palacete da Feira, puro estilo do séc. XVIII, com a reprodução das ilustrações dos “Lusíadas”, edição do Morgado de S. Matheos, e terminar o revestimento da estação de Ovar, obra de largo alcance pela beleza dos seus pameaux, que disputam primazia aos das de Aveiro, Estarreja e Granja, pois são executados, na sua maior parte, por soberbas fotografias dos srs. Ricardo e António Ribeiro, exímios fotógrafos daquela laboriosa vila.
A propósito dos azulejos já ali dispostos, e que, como os das demais estações com eles decoradas, mereceram há poucos dias o aplauso do pontífice máximo no assunto, hoje em Portugal, o sr. Jorge Colaço, estabeleceu-se há meses num jornal dali rija polémica, em que, quanto a nós, a vitória coube aos que brilhantemente sustentaram que, se nos pameaux havia senões, estes não eram devidos à estética expressa nas fotografias.

O revestimento de azulejos artísticos nas estações já referidas é um alto serviço que bem merece a consagração e louvor dos amigos da Arte e das coisas portuguesas, e em que cabe não pequeno quinhão ao desvelo e aptidões do sr. Duarte de Melo, distinto chefe da 5.ª secção de via e obras dos caminhos de ferro Portugueses, pois foi ele quem, da direcção da Companhia, conseguiu este grande melhoramento.
Os pameaux agora pintados são reprodução, tanto quanto possível fiel, dos lindos trechos de paisagem vareira, tais como Madria, Lavadeiras no lago da Madria, Moinho das Luzes, Açude no Casal, etc. tudo maravilhosamente, impecavelmente fotografado pelo sr. António Ribeiro.
Parabéns, pois, a Ovar e a todos os que concorreram para o embelezamento da sua estação ferroviária, e a que tão distintamente fica ligado o nome já vantajosamente conhecido da Fábrica da Fonte Nova."



Urge salvar os painéis que restam

Permanece ainda à vista na fachada poente da Estação de Ovar, no Largo Serpa Pinto, metade dos antigos azulejos fabricados na Fonte Nova (Fábrica Aleluia) em 1917.
Que são belos e expressivos, todos o constatamos.

Só que se encontram em estado de abandono, em contínua e lamentável degradação! Para que não se perca toda esta riqueza artística exigem-se novas providências por parte dos Pelouros do Turismo e da Cultura da nossa Câmara, uma vez que foi extinta a Junta de Turismo com a criação da Rota da Luz (ainda em fase de adaptação aos novos esquemas da Regionalização), ou, por que não, através da própria CP, agora, por certo, mais alertada e mais consciente da sua responsabilidade nestas delicadas questões do património cultural.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de junho de 1986)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2008/12/jias-de-azulejaria-na-estao-de-ovar_22.html

18.5.08

Fontes que choram de mágoa

Jornal JOÃO SEMANA (15/11/2002)
TEXTO: Fernando Pinto

A cidade de Ovar, para além do Carnaval e do famoso Pão-de-ló, também é conhecida por ser um Museu vivo do Azulejo.
Encontrámos, há dias, muitos painéis de azulejo num pranto que metia dó. Não, não foi numa dessas fachadas que acabam por ir abaixo depois de lhe serem retirados os cobiçados ladrilhos… Foi na fonte situada na Rua Dr. João Semana, perto das Luzes, fonte que agora está seca e cuja água conspurcada apenas sacia a sede ao lodo.

Fonte, que choras de mágoa,
Como tu é a dor do Mundo.
Começa num fio de água
E acaba num mar profundo.


Lindos versos, os que se encontram na quadra que faz companhia à fonte. Só é pena estarem, também eles, ao abandono, tapados por um mar de silvas, como se pode ver na foto.
Quem é que pode fazer alguma coisa pela frescura das fontes vareiras? Faltam ideias para acabar com este desmazelo? Que não seja por isso: primeiro, começávamos por limpar as silvas e o lixo ali depositado. E não é assim tão pouco! As quadras tornar-se-iam, deste modo mais legíveis, não tão “picantes” para quem as quisesse ler com os olhos e não com o auxílio das mãos desprotegidas.
Depois limpávamos os granitos, substituíamos as pedras partidas, picávamos a parede e colocávamos argamassas novas. Os azulejos que estivessem danificados seriam trocados por réplicas e procederíamos ao restauro dos “quase sãos” no próprio local, caso o cimento-cola que os segura deixasse, é claro. (É um erro colá-los com este material, porquanto a remoção torna-se, depois, quase impossível).
Para que não viesse a acontecer um acidente, principalmente com as crianças que se aproximam das nossas fontes, colocaríamos um gradeamento de ferro forjado, desse que embeleza algumas varandas vareiras. É que o perigo espreita a todo o instante… Depois, era só deixar a água correr. O resto dos procedimentos deixamo-los para quem sabe…
Fica aqui o nosso alerta para que olhem um pouco mais pelo nosso património.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE NOVEMBRO DE 2002)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/p/textos-editados-neste-sitio-172.html