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2.2.16

Manuel Freire no Museu de Ovar

Manuel Freire
Foto: Fernando Pinto
Jornal JOÃO SEMANA (01/07/2015)
TEXTO: Fernando Pinto

Manuel Augusto Coentro de Pinho Freire, filho dos professores João José da Silva Freire e Júlia Coentro de Pinho, nasceu em Vagos em 25 de abril de 1942, mas veio viver para Ovar com os seus pais aos três anos de idade.
No passado dia 19 de junho, o cantautor que imortalizou o poema “A Pedra Filosofal” de António Gedeão encantou a plateia do “À Palavra no Museu de Ovar”, evento dinamizado pelo vareiro Carlos Nuno Granja, atual membro da Direção desta instituição ovarense.

“Poucas pessoas podem reivin­dicar o facto de terem escolhido uma terra para si, e eu tive esse pri­vilégio... Escolhi Ovar como minha terra”, disse Manuel Freire no iní­cio de mais um À Palavra no Mu­seu de Ovar, evento literário que em setembro regressará, segundo adiantou Carlos Nuno Granja, com mais novidades.
Nas duas horas e meia em que esteve à conversa com os seus con­terrâneos, muitos dos quais amigos de longa data, o Trovador de Abril quis desenovelar algumas memó­rias da sua infância e adolescência que o marcaram pela positiva: “Há bocado, os mais atentos devem ter percebido que houve ali um peque­no momento de emoção ao abra­çar o Zé Maia [foto], porque estou num espaço que, como toda a gente sabe, muito deve ao pai dele... Eu acompanhei esta construção desde muito novo. Tive uma tia que mo­rou em frente e que trabalhou aqui uma série de anos”, lembrou Ma­nuel Freire.
Antes de a plateia entoar, no final da sessão do À palavra..., a Pedra Filosofal, uma das mais be­las cantigas da história da música portuguesa, Manuel Freire falou dos seus pais que vieram lecionar para Ovar (a mãe era de cá), da pri­meira casa onde moraram, na Rua Alexandre Herculano, onde mais tarde funcionou o infantário Alvo­rada e a Escola de Música Novos Sons, da sua escola primária, que ficava na Rua da Fonte, onde o seu pai lhe ensinou as primeiras letras, da outra sua moradia que ficava na Rua Dr. José Falcão, perto da Casa S. Luiz, onde o cheiro a Pão de Ló inundava as divisões da casa, e talvez por isso con­tinue a ser um apre­ciador dessa iguaria vareira.
Manuel Frei­re recordou ainda do “bilhar russo” do Café Parque, o tempo em que tra­balhou no ateliê de Luís Ferreira de Matos e as viagens a Itália que fez na companhia desse seu amigo escultor, e o GAV (Gru­po Atlético Vareiro), coletividade que ajudou fundar. “Era para se chamar Grupo Académi­co Vareiro, mas o Acadé­mico era uma palavra que só podia ser usada por as­sociações de estudantes...Eu penso que aquilo que sou, o devo muito a esses convívios no GAV”.

Ensaios no mar, ao luar
“Havia aqui um Sr. em Ovar, que tinha vindo de África. Esse Sr. chamava-se Mário Cascais e levava-nos para o Furadouro para nos inflamar a chama da Poesia e do Teatro. E dizia-nos versos à noite, em frente ao mar”, contou o convidado do À Palavra..., com a saudade estampada no rosto: “Até que surgiu a ideia de fazermos um espetáculo de teatro... Mário Cas­cais, enquanto encenador, escolheu duas peças, A Ceia dos Cardeais, de Júlio Dantas, e O Meu Caso, de José Régio”.

Manuel Freire à conversa com o Diretor do “João Semana”
Foto: Fernando Pinto

Os ensaios decorreram no chalé Matos, da família Lamy, ao sul do Furadouro, que do lado do mar já não tinha parede. “Acho que o Au­gusto, o António, a Estela, o Do­mingos, o João Natária, o Borges, acho que nenhum de nós se pode esquecer daquelas noites. Estar ali, debaixo da lua, a en­saiar teatro”, lembrou Manuel Freire.
Apesar das proi­bições da altura, a peça de José Régio foi representada por este grupo de amigos no Cine-Teatro de Ovar em 9 de janeiro de 1960.

“Pedra Filosofal”
“Eles não sabem que o sonho/ É uma constante da vida/ Tão con­creta e definida/ Como outra coisa qualquer (...)”.
Interpelado pelo jornal “João Semana”, Manuel Freire revelou que decidiu cantar estes versos de António Gedeão porque eram fan­tásticos, apesar de, curiosamente, António Gedeão não atribuir um grande valor literário a este seu poema. “Ele diz, no livro de me­mórias, que escreveu aquele poema a assobiar... E o meu comentário é que ele devia assobiar muito bem”.
Felizmente, Manuel Freire pen­sava o contrário, e achou que esta letra dizia coisas muito importan­tes, de uma forma poética e subtil, apresentando-a, em 1969, no pro­grama televisivo Zip-Zip: “E tão subtil era, que a Censura não pôs obstáculos nenhuns àquilo... Uma cantiga que fala de “passarola voa­dora, para-raios, locomotiva!!!”
E a cantiga passou, ficou no ou­vido das pessoas, que continuam a achar que a mensagem de António Gedeão é intemporal.
Manuel Freire é um cantor de intervenção, Uma voz que soltou a liberdade, como escreveu Manuel Catalão na revista REIS de 2005, editada pela Trupe JOC-LOC [leia AQUI o artigo]. Frequentou a Universidade de Coimbra, na altura em que se cantava o fado coimbrão debaixo das varandas. “Respeito muito as canções que falam das flores, dos passarinhos, do sol, das estrelas e do luar, e da amada à janela, mas eu na altura em que comecei a cantar achava que havia coisas mais importantes e mais urgentes para cantar, e, portanto, escolhi poemas que tinham algum conteúdo... Não sou autor de praticamente nenhuns textos que canto. Fiz meia dúzia de textos, mais para Teatro e para Cinema do que propriamente para canção, tirando Eles, que foi a minha estreia no meu primeiro disco. Infelizmente, assistimos hoje a um movimento semelhante ao dos anos 60, em que as pessoas são obrigadas a sair do país para tentarem ter uma vida digna”, disse, a terminar, Manuel Freire.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de julho de 2015)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/02/manuel-freire-no-palavra-no-museu-de.html

"ELES"
(Letra e Música de Manuel Freire)

Ei-los que partem
Novos e velhos
Buscar a sorte
Noutras paragens
Noutras aragens
Entre outros povos
Ei-los que partem
Velhos e novos
Ei-los que partem
Olhos molhados
Coração triste
A saca às costas
Esperança em riste
Sonhos doirados
Ei-los que partem
Olhos molhados
Virão um dia
Ricos ou não
Contando histórias
De lá de longe
Onde o suor
Se fez em pão
Virão um dia
Ricos ou não
(...)
Virão um dia
... ou não

26.4.12

Edwiges Helena Pacheco (1929-2012)

D. Edwiges em 24 de abril de 2010,
no Auditório da Contacto, 
com o Grupo Coral 4x4 da Academia
 de Artes Maria Amélia Dias Simões.
FOTO: Fernando Pinto
Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2012)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Grande artista e grande mulher.
Como artista, poderia ter ido muito longe numa carreira musical de sucesso. Porque também foi mulher, sacrificou a sua vocação artística em favor da sua família e da sua terra, a quem ofereceu muito da sua arte e do seu coração.
Ficará na história de Ovar como alguém que contribuiu de forma excecional para a cultura deste povo, sobretudo no campo da música, do ballet e do teatro.
Como Pároco, refiro também a sua disponibilidade e colaboração com a Paróquia, desde a sua Juventude, e dou testemunho da sua grande fé, bem patente na qualidade das letras e das músicas que compôs, ao longo de dezenas e dezenas de anos, para a quadra do Natal, muito contribuindo para o encanto e o prestígio da bela tradição dos Reis em Ovar.


D. Edwiges Helena Pacheco deixou-nos

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2012)
TEXTO: Aníbal dos santos Gomes

Ovar ficou mais pobre com a morte, em 18 de abril último, de uma das mais ilustres vareiras, Edwiges Helena Gondim da Fonseca Pacheco, que contava 82 anos.
Com um currículo invejável na música e na dança, iniciou os seus estudos musicais com sua mãe, a saudosa Maria Amélia Dias Simões (com curso superior de Piano do Conservatório de Música do Porto), continuando esses estudos no Colégio de Nossa Senhora da Paz, em Famalicão (Anadia).
Mais tarde, cursando Canto com a Professora do Conservatório do Porto D. Stella da Cunha, e sob a Direção do Prof. Álvaro Calado, fez parte do Coral do Conservatório (que tomou parte no Festival Mundial de Llangolhen, no País de Gales, onde se classificou em 2.º lugar), tendo sido seguida pelos maestros John Barbirolli e Gwen Williams, e tendo cantado na BBC de Londres.
Foi solista no Orfeão do Porto, sob a regência do maestro Nina de Andrade, cantou no Teatro Nacional de S. Carlos, sendo ouvida pelo cantor Gino Becchi e cursando o 1.º anos Superior de Canto no Conservatório de Música de Lisboa, onde trabalhou com o Professor Oliveira Lopes.
No Orfeão de Ovar foi solista, sob a regência de sua mãe, e, mais tarde, maestrina do mesmo Orfeão durante 17 anos, criando ali uma Escola de Música, o Coro Infantil, o grupo de teatro Infantil e o Ballet (em parceria com sua mãe).
Edwiges Helena Pacheco
A convite, cantou no Coral Vera Cruz, de Aveiro, sob a regência do maestro Duarte Gravato, na Emissora Nacional pela mão do maestro Resende Dias; nos “Serões para Trabalhadores” da antiga F.N.A.T., nos Fenianos do Porto, no Ateneu Comercial do Porto (interpretando parte da ópera “La Bohème”, juntamente com Amnerose Gilleck, ao tempo sua professora, António Magalhães e José Castro, interpretando “Musetta”, sob a direção do maestro Guther Arglebe).
Tirou o curso do Conservatório de Música na Academia de Espinho e no Conservatório do Porto, e frequentou o curso de Português-Francês na Universidade de Aveiro, concluindo no Porto o Curso Superior de Francês.
Foi professora em vários Ciclos Preparatórios e em Escolas Particulares, tendo sido também, durante vários anos, funcionária administrativa da F. Ramada, em Ovar.
Dirigiu o orfeão de Santa Maria da Feira, colaborou em vários recitais por todo o país, e teve um programa de música erudita na Rádio Moliceiro, em Aveiro.
Durante 58 anos foi ativa propagadora da tradição dos “Reis”, elaborando dezenas, senão centenas de músicas e letras, além de apoiar os grupos nos ensaios.
Escreveu para Teatro vários trechos musicais, atuando nos Estados Unidos por duas vezes como cantora e artista de Teatro, e em Luanda, na Rádio Clube de Angola, sob a regência do maestro Jaime Mendes, e em vários teatros daquela cidade.
O seu funeral realizou-se em 19 de abril, da Capela de Nossa Senhora da Graça para o Cemitério de Ovar, tendo presidido ao cerimonial religioso o Pároco de Ovar, que realçou a atividade artística e a peculiar espiritualidade da extinta.
Paz à sua alma e condolências à família enlutada, de um modo especial a seus filhos Luís
Filipe, Rogério Paulo e Maria Alexandra R. Pacheco.


Floresceu mais uma estrela no céu

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2012)
TEXTO: Fernando Manuel Oliveira Pinto

“Quando eu andava a tirar o curso Superior de Canto, havia uma canção que, acima das outras, me encantava. Chamava-se (e chama-se) “Morgen” (Manhã) e é da autoria do grande Richard Strauss. A letra é um cântico de ternura, quase um lamento. Foi essa canção que mais uma vez me comoveu quando a Clara se foi embora. (...) Que teria sentido quando adormeceu para sempre? Saudade? Tristeza? Alívio? Curiosidade? Alegria? Eu sei lá! Duma coisa eu tenho a certeza: se a alma se separa deste invólucro que não é mais do que um monte de ossos e músculos, para onde é que ela foi? Adivinho: voou, olhando, curiosa, a imensidão. Passou, rasando as águas, pelo seu Furadouro, aos primeiros raios de Sol. E foi-se com as andorinhas e com as gaivotas…” (Edwiges Helena, in “João Semana” de 15/11/2002)

D. Edwiges Helena Pacheco, em 2009, com João Costa e o Padre Manuel Pires Bastos,
após ter recebido em sua casa a trupe de Reis JOC-LOC

FOTO: Fernando Pinto
Passados quase 10 anos do desaparecimento de sua prima Clara d’Ovar – outra grande senhora de quem os ovarenses sentem orgulho –, chegou a vez de D. Edwiges voar como se fosse uma andorinha rasgando o céu primaveril, sem nunca se cansar, encantando as pessoas com o seu estonteante bailado.
Nascida em 7 de outubro de 1929, no Rio de Janeiro, D. Edwiges Pacheco deixou-nos aos 82 anos de idade. O que terá sentido quando voou em direção à luz? Permitam-me que responda com uns versos que escreveu em 1990 para a trupe do Orfeão de Ovar: “Quem sabe lá se as estrelas doiradas / São vozes lindas que já nos deixaram?”

Edwiges Helena no Centro de Arte de Ovar
FOTO: Fernando Pinto
Ovar viu florescer, em 18 de abril último, mais uma estrela no firmamento, disso não temos qualquer sombra de dúvida, até porque almas sensíveis como a de D. Edwiges Helena merecem ser para sempre recordadas...
Nas três últimas edições da revista REIS demos a conhecer algum do seu trabalho como letrista, herança de sua mãe, D. Maria Amélia Dias Simões (1900-1977). Em “Letras com toque feminino” (REIS/2010), podem ler o testemunho desta artista que alimentou durante mais de quatro décadas as trupes reiseiras. Em 15/10/2010, no Centro de Arte, a Academia que tem o nome de sua mãe prestou-lhe um tributo pela sua carreira (na foto).
Fui à procura dessa “Manhã” de Richard Strauss de que falava D. Edwiges quando da homenagem que o nosso jornal fez a Clara d’Ovar em 2002, e, enquanto ouvia o lamento do violino, lembrei-me do dia em que estivemos em sua casa para entrevistarmos o seu primo Zéni d’Ovar, grande fadista e homem do Cinema, que nos últimos anos acolheu em sua companhia. Para além de se ter revelado uma grande anfitriã, naquela tarde tivemos a oportunidade de a ouvirmos falar com doçura do seu avô, o poeta António Dias Simões (1870-1922).
Aqueles que não privaram com D. Edwiges vão poder descobrir nessa melodia de Strauss um pouco da ternura que lhe invadia a alma quando falava da sua gente, da sua querida e amada Ovar.
Que a nossa terra nunca se esqueça destes seus filhos, destes revérberos que transformam o nosso mar numa espécie de paleta doirada...

Artigos publicados no jornal JOÃO SEMANA (1 DE MAIO DE 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/04/edwiges-helena-pacheco-1929-2012.html

15.1.10

Beatriz Campos – Presente na sua Arte

Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2009)

TEXTO: Fernando Pinto

Na edição de 15 de Junho, o jornal “João Semana” dava a notícia do desaparecimento, aos 93 anos de idade, da artista vareira Beatriz Campos. Ovar perdia, nesse 31 de Maio de 2009, uma das suas filhas mais talentosas.

Mas quem era esta mulher que chegou a expor na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, e por quem os vareiros continuam a sentir um enorme carinho?

Artista multifacetada

Beatriz dos Santos Campos nasceu em Ovar em 14 de Outubro de 1915, na Rua Alexandre Herculano, 181, na casa que pertenceu aos seus avós maternos António Basílio dos Santos e Rosa Lopes Santos.
Em 1918, com apenas três anos de idade, foi viver para Algés. Na capital teve aulas com o Mestre João Saavedra Machado (desenhador de Anatomia da Escola Médica de Lisboa), com Raquel Roque Gameiro (filha do célebre aguarelista Roque Gameiro, e única senhora com Medalha de Honra da Sociedade de Belas Artes), e com o escultor Simões de Almeida “Sobrinho”.
Depois de ter apreendido todos os ensinamentos ministrados por estes consagrados mestres, tornou-se a Artista que todos os ovarenses passaram a admirar, já que pintava a aguarela como ninguém, desenhava, esculpia, e ainda conhecia os segredos do barro.

A sua iniciação como ceramista deveu-se ao convite feito por Eduardo Leite, da Fábrica Viúva Lamego, de Lisboa, e parte da sua obra em cerâmica pode ser vista em alguns edifícios da cidade de Ovar: no átrio da Câmara Municipal (painel inaugurado em 28 de Dezembro de 1952, aquando das Festas Centenárias),no actual edifício do quartel dos Bombeiros Voluntários de Ovar, na Cercivar, na Escola e no Centro de Promoção Social do Furadouro.
Em 25 de Maio de 1985, foi apresentada no Salão Nobre da Câmara Municipal de Ovar a “Retrospectiva de Beatriz Campos”, promovida pela Fundação Pepolim para comemorar os 50 anos da sua vida artística. Ali foram expostas cerca de 300 peças, entre as quais figurava a bela escultura de S. Cristóvão, padroeiro de Ovar.

A artista casou, em 1951, com António Coentro de Pinho, então Presidente da Câmara Municipal de Ovar (1946/1954), e fundador do jornal “Notícias de Ovar” (16 de Setembro de 1948).
Beatriz dos Santos Campos Coentro de Pinho deixa duas filhas: Ana Maria e Maria Beatriz Coentro de Pinho.
Após o falecimento de seu marido em 5 de Junho de 1994 (aos 96 anos), D. Beatriz Campos assumiu a direcção deste semanário ovarense, que viria a extinguir-se em 28 de Dezembro de 2000.

[Na foto da esquerda: registo em azulejo na Gare da Estação de Ovar. Sobre a história destes azulejos leia AQUI].



Recordando uma visita ao “Ninho”

Nos primeiros anos deste século tive o privilégio de acompanhar o Padre Manuel Pires Bastos a casa de D. Beatriz Campos. Numa dessas visitas ao “Ninho”, como era conhecido o seu Lar, fomos encontrar a artista a trabalhar. Pintava um pequeno quadro com uma figura feminina. Enquanto admirávamos aquela obra inacabada, mas já repleta de luz e de vida, falou-nos de si, da sua paixão pela Arte, de seu pai, Francisco de Sousa Campos.
Ao fazer, na hora, a próxima cor que desejava passar para a tela, confessou-nos: – Devo o meu talento ao meu pai. Ele também desenhava e pintava a aguarela. Foi, na verdade, o meu primeiro mestre. Devido a uma doença grave, teve de ficar em casa e, como possuía o curso de desenho industrial, ensinou-me Geometria e a técnica da tinta-da-china.


Um dia ainda hei-de fazer uma exposição com os seus trabalhos, para que as pessoas da nossa terra possam apreciar o que lhes vou mostrar”. Entretanto, depois de ter abandonado, por instantes, a sala onde estávamos a ter aquela deliciosa conversa, apareceu, sorridente, com uma das obras feitas pelo seu progenitor.
Ficámos impressionados com tanta qualidade artística. Tinha, realmente, inclinação para as Artes.
Não fomos embora de sua casa sem antes vermos as suas flores. Tratava-as com muito carinho, não estivessem as suas mãos habituadas a criar maravilhas.


Ter entrado no “Ninho”, onde se respirava a poesia própria da paleta dos pintores, foi para mim, algo de mágico.
Guardo estas e outras pequenas notas dessa visita junto com um poema de sua autoria, que teve a amabilidade de me oferecer na altura, com uma dedicatória. Partilho com o leitor esses versos natalícios, para que possa sentir o perfume e o aconchego das palavras de uma mulher que, para além de ser uma grande senhora no mundo das Artes, foi mãe e avó.

Neste Natal

Neste NATAL
um Casalinho
vai alegrar
mais, o nosso Lar!
É que o “Ninho”
tem o condão,
que Deus lhe deu,
de ser guardião
do Patriarca
e duma arca,
ainda mais antiga,
que é o repositório
dum passado:
Cartas de amor,
– quem as escreve agora!? –,
e outras contando vidas
de quem as escreveu.
Vestidos de noivado
de três gerações.
De baptizado
e de comunhões.
Uma touca que, hoje,
parece de boneca!
Fitas, lacinhos
e uns sapatinhos!
Um raminho de alfazema,
um boquet de flor de laranjeira
e de que maneira
ainda perfumado!
Um véu de tule, uma grinalda,
e muitas coisas mais
que não vou contar!....
Fazem a História duma Família
que a Mariana e o Diogo,
por certo, irão continuar,
num outro Natal!

Beatriz Campos


Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Julho de 2009)

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Algumas notícias sobre a artista
Beatriz Campos expôs no Porto

Beatriz Campos, a Artista que sorve, como ninguém, a secreta magia das cores da sua (e nossa) terra, uma vez mais deixou Ovar (e o seu "Ninho") para ir, carregada de ria, levar  ao longe notícias do nosso sol, da nossa neblina, dos tons verdes e amarelos da paisagem vareira, constantemente renovada porque constantemente em festa.Como sempre, muitos foram beber, por uns instantes, essa maravilhosa festa que em Ovar a Natureza esbanja todos os dias, todas as horas, numa dádiva permanente, e que a Artista aprisiona, através de fios de oiro, nas sedutoras teias (telas) que o seu pincel teceu.


Festa-dádiva que não merecemos, os profanos da Arte. Mas jubilosamente recebida pelos Pintores, que a sublimam em golpes de génio, e a refazem, quente e apetecível, nas tintas dos seus quadros, feitos pão para o espírito. Assim Beatriz Campos. No Porto, agora. Para mostrar Ovar, a Ria. A nossa terra, o nosso céu. E outros céus e outras terras também nossos. E a beleza-mistério de naturezas mortas. E as três dimensões artísticas das suas cerâmicas decorativas.
Valeu a pena ver. Para aprender, lá, o que não sabemos ver aqui.

P. B.
("João Semana" - 1 de Novembro de 1979)


Beatriz Campos expôs no Porto

Como noticiámos, Beatriz Campos expôs no Porto. Um acontecimento já repetido. E um novo êxito, que a imprensa diária realçou.
Ocasião foi esta para levar, uma vez mais, a nossa Ria à grande cidade, onde minguavam os espaços de calma e onde não moram as paisagens paradisíacas que nós temos aqui.Os pincéis de Beatriz Campos têm o condão de captar, na sua origem, pedaços desse éden terreal que nós mesmos não apreciamos quanto deveríamos, e de os transportar, na tela, até onde houver olhos sedentos de coisas belas.
Mas não só a ria. Também o mar e o Furadouro estiveram patentes na galeria de Arte de "O Primeiro de Janeiro". E não só Ovar.  Também Sintra ou Fátima, também outras terras e outras gentes mereceram a honra de uma tela.Mas Beatriz também constrói Arte em barro fino, dominando-o, modelando-o em formas muito suas, com mãos de fada.
A Cerâmica desta Artista já adquiriu, dizem-no os meios mais exigente, o selo da qualidade. E a sua inspiração vai-a buscar a motivos os mais diversos, desde as flores e os animais até à expressão mais perfeita do ser humano - a Santidade. Vimos e apreciamos tudo isto.
E lembramos aqui as lindas e originais imagens da Virgem, de Santo António e de São Cristóvão, o Padroeiro de Ovar.
Com esta última peça terá querido a Artista homenagear a sua própria terra, que muito saiu prestigiada desta Exposição.

P. B.
("João Semana" - 1 de Janeiro de 1983)


Homenagem a Beatriz Campos


De 15 a 28 de Maio de 1999, e por iniciativa do Município, vai estar patente na Biblioteca Municipal de Ovar uma Exposição Colectiva de Pintura em homenagem a Beatriz Campos, com a presença de Artistas consagrados, como António Joaquim, Agostinho Santos, Ana Estrela, Delfina Carmen, Helena Abreu, Jaime Ferreira, José Mendonça, Liseta Amaral, Luís Alberto, Maria Antónia Porto, Maria del Carmen Valenzuela, Maria Luísa e Paulo Vilas Boas.

("João Semana", 15 de Maio de 1999)


BEATRIZ CAMPOS
Exposições individuais:

Casino da Figueira da Foz (1949); Sociedade Nacional de Belas Artes -Lisboa (1947, 1958 e 1965); Livraria Portugália - Porto (1949); Junta de Turismo de Cascais (1948, 1949 e 1950); Salão F. Ramada -Ovar (1958); Museu de Ovar (1965 e 1976); Ateneu Comercial do Porto (1955 e 1966); Salão de "O Primeiro de Janeiro" - Porto (1975, 1977, 1979 e 1982); Salão de "O Primeiro de Janeiro"- Coimbra (1976); Centro Paroquial de S.João da Madeira (1976); Galeria Capitel - Leiria (1978); Elizabeth New Jersey - EUA (1981); 100 anos de Artes Plásticas - Aveiro (1982); Casa Municipal da Cultura de Estarreja (1982 e 1985); Rotary Clube de S. João da Madeira (1988); Crecor - Cortegaça (1988); Retrospectiva Fundação Pepolim, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Ovar (1985);Galeria Nazareth's - Porto (1990); Galeria S. Cristóvão de Ovar - A convite da C.M. de Ovar (1990 e 1995); Galeria Municipal de Aveiro - 1996.

Exposições colectivas:

Raquel Gameiro e suas discípulas - Lisboa ( 1939 e 1946); Secretariado de Informação, 1.º Salão de Cerâmica (1947); Casino do Estoril (6.º,7.º,10.º,13.º e 14.º Salão); Imagem da Flor - Lisboa (3.º e 6.º Salão); 4.º e 5.º Salão Provincial de Viseu; 1.º e 2.ºSalão GAV - Ovar - Motivos vareiros; Sociedade Nacional Belas Artes de Lisboa; Salão de Inverno (1939 a 1944, 1949, 1954, 1957 e 1958); Salão Primavera (1945, 1946 e 1948); Exposição Permanente (1942); Exposição de Artes Plásticas (1942); Grupo de Aguarelistas (1949, 1950,1953, 1954, 1956 a 1958); Salão de Outono, Casino de Estoril (1973); Centenário do Caminho de Ferro, Porto (1975); Salão de Outono, Casino do Estoril (1981 a 1983).


Beatriz Campos discursando
numa das muitas exposições que realizou

Prémios:

Menção Honrosa, terceira e duas segundas medalhas (desenho e aguarela), pela Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa. Medalha de Prata, Salão Outono do Casino do Estoril (1973); Medalha de Comparticipação, Centenário de Caminho de Ferro, Porto (1975); Medalha da Casa Municipal da Cultura de Estarreja (1985); Medalha de Prata Mérito Municipal da C.M. de Ovar (1985); Medalha de Ouro, Bombeiros Voluntários de Ovar; Medalha de Prata da Liga dos Bombeiros Portugueses.

Representada:

Museu de Ovar; Câmara Municipal de Ovar; Centro Social do Furadouro; Centro Paroquial de Ovar; Cercivar; Bombeiros; Empresa Sicor; Colecção Snydan; Culting, Nova Iorque, Museu da Figueira da Foz, Museu Municipal de Vila Real de Santo António, Câmara Municipal de Lisboa, Fundação António Carvalho, Sarah Beirão, de Tábua; Centro Social dos Caminhos de Ferro, Vila Nova de Gaia; Fundação Pepolim, Ovar; Governo Civil do Porto e em diversas colecções particulares de Portugal, Brasil, Inglaterra, Suécia, Espanha, França, EUA, Nassau, Suíça e Canadá.

1.12.09

Clara d’Ovar - Breve nota biográfica

Jornal JOÃO SEMANA (15/11/2002)
TEXTO: Manuel Bernardo

Leolina Clara Gomes Dias Simões, filha de Manuel Dias Simões e de Margarida Ferreira Soares Gomes Dias Simões, nasceu em Ovar (na Rua Padre Ferrer, n.º 1) a 4 de Novembro de 1925, e residiu, durante a sua infância, na Quinta que a sua família possuía no lugar de S. Miguel.
Depois de ter realizado estudos primários e secundários (frequentando colégios em Anadia, Aveiro e Porto), ingressou na Escola do Magistério Primário do Porto, onde chegou a frequentar o 2.º ano.
Não se sentindo minimamente atraída pela carreira de professora primária, abandonou (aos 19 anos) os estudos e foi viver para Lisboa, onde experimentou várias ocupações temporárias, até se tornar secretária/correspondente de francês e português na empresa Inter-Maritime et Fluvial et Centrados Reúnis.
A carreira de secretariado/correspondente levou-a até Paris, e da “cidade-luz” para Locarno, na suíça “italiana”, onde se empregou como correspondente de português numa grande fábrica de acessórios para relógios.

Clara d'Ovar
Dois anos depois, Clara Dias Simões regressaria a Portugal para uma curta estada (19 meses), residindo em Lisboa e no Porto, locais em que participou em vários programas de rádio.
O casamento com o cônsul da Suíça em Luanda (Rolland Pièrre) levou-a ao continente africano, onde permaneceu pouco mais de um ano.
De regresso à Europa, radicou-se em Paris, onde abriu um pequeno restaurante – “Le Fado: Uma Casa Portuguesa” –, por onde passaram vários profissionais da nossa canção (Rui de Mascarenhas, Maria Albertina, Madalena Iglésias…).
Na capital francesa, onde passou a ser conhecida por Clara d’Ovar, casou com Peter Oser Rockfeller e teve a ocasião de travar conhecimento com muitas pessoas ligadas ao meio cinematográfico gaulês. Foi este convívio que estimulou Peter Oser e Clara d’Ovar a proporem a Pièrre Kast a realização da película “Merci Natercia”, idealizada pelos dois e que não foi bem sucedida, não chegando a ser distribuída em França. (Apenas uma remontagem, efectuada por Clara d’Ovar, fez carreira no Brasil).
Após o malogro de “Merci Natercia”, Clara d’Ovar foi a actriz principal nos filmes “La Barque Sur l’Ocean” (1960), de Maurice Clavel, e “Cartas da Religiosa Portuguesa” (1960), de António Lopes Ribeiro.

Filmes com participação de Clara d’Ovar

Clara d'Ovar
1959 - “Merci Natercia”; “Uma Portuguesa em Paris”, de Pierre Kast.
1960 - “La Barque Sur l’Ocean”, de Maurice Clavel; “Cartas da Religiosa Portuguesa”, de António Lopes Ribeiro.
1961 - “La Morte-Saison dês Amours”, de Pierre Kast
1962 - “Je ne Suis Plus d’Ici”, de Bernard Vicki (curta-metragem filmada numa aldeia próxima de Ovar).
1963 - “Vacances Portugaises”, “Os Sorrisos do Destino”, de Pièrre Kast; “PXO”, de Pièrre Kast, Jacques Doniol-Valcroze e António Vilela; “Le Pas de Troix”, de Alain Bornet.
1964 - “O Crime da Aldeia Velha”, de Manuel Guimarães.
1965 - “Le Grain de Sable” (O Triângulo Circular), de Pierre Kast; “La Brûlure de Mille Soleils”, de Pièrre Kast.
1980 - “Le Soleil en Face”, de Pièrre Kast

Obras literárias de Clara d’Ovar
1956 - “Um Mundo Paralelo”
1957 - “Poesias da Juventude”
1958 - “As Areias Movediças”, “Poesias do Vento”
1994 - “Caminhando pela Vida”
1997 - “Miriam – Uma Tão Longa Estrada”
1998 - “Odisseia de uma Garrafa Azul – Memórias de Esquecimentos”
1999 - “D. Juan Quixote de Saia de Folhos”
2000 - “O Homem que corria atrás dos Sonhos”
2002 - “O voo das Palavras”


A CLARA
TEXTO: Edwiges Helena Pacheco

Quando eu andava a tirar o curso Superior de Canto, havia uma canção que, acima das outras, me encantava. Chamava-se (e chama-se) “Morgen” (Manhã) e é da autoria do grande Richard Strauss. A letra é um cântico de ternura, quase um lamento. Foi essa canção que mais uma vez me comoveu quando a Clara se foi embora. Esta partiu de manhã cedinho, como era seu hábito.
Que teria sentido quando adormeceu para sempre? Saudade? Tristeza? Alívio? Curiosidade? Alegria? Eu sei lá! Duma coisa eu tenho a certeza: se a alma se separa deste invólucro que não é mais do que um monte de ossos e músculos, para onde é que ela foi? Adivinho: voou, olhando, curiosa, a imensidão. Passou, rasando as águas, pelo seu Furadouro, aos primeiros raios de Sol. E foi-se com as andorinhas e com as gaivotas.
Lembrou-se da sua infância, de tudo.
Cansada, estendeu-se numa nuvem que o sol coloria em tons de vermelho claro, e sorriu. Enfim, era livre. Livre! Podia cantar, rir, gritar, dançar, tudo!
A noite chegou. E no céu brilhou mais uma estrela. Diferente.
Tinha de ser diferente: era ela.


CLARA D'OVAR - Uma referência cultural
TEXTO: Manuel Alves de Oliveira

Não tive o privilégio de conhecer pessoalmente Clara d’Ovar. E devo confessar não ter feito uma análise aprofundada da sua obra (não porque a não mereça, mas por limitações que são só minhas). No entanto, do pouco que resultou de um olhar apressado e apreciação sobre a vida e obra desta figura ilustre de Ovar, há aspectos que julgo merecedores de algum relevo.
Assumindo um pouco o estatuto de “cidadã do mundo” - Aveiro, Anadia, Porto, Lisboa, Paris, Locarno, Luanda, Brasil, foram alguns lugares das suas vivências -, nem por isso deixou de, inclusive no seu nome, manter a ligação à cidade e às pessoas de Ovar, ou, como ela própria refere, “a estas areias movediças onde os pés reconheceram o perigo mas lançaram raízes”.
Actriz, produtora, cantora, assistente de realização, escritora, Clara d’Ovar é bem o exemplo de uma vida que foi dedicada à cultura e às artes. Provam-no os filmes de curta e longa-metragem que resultaram do seu trabalho e dedicação, ou as muitas obras que publicou e das quais alguns exemplares constam (graças à sua gentileza) do património bibliográfico da Biblioteca Municipal de Ovar.
Respeitar e valorizar as raízes e a identidade nem sempre são atitude publicamente assumida. Mas Clara d’Ovar, mesmo contactando e convivendo de perto com outras realidades e “outros mundos”, soube fazê-lo. Como soube colocar a sua energia e vitalidade ao serviço da criatividade, da cultura, das letras e das artes.
Mas não será preciso para reconhecermos o quanto representou (e representa) para o país, para a cidade e concelho de Ovar, constituindo uma referência cultural que deve permanecer e persistir na nossa memória colectiva.


 “Só me conheceram quando casei com um Rockfeller!” (in revista "Plateia") 

Do pai, Manuel Dias Simões, falecido aos 30 anos, e também dos avós paternos, herdou o gosto pelas artes. Da mãe, Margarida Ferreira Soares Dias Simões, de uma família de proprietários, com rendeiros, ficou-lhe a ligação fácil às coisas, a lembrança de qualidades morais.
Cedo deixou Ovar para frequentar os colégios de Anadia e do Porto. Fez o Magistério Primário, mas não frequentou o estágio, “porque não gostava do ensino violento com palmatoadas, como era costume”.
- Sem falsa modéstia, eu era então mesmo muito bonita. Fui para Lisboa trabalhar em publicidade. E a convite dessa firma fui, depois, trabalhar para Paris.
Foi nos anos 50 que emigrou, insatisfeita com o Portugal da época.
- Eu era irreverente porque não contemporizava com coisas com que não estivesse de acordo: a censura, a dificuldade em fazer carreira por mérito próprio, sem padrinhos ou concessões à política do regime.
Uma noite, em Paris, numa brincadeira de amigos, começou a cantar o fado numa boite que, mais tarde, viria a comprar.
Foi outra viragem na vida: por lá passaram realizadores, gente ligada ao cinema, às artes.
- Foi assim que me conheceram! Fui actriz, dialoguista, assistente de realização e produtora!
… O meu restaurante de fados tornou-se um pólo de convívio...
Aos artistas bolseiros que iam de Portugal era muito difícil a sobrevivência: comer, pagar alojamento e os estudos.


Pintar com a agulha
TEXTO: Maria Luísa Resende (Revista "Reis" 1997)


O seu hobby de há uns doze anos é a Tapeçaria.
- Uma vez, um jornalista desafiou-me a fazer uma exposição no “Diário de Notícias”, no Chiado. Dela, a crítica disse que eu pintava com a agulha. Foi um bom estímulo!
Não desenha os motivos. Pega na agulha e as coisas vão surgindo com lãs, vidros, pedrinhas, sementes, metais, bilros. Gostava de bordar ao correr da agulha.
Conhecemos melhor uma mulher que se declara apaixonada por tudo. Que assume gostar da vida; das árvores, dos perfumes, do mar, da areia, e de realizar coisas, porque não sabe estar desocupada.
A mim, fez-me pensar num rio, ao fluir para o Oceano, que se vai realizando com a superação das asperezas do próprio percurso.
Ela, que não tem culto por épocas nem por algo, a não ser por ideias que valham e a que a fazem mover, revela-se, afinal, uma artista multifacetada, uma Mulher que talhou a sua sorte com a coragem de viver o dia a dia, ano a ano, sem projectos a longo prazo. (…)”


CLARA D'OVAR


Clara!
Menina prendada,
Jovem mimada
De Ovar.

Clara!
Mulher ardente,
Vaga fremente
De mar.

Na tua saga,
De artista e maga,
Quebraste grilhões,
Tabus, convenções.


Foi luta o teu fado,
Gemido e suado.
Na teia da vida
Não foste vencida.


Clara!
Livro que fala,
Voz que não cala
A raiz.


Clara!
Teu rosto na tela
Seduz e interpela
Paris.

Clara!
Teu doce nome
Não se consome,
Porque é chama
A tua fama.

Clara!
Sopro divino
Fez teu destino:
Vareira no berço,
Mulher… no Universo.

Mulher singular…
Clara d’Ovar!


Manuel Pires Bastos
(A memória da escritora, falecida em 30/06/2002)


Artigos publicados no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Novembro de 2002)

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Homenagem a Clara d’Ovar

O jornal “João Semana” dedica a Clara d’Ovar algumas das suas páginas desta edição (suplemento págs. I a IV), numa homenagem merecida, poucos dias depois do aniversário do seu nascimento (4/11/1925), e quatro meses e meio após a sua morte (30/6/2002).

Durante a sessão de homenagem a Clara d'Ovar, no Salão Paroquial de S. João de Ovar. Da esq. para direita:
Padre Bastos, D. Edwiges Pacheco, Dr. Calheiros, Dr. Alves de Oliveira e Manuel Bernardo
Mas não se fica, a homenagem, por esta colaboração jornalística. Quis o jornal, em sintonia com a Câmara Municipal de Ovar e a Academia de Artes Maria Amélia Simões, honrar a sua memória através de uma sessão cultural, quase íntima, mas significativa de quanto a comunidade vareira deve a esta mulher invulgar que aliou o nome da sua terra ao seu nome, transportando-o e propagando-o por largos horizontes das artes e dos continentes . A sessão, com início às 21 horas no Salão Paroquial de S. João de Ovar, é constituída pelo seguinte programa:

I Parte
- Apresentação
- Coral da Academia de Artes Maria Amélia Dias Simões
- A Obra Literária de Clara d’Ovar, pelo Professor Doutor Pedro Calheiros
- Recital de Poema

II Parte
- Grupo Coral Infantil e Juvenil S. Cristóvão de Ovar
- Clara d’Ovar – Bocados de Vida, pelo Dr. Manuel Bernardo
- Coral Canto X
- Encerramento

Na edição de 15 de Novembro de 2002, o jornal “João Semana” ofereceu uma reprodução, a cores, do desenho original do rosto de Clara d’Ovar, pintado pelo Artista João Caetano (ver imagem que encima este "post").