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10.5.10

Rendas e Bordados de Ovar

TEXTO: José Maria Fernandes da Graça

Uma notícia que lemos, não vai há muito tempo, chamou a nossa atenção para uma faceta que as mulheres de Ovar sempre cultivaram: a execução de rendas e bordados. Oportunamente, daremos conta do teor dessa notícia que veio justificar o presente apontamento.
São muito vagas as fontes de informação disponíveis sobre esta matéria. Mas, mesmo assim, lá conseguimos algo.
Alberto Sousa Lamy, na “Monografia de Ovar”, pág. 32, vol. 2, sob o título “Bordados e Rendas”, refere que em 1868 os bordados em branco de Ovar “sobressaem em todo o reino”, expressão usada por João Frederico no livro “Memórias e Datas para a História de Ovar”.
Segundo Marques Gomes (“O Distrito de Aveiro”, 1877), os bordados em branco da vila “têm fama no distrito. As rendas de bilros quase rivalizam com as de Viana e Peniche”.
O Eng.º Agrónomo João Vasco de Carvalho, na sua “Monografia da Freguesia Rural de Ovar, Concelho de Ovar, no Distrito de Aveiro”, 1912, pág. 10, afirma: “Os bordados e rendas (bilros, croché, crivo, etc.) eram afamadíssimos em todo o país, chegando os bilros a rivalizar e, quiçá, a exceder as mais finas rendas de Peniche e Viana, não só pela sua sólida textura, como também pelo seu desenho artístico. Esta indústria acha-se hoje (1912) extinta”.

Em “Ovar na Literatura e na Arte”, de Zagalo dos Santos, diz-se (pp. 36/37): “Brites (D. Rosa Gomes dos Santos) natural de Ovar, onde morreu solteira com noventa e um anos, no decorrer da terceira dezena do presente século foi uma exímia bordadeira e também feitora de flores.
No tempo da sua mocidade, estas prendas eram louvadas ao máximo e quem o podia fazer com elas pejava os bragais das filhas em vésperas de mudar de estado. Em Ovar muitas mulheres faziam disso profissão e acreditaram-se pela perfeição e bom gosto dos seus trabalhos.. Por ocasião da Exposição Universal de Paris, em 1878, foram daqui enviados diversos trabalhos e, entre eles, umas lindas flores artificiais que obtiveram uma menção honrosa. Foram as mãos de D. Rosa Brites que tal fizeram e mereceram o documento emitido, por quem de direito, em 21 de Outubro de 78.
Foi exímia também, em arranjo de cestos de frutas artificiais. Bordados e flores artificiais encontram-se agora feitos à máquina em séries, não merecendo a procuram que tiveram. Em Ovar, presentemente, desapareceram as artistas dessas especialidades, por falta de estímulo e remuneração condigna”.


Adelaide Chaves, num artigo publicado no “Terras do Var”, na secção do Património, e sob o título “O Bordado de Ovar”, faz do assunto uma interessante abordagem, merecedora de atenção por parte de todos os interessados na defesa do nosso património.
Além disso, a autora apresenta sugestões que devem ser reflectidas por quem de direito, se quisermos fazer ainda alguma coisa a propósito das rendas e bordados em que a nossa terra se destacou, embora quase todos os vareiros de agora o desconheçam.
Por nos parecer de muito interesse, transcrevemos parte do referido artigo:
“(…) Na região de Ovar não é muito frequente encontrarmos esta actividade entre gente ligada à pesca. Vamos encontrar, sim, uma tradição de bordado, poderíamos quase chamar-lhe de uma “escola”, que se desenvolve sobretudo no séc. XIX e de que hoje há apenas a lembrança e as peças conservadas numa ou noutra família.
Este bordado a cheio caracteriza-se por uma profusão de pontos que o enriquecem, havendo o requinte de variar, por exemplo, a maior parte dos crivos que compunham o interior de cada flor de uma peça de bordado. Executado quase sempre em linho, era um bordado exclusivamente branco. Nada era deixado ao caso: os fios eram contados e obedecia-se ao desenho com uma minúcia rigorosa.
Havia na época numerosas “mestras” de bordar onde eram iniciadas na arte crianças desde os seis anos de idade.
Há cerca de quatro anos, contou-nos a Sr.ª Amélia Pereira de Silva, então com 85 anos, e hoje já falecida, que aprendeu a bordar aos 10 anos de idade com a Sr.ª Maria José do Máximo, que “dava mestra” de bordados. Andavam la dezenas de raparigas que depois bordavam enxovais para fora. Tiveram grande prestígio na época as irmãs Brites, cujos bordados ficaram conhecidos pela perfeição e riqueza dos desenhos, na sua maioria criados por elas próprias.
Perdeu-se por completo esta arte em Ovar. Há ainda bordadeiras profissionais, mas que não executam esse antigo bordado a cheio (…).”
Por várias razões, algumas muito especiais, estes dons das mulheres de Ovar têm para nós um significado grande, pouco vulgar. Revela, sobretudo, que têm sensibilidade para executar trabalhos de indiscutível mérito.



Ao escrevermos este apontamento apossou-se de nós um desconsolo difícil de disfarçar. Porquê? Por não encontrarmos sobre este assunto referências mais desenvolvidas que nos permitam avaliar a dimensão do nosso valor. Apenas sabemos, por dados não totalmente credíveis – pois somos parte interessada no assunto –, que nos séculos passados as bordadeiras de Ovar, Peniche e Viana do Castelo se situavam num nível bastante superior às demais de todo o país.Como explicar tal situação? Foi isso que, até hoje, ainda se não fez com o desenvolvimento e devida justificação que o assunto merece.
Não há nomes para além de D. Rosa Brites e de Maria José do Máximo, de bordadeiras, nem de quem lhes ministrava os respectivos ensinamentos. Quais os locais da vila onde se situavam as “mestras”? Esta problemática que, como outras de idêntico interesse, jaz no esquecimento de todos, tem muito a ver com a nossa identidade e com os valores das próprias mulheres de Ovar, pelo que há que encará-la a sério.
Adelaide Chaves, no artigo referido, deu algumas sugestões: a criação de um arquivo com os desenhos desses bordados, o incremento desta actividade por mulheres sem emprego fixo, e a iniciação desta arte em disciplinas adequadas das nossas Escolas.
E propôs-se recolher as notícias de peças e dados históricos relativos a este tema que as pessoas de Ovar lhe queiram transmitir.
São precisas pessoas com tempo disponível e interessadas em ajudar a recolher os elementos que existam, consideradas de maior valia.
A ser possível essa recolha –, talvez o esforço venha a ser compensador.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Fevereiro de 2003)



Rendas e bordados de Ovar
A propósito do povoamento de Olhão


Sob este título, o “João Semana” de 15 de Fevereiro passado (2003) publicou um apontamento nosso onde deixávamos antever que o mesmo seria de novo abordado, por motivo de uma notícia de que em tempos tivemos conhecimento.
Como o prometido é devido, tal como diz o conhecido ditado popular, cá estamos a desobrigar-nos da promessa.


É dado como verdadeiro o facto de os pescadores de Ovar, como aconteceu noutros pontos do litoral, terem estado na origem do povoamento de Olhão, em simultaneidade com pescadores de Ílhavo.
A propósito deste assunto, a que damos grande importância, vamos transcrever uma passagem de um estudo do Alberto Iria, historiador olhanense, que afirma:
Segundo Ataíde e os seus continuadores, os primeiros habitantes do sítio de Olhão seriam oriundos do “distrito de Aveiro, talvez da freguesia de Ovar ou de Ílhavo”, porque “em nenhuma praia algarvia se encontram pescadores mais audazes, com melhores disposições para a grande faina do mar e que se possam aproximar dos pescadores de Olhão”, o que mostraria descenderem estes “de raça diferente dos restantes pescadores algarvios, talvez dessa raça arrojada no mar, conhecido pela raça pelágica”; as características físicas, psíquicas, morais e intelectuais dos olhanenses são em tudo semelhantes às dos ovarinos e ílhavos; as rendas de bilros, obra-prima das mulheres de Ovar, no Algarve só as fazem com igual perfeição as mulheres de Olhão.
E disto, só disto, que nem sequer prima pelo rigor e comporta muitos exageros e algumas inexactidões flagrantes, concluem que uma colónia de ovarinos e ílhavos se teria estabelecido no sítio que depois foi conhecido por Olhão, aí por alturas dos séculos XVI e XVII, quando a povoação ainda nem sequer existiria, dando origem ao aglomerado de Cabanas que, a partir de então, começaria a crescer vertiginosamente, para se converter, em breves anos, numa das mais populosas e mais importantes vilas de Portugal inteiro.



Ora, não se pode pôr realmente em dúvida que ovarinos e ílhavos, em maior ou menor número, se tenham fixado em Olhão a partir de certa altura, e isto não tanto por quaisquer pequenas semelhanças físicas, psíquicas e morais, ou de costumes, entre os olhanenses e os naturais de Ovar e Ílhavo, mas por que ainda hoje existem naquela vila algarvia numerosos ílhos (que assim, e pelo menos até há pouco tempo, chamava ali o povo ílhavos aos seus descendentes) quer entre a população terrestre quer entre a marítima, isto é, entre a que vive em embarcações surtas no porto.
Mas, põe-se em dúvida que tenha sido gente de Ílhavo e Ovar a primeira e a principal povoadora do Sítio de Olhão, até porque os primeiros ílhavos ovarinos, como mostrou o mesmo Alberto Iria, só para ali podiam ter ido, ou é lógico que fossem, depois de o Marquês de Pombal ter mandado vir gente do norte para povoar a sua então recém-criada Vila Real de Santo António. Nessa altura, já Olhão era uma próspera aldeia, com mais de dois mil habitantes.

Há no estudo em questão mais referências a ovarinos e ílhavos, todos interessantes, mas a que mais nos prendeu a atenção foi aquela a que refere a reconhecida capacidade das mulheres de Olhão para a execução de rendas de bilros, em completo contraste com as mulheres de todo o restante território algarvio. Isto vem demonstrar, a priori, que há, realmente, sinais muito evidentes de no povoamento de Olhão estar envolvida gente de Ovar.
Não há dúvida de que temos descurado a pesquisa de elementos que possam demonstrar, com toda a evidência, o importante papel que os vareiros tiveram no povoamento de outras localidades, especialmente junto ao litoral.
A quem caberá esta missão?

TEXTO publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Maio de 2003)

7.4.10

A louça de Ovar e Aveiro na Barra do Douro

TEXTO: Manuel Leão 

É do Prof. Padre Manuel Leão o artigo que publicamos e que faz parte de um trabalho mais longo. Foi inserido na revista "Olaria – Estudos Arqueológicos, Históricos e Etimológicos".

É muito antiga na cidade do Porto a venda de louça de Ovar. A facilidade do transporte marítimo completava o acesso por terra, pela estrada que ligava entre si as localidades hoje pertencentes aos concelhos de Ovar, Espinho e Vila Nova de Gaia. Eram uma via de comunicação muito frequentada, havendo mesmo documentos que atestam o apoio a viajantes e suas montadas, como eram as estalagens.
Em 1537, veio para as obras da cidade (do Porto) telha de Ovar. A documentação da época é escassa, mas a louça de Ovar constava da primeira lista de vendedores da cidade, em 1620. Chamava-se louça vermelha. Seria vidrada ou não, porque esse tipo de louça continuou a ser usado até ao século vinte, pelo menos no primeiro quartel.

Ester Pinho, de Ovar, que há mais de 60 anos transportava, com outros carreteiros,
louça das olarias vareiras para as feiras da região e para o Porto

A louça de Ovar sofreu a concorrência vinda de outros centros cerâmicos. Destes, o mais predominante foi Coimbra, cujo alto nível de consumo se manteve na época industrial, em fins do século XVIII.
Os louceiros de Ovar ficaram nominalmente conhecidos na segunda metade do século XVIII, porque os seus cântaros eram mobilizados para acudirem a incêndios que lavravam nos prédios com estruturas de madeira que bordejavam as estreitas ruas do Porto setecentista.
A feira mais frequentada realizava-se, desde longa data, na Praça da Ribeira, local de fácil descarga dos artigos tanto trazidos de barco como atravessados da outra banda de Gaia. Muito mais tarde passou para o terreiro defronte do Convento de S. Bento da Avé Maria, onde mais tarde foi instalada a estação de S. Bento.
Havia, por vezes, uma certa retracção da Câmara quanto ao pagamento da louça, por suspeita de aproveitamento da confusão para alguém se poder assenhorear de algumas peças consideradas, perante a autarquia, partidas durante a azáfama do incêndio.
Nesta época tardia, Ovar forneceu materiais destinados à construção civil, nomeadamente, encanamento da água de abastecimento público.
Nos livros da Alfândega, em 1640 (1), encontra-se uma encomenda destinada a Bento de Matos, que recebeu hua pouca de louca dovar. (Esta escrita deste centro cerâmico resulta dum fenómeno fonético criado pela pronúncia local, que ainda chegou ao século XX, na boca das pessoas sem instrução.)

Em 1650 (2), o comerciante Policarpo de Oliveira despachou para a Ilha Terceira, seis caixas de louça de Ovar. O mesmo comerciante recebeu catorze caixões de louça de Ovar, em 1652 (3). Ainda em 1655 (4), encontra-se um despacho que pode indicar alguma razão de preferência pelo produto vareiro: Gualter Maynard envia para Barbados, hua barqua de louca uermelha do Var. O comerciante citado pertencia a uma das famílias mais influentes da cidade, embora de origem britânica.
Parece haver um longo período de silêncio sobre a cerâmica vareira, que deixa de aparecer nos registos aduaneiros do Porto. Em 1783 (5), há duas encomendas, mas não distinguimos de que artigos se trata. Tudo leva a crer que se refiram a artigos destinados à construção civil, porque nunca se mencionam peças, o que não é corrente quando de trata de louça utilitária para uso doméstico.
A louça de Aveiro, mesmo na época, teve larga circulação, tendo em conta documentos disponíveis. Durante muitas décadas, a louça de Coimbra ocupou a dianteira, a seguir à produção cerâmica dos arredores do Porto. O impedimento da barra do Mondego para barcos de elevada tonelagem para a época não justifica este volume de vendas de louça coimbrã. A qualidade devia ser o parâmetro predominante (…).

Notas
(1) ADP Cabido 115, 116.
(2) Ibid. 127, 12v.
(3) Ibid. 131, 16v.
(4) Ibid. 136, 8v.
(5) Ibid. 366, 78v. - 196 Peças despachadas para o Maranhão por José Francisco Maia; ibid. 366, 126v. - 100 Dúzias de peças para a Baía, despachadas por Francisco António de Castro.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Janeiro de 2006)

Cerâmica vareira medieval
no Mosteiro de S. João de Tarouca

Lemos no “Jornal de Notícias” de 13/7/1999 que durante as escavações em curso no mosteiro cisterciense de S. João de Tarouca, envolvendo estruturas antigas entre os séculos XIII e XVII, foram encontradas, na suposta zona dos antigos claustros, algumas peças de cerâmica medieval, em barro vermelho, oriundas de Ovar.
O Mosteiro de Tarouca é uma das jóias do património arquitectónico português, havendo a intenção de o candidatar a património mundial da UNESCO.
É constituído pela Igreja, onde se encontra uma célebre estátua de S. Pedro, a torre (em reconstrução), os dormitórios, do século XVIII (à esquerda da gravura, em ruínas), o sistema hidráulico subterrâneo, a Casa da Tulha, etc.


Vista geral do complexo do Mosteiro de Tarouca, em obras de recuperação,
onde se encontraram antigas peças de barro vermelho de Ovar


Zona de intervenção arqueológica no Mosteiro de S. João de Tarouca
Foto DAQUI

A constatação da presença de cerâmica em Ovar num mosteiro que marcou a história e a cultura portuguesa não é apenas motivo de orgulho para os vareiros, mas é também uma achega importante para recuarmos, no tempo, o início da actividade dos oleiros nesta povoação, primeiro situados na zona de Cabanões, sede primitiva da freguesia de S. Cristóvão, e depois, também na zona urbana de Ovar onde, no início do século XX, existiam dezenas de olarias.
A localização de um antigo lugar do Barreiro entre Cabanões e S. João justifica essa actividade, na Idade Média, já que se trata de um topónimo relacionado com o barro, produto base das artes cerâmicas. (Texto: P. B. em "João Semana" de 1 de Novembro de 1999)

LEIA também o artigo "Ovar em 1920 - Uma Vila próspera em Olarias", publicado na revista "Reis" (2000), e editado AQUI.