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22.1.15

MARAGE – Uma família do mar

Ovar tem o seu chão assente sobre a areia que há milénios foi fundo do mar. Hoje, e desde há séculos, a seis quilómetros da costa, os ova­renses respiram a maresia que lhes invade o sangue e lhes estimula a alma, fazendo chegar às mais distantes paragens do país o seu nome honrado, aí criando novas raízes.
É o caso das famílias Oliveira Alegre e Marage que, segundo a investigação de um descendente, o engenheiro Manuel Alegre, levaram a arte da xávega e os negócios da pesca para outras praias da nossa costa, chegando alguns deles a cruzar o Atlântico como intrépidos timoneiros de navios mercantes. (M. P. B.)

Jornal JOÃO SEMANA (15/09/2014)
TEXTO: Fernando M. Oliveira Pinto

O jornal “João Semana”, em parceria com o Museu de Ovar e a Câmara Municipal, organizaram uma palestra no dia 28 de agos­to de 2014, orientada pelo engenheiro Manuel Alegre , da Universidade do Algarve e distinto genealogista, sobre o contributo de famílias vareiras na atividade piscatória em Portugal e com ramificações em vários pontos do mundo, com referência privilegiada à “Família Marage” (na gravura), do­cumentada desde o século XVIII.

Engenheiro Manuel Alegre
FOTO: Fernando Pinto
“Quero agradecer a amabilida­de que tiveram na pessoa do Sr. Aba­de, Manuel Pires Bastos, por me ter convidado para estar aqui presente para conversar com vocês sobre al­gumas coisas que estão intimamente ligadas com Ovar”, disse o enge­nheiro Manuel Alegre no início da sua apresentação, confessando que teve vários momentos gratificantes ao entrar no Museu: “Primeiro, co­meçou com este cartaz. Está espe­tacular. O segundo encantamento que tive foi o de rever o meu antigo colega de estudo [Engenheiro Pedro Braga da Cruz] que já não via há muitos anos”, disse Manuel alegre.
Deixamos-lhe alguns extratos da intervenção do engenheiro Manuel Alegre, que esperamos venha a ter eco em obra editada:
“Aproveitava agora para conver­sarmos um pouco sobre uma coisa que eu há cinco anos atrás desconhe­cia totalmente dentro da minha famí­lia. Vivi numa casa com nove pes­soas. Dessas pessoas só estão vivos o meu irmão e a minha tia. Comecei aos poucos à procura, mas não que­ria fazer o trabalho que normalmente é feito pelos genealogistas. Queria aliar aos nomes que ia encontrando a história de cada uma das pessoas.
Vim aqui para falar da família Marage. A minha família chama-se Oliveira Alegre Marage, mas só é Marage a partir de determinada altu­ra. Antes, era sempre Oliveira Alegre ou Fernandes Alegre, Costa Alegre ou Ricardo Alegre.
De onde é que vêm estas fa­mílias? De Ovar. Provêm de terras vizinhas, como Beduído, Bunheiro e Pardilhó, que encadearam pessoas de Ovar e que aqui ficam 400 anos. Fui pesquisar e consegui encontrar Ma­rages em França, na Alemanha, em Itália e no Condado Portucalense. Depois, no sul de Espanha, no norte de África, na Arábia Saudita... O ano mais recuado a que consegui che­gar foi o de 634. Por volta de 1820 há uma crise generalizada: fome na pesca do arrasto, crise de morte nas famílias miseráveis, vítimas do palu­dismo por causa da cultura do arroz. As pessoas fugiam da morte. E para onde é que foram? Por acaso, desco­bri que foram para Tentúgal (Monte­mor-o-Velho). Porque andavam aqui na Ria, e o trabalho que faziam em Ovar era muito parecido com o que iriam fazer no Mondego. E ficam em Tentúgal durante 5 ou 6 anos. Nas­cem ali uma série de filhos. De um momento para o outro, dão um salto. Vão para Lordelo do Ouro ou para a vizinha Foz do Douro. Estão lá dois séculos. Depois vão para África. Al­guns, não todos. Há mui­tos que morrem na Foz.
(...) Contactei o jornal dos Pesca­dores de Matosinhos que me ofere­ceram a base de dados dos pescado­res. As mulheres Alegre quais são? São as que saem de Ovar e que vão para Matosinhos, e que depois casam com senhores que vêm de Lavra; e ficam por lá 150 anos. (...) Depois vão para Lisboa, mas lá é muito di­fícil de pesquisar, porque, como os fragateiros viviam nas suas fraga­tas, os filhos eram registados onde eles estavam atracados no Tejo. Em Belém, ou noutra freguesia onde es­tivessem a trabalhar. E depois, há os que dão um salto para o Brasil e para os Estados Unidos. Eu sei o percur­so de todos eles, mas o núcleo cen­tral está em Ovar. O primeiro nome que me apareceu foi o do Francisco Oliveira Marage, casado com Maria Ferreira, da Lagoa dos Campos, na Igreja de S. Cristóvão de Ovar, em 12 de setembro de 1837. Investigar estas pessoas demora muito tempo. É um trabalho ciclópico, mas que merece ser publicado em livro.

O engenheiro Manuel Alegre e dois elementos da família Marage
trocando memórias familiares - FOTO: Fernando Pinto

MARAGE. Apelido ou alcu­nha? Na minha família é uma al­cunha de certeza absoluta. Através do Sr. José de Oliveira Neves tive a felicidade de conhecer a D. Maria de Lurdes (na foto, em cima). Ela não tem o Alegre, mas sim o Mara­ge. O Alegre é que passou a ser a alcunha dela. O avô do avô da se­nhora Maria e o meu, são a mesma pessoa.
(...) Há os Alegres que foram para Matosinhos (as mulheres); há os Alegres que foram para a Foz do Douro (homens); e depois há os Alegres que ficaram em Ovar, e des­ses que ficaram aqui nesta terra des­cendem os Marages comerciantes de sardinha em Matosinhos. Muitos deles partiram para o Brasil. Já in­vestiguei alguns, mas não chego a todos. E porquê? Como são recen­tes, chegamos a 1911 e, por direti­vas civis, o registo dos nascimentos, casamentos e óbitos, passou para o Registo Civil, que não são de acesso fácil.

O engenheiro Manuel Alegre acompanhado de Ilda Oliveira Elvas (“Marage”)
e de João Elvas, seu marido (colaborador do jornal “João Semana”)
FOTO: Fernando Pinto

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de setembro de 2014)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/01/marage-uma-familia-do-mar.html

1.1.14

Os vareiros são como os pardais...

De inverno, são humildes e submissos;
de verão, não conhecem vivalma…

Jornal JOÃO SEMANA (15/02/2013)
TEXTO: Serafim de Oliveira Azevedo

Era assim que o meu Pai de­sabafava, depois de ter autorizado aquele homem, descalço e vestido de maneira diferente, a apanhar pinhas, durante mais um ano, no pinhal da casa.
Era eu pequeno, criancinha ainda. Mas aquele dito de meu Pai caiu mal no meu goto e, a partir daí, sempre que surgia uma oca­sião, logo eu procurava descobrir a razão de tal máxima, observando atentamente as pessoas de Ovar, e a melhor maré foi quando o Adalber­to Murteira, com permissão de seus pais, me convidou para passar uns dias com ele e com a mãe na sua casa do Furadouro. Foram uns dias em cheio: um fartote de praia. De norte para sul, tudo foi bem obser­vado, minuciosamente espiolhado. Mas faltava-nos uma coisa: ir no barco com os pescadores, observá­-los na sua espinhosa lide.

Uma aventura no mar
Combinámos comprar um Português Suave cada um, e, antes de começarem a sua faina, oferecê­-los àquele que nos parecesse ser o manda-chuva da companha, e pedindo-lhe se nos deixava ir com eles no barco. E a coisa foi mais fá­cil do que se esperava. Apetrechos em ordem…, e lá chegou o nosso embarque. Foram três momentos marcantes: a saída do barco, o momento do retorno, e a chegada. Que impressionante o remar do barco no retorno: tudo tão certinho, aqueles músculos retesados, aquele cântico de louvor a Deus… Aquilo não era um cântico, era uma oração cantada em voz tão alta, que, de certeza, era ouvida no Céu.
Quando contei isto à minha Mãe, ela aproveitou para me di­zer: – “Quem quiser amar a Deus, não diga que não tem tempo. Pode andar no seu serviço e trazer Deus no pensamento”. Como era uma mulher incansável, aproveitava todos os motivos para me pôr do lado de Deus. Tenho de lhe agra­decer essa dádiva.

Anos 40. Apetrechos em ordem... e lá chegou o nosso embarque

Mas voltemos ao trabalho, àquilo que nesse dia nos levou à praia, à concretização do nosso sonho. Metidos no barco, breve­mente começámos a assistir à sua invasão: foram 46 homens – que, para a nossa idade, para o nosso tamanho, eram autênticos gigantes –, que logo se dirigiram aos seus lugares e se prepararam para a ultrapassagem do mar de banco, pois o barco já estava bem à beira mar, para aí levado com o engenho e a força dos homens do mar e dos homens de terra.
Tivemos sorte, pois o barco venceu, de uma vez, o mar de ban­co. Depois, foi ver correr a corda e a rede até que esta chegasse ao saco. Lançado este ao mar, era chegado o momento do regresso a terra.
Tem graça que nunca nos pas­sou pela cabeça o receio de um desastre. Aqueles homens inspira­vam-nos tanta confiança, que nada nos assustava. A apreciação que eu tinha ouvido do meu pai, essa é que se afundou na parte mais profunda do trajeto daquele lanço.

A festa do regresso
Já de volta, foi um regalo ver as boias a flutuar, as gaivotas a perseguir-nos, atraídas pela fartura de peixe a saltar dentro da rede bem cheia.
Chegados a terra, o bulício foi outro. Homens, mulheres, crianças, tudo apareceu, tudo concentrou a sua atenção no recheio da rede puxada para fora das águas por ho­mens e bois alheios a todo este bur­burinho. Enquanto uns pescadores iam juntando a corda que ia saindo da água, outros iam recolhendo o peixe mais grado.
Saco fora da água, foi a hora da lota, do leilão. Concentrei toda a minha atenção no leiloeiro, mas não apanhei nada. O homem des­fiava uma cantilena e entregava o peixe. Mas só ele e o comprador se entendiam, sem os protestos de ninguém.
Que lindo dia, que bênção do céu foi mais este dia passado com o meu colega de carteira, meu amigo para sempre, o Adalberto Murteira!
Este episódio foi o prelúdio da minha entrega ao povo de Ovar. Isto e o convívio com o Boaventura e o Pacheco, na Repartição das Fi­nanças da Feira, o António Sanfins e a Maria Judite, o Zeferino e o José Cerejeira, estes na tropa, e os pais dos meus primeiros alunos, os da escola de Cabanões. Estes foram os alicerces. O resto do edifício foi acabado com os pais dos alunos das Escola n.º 1 da sede do concelho e com os industriais que puseram de pé a cantina que aqueceu e saciou os estômagos das crianças necessitadas da sede do concelho. Bem hajam!

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de fevereiro de 2013)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/01/os-vareiros-sao-como-os-pardais.html

3.10.12

Almeida Garrett e a pesca do Furadouro

Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2010)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Furadouro, Ovar
Quem já leu o livro “A Pesca no Furadouro – 1800-1955”, de que sou autor, e que foi editado por este jornal, tomou conhecimento da importância que teve na economia vareira a quantidade de sardinha colhida no mar da costa do Furadouro na segunda metade do século XIX e primórdios do século XX.
De um dos autores que mais escreveram sobre este tema, o Dr. Eduardo Lamy Laranjeira, transcrevemos aquilo que nos diz a este respeito em “O Furadouro – O Povoado – O Homem e o Mar”, justificando o realce que dou a essa actividade na referida época:

Pesca da Arte Xávega (Furadouro, Ovar)
“A classe piscatória vareira, nascida e residente na paróquia de S. Cristóvão, foi sempre bastante numerosa, conforme “Memórias e Datas”, que refere o número de 10 companhas em 1600 e de 6 em 1869, empregando cerca de 2000 almas, homens e rapazes. Ora, tendo em atenção o elemento feminino, mais numeroso que o masculino – umas 2400 mulheres e raparigas, não para menos –, temos que a globalidade da classe atingia, nesse ano, umas 4400 pessoas. 
O ano de 1864 acusa para o concelho 17.167 pessoas (Ovar, Válega, S. Vicente e Arada), pelo que a demografia da paróquia de S. Cristóvão devia, em 1864, apresentar entre 40 a 50% de elementos da classe piscatória”.

Isto vem a propósito da releitura que fiz recentemente do romance histórico “O Arco de Sant’Anna”, de Almeida Garrett, cujo primeiro volume foi publicado em 1845. Nele encontrei, no capítulo XIV, a seguinte passagem, alusiva a uma possível revolta devida ao descontentamento do povo do Porto:
“Sangue!... E o meu sangue é o que eles querem, os desmandados, o ruim populacho que aí se está a juntar mais basto do que um bando de sardinhas em Ovar”. 
Esta referência à faina marítima em  Ovar na primeira metade do século XIX confirma a importância que teve, naquele tempo, a costa de Ovar na pesca da sardinha, com o valor acrescentado de ter sido feita por um dos clássicos das nossas letras pátrias.
As duas primeiras fotografias que apresentamos, do início do século XX, mostram-nos como ainda há um século era basto o bando de sardinhas a saltar nas lotas ao longo do areal.

 José de Oliveira Neves junto ao que resta
do Arco de Sant’Ana, perto da Sé do Porto

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE MARÇO DE 2010) 
Endereço que deve colocar numa bibliografia
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/10/almeida-garrett-e-pesca-do-furadouro.html

15.7.09

Pesca no Furadouro nem sempre é milagrosa

TEXTO: A. Pinho Nunes

No verão passado aproveitei todos os bocados para ir ao Furadouro. E foram bem empregados! Na verdade, o mar esteve excepcional: água tépida, muito peixe, muita gente. Por exemplo, num domingo de Agosto, à tarde, contei, com muita paciência (que, às tantas perdi…) uns 3000 e tal carros. Carapau à fartura, como não era costume. O mar, sem ondas, andava lá longe…
Entre uma banhoca e umas raquetadas de «punho-ball» com o P.e Manel, lá íamos nós ajudar à rede com outros banhistas. Era desporto e boa vontade. Só!
O arrastão que mais trabalhou foi o «VAMOS ANDANDO». Foi nesta rede que mais puxámos. A princípio, parecia que a pele das mãos ficava para trás. Depois, habituámo-nos. E apareceram alguns calos, que não fazem mal nenhum. Eu já os conhecia, mas da enxada, noutros tempos.
De baixo para cima, toca a puxar; de cima para baixo, de mãos a abanar e torna a puxar… Na ponta da corda, está o ti Zé a enrolar a meada. Vira-se para mim e diz: – Atão ainda num le deram uma caldeirada? – «Não senhor!, respondi-lhe eu. Nem pensar nisso! Eu ando aqui só por desporto!»


O P.e Manel puxava do outro lado, e também lhe falaram nisso.
Mas, um dia, de que me lembro eu? Muito simples: ir com eles, no barco, ver como era.– Mas a remar!, disse logo – Sim, senhor! – disse um pescador. Fale ali com o arrais, que ele deixa-o ir.
Assim foi. Fiquei sentado a meio dum remo, e lá fui puxando, à procura do ritmo. Éramos uns 15. À medida que nos alongávamos pelo mar fora, o Furadouro aparecia-me duma forma diferente em todo o seu conjunto.
Os pescadores nem sonhavam que ia ali um padre! Acho eu que não. Se nem eu lho disse nem eles mo perguntaram…
O mar estava chão e a água azulinha que metia raiva. Dava vontade de experimentar dali um mergulho!
Os pescadores tagarelaram todo o tempo. E não ia ali nenhum santo… Por isso, as conversas tanto iam a direito como atravessadas, sem mal nenhum…
Lá longe, largou-se o saco. O pescador manda-lhe a jaculatória: - «Fica-te com Deus!»
Demos a volta. A chalaça continuou. Mas parou no momento em que eu comecei a ouvi-los dizer: - «Quem é que alumia?» É este…, é aquele… Começa um a tirar a boina, outro também, e, nisto, sai cantoria:

«Bendito e louvado seja
É o Santíssimo e o Sacramento da Eucaristia
No fruto e no ventre sagrado
Da Virgem Puríssima
Ó Santa Maria».


Escondi, como pude, a minha surpresa, e comecei também a cantar. Ao jeito deles, é claro, pois aquilo, para mim, estava a sair muito estropiado e fora do ritmo. Era ao ritmo dos remos e ao ritmo das suas almas simples!
Viemos a cantar até à borda, só parando quando o barco tocou em terra. Dei um salto cá para fora, agradeci, e só fiquei com pena de a pesca, depois, não ter sido nada milagrosa…

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Março de 1977)

16.3.08

Donde vêm os nossos barcos?

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/1978)
TEXTO: Almeida Langhans

Donde vêm os nossos barcos? De longe, muito longe, onde três continentes quase se tocam: Europa, Ásia e África. Mais precisamente: da ilha de Creta, à entrada do mar Egeu, entre a Grécia e a Turquia.
Os cretenses (melhor: eteocretenses) navegavam e pescavam por entre as quase 2000 ilhas do mar Egeu, e alongavam-se pelo Mediterrâneo que, mais tarde, seria o «mare nostrum» (nosso mar) dos romanos. (Também nós temos aqui um: «o nosso mar»!).
Os barcos de remos cretenses assemelhavam-se aos da Fenícia, ali perto, de remos compridos. Nem admira, pois seria natural uma influência mútua na arte de os construir.
O nosso barco meia-lua é considerado, por um autor, como perfeito representante do barco fenício, já que, pela forma e subtileza, se assemelha bastante a um modelo encontrado na Caldeia e que deve datar de 3000 anos A. C. Além disso, aproxima-se muito da forma dos barcos actuais da Mesopotâmia, actual Iraque.

Barco do Furadouro, Ovar
Mais fenício, menos cretense, pouco importa para nós. Que se avenham lá os estudiosos, se puderem.
Ouçamos, agora, o que diz Almeida Langhans, num artigo intitulado De volta à ilha de Creta que transcrevemos, com a devida vénia, dum Primeiro de Janeiro de há anos:
"Antes do seu enfraquecimento naval, os Cretenses eram os únicos a navegar pelo mar nas suas naves, de bizarra forma, barcos de calado; e mantinham o exclusivo dos transportes para o Egipto, para a Palestina, para as ilhas do Egeu e para a terra dos micénios. Essas naves estariam nas rotas para as pontas da península itálica e para a ilha Sicília. Viagens de longo curso, rumo ao Ocidente, efectuavam-nas no tempo próprio, seguindo as costas líbicas até para além das colunas de Hércules.(1) Era a rota distante da prata e do estanho que levava às longínquas Cassitérides oceânicas, passando pela base tartéssica na Hispânia, situada para lá do estreito.
Bizarros eram os barcos cretenses, na verdade. Bizarros, se os compararmos com os barcos dos rios de Babilónia ou os de Tebas. Restam-nos imagens deles em fugidias figuras esquemáticas, gravadas em jóias e nos selos cretenses da época minóica: naves curvas, de proa e popa arqueadas para cima e pontiagudas. Dispunham de remos numerosos. Armavam mastro com os seus estais e verga para vela rectangular de grosso pano de linho, reforçado por tiras de couro que se cruzavam em forma de rede. Quando o barco singrava à força de remos, o mastro curto arrumava-se, em encaixe especial, ao longo das bancadas dos remadores. Havendo brisa favorável a aproveitar, armava-se o mastro e largava-se a vela, ajuda apreciável para descanso dos remadores. Os barcos curvos dos cretenses não eram de combate. Lutas navais não as haveria num mar apenas sulcado por embarcações da mesma procedência.
Os barcos deste monopólio de transportes marítimos subiam profundamente os rios e fundeavam nos portos fluviais das grandes cidades do interior continental.
As curvas naves de Creta venciam facilmente o mar. Os barcos curvos de Creta não eram mediterrânicos. Foram talhados e armados para suportar o embate e galgar a onda forte do grande oceano exterior. E dele vieram um dia e fundearam ou vararam na ilha oblonga.
Barco do Furadouro 
Foto: Fernando Pinto
A originalidade do barco vem-lhe da sua forma estranha que as condições hídricas de um mar interior sem rebentação, e quase sem marés, nunca lhe proporcionaria.
O modelo cretense do barco curvo – um barco oceânico – poucos ou nenhuns vestígios deixou na construção naval mediterrânica. Só no calado dos maiores barcos fenícios talvez se possa encontrar qualquer reminiscência do forte barco curvo cretense.
A tese da origem deste barco impunha-se ao observador atento, a partir da própria lógica das estruturas. Nas vagas figuras esquemáticas de um passado milenário e que até nós chegaram, em jóias e selos, encontrámos certa similitude com os barcos de mar e de varar ainda hoje existentes na costa de Portugal – os «meias-luas» da Caparica e da costa até Aveiro.
Uma surpresa singular, porém, aguardava-nos na ilha de Creta. Uma surpresa arqueológica decisiva. Concludente pela imagem. Em Hagia Triada, ao sul da oblonga ínsula, encontrou-se um sarcófago com uma extraordinária pintura a fresco: em tons de oca, terra-de-siena, azuis e verdes esbatidos, desfila um cortejo de oferendas. Dirige-se para uma ara erguida junto de uma árvore. Um sacerdote, de capa de pele, aguarda, solene, as ofertas rituais. Um portador transporta, nos braços, um vitelo pequeno. Outro, leva uma cria semelhante. E outro, que segue à cabeça daquele cortejo, em passada grave e processional, ergue um barco votivo – o barco eteocretense de linhas curvas. O barco meia-lua da costa atlântica da Hispânia. O barco oceânico de proa e popa encurvadas para cima. As neusi koronisin referidas por Homero na Odisseia.
O mesmo tipo de barco que, em modelo e de prata, foi achado pelo grande arqueólogo Leonard Wooley, nas ruínas da cidade de Ur, no país dos letrados sumérios. Um provável exvoto ou presente de nautas hispânicos. Da Hispânia, empório da prata".

(1) Gibraltar

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE FEVEREIRO DE 1978) 
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/03/donde-vm-os-nossos-barcos-de-longe.html?spref=fb