Ovar tem o seu chão assente sobre a areia que há milénios
foi fundo do mar. Hoje, e desde há séculos, a seis quilómetros da costa, os ovarenses
respiram a maresia que lhes invade o sangue e lhes estimula a alma, fazendo
chegar às mais distantes paragens do país o seu nome honrado, aí criando novas
raízes.
É o caso das famílias Oliveira Alegre e Marage que,
segundo a investigação de um descendente, o engenheiro Manuel Alegre,
levaram a arte da xávega e os negócios da pesca para outras praias da nossa
costa, chegando alguns deles a cruzar o Atlântico como intrépidos timoneiros de
navios mercantes. (M. P. B.)
Jornal JOÃO SEMANA (15/09/2014)
TEXTO: Fernando M. Oliveira Pinto
O jornal “João Semana”, em parceria com o Museu de Ovar e
a Câmara Municipal, organizaram uma palestra no dia 28 de agosto de 2014,
orientada pelo engenheiro Manuel Alegre , da Universidade do Algarve e
distinto genealogista, sobre o contributo de famílias vareiras na atividade
piscatória em Portugal e com ramificações em vários pontos do mundo, com
referência privilegiada à “Família Marage” (na gravura), documentada desde o
século XVIII.
![]() |
| Engenheiro Manuel Alegre FOTO: Fernando Pinto |
“Quero agradecer a amabilidade que tiveram na pessoa do
Sr. Abade, Manuel Pires Bastos, por me ter convidado para estar aqui presente
para conversar com vocês sobre algumas coisas que estão intimamente ligadas
com Ovar”, disse o engenheiro Manuel Alegre no início da sua apresentação,
confessando que teve vários momentos gratificantes ao entrar no Museu: “Primeiro,
começou com este cartaz. Está espetacular. O segundo encantamento que tive
foi o de rever o meu antigo colega de estudo [Engenheiro Pedro Braga da Cruz]
que já não via há muitos anos”, disse Manuel alegre.
Deixamos-lhe alguns extratos da intervenção do engenheiro
Manuel Alegre, que esperamos venha a ter eco em obra editada:
“Aproveitava agora para conversarmos um pouco sobre uma
coisa que eu há cinco anos atrás desconhecia totalmente dentro da minha família.
Vivi numa casa com nove pessoas. Dessas pessoas só estão vivos o meu irmão e a
minha tia. Comecei aos poucos à procura, mas não queria fazer o trabalho que
normalmente é feito pelos genealogistas. Queria aliar aos nomes que ia
encontrando a história de cada uma das pessoas.
Vim aqui para falar da família Marage. A minha
família chama-se Oliveira Alegre Marage, mas só é Marage a partir de
determinada altura. Antes, era sempre Oliveira Alegre ou Fernandes Alegre,
Costa Alegre ou Ricardo Alegre.
De onde é que vêm estas famílias? De Ovar. Provêm
de terras vizinhas, como Beduído, Bunheiro e Pardilhó, que encadearam pessoas
de Ovar e que aqui ficam 400 anos. Fui pesquisar e consegui encontrar Marages
em França, na Alemanha, em Itália e no Condado Portucalense. Depois, no sul de
Espanha, no norte de África, na Arábia Saudita... O ano mais recuado a que
consegui chegar foi o de 634. Por volta de 1820 há uma crise generalizada:
fome na pesca do arrasto, crise de morte nas famílias miseráveis, vítimas do
paludismo por causa da cultura do arroz. As pessoas fugiam da morte. E para
onde é que foram? Por acaso, descobri que foram para Tentúgal (Montemor-o-Velho).
Porque andavam aqui na Ria, e o trabalho que faziam em Ovar era muito parecido
com o que iriam fazer no Mondego. E ficam em Tentúgal durante 5 ou 6 anos. Nascem
ali uma série de filhos. De um momento para o outro, dão um salto. Vão para
Lordelo do Ouro ou para a vizinha Foz do Douro. Estão lá dois séculos. Depois
vão para África. Alguns, não todos. Há muitos que morrem na Foz.
(...) Contactei o jornal dos Pescadores de Matosinhos
que me ofereceram a base de dados dos pescadores. As mulheres Alegre
quais são? São as que saem de Ovar e que vão para Matosinhos, e que depois
casam com senhores que vêm de Lavra; e ficam por lá 150 anos. (...) Depois vão
para Lisboa, mas lá é muito difícil de pesquisar, porque, como os fragateiros
viviam nas suas fragatas, os filhos eram registados onde eles estavam
atracados no Tejo. Em Belém, ou noutra freguesia onde estivessem a trabalhar.
E depois, há os que dão um salto para o Brasil e para os Estados Unidos. Eu sei
o percurso de todos eles, mas o núcleo central está em Ovar. O primeiro nome
que me apareceu foi o do Francisco Oliveira Marage, casado com Maria Ferreira,
da Lagoa dos Campos, na Igreja de S. Cristóvão de Ovar, em 12 de setembro de
1837. Investigar estas pessoas demora muito tempo. É um trabalho ciclópico, mas
que merece ser publicado em livro.
![]() |
O engenheiro Manuel Alegre e dois elementos da família
Marage
trocando memórias familiares - FOTO: Fernando Pinto
|
MARAGE. Apelido ou alcunha? Na minha família é uma
alcunha de certeza absoluta. Através do Sr. José de Oliveira Neves tive a
felicidade de conhecer a D. Maria de Lurdes (na foto, em cima). Ela não tem
o Alegre, mas sim o Marage. O Alegre é que passou a ser a alcunha dela. O avô
do avô da senhora Maria e o meu, são a mesma pessoa.
(...) Há os Alegres que foram para Matosinhos (as
mulheres); há os Alegres que foram para a Foz do Douro (homens); e depois há os
Alegres que ficaram em Ovar, e desses que ficaram aqui nesta terra descendem
os Marages comerciantes de sardinha em Matosinhos. Muitos deles partiram para o
Brasil. Já investiguei alguns, mas não chego a todos. E porquê? Como são recentes,
chegamos a 1911 e, por diretivas civis, o registo dos nascimentos, casamentos
e óbitos, passou para o Registo Civil, que não são de acesso fácil.
![]() |
O engenheiro Manuel Alegre acompanhado de Ilda Oliveira
Elvas (“Marage”)
e de João Elvas, seu marido (colaborador do jornal “João
Semana”)
FOTO: Fernando Pinto |
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de setembro de 2014)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/01/marage-uma-familia-do-mar.html
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/01/marage-uma-familia-do-mar.html











