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9.5.08

O escasso no Furadouro – O produto, a sua aplicação, o negócio...

Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2003)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Até ao aparecimento dos adubos químicos, o escasso era um dos vários fertilizantes naturais utilizados na adubação das terras de cultivo.
Compunha-se de peixe de fraca qualidade, ou dos seus detritos – especialmente tripas e cabeças das sardinhas depois de escochadas, de caranguejo e de uma mistura de sal e areia –, tudo em determinadas proporções, de forma a dar um bom produto final.



Estendidas, em vários lotes, no areal do chão interior dos armazéns dos mercantéis, essas misturas ali permaneciam durante um certo tempo a curtir, até alcançar um cheiro sui generis, juntando-se, mais tarde, num único monte bastante maior, já calculado para encher um carro puxado por uma junta de bois.
O escasso podia ser composto só por caranguejo ou só por detritos de peixe, ou ainda com a mistura destes dois subprodutos, mais o sal e alguma areia. Nos anos 40, havia na nossa praia várias bateiras que se dedicavam exclusivamente à captura de caranguejo, linguado, faneca, camarão e outras espécies. Depois de escolhido o melhor peixe para ser vendido às peixeiras, o crustáceo era comercializado para escasso. O camarão, assim como o peixe-aranha, ao qual os pescadores chamavam pacharanho, eram também utilizados para fazer óptimas sopas que, quanto a mim, ultrapassavam, em sabor, as famosas sopas de enguias.
Depois de vendido o caranguejo em leilão, como se fazia nas lotas da sardinha, este era acartado para os armazéns dos negociantes, para ali ser tratado, como atrás se referiu.
Entre os vários mercantéis e mercantelas que nessa época negociavam este produto na nossa Praia do Furadouro, destacamos a Pica, o Zé Carreiro, o Mendonça, o Lobo e a Rosa Peúgas.
Juntamente com este negócio, alguns deles tinham mercearia e posto de hortaliça.
Havia comerciantes de peixe que também vendiam directamente o escasso nos seus armazéns. Aqui, este subproduto era constituído apenas pelos resíduos das sardinhas escochadas que eles comercializavam.
Os compradores deste fertilizante natural eram provenientes não só dos lugares e freguesias de Ovar – as aldeias, como lhes chamavam –, mas também de concelhos vizinhos.
Apareciam no final do Verão, ao fim-de-semana, geralmente ao Domingo, para não prejudicarem os seus trabalhos no campo, aperaltados no seu fato de ver a Deus, trazendo na mão a aguilhada com que picavam os bois e onde, por vezes, se apoiavam.
Entrando nos armazéns, que tinham sempre as portas abertas, ali escolhiam o artigo que mais lhes convinha – no preço e na qualidade.

Antes do moderno marketing...


Na minha juventude, assisti a muitos negócios de escasso no armazém de Rosa Peúgas, minha tia-avó. Nesse tempo, não reparava muito na forma curiosa como ele era efectuado. Mas hoje, ao recordar esse processo, surpreende-me a paciência, a subtileza e o sentido de humor dos vendedores e compradores, cada um com os seus interesses antagónicos, procurando “levar a água ao seu moinho”, num encadeamento de diálogos muito engraçados.
Nesses anos 40, minha tia, mercantela do Furadouro, era já uma solteirona com razoável idade, mas muito divertida...
Quase todos os lavradores, para desvalorizarem a qualidade do produto, no sentido de conseguirem um desconto no preço da mercadoria, tinham por hábito dizer que o escasso possuía muita areia na sua composição. Ao que ela lhes respondia:
– Tem areia, tem! Era melhor que em vez de areia tivesse “açucre”! Areia têm vocês na cabeça!...
Quando eles percebiam que ela não lhes fazia o desconto pretendido, atiravam-lhe esta:
– Ó Tia Rosa, não seja má!... Por isso é que você não se casou!...
E ela, que tinha muita confiança com os clientes, a quem tratava a quase todos por tu, retorquia:
– Eu não me casei porque quero arranjar um homem bom, rico e bonito!
Estes diálogos duravam, por vezes, muitas horas até à concretização do negócio, quase sempre finalizado assim pela minha tia:
– Leva lá o escasso, que já não te posso aturar mais. E vai com a Nossa Senhora...
Então o lavrador dava algum dinheiro de sinal, e comprometia-se a voltar, em determinada data, para carregar a mercadoria e pagar o resto da quantia combinada!...
Sem terem os modernos estudos de marketing, vendedor e comprador utilizavam, já então, uma forma de negociação muito peculiar e por vezes hilariante...


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE AGOSTO DE 2003)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/05/o-escasso-no-furadouro-texto-jos-de.html

4.5.08

As Sachadeiras

Jornal JOÃO SEMANA (01/06/2004)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Com o aproximar do Verão, vêm-me à lembrança as sachadeiras que, no tempo quente, há uns anos atrás, passavam pelas ruas da nossa cidade trazendo às costas as ferramentas do trabalho: sachos e enxadas. Quase sempre em grupos, vinham das nossas aldeias mal o sol rompia no horizonte e quando o dia era ainda uma criança.
Chamavam-lhes, aqui em Ovar, as Marias de Arada, talvez por grande parte delas provir dessa nossa freguesia.
Contou-me uma lavradeira de provecta idade que, no seu tempo (princípio do séc. XX), as sachadeiras vinham das aldeias e das zonas rurais de Ovar para o Mercado – ou praça, como então lhe chamavam –, junto da Câmara, para aí serem contratadas por quem necessitasse dos seus serviços.


As sachadeiras
Era um trabalho sazonal, que apenas durava alguns dias, no chamado tempo da sacha.
Por entre o milho e outras culturas, sachavam a terra manualmente, removendo-a, tornando-a mais fofa e destruindo as ervas daninhas.
À tardinha, quando o astro-rei começava a esconder-se no mar e a Terra ficava iluminada pelo crepúsculo, era muito bonito vê-las passar de volta, depois de um dia de trabalho árduo, cantando a várias vozes, num tom harmonioso, como se de um coro orfeónico se tratasse.
Muitas vezes, os rapazes da época, levados pela sua juventude impetuosa, lançavam-lhes alguns piropos, a que elas respondiam com a sua piada brejeira, continuando a seguir o seu percurso, sempre a cantar…
Aquelas vozes ainda hoje parecem chegarem aos meus ouvidos, trazidas pelo vento.
E dos versos que cantavam ainda retenho alguns na minha memória, como estes que aprendíamos nos livros da escola: “Indo um lavrador p’ra Arada, ai Jesus / Encontrou um pobrezinho, ai Jesus!”, cujo poema continuava, descrevendo uma velha lenda, ou como aqueloutro que lembrava os canários com penas muito bonitas, fazendo inveja àquelas mulheres do campo: “Canário, lindo canário! / Canário, meu lindo bem. / Quem me dera ter as penas / Que o lindo canário tem!...” Estes versos, cantados a várias vozes, misturadas com o piar das aves que, na época, costumavam cruzar os céus, eram encantadores!...
Pouco a pouco, o trabalho das sachadeiras deixou de ser feito de forma manual, sendo o sacho e a enxada substituídos pelas máquinas, que não têm alma nem poesia.
Quem as viu sachar, em grupos, as terras cultivadas, até ao pôr-do-sol, e passar pelas ruas a cantar melodiosas cantigas que o vento arrastava para longe, hoje, ao recordá-las, sente saudade!...


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE JUNHO DE 2004) 
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2008/05/as-sachadeiras-texto-jos-de-oliveira.html