ALGUMAS NOTAS TOPONÍMICAS OVARENSES - Almeida Fernandes

Do insigne historiador e medievalista Dr. Armando de Almeida Fernandes, que ao “João Semana” dedicou atenções que não podemos esquecer, reproduzimos o precioso trabalho aqui publicado em 1 de Agosto de 1993, relativo à toponímia ovarense.

A. de Almeida Fernandes
Jornal JOÃO SEMANA (1/8/1993)

1 – Cáster

Por amável sugestão e porque uma elucidação toponímica tem sempre interesse (não são do próprio povo tantas e tantas “explicações” – naturalmente quase sempre erradas?) –, tentarei obter das minhas hoje fracas disposições intelectuais, e, mais fracas ainda, da minha saúde física, algumas que me permitam ir-me ocupando de certos casos.
Seja, para principiar, o nome do pequeno rio que nasce pouco distante e passa na ex-Vila da Feira, para vir acabar em Ovar – nome este que se lhe deve, certamente: tenciono tomar o caso noutra ocasião. É Cáster esse nome, e como Ovar foi aquele que teve (e muito bem se lhe documenta), resulta, imediatamente, que houve uma substituição: portanto, Cáster é nome relativamente moderno – o que não quer dizer recente.
E compreende-se a substituição, desde que o nome primitivo começou a designar, cerca da foz do pequeno rio, um centro populacional em constante crescimento (origem da actual cidade) na área de Cabanões-Muradões: uma elementar necessidade de distinção – se bem que não impositiva, claro está. Mas sucedeu, sem dúvida, em meu entender –, passe a presunção que o não é.
Um caso para ventilar noutra oportunidade.
Ponte medieval sobre o rio Cáster em Ovar
Ponte Reada (=derreada)
Seria ocioso insistir muito em que desvendar a origem e significação de um topónimo repousa, essencialmente, num exame cuidadoso da palavra, mas sendo já e em absoluto necessário jamais se esquecer que regularmo-nos pelo ouvido e pela vista (escrita actual e pronúncia) é a “recomendação” mais eficaz para o erro rotundo. Sobretudo, ou como corolário disso mesmo, não é possível, e nunca deve tentar-se, qualquer explicação sem conhecer-se a forma antiga do topónimo – ou, melhor direi, a mais antiga, pois que a evolução fonológica pode oferecer várias. Exceptuam-se – mas nem sempre – estruturas muito simples. O caso do rio Cáster está no médio termo.
Quero eu com isto significar, apenas, que a forma anterior do nome pouco deve ter diferido, porque, realmente, a estrutura fonológica é singela, e foi-o por certo de origem, parecidamente. Não é preciso lucubrar muito, nem ser muito versado na ciência da nossa fonética, para, desde logo, se concluir que o problema não se põe na primeira sílaba, desde que convicto como estou de ser ele a tónica. Acho que Cáster é mesmo – e com razão – a pronúncia mais corrente, e não Castér, que tem todo o carácter de intromissão pretensamente erudita, nunca antiga; de facto, não é popular -er átono (final). Foi o povo quem “fez” a língua, e, com esta, a toponímia. Eu insisto em Cáster, e não Castér, nesse sentido, dado que um jornal manuscrito da segunda metade do ano de 1910, e da Vila da Feira, se designava “Caster”, sendo de crer que, se quem o designou (um erudito, já se vê) pronunciasse Cáster, lhe poria o acento – embora na época não se fosse muito apurado ou melindroso no diacritismo. Castér, portanto, uma fantasia prolativa erudita: mas nem por isso Cáster deixou de sofrer e, por isso, a mostrar. Com efeito, -er átono (final já se vê) não se manteria popularmente, que é a circunstância que impera: a evolução far-se-ia Castre (se mesmo esta se não alterasse). Em suma, “Caster” manifesta intromissão erudita ou culta, pretensamente – e, se não estou em erro, é de crer que a palavra não tenha, desde há muito, um uso generalizadamente popular.
E, no entanto, ela foi popular na origem, sem dúvida. As circunstâncias acabadas de apontar, uma a substituição do nome “Ovar” na designação do rio pelo povo, e outra as intromissões eruditas sobre a forma de nova designação, levam a concluir, à luz da ciência fonológica – que é intransgredível nestes estudos e que, infelizmente, tão pouco ou nada se tem em conta (deixando-se tudo à fantasia sónica e visual, o que é tremendamente aleatório e quase sempre fatalmente erróneo), levam a concluir – ia eu dizendo – que a forma inicial foi a tão simples palavra “Castro”. Enfim, “rio do Castro” (sem se excluir mesmo “Crasto”, mas nada obrigando a admitir esta forma), isto é, o rio que vinha do sítio de um castro ou se passava num local mais ou menos afastado da actual cidade (que recebera o nome desse curso de água, Ovar – nunca, o esqueçamos) e chamado Castro.
Como tudo deve ter partido da povoação de Ovar (surgida na área de Cabanões-Muradões histórica), o local de castro ou daquele nome Castro seria realmente afastado; mas não o poderia ser muito, sob pena de o nome desse local se não impor, dado que outros locais na extensão se habilitariam, pelos seus nomes, à designação, que foi tomada a partir da actual Ovar.
Um trecho do rio Cáster em Ovar na actualidade (zona do Palhas)
Assim tudo indica – pela perfeita integração em todos os circunstancialismos a que me venho reportando – que o local do Castro, ou onde existia o “castro” que levou à designação, era cerca do de São João actual, um pouco ao norte, onde o rio passa. É aí que deve considerar-se o factor – e a arqueologia poderá comprovar-lhe a existência, por muito pouco que hoje, materialmente, ela se manifeste. É aí que há elevação apropriada.
E, agora, a questão fonológica, que impossível é, sempre, pôr-se de parte: se a fonética se opuser, fica tudo destruído, por muito apropriado e bem congeminado que seja – e isso é o que, vulgarmente, e para fatalidade do erro, se não tem em vista.Tal se não dá aqui: uma alteração de -o final para -e perfeitamente provável (e regiões há em que ela é positiva): Castro - Castre (pela própria influência da tónica, com abrandamento vocálico escalar), passando a incidir sobre Castre o pretenso eruditismo: Cáster ou Castér (passe o emprego do acento nesta segunda forma), com um certo ar de estrangeirismo, ou mesmo exotismo, de parecer bem, tão próprio da erudição mal orientada.
Mudado o nome de “Ovar” para Castro (“rio Ovar” para “rio Caster”, e, se mudança suficientemente antiga, com a preposição “de”, do uso medieval em tais casos), o novo nome foi adoptado em toda a extensão do curso – até na própria Feira. Se ele tivesse partido desta, teria certamente o seu nome – visto que em Ovar se criou e adoptou esse (Castro), para reservar o lugar a si o primitivo do rio (Ovar).

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Agosto de 1993)
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2 – Ovar

Atento o que deixei dito no caso anteriormente versado (o de Cáster) é tão natural como conveniente – pelas estreitas relações entre ambos – que eu aborde de seguida o do topónimo “Ovar”.
Claro está que não me ocupo de origens de povoações em casos toponímicos, se bem que, muitas vezes, essas origens nos são reveladas por eles.
A toponímia é uma valiosíssima ciência auxiliar da História; mas, como é filológica, por sua mesma essência, e os “historiadores” (as aspas são para os de hoje, impagáveis ao meterem-se em tal domínio) demoram afastadamente a leste da Filologia, resulta que anda, praticamente, desaproveitada como tal. Ora eu é que, na consciência disso, não posso afastar-me dela. A íntima relação explica – e exige, sempre que necessário (não nos compliquemos com desnecessidades) – a consideração de dados documentais como se estivéssemos a estabelecer uma tese ou teoria histórica. Não admirem, pois, os que seguem, antes de expor a minha ideia – que deles, obviamente, procederá.

Capela de S. João, Ovar, cujo título aparece num documento de 922
Trata-se, desde logo, de apresentar a documentação do topónimo Ovar a partir do seu documento mais remoto: o de 922 (que se encontra num documento de uns dois séculos depois, baseado noutros da época a que pretende referir-se, isto é, documento confeccionado, mas de dados autênticos, ou mesmo por documentos de que se serviu o confeccionador). Nele, achamos referido o “porto de Obal”para situar as igrejas de S. Donato e S. João – respectivamente nos actuais lugares de Sandonato e São João. Basta o significado de “porto” para nos provar que nada há aí que ver com a depois vila e hoje cidade de Ovar, propriamente dita: em suma, refere-se ao pequeno rio que, depois – e assim hoje –, se disse Cáster.
Além do “porto de Obal”, ou Oval, temos, de facto, várias vezes, o dito rio do mesmo nome: assim, em 1026 “riu Ovar”, para referir Cabanões e Muradões; ou em 1046 “rivulo Obar” (citadas vizinhas Avanca e Pereira, o que tira as dúvidas a tratar-se de Ovar do nosso caso). Até depois dos meados do século XII, documenta-se-nos esse nome no dito rio – ao longo de todo ele, bastando-nos, para prova, os seguintes casos:
- Milheirós e Campo, na actual cidade da Feira ou junto, em 1083, corrente o “rivulo Ovar”;
- Travanca (Travanquinha), em 1151, “discurrente (rivulo) Ovar”, pouco a jusante;
- Cabanões, em 1143, “discurrente rivulo Ovar”.
Como se vê e desde a nascente à foz, sempre “rio Ovar”, tal como, nos nossos tempos – e como vimos, rio Cáster (Castro). Chegou ele mesmo a designar o território ou terra de Santa Maria, dita “de Ovar” por o respectivo castelo (o da Feira) se situar sobre dito rio: 1117 “província de Santa Maria de Ovar”, ou 1119 “território de Sancta Maria de Ovar” respectivamente para os lugares de Belece (perto de Fermedo, no actual c. Arouca) e São João da Madeira, e somente por casualidade é que não temos outros exemplos. Pensar na actual cidade de Ovar é um equívoco sem remissão apesar de reflectido no velho brasão da cidade e de ninguém (que eu note) ter interpretado tal referência (acaso com o receio de lhe tocar, dado o perigo “terrível” – e eu que o diga – de bulir nos mitos locais).

Túmulo medieval do antigo cemitério de Ovar, hoje no adro da Capela de S. João
Portanto, aqui temos “Ovar” como nome originariamente e só do pequeno rio. De facto, apenas dele e de uma passagem, o “porto de Ovar”, na zona de Cabanões -São João, isto é, do “castro” que veio a substituir nele aquele nome, para este ficar ou lugar de origem da actual cidade: a “villa Ovar” ou "Obar" (Obal) que, pela primeira vez, se cita em 1046 – o que não quer dizer já não sensivelmente de antes. Devemos desde então considerar a tendência para o nome do rio passar deste para o lugar (núcleo da actual cidade), o que, como é óbvio, se não realizou intencionalmente, ou seja, de um momento para outro. O nome Ovar, de facto, não se perderia no rio pelo de Castro (Cáster) antes de um século pelo menos de concomitância do uso (isto é, dos meados do século XII).
Estela do antigo cemitério
Estamos, assim, em condições de enfrentar e etimologia ou origem do topónimo Ovar. As opiniões têm sido várias, quase todas – como eu lhes chamo – de olho-e-orelha, isto é, sugeridas pelo som e pela visão: a escrita e a pronúncia. Quem tem feito e continua (chegou a aparecer ultimamente mais uma opinião: a origem árabe, porque, algures, na Argélia – se a memória me não atraiçoa há um nome mais ou menos consoante) não faz talvez ideia de que esta ciência, visto que o é, se regula por leis próprias, as de cada idioma, independentemente da vontade do homem e tanto como as leis físicas e as leis químicas. De maneira que, ao assim proceder-se, não se produz mais que necessidades que nem sequer merecem referência.
Há apenas uma opinião perfeitamente conforme às referidas leis científicas: a origem antroponímica germânica, isto é, o genitivo «Oduarili» do nome pessoal «Oduarius». É a opinião de Leite de Vasconcelos, grande filólogo, e de outros, como J. Piel, etc. Nem eles poderiam admitir coisa diferente e de Oduari(i) para “Ovar” temos os fenómenos de latim laudare e audire, etc..., para “louvar” e “ouvir”, etc. Não vou alongar-me com coisa tão clara e indiscutível – nem eu aqui o faria.
Apesar da sua solidez científica (que me levou a seguir essa opinião até mais ou menos há dez anos), um senão ou distracção, que atira por terra explicação tal, em meu ver: é que o nome pessoal Oduário, que se entende ser origem de Ovar, tinha ainda aquela forma quando os documentos de “Ovar” (o rio, o “porto”, a “villa”) nos surgem: quer dizer, quando ainda o nome pessoal conserva o -d- (gótico, sujeito por isso à síncope) por largos e longos tempos – um som que o nome no rio nunca teve! Logo, a origem é outra – e não creio haja filólogo que possa alegar o contrário.
À Ria de Aveiro (ou de Ovar) davam os antigos vareiros o nome de "rio"(Aguarela de António Joaquim, pintor natural de Travanca/Feira, cujos primeiros passos na Arte foram marcados pela sua vida de trabalho em Ovar).
Tratei já deste étimo na revista “Caminiana”, e este jornal (“João Semana”) chegou mesmo a transcrever esse meu estudo: mas, em Ovar, ou não se reparou nele ou não foi compreendido – e daí não se não aceitou. Fica apenas a solução pré-romana latinizante: a raiz ov significativa de água (concorda tratar-se de rio) e o sufixo -ar (paralelo a -al, que também aqui temos). Podemos, pois, juntar “Ovar” ou "Oval" (com b variante de v) a casos com os de Ovetum (Oviedo), Ovínia, Ovola (Óvoa), etc. O que diz J. Pedro Machado é um acervo ecléctico de tolices.
Em suma, e guardando para este final as considerações cujos conhecimentos básicos ninguém é obrigado a ter, mas que são, absolutamente, necessários a quem se permitir uma opinião própria (a que tem inteiro direito – mas condicionado a esse dever, ou obrigação): o leitor, não interessado, pode, assim, deixar de ler o que segue.

Igreja Matriz de Ovar
De facto, quem primeiro emitiu a única opinião aceitável Oduarii -“Ovar” fê-lo por mera distracção (desatento às circunstâncias que expus, em razão da perfeita conformidade fonológica), e o seu próprio prestígio impô-la. Mas, na verdade, o que temos é o seguinte:
a) Quando se verifica já “Ovar” (séc. IX-X, sem notícia mais antiga), deveria o nome pessoal ser “Oveiro”, ou pelo menos, O(u)eiro, em alternativa, porém demasiado condescendente. Ora, o que temos para o antropónimo é, sempre Oduario, latinismo da já existente forma “O(u)ario”. Tanto assim, que as suas formas posteriores são “Oeiro” e, em próclise, “Oer” tal como Sueiro com Suer (com formas em So).
b) Prova-se, assim que o sufixo alternativo -ar, al (nada tem com o gótico harjis e, menos ainda, wars), e explica-se aparecer-nos tanto Ovar como Oval (Obar e Obal). É uma perfeita confirmação (aliás desnecessária): tal como “lamar” e “lamal”, “fogal” e “fogar”, “casar” e “casal”, etc. (substantivos). Portanto, um indiscutível nome comum na origem: “oval” e “ovar” (origem pré-romana).
Creio não poder haver filólogo verdadeiro e honesto que me desminta isto – até porque a ciência não a arquitectei eu. O que fiz foi a sua aplicação atenta e coerente.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Setembro de 1993)
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3 – Arada

Encaremos o interessante caso do nome desta freguesia de concelho de Ovar: mas façamo-lo pela sua forma actual – essa mesma –, para vermos a que acerto ou engano poderemos ser conduzidos. No caso de engano, ficará o leitor com mais uma prova daquilo a que se arrisca quem nem sequer se lembra de que há forma(s) anterior(es), e esta(s), e não outra(s), é que pode(m) decidir.
Como a estrutura morfológica de “Arada” é muito simples – para melhor nos fazer acertar ou… enganar –, arrisquemo-nos com ela: um derivado, ao que aparenta, Ar -ada, com o sufixo -ada. O problema, portanto, residirá todo no elemento agente, Ar-, que, visto se tratar (no suposto) de um derivado, representa um nome comum ou apelativo. Descobrir, pois, em ar-, qual esse nome eis a questão linguístico-etimológica e, daí, semântica.

Arada - Igreja Paroquial (No nicho central, a imagem do Padroeiro, S. Martinho)
Principiemos por notar que Arada é perfeitamente similar de outros topónimos, como Ovadas (há também Aradas na toponímia), que escolho por se tratar de Ov – adas com um elemento ov –, pré-romano, significativo de “água” e que já achámos no nosso topónimo Ovar, ou o Oval (Ov – ar, Ov –ale). Isto morfologicamente. Mas não chega – embora já muito, e indispensável.
Num ponto de vista semântico, comparemos Arada(s) com Cavada(s): tal como este de “cavar”, logo nos inclinaríamos àquele como de “arar” – e tínhamos o caso resolvido (visto que não nos propomos ir mais fundo na questão linguística, nem para estes meus apontamentos se necessita). De facto, os elementos cav – e ar – são as raízes do latim cavare “cavar” (abrir cavas ou covas) e do latim arare “arar” (lavrar). A documentação antiga fornece-nos a conceptualidade essencial a estes casos (que, aliás, são muito simples, o que é frequente não se dar, e daí as imperiosas cautelas a ter), como em 1258 “da herdade que chamam Cavadas dão um moio de pão”: que melhor, identicamente para uma “herdade que chamem Aradas”, ou Arada – do nome comum “arada”, que, precisamente por isso, temos hoje?
Mas há de imediato uma circunstância que nos faz suspender: desde quando se documenta esse nome comum de hoje, “arada”: – isto é, será ele anterior ao topónimo Arada (neste caso de um lat. Arata)? Se o não é, fica arredado da etimologia do nosso topónimo ovarense, Arada. Destas poderosas inibições geralmente se não cuida, o que é perigosissimamente aleatório – tanto mais que em relativo, isto é, para o nome comum “arada” só temos notícias desde os finais do século XV – e, para piorar, literárias (em Gil Vicente), sendo que o fautor da toponímia é popular. Esta limitação não impede, porém, admitir a anterioridade (tanto mais que aquele abandono literário se encontra na linguagem popular de Gil Vicente, o que nos recomenda como popular a palavra), e não há a mínima razão contra a naturalidade de “arada” em face da de “cavada” (até pela perfeita similitude no trabalho designado). A própria toponímia vem dar a ajuda decisiva, porque “arada(s)”, nela, é muito mais abundante que “cavada(s)”, e afectada de artigo – o cunho dos nomes apelativos.

Conclusão: Arada, o lugar, teria sido, de origem, um prédio em que se arava a terra – e, o que é mais, a partir das imediações povoadas, povoando-se o local a pouco e pouco.
Mas e ainda sem sairmos da forma actual, Arada, a questão mantém-se indecisa é que vigorou o elemento pré-romano ar – “água” (logo, corrente desta) e ar (r) “montanha”, ou mesmo rocha. Nota-se como tão bem existe Arada nome de uma serra broeira, na qual poderiam ter-se feito as “aradas” do cultivo, e daí o nome, mas nada o afiança. Nota-se, também, que temos Arada na freguesia de Avanca, nome este em av – “água” – planura e corrente predominantes, mas com elevação impressiva na planície (creio que explicativa no sufixo -anca). E até pode ter sido que o latim arare tenha provindo do pré-romano ar (r) referido: tanto mais que a terra – em que se lavra – é rocha também (embora desagregada).
Como se vê, temos pela frente o perigo dos homónimos (e já não falo dos parónimos, que fornecem o nunca acabar de riso – mesmo em “filólogos” encartados…): neste caso, uma “arada” mais remota (arata, pois que só o t garantiria o d actual) teria sido coisa muito diferente do Terreno arado ou terra arada. Em que podemos, pois, ficar?
Tudo isto foi para colocar o leitor perante o que não se costuma acautelar. Quer um exemplo, sem escolha, tantos eles são, até dos tais filólogos encartados? Aqui tem o de J. P. Machado para Arregaça, junto a Coimbra: para ele, de “arregaçar”! Decidido, seguro – sem querer saber para nada de averiguar a forma antiga (ciência fonológica em aplicação) nem da congruência (campo da lógica, inseparável do da ciência): “arregaçar” o quê, e para quê? A toponímia é uma ciência objectiva, e, como ciência, exige a demonstração. Aquele filólogo tem muito “daquilo”: um vasto campo de divertimento, e também, de fastio, com o devido respeito por quem lá vai ou entra confiado.
Enfim, vamos àquilo que deveria ter sido o nosso primeiro cuidado: explicar Arada – a Arada ovarense – pela forma antiga do topónimo e a procurar desde logo (porque eu só quis com o exposto mostrar ao leitor que me atenta que isto de “explicar” topónimos não é o que se julgue – de vista e ouvido, ou como eu costumo dizer, de “olhos-e-orelhas”, estas muito grandes e aqueles muitos pequenos), uma tarefa que nos apresenta em 1288 “a Erada” e em 1290 “Herada” (Erada), em que até o artigo se nos demonstra. A solução é imediata: uma palavra antiga” (h) eerada, do latim hederata, ou este mesmo latim no caso mais remoto: um derivado de “(h)éera” + ada (se não do latim hedera + ata, para uma aplicação suficientemente remota – que é outro problema, e este insolúvel sem documentação balizadora das épocas de fixação e vigoração). E, mesmo assim, nem tudo se decide: qual o objecto isto é, terra, pedra, fonte, parede, etc., coberto de hera.
A evolução da palavra desde a forma mais remota (não sabemos em que estádio da evolução esta palavra foi aplicada à designação do lugar): hederata - heerata - heerada - erada - arada (estas últimas formas talvez já só na toponímia, isto é, já desaparecido o nome comum).
Aquela série precisava de um sinal especial, de forma para forma, mas não é de crer que a tipografia o aplique. Quanto às diversas formas, não dou delas a explicação fonológica, porque isso não se faz assim de pé para a mão, e levaria longe: mas estou pronto para ela no caso de interessar a alguma pessoa que tenha os conhecimentos básicos conscientemente.
(Convém anotar que os artigos “Arada” e “Aradas” da “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira”, vol. 38 págs. 468-470, são de minha autoria – o que não significa que eu os subscreva inteiramente hoje, passados trinta e cinco anos).

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Setembro de 1993)

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4 Cortegaça

Igreja de Cortegaça
Este topónimo encontra-se no Portugal nortenho (e na Galiza – já de esperar linguisticamente) com certa frequência, e é muito notável na morfologia e na semântica próprias. Digo-o pelo que por mim observo, porque os filólogos encaram-no com uma facilidade e um expeditismo tais que lhe tiram o essencial de tal notabilidade. Acareado com outro que aqueles lhe costumam quase sinonimizar, Cortegaça, vamos vê-lo da maneira mais simples que me seja possível dentro dos conhecimentos etimológico-filológicos que exige.
Primeiramente, as respectivas decomposições, sem as quais nada se consegue com um mínimo de segurança (se bem que a decomposição só é possível quando conhecida a estrutura – caso contrário exige outro procedimento), sendo a bem dizer, meio caminho andado: Cort-eg-aça, como Cort-eg-ada, o que podemos reforçar com outros casos da “família”, como Cortegosa= Cort-eg-osa, e até Cortegana= Cort-eg-ana.
Temos, pois, duplas derivações, ou dupla sufixação: sobrederivados de –ega (ou -ego).
(Não vou aqui ocupar-me propriamente desse sufixo, que demandaria demoras escusadas: mas convém lembrar o actual -eco, -eca, que creio ter substituído aquele para um sentido pejorativo que –ego, -ega não tinha de origem, mas que também veio a tomá-lo por se tratar de diminutivo: comparem-se, de facto “patego” e “labrego” com “livreco” e “padreco”, por exemplo, e não se achará hoje diferença. Nos textos antigos, não encontro, -eco, mas –ego, que penso nada ter com o latim -aecu-, -oecu- pois este evoluiria a -ego de maneira que, segundo me parece, o actual -eco não terá passado de um avatar ou alotropia intencional de -ego pela substituição de oclusiva para efeito pejorativo, para ênfase. Não sei se foi esta minha doutrina – que, em tal caso, não seria apenas minha, embora independente – que levou J. P. Machado, o mais recente tratadista, e como tal o refiro, a omitir totalmente uma rubrica -eco, tendo introduzido -ego. De contrário, não haveria justificação).
Não me parece possível considerarem “Cortegaça” – e no seu parónimo “Cortegada”, com que é encarado – o radical latino cortex, apontado sem excepção e de tal modo que todos os etimologistas, a contar Leite de Vasconcelos, não duvidaram em interpretar esses topónimos – e os outros da “família” – por locais onde abundavam “cascas”: estas, naturalmente, de árvores (nunca esfoliação lítica – que, de resto, nem lembram).
Surge, imediatamente, um problema de congruência toponímica (lógica, pois não basta a ciência): se se tratasse de”cascas” de árvores, aquela toponímia deveria abundar no Sul, habitat da árvore do córtex ou da casca por excelência, o sobreiro. Ora, aí, falta totalmente uma tal toponímia (sendo já do Centro o caso de Cortegana – com o n dos dialectos moçarábicos conservado, pois no Norte deveria ter-se Cortegã), pelo que me capacito de que nada aí há com o cortex, as “cascas”.
A própria morfologia vocabular está de acordo comigo: temos inegáveis derivados do já de si derivado “Cortega”, de “corte” – lat. cohorte “corte”. Aqui, o elemento da sobrederivação foi –aça ou -ada (Cortegaça e Cortegada), mas posso apresentar casos inversos, isto é, em vez de -egada (e -egaça), casos de -adega (-ad-ega): os topónimos Matadegas e Carvalhadegas (sobrederivados de “*matada” e “*carvalhada”), que nada – absolutamente nada – têm com o nome pessoal Egas, ao contrário do que se julga e até se escreve. Assim, Carvalho de Egas, sic!, aparece em 1195-1209 “as Carvalhadegas”, com o próprio precioso artigo. O assunto é muito interessante (até porque desdiz rotundamente, J. P Machado), mas levaria longe, e dispersaria o caso a versar aqui.
Além das razões de ciência e lógica, é óbvio que, se de cortex, como o -e- passa a -i- nos casos oblíquos, de um dos quais vêm as formas a ponderar (lembre-se mesmo “cortiça”, nome comum, e Cortiçada, topónimo, etc.) as formas deveriam ser, ao menos, de início, as antigas, Cortígaça e Cortigada, e, ao contrário, nós temos Cortiçada e não Corteçada – a prova de que nada temos que chamar aqui o cortex, ou a “cortiça”, ou, em suma, as cascas dos filólogos… Há mesmo uma questão de simples mas impositiva lógica: não seriam as “cascas” a designar o local, mas a árvore que as produzisse a esse ponto. E, na verdade, como é que temos a família toponímica do “sobreiro” ou espécie afim (Sobral, Sobrosa, Sobreda, Sobrido, etc. – que repito não exigem se trate mesmo, ou sempre, daquela árvore, mas ela a mais natural)? Isso só prova que era a árvore, em si mesma, a impor-se toponicamente.
Portanto, origem no derivado “*cortega”= corte + *ega.
Étimo, o latim cohorte-, “corte”. Da semântica deste vocábulo, apenas relevam as acepções militar, palatina e pastoril, obviamente, sem imaginações descabidas, só esta pode e deve ser encarada. (Não deixarei, porém, de observar que os avatares semiológicos alteraram a natureza natural da vogal tónica como temos em “côrte” ou “córte”, respectivamente para o sentido palatino-residencial e pastoril-estabular: o étimo, porém, é o mesmo).
Nada, pois, do que alegam os filólogos encartados: *corticacea para Cortegaça e corticata para Cortegada, etc. Além do muito mais expressei já, repito: por que não, hoje, se fossem isso, Cortigaça e Cortigada, etc.? Nunca o foram – nem sequer nas formas antigas, que deveriam revelar ainda o -i-. Logo, este nunca existiu nelas – como o temos, por exemplo, no topónimo Cortiçada = “cortiço” + ada, com “cortiço”= “corte” + iço (para não recuar a formas antigas). Os filólogos encaram do “cortiço” das abelhas a família toponímica Cortiça e Cortiçô, Cortiçada, etc.: mas como é que um cortiço (até um corticinho – um, e pequeno!) poderia impor o nome a um local? O que no “cortiço” da apicultura se acha, em meu ver, nada tem com a cortiça, seu material, até porque não era este o único para o “corte”, a morada das abelhas, mas o colmo (daí “colmeia”), a madeira, etc. Foi da própria permitividade a observação da organização social, ou digamos, palatina da vida destes insectos: daí a aplicação de um derivado de ”corte” (no sentido de morada), suf. -iço. Assim, o contraste com Cortegaça e Cortegada, etc., é mera aparência: também estes nomes com base “corte” pastoril – mediante “*cortega”, a estância de gados e seus pastores.
E agora permita-se-me um exemplo que – creia-se ou não – não me sugeriu a doutrina exposta: pelo contrário, só depois de arquitectada esta reparei no caso, que só veio confirmá-la. Aqui perto de mim (concelho de Tarouca), tenho o local da Cortegada= “*cortegada” + ada, com “cortega”= “corte” + ega, e, na sua área o topónimo Cortes de Cedofeita, de corte e cedofeita, com Cedofeita (construção rudimentar, ou sem demora), que devia significar, já de si, um estábulo, antes de surgir aí a designação Cortes (outras construções pastoris), em Cedofeita. Nada menos de três elementos no mesmo universo sematológico-topónimo. Por que, pois Cortegaça diferente? Não o era: o sufixo pode introduzir um certo matiz semântico, mas não diversidade inerente, ou essencial.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Outubro de 1993)

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5 - Maceda

Nome de outra freguesia do concelho de Ovar e que não ofereceu nunca dúvidas a tratadistas, desde o ilustre Leite Vasconcelos a J. P. Machado: mas, tal, como eles entenderam as coisas, por acaso acertariam. Antes, porém, uma palavra.
Deixei passar três artigos para que o leitor pudesse compenetrar-se do meu estilo de ”mestre”, e da opinião de que pretendo sê-lo. Se assim, vê-me ao contrário: dou explicações (e previno agora de que as darei sempre) precisamente porque não sou mestre nem o pretendo ser. Se o fosse, eu, embora minhas, não as daria: bastar-me-ia dizer, sem nada explicar (magister dixit).
Exprimo, agora, e mais uma vez, aquilo, que, neste sentido, aleguei a propósito de Arada: ser totalmente aleatório para investigação de uma etimologia trabalhar sem uma forma antiga. Por isso, e tal como com Arada, vamos fazê-lo com Maceda, isto é, explorar esta mesma forma – para ver-se o resultado. Procedamos à indispensável decomposição, visto que se trata, nitidamente, de um derivado tal como Arada: Mac-eda. O nome paciente está na raiz-radical (neste caso), Maç, isto é, aí o nome apelativo. Ora com este topónimo, os tratadistas procederam pelo indispensável: L. de V. entendeu-o da família de maçã – latim mattiana, a qual conta Maceira, Macido, Maçada, Maçal, com suas flexões e derivados; e J. P. M. fez mais, porque deu a Maceda por étimo um latim *mattianeta (villa) – assim mesmo escrevendo (embora com “villa” bastante abusivo: mas não é isso que aqui nos importa – até porque não estou propriamente a escrever a História).

Igreja de Maceda
Praticamente, e tal como acima deixei dito, procederam eles bem, portanto, visto que não se limitaram a discorrer pela forma actual – se bem que esta, nada significando à simples vista (certo ou erróneo, ao contrário de “Arada”, que ainda vigora, o que com “Maceda” não sucede) – não lhes deixava outro campo de opinião. Pois terão acertado mesmo assim? – Refiro-me ao caso da nossa Maceda ovarense, visto que foi por um apresentada a sua forma antiga: Mazaneta - Mazaneda - Mazâeda (séculos X e XI). Mas não o reportou precisamente à nossa Maceda, senão ao geral, dizendo ser “topónimo frequente na Galiza”. Não o referiu, pois, entre nós, o que foi lapso.
Esta minha reserva pode parecer descabida, mas não é: mesmo que a toponímia o não revelasse (ela é praticamente desconhecida, porque os róis que temos são urbanos, sendo riquíssima a toponímia rústica, como revelam os casos que eu mesmo coligi na matriz predial de alguns concelhos), basta-nos nas formas antigas, já romances, encontrar, por exemplo, casos em –eda (do latim -eta) e casos em aeda (do latim aneta), coevos e, portanto, diferentes: enfim, Mazada & Mazãda. E com a restante toponímia da “família” semelhantemente: Mazeda (que ainda vigora, embora na maior parte dos casos evoluídos a Maceda), & Mazaeda, Mazeira e Mazaeira (daí, hoje, Maceira & Macieira). Mazal & Mazãal, Mazido & Mazaido. Isto documentado nuns casos e teórico (se o é, pois pode vigorar algures) noutros. De qualquer modo, só um espírito muito irreflectido poderá não reparar – e daí julgar o mesmo – que, em cada, par, o número de sílabas dos dois elementos difere de um para o outro, e, pior, poderá dispor-se a afirmar daí que se trata do mesmo nome ou (aparente par, sendo que é bem real).
Há, pois uma sílaba discriminante em cada par, ou seja, que distingue, por exemplo, das formas hoje -eda como Maceda, as formas possíveis em -ãeda, que evoluiu àquela sem ser pois, a mesma. Em suma, poderemos admitir, na origem, a forma *mattianeta se esta documentalmente se provar, pois que pode tratar-se de outro nome, e, daí, de outro factor toponímico. O caso de Maçada, por exemplo, prova que Mazada antigo reflecte um apelativo diferente do que originou Mazãada, que possui mais uma sílaba: esta tem o seu étimo *mattianata, mas aquela não – ou seja, uma com o radical mattiana “a maçã” e a outra com ele mattia “a maçã” (palavras latinas ambas, mas de origem pré-romana a segunda): aquela, referente à planta, e esta à geologia, ou, respectivamente, ao fruto e à pedra ou rochedo.
Neste segundo caso – o geológico –, topónimos inegáveis, como Maças ou até Maçãs (o nome do fruto não toponimiza: fá-lo a árvore, sendo ilusórios os casos em que o pareça). Maçorra, Machinhata (e Mesquinhata), etc. cada um dos quais daria para um artigo destes. A raiz maç- com esse sentido temo-la em “maciço” (não é preciso – nem se deve – ir ao espanhol) e “mação” (sem ser preciso ir ao francês – sendo de lembrar que os “maçãos” também se chamavam ultimamente pedreiros livres), e, já se vê, “maço”, o instrumento do pedreiro ¬– o do “mação”, nome este que lhe encontro como alcunha num documento de 1226 que publiquei já (um Paio Mação, “Pelagius Mazanu”), alcunha profissional.
Tudo isto levaria longe, ponto por ponto: mas o leitor já pode por aqui ver que as coisas não vão assim ao rompante de qualquer que lhe dê na cabeça para emitir uma opinião, sempre sugerida pelo ouvido (e até pelos olhos – “olho por olho e orelha”, como eu costumo ironizar, pedindo desculpa). Já Leite de Vasconcelos avisava, que, para se descobrir neste campo alguma coisa de seguro, é preciso conhecer uma ciência inteira, a Filologia, e que mesmo “quem a conhece nem sempre acerta”. Mas, como as palavras andam na boca de toda a gente, que se julga proprietária delas como o é da boca – daí pensar delas o que melhor lhe quadrar. E, então, se se trata de um erudito – é o fim do mundo, em tolices convictas; e não se admite – nada de contrário, considerando lunático ou parvo quem não vê as coisas tão simples como as assim vistas.
Olhe-se, pois, como até os filólogos podem errar – e aqui, no caso de Maceda, como bem poderia suceder-lhes isso, desde que não atentos a -eda e -eeda (-ãeda) nas formas antigas.
Acertaram ou não acertaram. Como à localidade ovarense pertence o documento de 1013 “vila Mazaneda”, ou “Mazaneta” (1055), e aí temos, em 1320, Meceeda (quatro sílabas ainda), pareceria que sim: logo, um topónimo devido à vegetação, à macieira (naturalmente uma espécie espontânea ou bravia, porque tal cultivo não toponimiza, em geral).

Antiga casa solarenga em Maceda
A questão toda é que o latim, de onde vem a nossa língua (que é ele evoluído), se tinha mattiana “a maçã” (o fruto), e daí podiam provir muito nomes com o seu próprio sentido “vegetal”, tinha também mattia “a maça” (de que temos “maço”, etc.), designação de rochedo ou qualquer rocha, mesmo a mais ou menos desagregada já. Desde que impressiva esta, igualmente era ou poderia ela ser factor toponímico: até porque os rochedos foram, talvez, tal como água, a causa mais abundante de manifestações toponímicas. Ora, nada pode desmentir que de mattia “rocha” tivesse derivado *mettiana sc. “terra” – e aqui estávamos nós com homónimo de mattiana “a maçã” (fruto). Aplicados na toponímia, não ficaria possibilidade de distinguir. Assim, se de mattia devemos fazer provir Maça(s), Maçorra, Maçada, Maceda, Macida, Maceira, etc., derivados simples, também poderiam provir sobrederivados, como Machinhata, e os casos que, como Maceda não ofereçam uma sílaba discriminante nas formas antigas.
Não conheço a freguesia de Maceda, mas leio – como nota a mais digna de registo numa quase nula notícia do lugar – que na área da igreja (da qual proveio o nome Maceda, para melhor) são impressivos os xistos argilosos. Quem poderá, pois, negar que nada se tem com a macieira para se poder ter, perfeitamente, *mattianeta sc. “terra”, pela particularidade desta? O sufixo refere-se à extensão da área, e o nome agente ao factor – como sempre.
Local designado pelas aludidas plantas? Local designado pelas referidas rochas? Escolham lá: por mim, acho muito mais atendível o sentido ou causa mineralógica – “Maceda” uma parente próxima de um “maciço” (sem este ser orográfico).

Artigo publicado no quinzenário ovarense

JOÃO SEMANA (15 de Outubro de 1993)