2.2.19

S. Vicente de Pereira – Famílias do Rexio de Cássemes

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/2019)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Ao consultarmos os livros paroquiais de S. Vicente de Pereira, iniciados em 1589, fomo-nos apercebendo da importância histórica e linguística de alguns topónimos da freguesia, bem como da singularidade das suas famílias. Saber-se que na fidalguia portuguesa se apontam os Azevedos como originários do lugar de Azevedo, desta freguesia, que na Idade Média se chegou a chamar Pereira de Susã (isto é, Pereira de Cima, por oposição geográfica a Pereira Jusã, ou Pereira de Baixo, em Válega)?

A entrada para o Rexio, a partir da Rua Padre Juiz Domingos Martins de Oliveira

Outro lugar de destaque é Cássemes, que nos séculos XVII e XVIII nos aparece com várias designações aditivas: Rexio de Cássemes, Barreiras de Cássemes (1731), Lagoa de Cássemes (“lugar da Lagoa”), Relva do lugar de Cássemes (1731), Termo de Cássemes (1747) e Lavoura de Cássemes (1842).
No Rexio situa-se a casa que foi dos Alves (até cerca de 1820?) e, depois dos Martins, e que, antes, foi residência de uma família judaica.

Rexio (ou Rossio?) de Cássemes
Rossio significa logradouro público. (Em Aveiro foi recinto de feiras, e em Lisboa transformou-se num centro cosmopolita).
O Rexio

Rexio significa terreno lamacento. Dado serem essas as caraterísticas do local a norte e a nascente da rua com esse nome (embora ali erradamente escrito "Rochio"), deveria ser esse o espaço partilhado por algumas famílias locais – Vaz, Fernandes, Alves, Gomes, Martins, Herdeiro –, e onde, a nascente, fica a Capela de São Geraldo, implantada por Rafael Valente, em 1656, e logo na estrada, para norte, Cássemes, Relvas e Torre.
Saída do Rexio

Vaz/Alves (Álvares)
O mais antigo Vaz por nós encontrado no “Rexio” é Domingos Vaz, casado com Catarina Jorge, pais de Lourenço Vaz, que viria a casar com Paula Álvares[1].
Deste casal viria a nascer Manuel Alves, que casou com Maria Francisca da Cruz[2], de Cássemes, sendo seus filhos António da Cruz (casado, em 01/01/1784, com Maria Rodrigues de Jesus[3], residente no Rocio de Cássemes e Maria Alves da Cruz, casada em primeiras núpcias com António Rodrigues dos Santos, e, depois de viúva, com José Joaquim Gomes Leite, residentes em “S. Geraldo”)[4].

Herdeiros/Fernandes
Esperança Maria, filha de António Vaz e de Maria Fernandes, do Rocio, casou em 18/01/1738 com Diogo de Oliveira, tendo sua neta Ana Maria de Oliveira[5] casada com João Francisco Herdeiro, do Rocio[6].
No Rexio moraram João António e Domingas Fernandes, bem como seu filho António Fernandes, casado com Sebastiana Fernandes, de Cássemes, bem como o filho deste casal, António Rodrigues dos Santos († 1790), e sua esposa, Maria Alves da Cruz[7], pais do Sargento Manuel Rodrigues da Cruz, que viria a casar com Ana Maria da Luz de Jesus, filha de José Fernando Morgado e de Maria Rosa, da Devesa.

Gomes
Manuel Gomes e Maria Luís, do Rocio de Cássemes, foram pais de Mariana Gomes, casada no lugar do Outeiro com Manuel Fernandes[8], e avós maternos de Rosa Maria, que viria a casar, em 30/11/1781, com Manuel Álvares, filho de Manuel Alves e de Maria Francisca da Cruz, de “Cássemes”, atrás referidos.
Maria Luís, filha de Manuel Gomes e de Maria Luís, do Rocio, casou, em 30/04/1741, com Mateus Gomes, filho de António Gomes e de Maria Gomes, de Cássemes.

Martins
P.e Juiz Domingos Martins de Oliveira, que 
foi proprietário da casa do Aron Hakodesh 
(† 13/05/1951, com 61 anos)
Manuel Martins de Oliveira, filho de Domingos Martins e de Teresa Maria de Oliveira, da Rua Nova, Válega, veio casar em S. Vicente com Ana Maria Gomes da Conceição, do Rocio de Cássemes[9].
Tiveram a seguinte geração: Maria Gomes da Conceição (n. 10/11/1818), Luísa Maria de Oliveira Martins (casada em S. Vicente com Manuel da Costa, do Lourinhal, residindo em Cássemes), Ana Maria Oliveira Martins (casada em 24/11/1853 com Manuel Gomes de Pinho, filho de Manuel Gomes de Pinho e de Maria Gomes de Pinho, e neto materno de José Alves da Cruz e de Maria Gomes de Pinho), Rosa (nascida a 29/05/1829), Manuel (n. 23/11/1819, casado em 1864 com Ana Maria Gomes), António Martins de Oliveira (n. 18/10/1821, casado com Maria Rodrigues de Jesus, pais, entre outros filhos, do futuro Padre e Juiz Dr. Domingos Martins de Oliveira, José Martins de Oliveira, e de Maria Joana da Conceição (casada com Manuel Gomes dos Santos).
Segundo informação de Lauro Martins, residente na rua do Cruzeiro de Cássemes, sua tia Ana Maria Oliveira Martins, atrás citada, terá dito que "naquela casa viveram duas famílias judias". (Possivelmente ali nascidas ou refugiadas antes do século XVIII)[10].

Notas
[1] Filha de Manuel Álvares e de Catarina Manuel, de S. Martinho [da Gândara], do “Rocio de Cássemes”.
[2] Filha de Manuel Francisco e de Isabel Fernandes, do Rexio, neta materna de Domingos e de Catarina Fernandes.
[3] Filha de António Fernandes e de Sebastiana Fernandes, de “Cássemes”, e neta paterna de João António e de Domingas Fernandes, do Rocio, e materna de Manuel Fernandes e de Maria Rodrigues, de “Cássemes”.
[4] José Joaquim era filho de João Gomes Leite, de S. Vicente, e de Rosa Maria Dias, de Ovar.
Ainda em 24/01/2018 ouvi designar como a "casa do Álves" a casa do Aron Hakodesh, que, pela sua configuração e textura material, os peritos consideram do séc. XV ou XVI. Terá passado desta família – e talvez já desabitada – para a família Martins, vinda de Válega por 1818 (há 201 anos), o que ajudará a explicar ter o "armário da lei" permanecido intacto ao longo dos séculos.
[5] Filha de Baltasar de Oliveira (1751-1828) e de Teresa Rodrigues († 1910, em Cássemes).
[6] Filho de José Francisco Herdeiro e de Maria Francisca, de Cássemes.
[7] Filha de Manuel Alves da Cruz e de Maria Francisca da Cruz, do Rocio. Casou, em segundas núpcias, com José Joaquim Gomes Leite (pai de um padre com o mesmo nome).
[8] Filho de Manuel Fernandes e de Páscoa Fernandes, de Pigeiros.
[9] Filha de Manuel Gomes Rodrigues e de Maria Joana da Conceição, do Rocio, neta paterna de João Rodrigues da Silva e de Antónia Gomes, de Cássemes, e neta materna de Manuel Gomes e de Caetana Maria da Conceição, de Vila Cova, São Tiago de Riba Ul.
[10] Em 23/01/2019 Lauro Martins reforçou esta informação que nos deu para a revista "Reis" de 2014, acrescentando, agora, que seu pai também era conhecedor de que judeus habitaram essa casa (no Rexio de S. Vicente de Pereira).

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Do “armário estranho” ao Aron Hakodesh
Em próxima edição do “João Semana” diremos aos leitores, como testemunho pessoal e para memória futura, as circunstâncias em que, na década de 80, no Rexio de Cássemes, São Vicente de Pereira (perto da capela de S. Geraldo), numa casa desabitada há mais de dois séculos, encontrei uma atafona desativada, da qual dei notícia na revista vareira “Reis” de 1997, e, algum tempo depois, descobri um armário de pedra de configuração estranha, cuja função só mais tarde entendi, por ter encontrado a resposta precisa para as interrogações que vinha fazendo e partilhando com pessoas amigas. (Ler artigo na internet, jornal “João Semana” de 15 de junho de 2012).

 Casa onde se encontra o Aron Hakodesh

"Essa casa (esse conjunto) tem um valor inestimável para os estudos do criptojudaísmo. É imperioso recuperá-la, dignificá-la e dá-la a conhecer. Inclusivamente, contactar com a Rede de Judiarias (se a Câmara assim o entender)." (Jorge Martins, na Internet, no sítio Artigos do Jornal João Semana ("Culto judaico em S. Vicente de Pereira?"), em 2 de outubro 2012.

Rabino Daniel Litvak, da comunidade judaica do Porto, visitando o ekhal
de S. Vicente de Pereira

“Este achado reveste-se dum inegável interesse cultural para a história de Ovar e também para o conhecimento da herança judaica em Portugal”. (Elvira Mea, em visita a S. Vicente de Pereira, em 26 de outubro de 2012).

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de fevereiro de 2019)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com/2019/02/s-vicente-de-pereira-familias-do-rexio.html

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