2.2.18

João Semana, um médico consciente da sua missão social

Jornal JOÃO SEMANA (01 e 15/01/2018)
TEXTO: Fernanda Grieben

João Semana conversando com Margarida,
aguarela de Alfredo Roque Gameiro
No primeiro capítulo de um conto inacabado, projetado para in­tegrar um segundo volume (que não chegou a ser composto) da an­tologia Serões da Província, Júlio Dinis deixou-nos uma reflexão ética sobre a missão social do médico. Em consonância com essa reflexão, João Semana – personagem do romance As Pupilas do Senhor Reitor – afigura-se ao leitor dessa primeira Crónica da Aldeia dinisiana como o protótipo do médico que está consciente da sua missão, no contexto social em que decorre a ação do romance: o do mundo rural português, na segunda metade do século XIX.

No referido conto inacabado – intitulado “A vida nas terras pe­quenas” –, Júlio Dinis (principal pseudónimo literário do médico Joaquim Guilherme Gomes Coe­lho, nascido na cidade do Porto, em 1839), realçando a importância da missão social que ao médico cumpre desempenhar, defende que, em conformidade com a natureza dessa mesma missão, “não é dig­no de ser médico” o estudante de medicina que, terminado o curso, não encare com apreensão o início da sua vida profissional. Na opi­nião do médico-poeta, todo aque­le que, “nesse momento solene”, compreende o alcance da missão que vai desempenhar, tem forçosa­mente de “estremecer”, sentindo-se “hesitante, impressionado por uma íntima desconfiança em si próprio, nas suas forças e faculdades”. Pois, é “natural que o confrangimento do coração que à semelhança do actor novel, experimenta todo o homem, ao entrar em cena neste grande tea­tro da sociedade, seja tanto mais intenso e doloroso quanto maior é a importância do papel que vai re­presentar”.
Assim sendo, é fundamental que o desempenho da profissão médica seja assumido consciente­mente. E esta é uma postura que tem de ser mantida, porque, ao longo da sua vida profissional, o médico terá de confrontar-se com todo o tipo de “afecto humano”, terá de saber lidar com todo o tipo de “desgraça” que lhe projectará no caminho “o seu triste reflexo”, terá de saber salvaguardar todo o “interesse” que dependa “dos seus actos”, como também terá de saber manter o “segredo” que foi confia­do “à sua lealdade”. E, para além de tudo isto, o médico terá de sa­ber conviver com “a morte”, que, “como um espectro implacável, lhe surgirá a cada momento”, “sob formas sempre diversas e sempre pavorosas, cingida com a capela virginal umas vezes, coroada ou­tras pelas cãs de velhice, animada por o sorriso da infância ou sinistra com os vestígios do crime”. E Júlio Dinis remata a exposição das suas ideias, declarando: “O que, saben­do isto, aceita com desassombro a missão, ou não tem inteligência para a compreender, ou possui um carácter de deplorável natureza”.
Tendo em atenção a reflexão ética sobre a missão social do mé­dico acima sinteticamente apresen­tada, pode-se, então, perguntar, se essas convicções que Júlio Dinis expressa, pela voz do narrador, se repercutem, ou não, no desenho do carácter das suas personagens de ficção que encarnam o papel do médico, especificamente, o do mé­dico da aldeia. Vejamos.
Nos contos que integram a an­tologia intitulada Serões da Pro­víncia e nos três romances com o subtítulo Crónica da Aldeia (todos, primeiramente, publicados em fo­lhetins, no Jornal do Porto), a figura do médico surge por quatro vezes: é “o médico”, do conto “As apreen­sões de uma mãe” (publicado de 11 de março a 1 de abril de 1862); é “doutor Jacob Granada”, do conto “Uma flor de entre o gelo” (publi­cado de 29 de novembro a 7 de de­zembro de 1864, ou seja, já depois da estadia de Júlio Dinis em Ovar); é “Daniel”, da primeira Crónica da Aldeia dinisiana, intitulada As Pupilas do Senhor Reitor (publi­cada em 1866, mas principiada a ser escrita em Ovar, em 1863); e é, ainda desse mesmo romance, “João Semana”.
Dessas quatro personagens de ficção que encarnam o papel do médico, só esta última – João Se­mana – pode ter sido criada por Júlio Dinis com a finalidade de representar o médico da aldeia que desempenha a sua profissão em harmonia com as convicções éti­cas do seu criador, anteriormente expostas. Isto, porque, tanto Jacob Granada (um velho facultativo po­sitivista, que se apaixona por uma jovem, sua paciente, depois desta ter demonstrando relutância em sujeitar-se ao paternalismo médico) como Daniel (um jovem médico no início de carreira, que regressa à sua aldeia, depois de uma longa estadia na cidade, que conseguiu agudizar a sua predisposição para o namoro) são personagens redondas ou multidimensionais. Ou seja, são dinâmicas, surpreendem o leitor, obrigando-o a uma modificação da sua conceção, a uma diferenciação progressiva da imagem que delas forma. Quanto à personagem que só é apresentada como “o médico", sem ser identificada, essa pode ser apreendida como sendo, unica­mente, a encarnação de uma ideia (que, provavelmente, no tempo de Júlio Dinis, é generalizada: a ideia do conservadorismo e estagnação científica do velho facultativo da aldeia). Ou seja, este tipo de perso­nagem é uma personificação, que pode surgir em romances realistas (nos textos literários dinisanos, não é a única), mas é imprópria para representar o médico ideal, no desempenho das suas funções. O octogenário João Semana, por sua vez, pode ser considerado um tipo social, embora as característi­cas que definem esta personagem sejam um pouco mais complexas do que aquelas que, geralmente, definem os tipos (ou stock figures). Este é o tipo de personagem que está mais indicado para analisar os estereótipos, podendo ser uma forma de crítica social. Assim, João Semana, tendo sido especialmente criado para representar o tipo social do médico da aldeia, em harmonia com as convicções éticas do seu criador, funciona, no conjunto da produção literária de Júlio Dinis, como protótipo do grupo a que per­tence.
Em relação ao que ficou ante­riormente exposto, convém desta­car que, antes da sua estadia em Ovar, Júlio Dinis não criou ne­nhuma personagem de relevo que, nos seus textos literários, encarne o papel do médico. A primeira, dou­tor Jacob Granada, protagonista do conto “Uma flor de entre o gelo”, já foi criada posteriormente, facto que reforça a ideia, tradicional­mente estabelecida, de que o mé­dico vareiro João José da Silveira (1812-1896) teria impressionado sobremaneira o escritor portuense, também ele médico de profissão, a ponto de este lhe copiar os traços caracterológicos, reproduzindo-os no desenho do carácter do célebre João Semana, personagem do ro­mance As Pupilas do Senhor Reitor (publicado em livro, pela primeira vez, em 1867).
Assim, à semelhança de João José da Silveira (e diferentemente de Jacob Granada), João Semana não se limita a exercer a profissão médica obedecendo a princípios éticos inspirados numa visão po­sitiva do mundo. Antes pelo con­trário, o médico octogenário é um homem imaginativo, que nutre “a paixão do ideal”. Logo, a sua vista penetra “através do mundo das realidades” e, além dele, descobre “um mundo novo, o mundo das ilusões e da poesia”, que lhe in­funde coragem para enfrentar “as provações da vida”, como escreve Júlio Dinis no já referido conto ina­cabado “A vida nas terras peque­nas”, onde acrescenta o seguinte: “Estas frontes humanas parecem ambicionar uma coroa, seja embora de espinhos, que misturem o seu pungir às embriagadoras comoções da glória”.
Com efeito, no romance As Pupilas do Senhor Reitor, é com verdadeira devoção que João Semana exerce a profissão médica. Revelando-se sensível aos problemas concretos dos seus pacientes, e sendo, “por aquele tempo, o único facultativo da freguesia”, é “lisonjeiramente conceituado na opinião pública da terra”. Homem laborioso e bem-humorado, o velho cirurgião colhe a sua “glória” junto de todos aqueles a quem incansavelmente visita, dia após dia, praticando na aldeia a arte de curar, num tempo (a ação do romance decorre em meados do século XIX) em que, no mundo rural português, ainda se faz sentir o atraso nas ciências médicas em Portugal, em particular no estudo da anatomia. Uma realidade que Júlio Dinis também retrata nessa sua primeira Crónica da Aldeia. No entanto, o ver­dadeiro obstáculo com que João Semana se confronta, dia a dia, no desempenho da profissão médica, não é a carência de conhecimentos científicos, mas a extrema in­digência em que vive grande parte dos aldeãos, muitas ve­zes, totalmente desprovidos de recursos económicos que lhes permitam adquirir os medicamentos que o médico lhes receita. E é neste ponto que João Semana mais fiel­mente representa o médico ideal no exercício das suas funções – em conformidade com os princípios éticos que Júlio Dinis defende (expos­tos na edição anterior) –, ao prati­car a Caridade de forma discreta, e permitindo, assim, que quem dela beneficia possa preservar a sua dignidade de pessoa humana. Teria sido esta a particularidade de João José da Silveira que mais impressionou Júlio Dinis? Tudo in­dica que sim. Foi certamente nessa figura vareira que o médico-poeta encontrou, talvez pela primeira vez, um médico consciente da sua missão social. Um médico profun­damente humano, que sabia que “se para cá do túmulo há alguma coisa que se possa chamar Céu e Inferno, é na própria consciência que se encontra” – como se pode ler no conto “A vida nas terras pequenas”.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 e 15 de janeiro de 2018)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2018/02/joao-semana-um-medico-consciente-da-sua.html

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