Jornal JOÃO SEMANA (01 e 15/01/2018)
TEXTO: Fernanda Grieben
No primeiro
capítulo de um conto inacabado, projetado para integrar um segundo volume (que
não chegou a ser composto) da antologia Serões da Província, Júlio Dinis
deixou-nos uma reflexão ética sobre a missão social do médico. Em consonância
com essa reflexão, João Semana – personagem do romance As Pupilas do Senhor
Reitor – afigura-se ao leitor dessa primeira Crónica da Aldeia dinisiana como o
protótipo do médico que está consciente da sua missão, no contexto social em
que decorre a ação do romance: o do mundo rural português, na segunda metade do
século XIX.
No referido
conto inacabado – intitulado “A vida nas terras pequenas” –, Júlio Dinis
(principal pseudónimo literário do médico Joaquim Guilherme Gomes Coelho,
nascido na cidade do Porto, em 1839), realçando a importância da missão social
que ao médico cumpre desempenhar, defende que, em conformidade com a natureza
dessa mesma missão, “não é digno de ser médico” o estudante de medicina que,
terminado o curso, não encare com apreensão o início da sua vida profissional.
Na opinião do médico-poeta, todo aquele que, “nesse momento solene”,
compreende o alcance da missão que vai desempenhar, tem forçosamente de
“estremecer”, sentindo-se “hesitante, impressionado por uma íntima desconfiança
em si próprio, nas suas forças e faculdades”. Pois, é “natural que o
confrangimento do coração que à semelhança do actor novel, experimenta todo o
homem, ao entrar em cena neste grande teatro da sociedade, seja tanto mais
intenso e doloroso quanto maior é a importância do papel que vai representar”.
Assim
sendo, é fundamental que o desempenho da profissão médica seja assumido
conscientemente. E esta é uma postura que tem de ser mantida, porque, ao longo
da sua vida profissional, o médico terá de confrontar-se com todo o tipo de
“afecto humano”, terá de saber lidar com todo o tipo de “desgraça” que lhe
projectará no caminho “o seu triste reflexo”, terá de saber salvaguardar todo o
“interesse” que dependa “dos seus actos”, como também terá de saber manter o
“segredo” que foi confiado “à sua lealdade”. E, para além de tudo isto, o
médico terá de saber conviver com “a morte”, que, “como um espectro
implacável, lhe surgirá a cada momento”, “sob formas sempre diversas e sempre
pavorosas, cingida com a capela virginal umas vezes, coroada outras pelas cãs
de velhice, animada por o sorriso da infância ou sinistra com os vestígios do
crime”. E Júlio Dinis remata a exposição das suas ideias, declarando: “O que,
sabendo isto, aceita com desassombro a missão, ou não tem inteligência para a
compreender, ou possui um carácter de deplorável natureza”.
Tendo em
atenção a reflexão ética sobre a missão social do médico acima sinteticamente
apresentada, pode-se, então, perguntar, se essas convicções que Júlio Dinis
expressa, pela voz do narrador, se repercutem, ou não, no desenho do carácter
das suas personagens de ficção que encarnam o papel do médico, especificamente,
o do médico da aldeia. Vejamos.
Nos contos
que integram a antologia intitulada Serões da Província e nos três romances
com o subtítulo Crónica da Aldeia (todos, primeiramente, publicados em folhetins,
no Jornal do Porto), a figura do médico surge por quatro vezes: é “o médico”,
do conto “As apreensões de uma mãe” (publicado de 11 de março a 1 de abril de
1862); é “doutor Jacob Granada”, do conto “Uma flor de entre o gelo” (publicado
de 29 de novembro a 7 de dezembro de 1864, ou seja, já depois da estadia de
Júlio Dinis em Ovar); é “Daniel”, da primeira Crónica da Aldeia dinisiana,
intitulada As Pupilas do Senhor Reitor (publicada em 1866, mas principiada a
ser escrita em Ovar, em 1863); e é, ainda desse mesmo romance, “João Semana”.
Dessas
quatro personagens de ficção que encarnam o papel do médico, só esta última –
João Semana – pode ter sido criada por Júlio Dinis com a finalidade de
representar o médico da aldeia que desempenha a sua profissão em harmonia com
as convicções éticas do seu criador, anteriormente expostas. Isto, porque,
tanto Jacob Granada (um velho facultativo positivista, que se apaixona por uma
jovem, sua paciente, depois desta ter demonstrando relutância em sujeitar-se ao
paternalismo médico) como Daniel (um jovem médico no início de carreira, que
regressa à sua aldeia, depois de uma longa estadia na cidade, que conseguiu
agudizar a sua predisposição para o namoro) são personagens redondas ou
multidimensionais. Ou seja, são dinâmicas, surpreendem o leitor, obrigando-o a
uma modificação da sua conceção, a uma diferenciação progressiva da
imagem que delas forma. Quanto à personagem que só é apresentada como “o
médico", sem ser identificada, essa pode ser apreendida como sendo, unicamente,
a encarnação de uma ideia (que, provavelmente, no tempo de Júlio Dinis, é
generalizada: a ideia do conservadorismo e estagnação científica do velho
facultativo da aldeia). Ou seja, este tipo de personagem é uma personificação,
que pode surgir em romances realistas (nos textos literários dinisanos, não é a
única), mas é imprópria para representar o médico ideal, no desempenho das suas
funções. O octogenário João Semana, por sua vez, pode ser considerado um tipo
social, embora as características que definem esta personagem sejam um pouco
mais complexas do que aquelas que, geralmente, definem os tipos (ou stock
figures). Este é o tipo de personagem que está mais indicado para analisar os
estereótipos, podendo ser uma forma de crítica social. Assim, João Semana,
tendo sido especialmente criado para representar o tipo social do médico da
aldeia, em harmonia com as convicções éticas do seu criador, funciona, no
conjunto da produção literária de Júlio Dinis, como protótipo do grupo a que
pertence.
Em relação ao que ficou anteriormente exposto, convém
destacar que, antes da sua estadia em Ovar, Júlio Dinis não criou nenhuma
personagem de relevo que, nos seus textos literários, encarne o papel do
médico. A primeira, doutor Jacob Granada, protagonista do conto “Uma flor de
entre o gelo”, já foi criada posteriormente, facto que reforça a ideia,
tradicionalmente estabelecida, de que o médico vareiro João José da Silveira
(1812-1896) teria impressionado sobremaneira o escritor portuense, também ele
médico de profissão, a ponto de este lhe copiar os traços caracterológicos,
reproduzindo-os no desenho do carácter do célebre João Semana, personagem do romance
As Pupilas do Senhor Reitor (publicado em livro, pela primeira vez, em 1867).
Assim, à semelhança de João José da Silveira (e
diferentemente de Jacob Granada), João Semana não se limita a exercer a profissão
médica obedecendo a princípios éticos inspirados numa visão positiva do mundo.
Antes pelo contrário, o médico octogenário é um homem imaginativo, que nutre
“a paixão do ideal”. Logo, a sua vista penetra “através do mundo das
realidades” e, além dele, descobre “um mundo novo, o mundo das ilusões e da
poesia”, que lhe infunde coragem para enfrentar “as provações da vida”, como
escreve Júlio Dinis no já referido conto inacabado “A vida nas terras pequenas”,
onde acrescenta o seguinte: “Estas frontes humanas parecem ambicionar uma
coroa, seja embora de espinhos, que misturem o seu pungir às embriagadoras
comoções da glória”.
Com efeito, no romance As Pupilas do Senhor Reitor, é com
verdadeira devoção que João Semana exerce a profissão médica. Revelando-se
sensível aos problemas concretos dos seus pacientes, e sendo, “por aquele
tempo, o único facultativo da freguesia”, é “lisonjeiramente conceituado na
opinião pública da terra”. Homem laborioso e bem-humorado, o velho cirurgião
colhe a sua “glória” junto de todos aqueles a quem incansavelmente visita, dia
após dia, praticando na aldeia a arte de curar, num tempo (a ação do romance
decorre em meados do século XIX) em que, no mundo rural português, ainda se faz
sentir o atraso nas ciências médicas em Portugal, em particular no estudo da
anatomia. Uma realidade que Júlio Dinis também retrata nessa sua primeira Crónica
da Aldeia. No entanto, o verdadeiro obstáculo com que João Semana se
confronta, dia a dia, no desempenho da profissão médica, não é a carência de
conhecimentos científicos, mas a extrema indigência em que vive grande parte
dos aldeãos, muitas vezes, totalmente desprovidos de recursos económicos que
lhes permitam adquirir os medicamentos que o médico lhes receita. E é neste
ponto que João Semana mais fielmente representa o médico ideal no exercício
das suas funções – em conformidade com os princípios éticos que Júlio Dinis
defende (expostos na edição anterior) –, ao praticar a Caridade de forma
discreta, e permitindo, assim, que quem dela beneficia possa preservar a sua
dignidade de pessoa humana. Teria sido esta a particularidade de João José da
Silveira que mais impressionou Júlio Dinis? Tudo indica que sim. Foi
certamente nessa figura vareira que o médico-poeta encontrou, talvez pela primeira
vez, um médico consciente da sua missão social. Um médico profundamente
humano, que sabia que “se para cá do túmulo há alguma coisa que se possa chamar
Céu e Inferno, é na própria consciência que se encontra” – como se pode ler no
conto “A vida nas terras pequenas”.
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 e 15 de janeiro de 2018)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2018/02/joao-semana-um-medico-consciente-da-sua.html
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