Jornal JOÃO SEMANA (01/01/2018)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Há cerca de 20 anos foi publicado por José Fernando Neves
Bello o livro “A Família Oliveira Bello, de Ovar”[1], onde se encontram mais de
cinco dezenas de ramos da sua árvore genealógica, particularmente da que se
implantara em Lisboa, em princípios do século XX, projetando a família Bello
para além das fronteiras pátrias.
Na contracapa dessa publicação vem publicada a foto de
uma pintura de 1876 referente ao navio “Ovarense”, que viríamos a saber
tratar-se de um brigue pertencente a dois ovarenses sócios de uma padaria em
Lisboa, barco que, quando transportava 300 negros na Serra Leoa, foi
aprisionado por uma corveta inglesa, sob a acusação de “tráfico negreiro”,
assunto que a escritora Agustina Bessa-Luís incluiu no seu romance “Eugénia e
Silvina” (1989), e cujo lastro terá sido aproveitado por Miguel Sousa Tavares
como base da trama do seu romance “Equador” (2003)[2].
Tínhamos em quarentena toda esta história quando, em
Ovar, há cerca de três anos, num encontro aprazado com o engenheiro Manuel
Domingues Alegre de Oliveira Silva para troca de ideias sobre as investigações
genealógicas que pretendia publicar, foi lembrado pelo jornalista Fernando
Pinto o caso do brigue “Ovarense” e a sua inclusão no romance “Eugénia e
Silvina”, o que constituiu surpresa e motivo de júbilo para o nosso visitante,
por ali encontrar um valor acrescentado para o seu trabalho, que viria a
documentar não só a história vivida naquele brigue, mas também todo o drama do
tráfico negreiro para S. Tomé, que Miguel Sousa Tavares descreveu sem desvendar [qualquer nome vareiro a que correspondesse] a
identidade dos protagonistas do seu romance, sabendo-se que nessa época o
proprietário do barco "Ovarense", era Fernando de Oliveira Bello, seu
trisavô paterno, nascido em Ovar em 1818, o qual, por coincidência, era casado
com uma Alegre, também de Ovar, do ramo Oliveira Gomes, donde descende o Eng.
Manuel Alegre .
Esclavagismo em S. Tomé
O brigue Ovarense, de 32 toneladas,
foi comprado em Lisboa em 1864 pela firma Bellos & Formigaes[3], para
transporte de cereal da Argentina e do Canadá para a padaria daquela sociedade,
em Lisboa. Em breve passaria a rumar para outras paragens, como o Canal da
Mancha (1867) e a ilha de S. Tomé (1876), desenvolvendo atividades
diversificadas. É nesta última viagem, com destino a S. Tomé, com paragem por
portos da Libéria e Serra Leoa, que o brigue é abordado e apresado por uma
corveta inglesa, “com a acusação de tráfico negreiro”, mas, um ano depois, “proprietários, capitão do
navio e agente foram ilibados da acusação, o navio restituído aos donos e paga
uma indemnização pela coroa britânica”[4].
![]() |
| Maqueta
do brigue "Ovarense" feita na atualidade sob orientação do seu proprietário, eng. Manuel Alegre |
Este episódio é evocado na “Grande
Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” que informa o seguinte: “Os ingleses
dificultaram muito esta fase inicial do desenvolvimento da cultura do café, que
prejudicava a exportação dos seus territórios, e com pretextos de combater o
esclavagismo impediam por todas as formas a transferência de negros de Angola
para São Tomé, onde a mão-de-obra escasseava. O governador-geral de Angola,
Sebastião Lopes de Calheiro Meneses, sustentou luta demorada com o comissário britânico
Edmond Gabriel, que pretendia impedir aquelas transferências. Em 1876, por
falta de braços, não se chegou a fazer a colheita do café. Foi na Libéria que
se contrataram livremente dois mil e quinhentos pretos que deveriam seguir para
São Tomé em navios ingleses. Estes, porém, negaram-se a fazer o transporte,
pelo que foi fretado um barco nacional, o brigue Ovarense, que teve licença e
alvará para ir à Serra Leoa buscar até 400 indígenas. Embarcavam o cônsul da
Libéria e o agente contratador Francisco Ferreira de Morais, mas o navio foi aprisionado por suspeita de tráfico de negros. Foram
julgados, não obstante as provas apresentadas da perfeita legalidade do
contrato, em 9-IX-1877. Vieram a ser absolvidos por sentença do tribunal de
Londres de 9-VIII-1880, que impôs indemnização aos apresadores”[5].
O brigue "Ovarense"
Nos “Anais da Academia
Portuguesa da História, Alberto Iria, no texto “Ex-Votos Marítimos Inéditos dos
Séculos XVII ao XIX – Novos subsídios para a sua história” dá informação
pormenorizada, de que extraímos apenas a identificação: “Brigue Portuguez
Ovarense no Canal Britanico próximo de Goodwin em 1 de Dezembro de 1867”[6].
![]() |
| O
brigue "Ovarense" reproduzido em pintura num ex-voto da Igreja do Senhor dos Passos da Graça, em Lisboa (finais do séc. XIX) |
Trata-se de uma pintura a óleo sobre tela (0,75 x 0,49,5),
com moldura doirada, em muito bom estado de conservação. O "Esboceto
Historico/da/Veneranda Imagem/do Senhor Jesus dos Passos da Graça/ e o templo
da mesma invocação" (Lisboa Typ. Lisbonense – Largo de S. Roque, 1874)
registou assim, em 1874, o supracitado ex-voto: "Quadro (de pintura),
representando um navio em perigo; a inscripção diz: Brigue portuguez Ovarense;
no canal britanico, próximo de Gordwin, (sic) em 1 de dezembro de 1867." O
P.e Ernesto Sales, na sua obra “Nosso Senhor dos Passos da Graça”, também se
referiu, em 1925, a este ex-voto, especificando
que mede "0,m8 x 0,m6"[7].
O brigue em obras literárias
![]() |
| Capa de "Eugénia e Silvina", obra da escritora Agustina Bessa-Luís |
O episódio do tráfico negreiro
para São Tomé, de que o brigue “Ovarense” foi acusado, vem também referido numa
conhecida obra literária do século XX – "Eugénia e Silvina", de
Agustina Bessa-Luís –, e serviu de inspiração para outra, já do século XXI
(2003) – "Equador", de Miguel Sousa Tavares, descendente de Fernando
de Oliveira Bello, seu trisavô, natural de Ovar e um dos proprietários do
“Ovarense” apresado em Cape Coast, atual Gana, cujo processo judicial,
decorrido desde dezembro de 1876 a novembro de 1877 na Serra Leoa, então
colónia da coroa britânica, vem transcrito na obra, em 3 volumes, "Foi assim que foi – a história possível dos Alegres de 570 a 2015”, do eng. Manuel Alegre [clique no link], que constitui um precioso contributo genealógico para muitos ovarenses,
que ali podem encontrar as suas raízes, as mesmas que deram corpo e rosto a
gente humilde e a gente ilustre hoje espalhada por todos os continentes. Eis um recorte do pequeno trecho em que Agustina nos introduz no episódio: “A acusação
de esclavagismo selvagem (e outro não era mais possível) pairava pelo menos há
dez anos sobre Portugal. Em 1876 o brigue Ovarense fora processado pelo
Vice-Almirantado de Serra Leoa por transporte de escravos. As provas eram esmagadoras,
porque havia a bordo demasiadas pipas para aguada, demasiadas esteiras e sacas
de arroz, o que pressupunha mais gente a conduzir e sustentar do que a
tripulação normal. O libelo mencionava grilhões trazidos de S. Tomé e
escondidos no porto de Freetown. O processo girou em volta de três rapazes
levados com ardil para o Ovarense, vendidos ao capitão e fechados no porão até
que o brigue se fez ao largo. Gira em volta de testemunhas umas falsas, outras
crédulas, outras ainda industriadas; mas o que prevalece é a suspeita arreigada
de que tanto nos paquetes ingleses como portugueses se transportavam escravos
para S. Tomé e aí eram desembarcados de noite e algemados. Tudo isto, não tem força histórica para interpretar a virtude dos homens quanto ao cumprimento das leis (a escravatura fora abolida em S. Tomé em 1875, mas os escravos libertos ficavam sujeitos a uma aprendizagem durante dois anos, o que os mantinha de certa forma constrangidos à condição anterior), serve apenas para traçar o quadro moral das ilhas quando João Trindade viveu lá”.
![]() |
| "(...) essa imigração entre colónias mais não era do que uma forma de esconder o que não passava de um sórdido tráfico de escravos". (Miguel Sousa Tavares, no romance "Equador") |
Notas:
[1] Bello José Fernando Neves, “A Família
Oliveira Bello, de Ovar”, 1994, edição do autor, 144 páginas.
[2] Tavares, Miguel
Sousa, “Equador”, Oficina do Livro.
[3] Fernando de Oliveira Bello, António e
Manuel Rodrigues Formigal. Em 1975, a sociedade passou a chamar-se Bello &
Formigaes, Lda.
[5] “Grande Enciclopédia P. e Brasileira”, vol. 27, S. Tomé e Príncipe,
pág. 651.
[6] “Anais da Academia Portuguesa da História”, II Série, volume 29,
Lisboa, MCMLXXXIV.
[7] Sales, “Nosso Senhor dos Passos da Graça (Lisboa). Estudo
Histórico da sua irmandade com o título de “Santa Cruz e Passos”, Lisboa, 1925,
pág. XVII.
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de janeiro de 2018)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2018/01/brigue-ovarense-trafico-negreiro-no.html





Sem comentários:
Enviar um comentário