Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2011)
TEXTO: Manuel Pires Bastos
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| João José da Silveira ("João Semana") |
À figura de João Semana de “As Pupilas do Senhor Reitor”
andam ligadas as ideias de bonomia e de desprendimento, materializadas no humor
daquele médico e na sua solicitude para com os pobres.
Sabendo-se que, desde há século e meio a essa figura
carismática se associa a personalidade do médico Dr. João José da Silveira (1813-1896), será lógico questionarmos se a
imagem que os ovarenses de há 136 anos construíram a respeito deste ilustre
conterrâneo corresponderá ao médico retratado em “As Pupilas”.
Uma abordagem superficial a um requerimento que chegou às
nossas mãos por amabilidade do amigo Joaquim Manuel Fidalgo, que o encontrou no
Arquivo Municipal de Ovar quando de buscas destinadas a um trabalho de
investigação em ordem à sua formatura em História, poderia levar-nos a pôr em
causa aquela auréola de bondade com que o povo o envolveu.
Uma pergunta se põe: Não estaria o Dr. João José da
Silveira (suposto João Semana) a requerer à Câmara uma remuneração indevida?
Não cremos nessa hipótese. Antes
lhe adivinhamos
motivações pertinentes.
Porque médico camarário, cabia- lhe, por contrato, olhar
pela saúde dos doentes do seu partido, incluindo os mais pobres.
A princípio os de Ovar, depois os de Arada e, posteriormente,
pelo que se lê no documento em estudo, numa área mais vasta do concelho. E
fá-lo-ia com disponibilidade e entrega total.
Cabendo-lhe, agora, uma área mais dilatada de serviço, teria,
naturalmente, a seu cargo muitos mais doentes, o que lhe acarretaria um maior
dispêndio de tempo, que teria de subtrair ao trabalho de consultório
particular.
A gratificação que ele reclamava como justa parece-nos,
por isso, estar dentro da lógica que ele usava na prestação de auxílio a toda e
qualquer pessoa em risco.
Sem esse acréscimo sugerido e que lhe foi negado, só com
esforço redobrado poderia cumprir plenamente o seu compromisso profissional.
Terá sido aqui, na correlação de forças entre a generosidade
que lhe é atribuída e as necessidades reais dos seus doentes que terá decidido
requerer aquela gratificação, sem em nada ser beliscado o honroso título de
médico dos pobres.
Pelo teor da acta da sessão de 15 de Abril de 1876 da
Câmara Municipal de Ovar, poderá o leitor julgar por si. Ei-la:
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| "João Semana", aguarela de Roque Gameiro |
«Nesta foi prezente o seguinte requerimento de João José
da Silveira:
Exma. Camara Municipal. João José da Silveira
cirurgião-medico pela eschola Medica Cirurgica do Porto, do Bairro de S. Pedro
desta Villa, vem requerer que no orçamento actual se inscreva uma verba, que
pareça rasoavel, como gratificação dos serviços extraordinários que tem
prestado e continua a prestar como facultativo. Os fundamentos da sua petição
são os seguintes: O supplicante principiou a ser facultativo de partido no ano
de 1851 e desde então até à morte de João Frederico Teixeira de Pinho, que se
realizou à seis para sete annos, exerceu por turno com os outros três
facultativos a clínica cirúrgica no Hospital, mas sendo suprimido o partido
deste, ficou desde essa epocha prestando os seus serviços com os outros dois
facultativos até que pelo falecimento d’António Izaac Teixeira de Pinho ficaram
apenas 2 facultativos o do suplicante e o de José Damião de Carvalho; Já se vê
pois que mudaram inteiramente as circunstancias, pois que na primeira epocha
prestava serviços num trimestre, na 2.ª por 4 mezes e desde Setembro ultimo por
seis. Isto seria bastante para justificar o pedido, mas accresce que V.ªs Exas.
o reconhecem, pois no orçamento votam uma verba para o facultativo que vier
substituir o falecido e sendo assim certo é que o suplicante merece
gratificação pelos serviços prestados e que houver de os prestar, e esta é a
doutrina do Dec. d’Estado de 9 de Maio de 1857 publicado no Diário do Governo
n.º 174 – Pede deferimento – E.R.M. cê – Ovar 7 d’Abril de 1876 – João José da
Silveira. A Camara deu o seguinte despacho: indeferido. E justificou a sua
decisão deste modo: A Camara entende que nem o requerente tem direito à
gratificação que pede nem a Camara a deve, como opportunamente mostrará, não
importando o seu reconhecimento o ter a Camara votado o seu orçamento para o
anno económico próximo futuro a datação do partido do falecido facultativo
António Isaac Teixeira de Pinho, o que é antes uma consequência de uma
deliberação tomada na Sessão de 24 de Setembro de 1875.»
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/11/joao-semana-medico-dos-pobres.html


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