30.11.17

João Semana, “médico dos pobres”?

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2011)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

João José da Silveira
("João Semana")
À figura de João Semana de “As Pupilas do Senhor Reitor” andam ligadas as ideias de bonomia e de desprendimento, materializadas no humor daquele médico e na sua solicitude para com os pobres.
Sabendo-se que, desde há século e meio a essa figura carismática se associa a personalidade do médico Dr. João José da Silveira  (1813-1896), será lógico questionarmos se a imagem que os ovarenses de há 136 anos construíram a respeito deste ilustre conterrâneo corresponderá ao médico retratado em “As Pupilas”.
Uma abordagem superficial a um requerimento que chegou às nossas mãos por amabilidade do amigo Joaquim Manuel Fidalgo, que o encontrou no Arquivo Municipal de Ovar quando de buscas destinadas a um trabalho de investigação em ordem à sua formatura em História, poderia levar-nos a pôr em causa aquela auréola de bondade com que o povo o envolveu.
Uma pergunta se põe: Não estaria o Dr. João José da Silveira (suposto João Semana) a requerer à Câmara uma remuneração indevida?
Não cremos nessa hipótese. Antes 
lhe adivinhamos  motivações   pertinentes.
Porque médico camarário, cabia- lhe, por contrato, olhar pela saúde dos doentes do seu partido, incluindo os mais pobres.
A princípio os de Ovar, depois os de Arada e, posteriormente, pelo que se lê no documento em estudo, numa área mais vasta do concelho. E fá-lo-ia com disponibilidade e entrega total.
Cabendo-lhe, agora, uma área mais dilatada de serviço, teria, naturalmente, a seu cargo muitos mais doentes, o que lhe acarretaria um maior dispêndio de tempo, que teria de subtrair ao trabalho de consultório particular.
A gratificação que ele reclamava como justa parece-nos, por isso, estar dentro da lógica que ele usava na prestação de auxílio a toda e qualquer pessoa em risco.
Sem esse acréscimo sugerido e que lhe foi negado, só com esforço redobrado poderia cumprir plenamente o seu compromisso profissional.
Terá sido aqui, na correlação de forças entre a generosidade que lhe é atribuída e as necessidades reais dos seus doentes que terá decidido requerer aquela gratificação, sem em nada ser beliscado o honroso título de médico dos pobres.
Pelo teor da acta da sessão de 15 de Abril de 1876 da Câmara Municipal de Ovar, poderá o leitor julgar por si. Ei-la:

"João Semana", aguarela
de Roque Gameiro
«Nesta foi prezente o seguinte requerimento de João José da Silveira:
Exma. Camara Municipal. João José da Silveira cirurgião-medico pela eschola Medica Cirurgica do Porto, do Bairro de S. Pedro desta Villa, vem requerer que no orçamento actual se inscreva uma verba, que pareça rasoavel, como gratificação dos serviços extraordinários que tem prestado e continua a prestar como facultativo. Os fundamentos da sua petição são os seguintes: O supplicante principiou a ser facultativo de partido no ano de 1851 e desde então até à morte de João Frederico Teixeira de Pinho, que se realizou à seis para sete annos, exerceu por turno com os outros três facultativos a clínica cirúrgica no Hospital, mas sendo suprimido o partido deste, ficou desde essa epocha prestando os seus serviços com os outros dois facultativos até que pelo falecimento d’António Izaac Teixeira de Pinho ficaram apenas 2 facultativos o do suplicante e o de José Damião de Carvalho; Já se vê pois que mudaram inteiramente as circunstancias, pois que na primeira epocha prestava serviços num trimestre, na 2.ª por 4 mezes e desde Setembro ultimo por seis. Isto seria bastante para justificar o pedido, mas accresce que V.ªs Exas. o reconhecem, pois no orçamento votam uma verba para o facultativo que vier substituir o falecido e sendo assim certo é que o suplicante merece gratificação pelos serviços prestados e que houver de os prestar, e esta é a doutrina do Dec. d’Estado de 9 de Maio de 1857 publicado no Diário do Governo n.º 174 – Pede deferimento – E.R.M. cê – Ovar 7 d’Abril de 1876 – João José da Silveira. A Camara deu o seguinte despacho: indeferido. E justificou a sua decisão deste modo: A Camara entende que nem o requerente tem direito à gratificação que pede nem a Camara a deve, como opportunamente mostrará, não importando o seu reconhecimento o ter a Camara votado o seu orçamento para o anno económico próximo futuro a datação do partido do falecido facultativo António Isaac Teixeira de Pinho, o que é antes uma consequência de uma deliberação tomada na Sessão de 24 de Setembro de 1875.»


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Maio de 2011)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/11/joao-semana-medico-dos-pobres.html

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