20.10.17

Algumas notas toponímicas ovarenses – Válega

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/1994)
TEXTO: A. de Almeida Fernandes

A. de Almeida Fernandes,
historiador medievalista
O topónimo Válega, se não é aquele que dessa desgraça mais sofreu, ocupa, incontestavelmente, um dos primeiros lugares no “historial” ignaro das pretensas explicações: por vezes, nem sequer uma letra comum, como quando se lhe liga a Betaonia do séc. VI! Além desta, até (lá de Espanha) Baneza – e juntem-se, de cá Bitarães com Vectica, com Barbola, com Besea do séc. VI, etc.!
Um delírio que não atendia sequer a que, geograficamente, nem proximidade, muito menos coincidência, havia: enfim, sequer ao menos aquilo que eu tenho chamado “olho-e-orelha”.
À vista e ouvidas, de facto, pertencem as opiniões de três autores: um com “valego” e “velegado” palavra achada em Viterbo, e dois com "valle" em razão do elemento vall –, de “Vallega”. Mas o segundo, -ega, era-lhes o cume dos trabalhos, pois que até de Valdágua, Onega, Garei existentes na freguesia de Válega actual!
Horrores – e há uns setenta anos o então Padre Miguel de Oliveira (natural daí), embora declarando (muito bem) que tais explicações são aceitáveis “na razão inversa da erudição”, aconselhava a que “escolha o leitor a que mais lhe apraz”. Ora o que não se pode é admitir que alguém aconselhe a adopção livre de desconchavos, tanto mais que esse autor – que foi historiador académico mais tarde – sabia que existiam leis fonéticas a nunca transgredir, embora as ignorasse: mais culpado, de certo modo, que os outros, porque já vigorava então o método glotológico, tão científico, pelas suas leis e domínio, como outro que mais científico seja.
Igreja Matriz de Válega
Foto: DR
As leis fonológicas, em cada idioma, são tão científicas como as leis físicas ou as leis químicas: falar sem elas é o que há, pois, de mais anticientífico – e, no entanto, até isso nos vem hoje das universidades, especialmente uma chamada Universidade Nova de Lisboa. Se acima chamei delírio as opiniões anteriores ao estabelecimento do dito método, com não menos razão posso chamar uma desgraça (ou então pagodeira) as posteriores.
Exposto o indecente quadro por uns instantes necessários – até porque pode funcionar como espelho para quem, mirando-se nele, for capaz de sentir-se envergonhado –, passemos a considerações dentro do método próprio e único e que, ainda assim, não estabelecem uma certeza: e a razão é que não há apenas uma possibilidade de explicação científica e lógica.
É claro que não se pode negar que a “fisionomia” e a consonância numa palavra cujo étimo se busca não deixam de actuar e serem justas no espírito do investigador – mas é precisa uma imensa cautela.
Como o leitor tem notado, quando há alguma possibilidade de decomposição, não rejeitável in limine como o são os disparates, poderemos efectuar, ao menos, a tentativa de adoptá-la para criticarmos os resultados – dentro da ciência (leis fonológicas) e da lógica (a congruência toponímica, tão indispensável como aquela). Essa decomposição seria Vall - ega, com -ega átono, e permitimo-nos fazê-la porque (é preciso notá-lo) Vallega é já a forma no documento mais antigo que da localidade temos, o de 1102.
(Não de 1002: no apógrafo, faltou um C. Basta atender a que se trata de bispo de Coimbra, Maurício, que o foi aí entre 1098 e 1108. Que o não visse Miguel de Oliveira em 1925, compreende-se, mas ainda trinta anos depois admiraria… Fica o necessário aviso, pois que cerca de 1957 já ele dizia certa a data).
Nesse documento, de facto, a “villa Dagaredi” (na actual freguesia) refere-se situada “discurrente rivulo Vallega”, isto é águas correntes ao “rio Válega” – e põe-se logo o problema: deu o rio o nome à localidade que actualmente o tem, ou a localidade deu-o ao rio? Qualquer dos casos ocorre – e logo aqui temos a actual igreja de S. Vicente de Pereira em 1002 (neste caso, sim, data certa) como situada “discurrente rivulo Azevedo”, topónimo que só poderia tê-lo sido de lugar de início – o que veremos, Deo volente, na sua oportunidade. Estes dois riozinhos são quase paralelos, e muito vizinhas as suas partes superiores sobretudo. Não se julgue ociosa a questão no encaro do topónimo Válega – étimo e significação.
Monsenhor Miguel de Oliveira
O referido Monsenhor Miguel de Oliveira, cerca de 1957 – um pouco mais precavido já nesta melindrosa matéria –, opinou que o “étimo está no latim vulgar *vallica, equivalente a vallicula, pequeno vale”. Não diz onde colheu isto, pois que não era filólogo e de Filologia nada entendia. J. P. Machado, por exemplo, diz o mesmo exactamente: “Do latim *vallica, equivalente a vallicula, pequeno vale”.
Não creio tivesse copiado de M. de O., e eu posso dar a minha palavra de que algures, antes deste, havia eu tido, ou até emitido, a mesma opinião: somente não consigo hoje é descobrir onde – o que, de resto, não interessa, porque basta tal opinião, seja ela original de quem for.
Foneticamente, a evolução de vallica a “vállega” é impecável. A estabilidade dessa forma, Vállega, é também, um dado a favor, visto que temos com ela a primeira notícia. No entanto, faço estes reparos:
1.º O nome aparece num curso de água em 1102. Logo de início, pois, ao que parece: ou seja, designa um acidente hidrográfico, e não orográfico (“valle”).
2.º O sinónimo apontado, vallicula, originou Valhelhas (logo, por “valhelha”), e um parece que deveria dispensar o outro se no mesmo sentido.
Estas duas razões – que não são decisivas, diga-se já – trazem consigo a concordância de ser *vallica (como vallicula), ao contrário de “vale” actual, um nome feminino, pois que “vale” (topográfico) de início também o era, de harmonia com o étimo (o latim vallis): mas isso não impede outras objecções:
3.º Não há razão alguma para se considerar, aqui, essa topografia como determinante da designação: apesar da lei da contingência toponímica (que não posso agora desenvolver), sucede que são vários os cursos de água quase paralelos e muitos vizinhos, nesta zona à beira da “ria” (onde vão desaguar), e, portanto, pequenos como eles são, vários são os pequenos vales correspondentes, não se compreendendo que apenas neste ou num só caso se aplicasse a designação *vallica, hoje Válega.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Fevereiro de 1994)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/10/algumas-notas-toponimicas-ovarenses.html

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