Jornal JOÃO SEMANA (01/02/1994)
TEXTO: A. de Almeida Fernandes
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| A. de Almeida Fernandes, historiador medievalista |
Um delírio que não atendia sequer a que, geograficamente,
nem proximidade, muito menos coincidência, havia: enfim, sequer ao menos aquilo
que eu tenho chamado “olho-e-orelha”.
À vista e ouvidas, de facto, pertencem as opiniões de
três autores: um com “valego” e “velegado” palavra achada em Viterbo, e dois
com "valle" em razão do elemento vall –, de “Vallega”. Mas o segundo, -ega, era-lhes o cume dos trabalhos, pois que até
de Valdágua, Onega, Garei existentes na freguesia de Válega actual!
Horrores – e há uns setenta anos o então Padre Miguel de
Oliveira (natural daí), embora declarando (muito bem) que tais explicações são
aceitáveis “na razão inversa da erudição”, aconselhava a que “escolha o leitor
a que mais lhe apraz”. Ora o que não se pode é admitir que alguém aconselhe a
adopção livre de desconchavos, tanto mais que esse autor – que foi historiador
académico mais tarde – sabia que existiam leis fonéticas a nunca transgredir,
embora as ignorasse: mais culpado, de certo modo, que os outros, porque já
vigorava então o método glotológico, tão científico, pelas suas leis e domínio,
como outro que mais científico seja.
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| Igreja Matriz de Válega Foto: DR |
Exposto o indecente quadro por uns instantes necessários –
até porque pode funcionar como espelho para quem, mirando-se nele, for capaz de
sentir-se envergonhado –, passemos a considerações dentro do método próprio e
único e que, ainda assim, não estabelecem uma certeza: e a razão é que não há
apenas uma possibilidade de explicação científica e lógica.
É claro que não se pode negar que a “fisionomia” e a
consonância numa palavra cujo étimo se busca não deixam de actuar e serem
justas no espírito do investigador – mas é precisa uma imensa cautela.
Como o leitor tem notado, quando há alguma possibilidade
de decomposição, não rejeitável in limine como o são os disparates, poderemos
efectuar, ao menos, a tentativa de adoptá-la para criticarmos os resultados –
dentro da ciência (leis fonológicas) e da lógica (a congruência toponímica,
tão indispensável como aquela). Essa decomposição seria Vall - ega, com -ega átono,
e permitimo-nos fazê-la porque (é preciso notá-lo) Vallega é já a forma no
documento mais antigo que da localidade temos, o de 1102.
(Não de 1002: no apógrafo, faltou um C. Basta atender a
que se trata de bispo de Coimbra, Maurício, que o foi aí entre 1098 e 1108. Que o
não visse Miguel de Oliveira em 1925, compreende-se, mas ainda trinta anos
depois admiraria… Fica o necessário aviso, pois que cerca de 1957 já ele dizia
certa a data).
Nesse documento, de facto, a “villa Dagaredi” (na actual
freguesia) refere-se situada “discurrente rivulo Vallega”, isto é águas
correntes ao “rio Válega” – e põe-se logo o problema: deu o rio o nome à
localidade que actualmente o tem, ou a localidade deu-o ao rio? Qualquer dos
casos ocorre – e logo aqui temos a actual igreja de S. Vicente de Pereira em
1002 (neste caso, sim, data certa) como situada “discurrente rivulo Azevedo”,
topónimo que só poderia tê-lo sido de lugar de início – o que veremos, Deo
volente, na sua oportunidade. Estes dois riozinhos são quase paralelos, e muito
vizinhas as suas partes superiores sobretudo. Não se julgue ociosa a questão no
encaro do topónimo Válega – étimo e significação.
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| Monsenhor Miguel de Oliveira |
Não creio tivesse copiado de M. de O., e eu posso dar a
minha palavra de que algures, antes deste, havia eu tido, ou até emitido, a
mesma opinião: somente não consigo hoje é descobrir onde – o que, de resto, não
interessa, porque basta tal opinião, seja ela original de quem for.
Foneticamente, a evolução de vallica a “vállega” é
impecável. A estabilidade dessa forma, Vállega, é também, um dado a favor,
visto que temos com ela a primeira notícia. No entanto, faço estes reparos:
1.º O nome aparece num curso de água em 1102. Logo de
início, pois, ao que parece: ou seja, designa um acidente hidrográfico, e não
orográfico (“valle”).
2.º O sinónimo apontado, vallicula, originou Valhelhas
(logo, por “valhelha”), e um parece que deveria dispensar o outro se no mesmo
sentido.
Estas duas razões – que não são decisivas, diga-se já –
trazem consigo a concordância de ser *vallica (como vallicula), ao contrário de
“vale” actual, um nome feminino, pois que “vale” (topográfico) de início também
o era, de harmonia com o étimo (o latim vallis): mas isso não impede outras
objecções:
3.º Não há razão alguma para se considerar, aqui, essa
topografia como determinante da designação: apesar da lei da contingência
toponímica (que não posso agora desenvolver), sucede que são vários os cursos
de água quase paralelos e muitos vizinhos, nesta zona à beira da “ria” (onde
vão desaguar), e, portanto, pequenos como eles são, vários são os pequenos
vales correspondentes, não se compreendendo que apenas neste ou num só caso se
aplicasse a designação *vallica, hoje Válega.Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Fevereiro de 1994)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/10/algumas-notas-toponimicas-ovarenses.html



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