Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2017)
TEXTO: M. Antonino Fernandes
Sobre a origem do topónimo Ovar, o P.e Miguel de
Oliveira, em “Ovar na Idade Média”, houve por bem fazer uma pertinente recensão
de cinco explicações, vulgarizadas em corografias, enciclopédias, etc., que ele
tachou de falsas. Permito-me recordá-las, em síntese:
1.ª - do verbo “Ovar – pôr ovos”, por Ovar “ficar
na orla marítima e servir de refúgio às aves”.
2.ª- = de Vale, por se estender num vale e os
moradores trocarem o l por r e dizerem Bar por Vale;
3.ª - de Var, por haver em França um rio assim
chamado, e os autores pensarem que se estabeleceram aqui marinheiros franceses
e lhe teriam dado também o nome de “Vila do Var”.
4.ª- do radical céltico balt, comparado
com o grego bar e o árabe bahr, que daria o substantivo grego ò bar;
5.ª de Oduarii, antropónimo germânico, por haver
na Galiza uma herdade chamada Ovar, que fora de um presor Oduário.
Ora a raiz Bal e Var, proposta nos n.º 2, 3
e 4, prova-se documentalmente. Tanto assim que vemo-la bem clara na onomástica
mevieval, já em 922, e, depois, em 1046, 1081, 1083 e 1151, primeiro como “porto
de Obal” e seguidamente como “villa Obar” e “rio (ou ria) Ovar”.
E, até mesmo arqueológica e cartograficamente, ela figura em “Lavara”,
topónimo mencionado em Monarchia Lusitana, t. I, p. 130 verso, bem como
em “Lavare”, outro topónimo, sito na nossa costa marítima, entre as
cidades Lancóbriga e Talábriga, como revelou Manuel Malícia em
1-8- 2013, no n.º 150 deste jornal.
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| DO ATLAS DE JOÃO TEIXEIRA (ALBERNAZ) - 1648 O mais prolífico cartógrafo português da 1.ª metade do século XVII Sociedade de Geografia de Lisboa - Reservados 14 A-1 CLIQUE NO MAPA PARA AUMENTAR |
Assim sendo, como se explica e justifica esta
incontroversa raiz do topónimo Ovar?
Atendendo à sua situação geotopográfica, num amplo vale banhado
pela ria e pelo mar, onde aportaram vários invasores, nomeadamente os Mouros,
que dominaram na área mais de 5 séculos, é natural que este vale fosse
visto e nomeado por eles “ALBAHR”, pois este vocábulo significa “Lagoa e
mar”, na língua deles. A presença deles aqui é, aliás, também confirmada
pelo topónimo ALMIARES, mencionado pelo sobredito P.e Miguel, o qual
significa “celeiro, depósito de provisões”.
O dito vocábulo Albahr serviu também para nomear ALBUFEIRA,
no algarve, que se encontra em situação idêntica à de Ovar, e disso nos dão
conta o Elucidário de Santa Rosa Viterbo e o Dicionário Onomástico de
J. Pedro Machado.
De resto, o
próprio P.e Miguel de Oliveira aponta-o no n.º 4, mas não se deu ao trabalho de
o aproveitar e explorar, o que acho estranho, pois não tenho a menor dúvida
sobre a origem árabe deste radical de Ovar.
Mas, o problema fundamental, em que esbarraram as sobreditas
explicações, foi a origem do prefixo Ò (aberto), para o qual chamou a
atenção o mesmo autor de “Ovar na Idade Média”.
O certo é que o prefixo ò é uma contração oral de ao e
este ao resulta da junção da preposição latina ad com o artigo
árabe Al, que “he huma partícula inseparável dum nome e serve para todos
os géneros, números e casos”, como esclarece Frei Joan de Souza, em “Vestígios
da língua Arábica”, pág. VIII. Este artigo Al deu la e le,
em francês, donde se escrever Lavara e Lavare, já referidos; e os
artigos definidos a e o, em vernáculo, os quais,
juntos com ad, que perdeu o d por apócope, se aglutinaram em à
(= aa) e ò (= ao). Isto, desde longa data, na língua oral, donde ser
vulgar dizer-se: vou à ria; vou ò mar, vou ò Porto, etc.
Fica, assim, esclarecido e justificado aquilo que os intérpretes,
na sua visão onomástica, não atinaram.
É que o típico
OVAR fala-nos duma origem histórica remota, que tem raízes profundas no mar.
Disso não tenho a menor dúvida, nem receio contraditas.
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/08/ovar-origem-etimologica.html
ADENDA -----------------------------------------

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Na edição de 1960 dos Portugaliae Monumenta Cartographica é dado a conhecer um pequeno
atlas de Luís Teixeira, que descreve a costa de Portugal, datado de 1648. Na época foram
identificados quatro exemplares e mais uma cópia do mesmo. Na Nationalbibliothek de Viena
existem dois exemplares deste atlas. No British Museum, em Londres existe um outro
exemplar. Finalmente, em Portugal tinha sido também encontrado um exemplar, que se
encontra na Sociedade de Geografia de Lisboa.

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