4.7.17

Memória do Dr. Álvaro Esperança

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/2016)
TEXTO: Eduardo Tomás Alves

1) Um ovarense adotivo, mas apaixonado
Dr. Álvaro Esperança
Passará no próximo dia 17 de abril o 117.º aniversário de nasci­mento do médico Álvaro dos Santos Esperança (1899-1988). O Dr. Es­perança viveu cerca de 70 anos em Ovar, onde foi médico, sub-delegado de saúde e político conservador nos tempos do anterior regime. Era filho de gente do centro-sul do nosso país. Seu pai (falecido em 1936) era origi­nário de Coimbra e foi contramestre das oficinas da CP em Ovar; além de adepto do líder político António José de Almeida, embora fosse católico e muito devoto da rainha Santa Isabel. Já sua mãe nascera em Santarém e tinha ligações de família ao Dr. José Frederico Pereira Marecos (1802-44), diretor da Imprensa Nacional e redator do Diário do Governo.
O Dr. Esperança nasceu em Al­cobaça (S. Martinho do Porto) e veio a falecer na cidade do Porto, em casa da sua única filha, Isabel, onde passou os últimos 8 anos de vida. A sua outra ausência de Ovar fora por causa do curso de Medicina, que fez na sua também querida Coimbra. Toda a vida, aliás, seria fanático por Ovar, pela Ria, por Coimbra e por Portugal.

2) Médico e eterno sub-delegado de saúde
Médico zeloso e competente, ocupou por quase 40 largos anos o referido cargo de sub-delegado de Saúde em Ovar, recusando promo­ções só para não se afastar da terra que tanto amou. Foi um fiscal incor­ruptível, implacável para com as frau­des e os mixordeiros. Teve também um louvor do Governo, aquando da crise do tifo-exantemático. Herdara de sua mãe o carácter e o visual algo “pombalinos”, mas tal não o impedia de ser um bom conviva, à mesa ou na pesca, o seu passatempo favori­to. Em velho, uma sua imagem de marca era também a de fumar cachimbo.

3) Foi casado com a Prof. Leonilde Coelho, da Feira
Uma beldade feirense e esti­madíssima professora primária em Ovar por cerca de 20 anos, sua esposa nascera na terra de sua mãe, Travanca, a 5 km de Ovar. Mas seu pai era o Prof. Vicente Coelho, natural de Fiães da Feira, primo do deputado republicano Dr. Elísio de Castro (1869 – 1956), o qual foi sogro da filha do famoso primeiro­-ministro Afonso Costa. D. Leonilde (que morreu com 97 anos) foi amiga íntima da mãe do cantor Manuel Frei­re e da avó do Dr. Carlos Encarnação (PSD). Outra pessoa muito chegada foi D. Romana Fragateiro, nora do Dr. Ginestal Machado, um fugaz primeiro-ministro da Primeira República (em 1923). Irmão da Prof. Leonilde foi também o notável mé­dico e político oposicionista feirense Dr. Arnaldo Santos Coelho (1913 – 2001), que foi o primeiro presidente do município da Feira depois de 1974 (não eleito), e que era primo do duas vezes autarca salazarista Dr. Domingos Coelho, da mesma Feira.

4) Dois cunhados que nunca se zangaram
A relação do Dr. Esperança, situacionista, com o Dr. Arnaldo, oposicionista, irmão de sua mulher, foi sempre exemplar. E discutiam muito sobre política. Um verdadeiro exemplo, uma harmonia que conti­nuou depois de 1974.

5) Uma marca na toponímia?
O apaixonado ovarense Dr. Espe­rança, cuja vida, como se viu, marcou por tantas décadas esta nossa terra, não logrou, até ao momento, qual­quer menção na toponímia do glo­rioso município vareiro, uma cidade em contínua expansão. Por que não agora? É uma ideia que aqui deixo, em abono da Saudade e da Justiça…

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de março de 2016)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/07/memoria-do-dr-alvaro-esperanca.html

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