5.7.17

As origens do Folclore em Ovar (I)

Jornal JOÃO SEMANA (15/04/2016)
TEXTO: João M. Gomes Costa

Era através de canais, por meio de embarcações (bateiras, mercan­telas, moliceiros e os mercantéis de sal) que o lugar da Marinha fazia as suas ligações com as localidades da Nossa Senhora de Entráguas, Ribeira de Mourã (Avanca), Bunheiro, Murtosa, Aveiro, entre outras. Em Pardilhó realizava-se, mensalmente, a feira dos 9 e 23, local onde se vendiam, entre outros, produtos hortícolas e animais, sendo também as embarcações o meio privilegiado de transporte para ali. Era mais fá­cil ir às feiras de Pardilhó do que às de Ovar, pois os acessos para esta vila eram menos acessíveis. A atual descendência do povo da Marinha resulta de laços matrimoniais que ao longo dos tempos foram sendo es­tabelecidos entre as gentes daquelas regiões, com particular ênfase de Pardilhó e do Bunheiro.

Os serões, as festas...
Antes de 1950 já havia entre os jovens a tradição de aproveitarem as longas noites dos serões inver­nosos para cantarem e dançarem nas eiras, cobertos e pequenas salas das localidades da Marinha, Torrão do Lameiro e Quintas do Norte. Findo o verão, e iniciando-se o ou­tono, começavam as tradições das escolhedelas de feijão, momentos sempre propícios à animação das gentes, com danças e cantares que serviam, igualmente, para os rapa­zes e raparigas estabelecerem os primeiros namoricos. Em setembro começavam as estonadas (designa­das noutras regiões por desfolha­das), período da recolha do milho e das escolhedelas. Também era nes­ta altura que se faziam as cortadas de tiras feitas em tecidos de roupa velha, que se destinavam quer à criação de mantas de farrapos, quer às abridelas de lã, que se destina­vam ao fabrico de mantas.

Uma atuação do Rancho Folclórico de Ovar

Na Marinha e no Torrão do La­meiro cultivava-se aveia, centeio, cevada, milho e feijão. O grão do milho e do centeio, depois de se­parado respetivamente dos canulos e da palha, era moído, para depois se fazer broa, que servia tanto para consumo próprio como para venda, tal como os respetivos cereais. Os animais domésticos que criavam também eram alimentados tanto com os cereais como com a palha que deles resultava. O feijão era uma leguminosa que também fa­zia parte da subsistência do povo, nesta localidade. A cevada, sendo igualmente de subsistência, tam­bém era comercializada, tal como a palha, para o gado. As palhas des­tes cereais tinham ainda uma ou­tra funcionalidade: com elas eram enchidos os colchões das camas, servindo ainda de acomodamento, proporcionando um certo conforto nas proas dos barcos que povoa­vam os canais da ria, já que eram as pequenas embarcações o meio de transporte privilegiado nas des­locações. Em todas as atividades que implicassem o trato e a prepa­ração dos dife­rentes cereais, bem como após a realização das estonadas e cor­tadas de tiras e abridelas de lã, o povo, anima­do, procurava o lado lúdico da confrater­nização e do convívio. As­sim, os rapazes e as raparigas juntavam-se, rotativamente, nas várias casas – as raparigas, tendo sempre como fir­me e claro propósito a realização dos (referidos) trabalhos agrícolas –, e só no final das tarefas, aprovei­tavam o resto do serão para então dançarem e cantarem. O tocador em algumas modinhas poderia dan­çar, não necessitando de as acom­panhar musicalmente, pois eram exclusivamente cantadas.
O único moinho de vento que existia no lugar da Marinha estava montado em cima de 2 ou 4 rodas de carro de tração animal. A pro­prietária deste moinho era conheci­da pelo epíteto de “Ti Pataca”, pro­veniente de uma família abastada da localidade.
No quotidiano doméstico, para além dos trabalhos da lavoura, as mulheres iam buscar às margens da Ria molhos de tojo, giesta ou carqueja, que chegavam dos bar­cos provenientes do rio Vouga, e que traziam à cabeça. Por sua vez, os homens transportavam dois molhos no bordão (pau de dois metros e com um diâmetro de 8 a 10 cm), fazendo o percurso da Ria até às dunas. Tal tarefa constituía uma preparação/defesa para que as areias não arrasassem as plantações de pinheiros, além de que era ne­cessário protegerem-se construin­do abrigos, contra ventos e marés, do Torrão do Lameiro até Maceda. Ao regressarem das suas tarefas aproveitavam para se divertirem, dançando e cantando ao desafio. As raparigas, quando iam carregadas com os molhos, levavam a concer­tina ao ombro, pois era impossível ao tocador transportá-la, uma vez que também ele ia carregado com o referido bordão.

O rancho da Marinha
Segundo um artigo de Lamy Laranjeira na edição n.º 14 de 1980 da Revista Reis, José Coito, ensaia­dor do Grupo Folclórico de Ovar, era “exigente, severo para as faltas cometidas e condescendente para ocorrências felizes”. Na mesma re­vista, o poeta Homem de Mello as­severa que “o marido da cantadeira é um elemento precioso”, dadas as exigências das suas funções e os conhecimentos na arte de dançar.
O professor Manuel Lopes Conde formou e preparou um gru­po de jovens e adultos da classe lavradeira para atuar no Campo da Associação Desportiva Ovarense, nas festas sanjoaninas, junto com outros grupos de marchas de Ovar. De acordo com a revista Reis de 1987, num artigo publicado por Maria Luísa Resende, ao apresen­tar-se no referido local, o grupo das Marinhas “apareceu a destoar: em vez de arcos e balões, trouxe as lan­ternas de ir às minhocas e trajos de trabalho… Quando entrou no Cam­po, foi uma vaia geral, um gozo in­descritível. Começaram a dançar as suas modas e o público, estupefac­to, parou de rir e de assobiar.
No fim, aplaudiu de pé! Aí nas­ceu o primeiro rancho folclórico de Ovar!”.

Esta era uma forma de se ma­nifestarem, reivindicando por não existir luz elétrica na Marinha e no Torrão do Lameiro. A eletrificação destes lugares só surgiu em 1959, sendo inaugurada, simultaneamen­te, em ambas as localidades. Foi nesse grupo organizado, e com esse ensaiador, que nos anos de 1950 nasceu o Rancho da Marinha. A partir deste espetáculo a Junta do Turismo passou a incentivar a ma­nutenção deste grupo para a reali­zação de outros espetáculos a nível regional e nacional. 

(Continua)

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de abril de 2016)
https://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/07/as-origens-do-folclore-em-ovar-i-e-ii.html

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