22.2.17

O Carnaval da minha juventude

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/2017)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Depois de terminarem os festejos do Ano Novo e do cantar das trupes de Reis, Ovar prepara-se para viver o Carnaval, que é hoje um enorme cartaz de propaganda da nossa cidade, atraindo a ela muitos forasteiros e foliões. Mas nem sempre foi assim.

As cegadas
Contaram-me algumas pessoas que viveram a sua juventude nas primeiras décadas do passado século XX, que até aos anos 30 havia em Ovar, pelo Carnaval, as cegadas, uma espécie de represen­tação teatral de rua, com versos musicados a criticarem certos acontecimentos que decorreram durante o ano na nossa terra. Entre os vários factos criticados há um que não resisto a descrever, por ser atual: Trata-se da execução da estrada de Ovar a Pardilhó.
Quando os nossos antepassados necessitavam de se dirigir a esta e outras localidades vizinhas, bem como à Senhora de Entráguas, caminhavam através dos pinhais que se estendiam a partir do antigo Matadouro do Casal. Os políticos de então, sempre que havia elei­ções, prometiam ao povo que, se ganhassem, mandariam construir a estrada. Mas nunca cumpriam o prometido.
Na última metade do século passado, aquela via foi finalmente construída. Mas enquanto isso não aconteceu, nas antigas cegadas de Carnaval cantava-se ironicamente:

“A estrada de Pardilhó
Vai ser feita p’ra janeiro
Os carros vão-se arranjar
No Guilherme Serralheiro”.

A serralharia do Guilherme era na Rua Alexandre Herculano, junto ao Passo do Encontro.

Os entrudos
Embora já tivesse escrito um texto no “João Semana” de 15 de fevereiro de 2002 fazendo alusão aos precursores do Carnaval de Ovar, recordo agora como era o Carnaval da minha infância, com­posto essencialmente pelos entru­dos (hoje chamados mascarados), que desfilavam pelas ruas da vila, dando-lhes bastante alegria desde o domingo gordo até à terça-feira de Carnaval, também conhecida pelo dia do Entrudo.

Santa Camarão (vestido de guerreiro), Fernando Alçada e o seu cunhado João Costa
no desfile do domingo go
rdo de 1956, saído de S. Miguel
Fantasiavam-se usualmente enfiando uma meia na cabeça ou tapando a cara com um pano ou uma máscara, e algumas ve­zes caricaturando certas figuras públicas. Vestiam-se com roupa velha de homem ou de mulher, conforme o gosto de cada um, e alguns seguravam nas mãos placas com inscrições de piadas, muitas vezes em verso, criticando certos acontecimentos na nossa terra…
No conjunto das brincadei­ras mais hilariantes dessa época carnavalesca destacava-se a do “rabo-levar”, que consistia em colocar um rabo de pano ou de papel seguro por um alfinete nas costas do Entrudo, sem o seu co­nhecimento, provocando imenso riso a quem assistia. Por vezes, os mais jovens cantarolavam, ao lado dos mascarados: “Ó Entrudo cabeludo, sete saias de veludo”.
No passeio do lado norte da Câmara, na Praça da República, junto das antigas lojas do Teixeira e do Camarão, aglomerava-se muita gente para os ver passar, e algumas pessoas atiravam para a estrada rebuçados, que os rapazes tentavam apanhar, provocando grande confusão no trânsito.
João Salvador (João da Vareiri­nha), pai do António Salvador (Rei do Carnaval entre 1979 e 1983), era um desses habituais atiradores de rebuçados.

O corso de domingo
Entretanto, os anos foram correndo, e noutras localidades portuguesas já desfilavam cortejos carnavalescos, que estimularam al­guns conterrâneos nossos a porem também nas ruas da nossa terra um corso similar.

Carro do Bairro da Arruela (1952)

No extinto jornal “Notícias de Ovar” costumavam encontrar-se três amigos, só um dos quais, o saudoso bairrista José Maria da Graça, era de Ovar. Os outros dois, Aníbal Emanuel da Costa Rebelo e José Alves Torres Pereira, eram naturais do Porto e da Póvoa do Varzim, respetivamente.
Nas suas longas conversas, estes amigos abordavam o tema do Carnaval, admirando o entusiasmo do povo vareiro que, em grande número, se fantasiava, em grupos isolados, nos dias de Entrudo. Porque não saírem em cortejo? Com o apoio de António Coentro de Pinho, presidente da Câmara, e, posteriormente, de outros ilustres ovarenses, os três começaram a organizar o primeiro corte­jo de Carnaval, formado em S. Miguel, de onde saiu em 1952.
Nos pri­meiros anos o cortejo desfila­va apenas no domingo gor­do, com car­ros alegóricos enfeitados a cargo de comissões de pessoas dos respetivos bairros ou de empresas locais.

O Carnaval sujo
Na terça-feira de Carnaval, por volta das 17h00, com anún­cios de morteiro, dava-se início ao chamado Carnaval sujo, onde muitos dos participantes atiravam casca de arroz, serradura, farinha e outros produtos. Era no Largo Serpa Pinto, em redor do chafariz do Neptuno, que essas brincadei­ras atingiam o auge, provocando as gargalhadas de quantos a isso assistiam.
Durou poucos anos esse tipo de divertimento, passando a repetir-se na terça-feira o cortejo de domin­go, conforme acontece nos nossos dias.
O Carnaval de Ovar da minha juventude era diferente daquele a que assistimos hoje. Sem am­bições comerciais ou turísticas, não possuía escolas de samba, nem outras imi­tações bra­sileiras, que hoje atraem à nossa terra milhares de forasteiros e foliões. No entanto, em­bora fosse um Carnaval caseiro, ge­nuíno e espontâneo, também era muito alegre e divertido.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de fevereiro de 2017)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/o-carnaval-da-minha-juventude.html

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