4.2.17

Jornal “João Semana” e o Cine-Teatro de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/08/2016)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Em 9 de setembro de 1943 é publicada no “João Semana” a escritura de uma sociedade deno­minada Empresa de Melhoramentos de Ovar, Lda, constituída em 15 de julho anterior, cujo objetivo era a exploração de “cinema, teatro e quaisquer espetáculos, festas e di­versões públicas e outros negócios que a mesma Sociedade resolva explorar”.
Meses depois, em 11 de maio de 1944, crescendo o cinema em altura, sem que o “João Semana” se pronunciasse sobre o assunto, e parecendo a muitos vareiros ser isso estranho, os responsáveis pelo jor­nal vieram a público para justificar o seu silêncio e a não intervenção da Paróquia, com o texto “Varrendo a testada”, de que salientamos a se­guinte passagem: “(...) Não há que estranhar o nosso silêncio, quando outro mais alto se levanta: o das entidades oficiais que nisso tinham que intervir. Pôr embargos... Mas que embargos?, se, enquanto não fôr dada licença para tal obra ela está por natureza embargada? ou não é isto? (...)”.
Entretanto, em 1 de junho, re­gressados de um retiro em Fátima, visitaram a paróquia os Bispos do Porto, D. Agostinho de Jesus e Sousa, e de Vila Real, D. António Valente da Fonseca, este natural de Válega. Sem fazer qualquer referência ao Cine-Teatro, a notícia acrescenta que D. Agostinho, que “pela primeira vez, esteve nesta vila, admirou a grandeza e majesta­de da nossa paróquia, regressando ao Porto após uma breve paragem”.
D. Agostinho, que voltaria a Ovar em 22 de julho seguinte para ministrar o Crisma – os últimos crismas haviam sido em 1905, 1918 e 1923 –, terá manifestado tolerân­cia em relação a um ato consumado, até porque “a Igreja não pode im­pedir o progresso”. (Clique no link para ler “O Cine-Teatro que (não) temos”, texto do jornalista Fernando Pinto, publicado em 01/12/2002).

Cine-Teatro de Ovar

Inconformado com a construção do edifício, o padre Boaventura deixou Ovar em 24 de fevereiro de 1944, ao fim de oito anos de paro­quialidade exemplar, sendo logo substituído pelo padre Crispim Gomes Leite, vindo de Gondomar, onde fora Pároco e presidente da Câmara.
A fama de bom gestor nas coi­sas religiosas e civis terão sido os predicados que aconselharam a sua nomeação, no intuito de ultrapassar a crise que se instalara na sua nova paróquia, intenção a que o “João Semana” de 23 de março parece aludir ao referir, um mês depois da sua chegada: “Causou a melhor impressão e está conquistando a mais grande das simpatias a apre­sentação e ação do novo pároco de Ovar”.
Em 30/12/1944, quando da inauguração do Cine-Teatro em que o “João Semana” não pôde tomar parte (“por motivos estranhos à nossa vontade”, tal como versa a notícia) , os seus responsáveis fazem votos para que o Cinema se oriente na esteira das “tradições de trabalho, honestidade e fé do povo”.
Em 1 de março de 1945 e nos números seguintes, este periódico anunciou, com publicidade da própria empresa, que em breve seriam exibidos os filmes “O Bom Pastor” e “Fátima, terra de Fé”, com comentários muito positivos. (De imediato, a mesma empresa viria a constituir a Sociedade de Melhoramentos da Praia do Fura­douro, com o fim de dotarem Ovar com um hotel que funcionaria em 1946 o “Mar e Sol”, que substituiu uma anterior Pensão de Turismo.)
O padre Crispim partiria de Ovar em 7 de janeiro de 1952, dei­xando atrás de si uma obra notável, embora nem sempre reconhecida nos seus méritos.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de agosto de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/jornal-joao-semana-e-o-cine-teatro-de.html

ADENDA -----------------------------------------

Na tarde de 9 de agosto último, o presidente da Câmara Municipal de Ovar, Salvador Malheiro, decidiu avançar para a posse adminis­trativa do prédio do Cine-Teatro de Ovar, propriedade privada, que desde há vários anos estava sem utilização por falta de condições de segurança no interior e no exterior, e que por isso está a ser demolido quando do fecho desta edição do jornal “João Semana”
Segundo o autarca, “este imóvel faz parte da história ovarense e a demolição parcial está a ser feita por um empresa qualificada, tentando­-se manter o máximo do seu património arquitetónico”. TEXTO: Jornal "João Semana" (15/08/2016)

Cine-Teatro de Ovar, dias antes de demolido
Foto:João Elvas
Momento em que as letras do Cine-Teatro de Ovar estavam a ser retiradas
por ordem da Câmara Municipal (09/08/2016)

Foto: Fernando Pinto

Sem comentários: