8.2.17

Grupo Folclórico “As Morenitas” do Torrão de Lameiro

Jornal JOÃO SEMANA (15/08/2016)
TEXTO: João M. Gomes Costa

Em todas as épocas da História o Homem teve necessidade de preservar as suas raízes e tradições, necessidade essa que se torna particularmente ligada a todo o cidadão atento e com gosto pela cultura.
Sendo Portugal um país bastante rico em costumes etno-musicais, apesar da sua reduzida dimensão geográfica e populacional, teremos alguma dificuldade em compreender como conseguiu, musicalmen­te, uma linguagem original, abundante e variada, para além de toda uma imensa variedade e riqueza instrumental.
Ao longo dos tempos, cada indivíduo transmite aquilo que considera de maior interesse e valor para as gerações mais jovens. Esta transmissão, no plano individual ou no coletivo e abrangendo as mais diferentes áreas de expressão musical, surge por via oral ou pela escrita, ou por ambas, entregando ao tempo presente uma longa herança cultural.
Gallop (1988) afirma que o “ folclore Português assume a sua forma definitiva no séc. XVIII. Os alicerces em que assenta a Canção Popular Portuguesa são puramente genuínos, isto é, nasceram nas suas próprias terras natais”, e encara o nosso folclore, sob o ponto de vista recreativo, como uma imagem caracteristicamente infantil e inconsequente.
Para Lopes Graça (1988), “o Folclore mostra a verdadeira face da nossa Música Popular, um Folclore singularmente rico não só morfologicamente como, na sua essência etnográfica e sociológica, um Folclore musical em que avulta, sobretudo, a extrema diversidade temática, a enorme riqueza modal, grande potencialidade rítmica e surpreendente fertilidade polifónica”.

As Morenitas do Torrão do Lameiro
O Torrão do Lameiro insere­-se numa das zonas turísticas mais bonitas de Portugal, desfrutando, simultaneamente, da proximidade da ria, do pinhal e do mar. Situado na zona ribeirinha da ria de Aveiro, tem sido e continua a ser um autên­tico alfobre do folclore, atendendo aos jovens que desde tenra idade o integram.
O Rancho Folclórico “As Mo­renitas”, do Torrão de Lameiro, fundado em 1960, e que em 1981, seguindo indicações da Federação Portuguesa de Folclore, passou a designar-se Grupo Folclórico “As Morenitas”, pode hoje considerar­-se um representante ímpar no Folclore Português, traduzindo caraterísticas únicas, resultantes da singularidade do seu povo e da realidade piscatória.
Tendo como objetivo preservar o património Etnográfico da região, o Grupo assume-se como o fiel depositário dos usos e costumes do seu povo, preservando as suas músicas e danças, bem como as suas memórias, dando-as a conhe­cer em eventos em que costuma participar, como congressos, feiras à moda antiga e festivais nacionais e internacionais.

Grupo Folclórico “As Morenitas” do Torrão de Lameiro

O grupo folclórico Morenitas do Torrão do Lameiro realiza o seu Festival Nacional em cada ano, no mês de julho, na celebração do seu aniversário. Esta comemoração é conhecida, entre nós, como a festa da sardinha, porque ligada à nossa realidade geográfica e cultural (o mar, o pescador e as varinas), e é organizada, desde há vários anos, em conjunto com o Grupo Folcló­rico as “Varinas de Ovar”. Este ano o programa foi preenchido com atividades várias, nomeadamente, a atuação dos Grupos Folclóricos da Região do Vouga e Grupo de Danças e Cantares do Centro Social de Soutelo (Rio Tinto, Gondomar), terminando com a partilha de sar­dinha assada, grelhados e outros petiscos para todos os veraneantes na praia, com a presença do presi­dente da União de Freguesias de Ovar, São João, Arada e S. Vicente, e do representante da Federação do Folclore Português.
O Grupo Folclórico “As Mo­renitas de Ovar” também realiza, no 1.º fim de semana de agosto, o Festival Pró-Emigrante – já vai no 30.º –, uma sentida homenagem aos nossos emigrantes em férias, importantes veículos culturais das nossas terras.
Este grupo folclórico é sócio fundador da Federação Portuguesa de Folclore (1960), e filiado no INATEL, tendo já editado dois discos em vinil, uma cassete áudio e outras gravações.
Tem participado com brio e autenticidade em festas, romarias e festivais de norte a sul do país, salientando-se a participação, re­presentando o Distrito de Aveiro, em dois grandes festivais, um em Lisboa e outro no Algarve, este transmitido diretamente pela RTP. Fora de portas, salientamos a sua atuação em Festivais Internacionais na Alemanha e em Espanha.

Dados etnográficos
Fiel às suas origens, o Grupo Folclórico “As Morenitas”, cons­tituído por uma “família” de 38 a 40 elementos, comprometidos na preservação e melhoria do grupo, continua, através dos seus res­ponsáveis, a pesquisar espécimes Etnográfico/Folclóricos que re­montam de meados do séc. XIX ao início do séc. XX, apresenta trajes típicos que, de um modo genérico, se reportam à caraterização de figuras típicas da região de Ovar, representando a classe piscatória da Beira Litoral do fim do séc. XIX e início do séc. XX: Mulher de Ovar (1875 a 1895); Vendedor de Peixe (de manaias e casaco, 1845 a 1860); Varina (envergando colete vermelho cintado); Varina (de saia rodada e de cores claras, com um cordão de pontas na cinta); Par de romeiros (1870); Varina (de saia rodada de cores claras e cordão de pontas na cinta, 1860 a 1875); Casal de noivos (1870, envergando ela um chapeirão); Lavadeira (1870); Leiteira (1900); Lavradores com traje de trabalho (1990); Lavradores com traje de festa (1900); Homem das pinhas (mestre das redes de peixe, que nas horas vagas da pesca se dedicava à apanha de pinhas para vender nas padarias e às varinas e pescadores, 1900).


No séc. XX surgem as Varinas de saia até ao tornozelo, de avental comprido e de xaile chinês traçado à volta do tronco. Os pescadores usavam umas ceroulas aos quartos e camisa de xadrez, com faixa e barrete preto.
Quanto aos ins­trumentos musicais, o Grupo utiliza to­dos aqueles que, de um modo geral, são representativos do folclore e da música tradicional portugue­sa, sendo de desta­car o Cavaquinho, os Ferrinhos, o Bombo, as Concertinas e o Violão.
Do vasto repertó­rio de danças e can­tares deste Grupo, de que se realçam os Viras, destacamos: “Ó mar alto, ó mar alto”, “Olha a triste viuvinha”, “Rusga”, “Marujinho”, “Sou uma vareira”, “Quando as pombas se beijam”, “Varina de Ovar”, “Numa bandeja de prata”, “Vira vareiro”, “Vira pescador”, “Real das canas”, “Vira antigo”, “Vira flor”, “Vira real caninha”, “Vira de trempes”, “Vira do Minho” ou “Ensarilha­do”, “Caninha Verde”, “Tirana”, “Catrapuzana”, “Ó Ilda”, “Fui-me confessar”, “Escrevi teu lindo nome” e “Perdiz”.
Uma particularidade: nas suas exibições públicas há a referir que os Morenitas dançam sempre descalços, quer na areia, quer no tabelado, ou na eira.

Gratidão
As Morenitas têm sobrevivido ao longo destas décadas graças à colaboração do Museu de Ovar e às ajudas da Câmara Municipal e da União de Freguesias, e ainda ao apoio técnico da Federação Portu­guesa de Folclore.

Bibliografia:
“Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX”, Gallop, Rodney, 1980
“Canção Nacional”, Graça, Lopes, 1988
Hélder Manuel Rodrigues Gon­çalves e Paulo Nunes Gonçalves (fontes locais de informação)

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de agosto de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/grupo-folclorico-as-morenitas-do-torrao.html

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