4.2.17

A Rainha da Cadeia

Jornal JOÃO SEMANA (15/05/2016)
TEXTO: Orlando Caió

Para uns era “Rainha da Cadeia”, para outros Aurorinha “Pinta-Ratos”. Este seria o apelido atribuído ao companheiro da mãe, mas o seu verdadeiro nome era apenas e só, Aurora de Jesus, natural da freguesia de Aldoar, concelho do Porto, onde nasceu às 4 horas da tarde do dia 17 de Novembro de 1894.
Foi batizada no dia 29 de Junho de 1895 com 7 meses de idade, na igreja Matriz de Ovar. Era filha ilegítima de António de Oliveira Costa, estucador, solteiro, natural da freguesia de Pedroso-Gaia e de Leopoldina de Jesus, doméstica, viúva, natural da freguesia de Granjinha de São Pedro das Águias, concelho de Tabuaço, distrito de Viseu.

Sobre a “Rainha da Cadeia” sabe-se que quando foi batizada em 1895, a mãe, Leopoldina de Jesus, vivia em Ovar na então rua do Outeiro, atual rua Dr. José Falcão, numa casa que ainda existe de rés­-do-chão e primeiro andar, situada a poucos metros da antiga churrascaria “Zé dos Canecos”. Sabe-se também que em meados da década de 1920, ainda moravam na mesma casa.
Posteriormente, mãe e filha foram morar para o lugar das Tomadias de Baixo na freguesia de Válega-Ovar, numa casa que ainda existe e tem o número 102.
Há bem poucos anos, a casa era habitada por uma senhora de idade bastante conhecida em Válega, de seu nome Maria “Caldeirada”, antiga guarda de linha da CP nas passagens de nível de Válega e de São Miguel.
Na referida casa, que ao tempo  década de 1930  era um palheiro de tábuas, viveu a Aurora com a mãe, Leopoldina, que viria a falecer no dia 22 de Janeiro de 1938, aos 84 anos de idade. Quando a mãe faleceu, a Aurora ficara só, porque o com­panheiro da mãe, que era ferroviário, já tinha falecido há alguns anos.
A Leopoldina, mãe da Aurora, por morte do companheiro recebia um pequeno subsídio mensal.
Após a morte da mãe o subsídio fora suspenso, e a Aurora entrou em depressão. Em atitude de revolta chegou a per­noitar nas escadarias dos Paços do Concelho, onde por diversas vezes na década de 1930, nas mesmas esca­darias e varanda do edifício, em anos diferentes dera vivas à República.

De Válega para a cadeia de Ovar
Para sobreviver, a Aurora dedica­-se a executar por encomenda peças de renda ou croché, como por exem­plo colchas de cama, toucas, nape­rons, cachecóis e toalhas de mesa. Anos mais tarde, na cadeia, chegou mesmo a receber raparigas de cá de Ovar como por exemplo a Rosinha Seixas, que lá iam de propósito, para a Aurora lhes ensinar a fazer renda e a bordar à mão.
A Aurora vivia com dificuldades e a depressão não ajudava. Em Vá­lega era vista a caminhar sem rumo, não só pelos pinhais, mas também a caminhar perigosamente pelo meio da via-férrea, que ficava a escassos metros do palheiro onde vivia.
Mais do que uma vez, foi a po­lícia chamada a intervir, porque ela perturbava o tráfego ferroviário. E, certo dia, a Aurora recebe ordem de prisão e dá entrada na cadeia de Ovar. Estes episódios ocorrem em 1938, ano da morte da mãe, ou durante o ano seguinte.
Cumprido o tempo de prisão, como a Aurora não tinha família e precisava de apoio, o carcereiro Fran­cisco Rocha, responsável pela cadeia entre 1934 e 1952 interfere no caso. A Aurora passa então a viver na cadeia, e nela permanece até ao fim da vida.

A antiga cadeia de Ovar
Na cadeia dispunha de um quarto e um divã só para ela, assim como liberdade total para sair à rua quando bem entendesse. Em boa verdade, a Aurora, que também ajudava nas limpezas da cadeia, era uma espécie de moça de recados dos presos, que lhe pediam para ir buscar tabaco, uma sandes ou bebida, compras que habitualmente fazia nas lojas de mercearia do Serafim da Barateira ou do Zé Rico nos Campos, levando no bolso um papel mata-borrão, com o apontamento das coisas a comprar.

“Com gente fina é outra coisa”
Nas décadas de 1950 e 1960, na segunda-feira de Páscoa, era frequen­te realizar-se em Ovar uma procissão com a presença das autoridades civis e religiosas. A procissão terminava com uma visita aos enfermos aca­mados no hospital, e aos detidos na cadeia de Ovar que, ao tempo, funcionava no Alto Saboga.
Acresce que, a cadeia que fun­cionou ao longo de sensivelmente 60 anos, foi desativada em Outubro de 1973 e seria demolida em Julho de 1975.
Nesse dia especial, em que a procissão integrava figuras de certa importância, o almoço então servido na cadeia, era substancialmente me­lhorado. E, a Aurora, com alguma graça e ironia, comentava: – “Assim, sim, com gente fina é outra coisa!”.
A Aurora, que bem conheci, era uma das fi­guras típicas mais emble­máticas de Ovar. Quando ela imponente, com o seu ar majestoso passava na rua, ninguém lhe ficava indiferente. Era uma mu­lher bonita, de fala meiga e olhar doce um tanto misterioso. Alta, cabelo louro natural, rosto branco e faces le­vemente rosadas, olhos azuis-claros, brincos compridos e porte altivo, mais parecia uma rainha!
Na década de 1950, andava eu na escola primária da Praça, e muitas vezes me cruzei com ela no Jardim dos Campos.
A “Rainha” gostava de vestir roupas de cores garridas como o ver­melho. Serena e imperturbável, lá ia ela fazer compras.
Às vezes saía à rua de chapéu ou touca de lã encarnada, outras vezes com uma flor presa no cabelo e uma fita vermelha ou amarela apanhada entre a nuca e a testa e, em determina­das ocasiões, saía para a rua com uma coroa de flores silvestres na cabeça. E daí, a origem de lhe chamarem “Rainha da Cadeia”.
Aurora de Jesus, solteira e sem profissão definida, estivera alguns meses recolhida no Asilo da Miseri­córdia de Ovar, onde viria a falecer a 1 de Setembro de 1973 aos 78 anos, vítima de acidente vascular cerebral.
Depois de aturada pesquisa em di­versos arquivos e contactos com cerca de uma dúzia de pessoas, aqui fica em traços gerais a história da circunspecta “Rainha da Cadeia”, uma das figuras populares mais interessantes de Ovar no século XX.

Antiga Cadeia, no Alto Saboga, com a procissão da visita aos enfermos e aos presos 

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de maio de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/a-rainha-da-cadeia.html

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