TEXTO: Orlando Caió
Para uns era “Rainha da Cadeia”, para outros Aurorinha
“Pinta-Ratos”. Este seria o apelido atribuído ao companheiro da mãe, mas o seu
verdadeiro nome era apenas e só, Aurora de Jesus, natural da freguesia de
Aldoar, concelho do Porto, onde nasceu às 4 horas da tarde do dia 17 de
Novembro de 1894.
Foi batizada no dia 29 de Junho de 1895 com 7 meses de
idade, na igreja Matriz de Ovar. Era filha ilegítima de António de Oliveira
Costa, estucador, solteiro, natural da freguesia de Pedroso-Gaia e de Leopoldina
de Jesus, doméstica, viúva, natural da freguesia de Granjinha de São Pedro das
Águias, concelho de Tabuaço, distrito de Viseu.
Sobre a “Rainha da Cadeia” sabe-se que quando foi batizada
em 1895, a mãe, Leopoldina de Jesus, vivia em Ovar na então rua do Outeiro, atual
rua Dr. José Falcão, numa casa que ainda existe de rés-do-chão e primeiro
andar, situada a poucos metros da antiga churrascaria “Zé dos Canecos”. Sabe-se
também que em meados da década de 1920, ainda moravam na mesma casa.
Posteriormente,
mãe e filha foram morar para o lugar das Tomadias de Baixo na freguesia de
Válega-Ovar, numa casa que ainda existe e tem o número 102.
Há bem
poucos anos, a casa era habitada por uma senhora de idade bastante conhecida em
Válega, de seu nome Maria “Caldeirada”, antiga guarda de linha da CP nas
passagens de nível de Válega e de São Miguel.
Na referida
casa, que ao tempo – década de 1930 – era um palheiro de tábuas, viveu a Aurora
com a mãe, Leopoldina, que viria a falecer no dia 22 de Janeiro de 1938, aos 84
anos de idade. Quando a mãe faleceu, a Aurora ficara só, porque o companheiro
da mãe, que era ferroviário, já tinha falecido há alguns anos.
A
Leopoldina, mãe da Aurora, por morte do companheiro recebia um pequeno subsídio
mensal.
Após a morte
da mãe o subsídio fora suspenso, e a Aurora entrou em depressão. Em atitude de
revolta chegou a pernoitar nas escadarias dos Paços do Concelho, onde por
diversas vezes na década de 1930, nas mesmas escadarias e varanda do edifício,
em anos diferentes dera vivas à República.
De Válega para a cadeia de Ovar
Para
sobreviver, a Aurora dedica-se a executar por encomenda peças de renda ou
croché, como por exemplo colchas de cama, toucas, naperons, cachecóis e
toalhas de mesa. Anos mais tarde, na cadeia, chegou mesmo a receber raparigas
de cá de Ovar como por exemplo a Rosinha Seixas, que lá iam de propósito, para
a Aurora lhes ensinar a fazer renda e a bordar à mão.
A Aurora
vivia com dificuldades e a depressão não ajudava. Em Válega era vista a
caminhar sem rumo, não só pelos pinhais, mas também a caminhar perigosamente
pelo meio da via-férrea, que ficava a escassos metros do palheiro onde vivia.
Mais do que
uma vez, foi a polícia chamada a intervir, porque ela perturbava o tráfego
ferroviário. E, certo dia, a Aurora recebe ordem de prisão e dá entrada na
cadeia de Ovar. Estes episódios ocorrem em 1938, ano da morte da mãe, ou
durante o ano seguinte.
Cumprido o
tempo de prisão, como a Aurora não tinha família e precisava de apoio, o
carcereiro Francisco Rocha, responsável pela cadeia entre 1934 e 1952
interfere no caso. A Aurora passa então a viver na cadeia, e nela permanece até
ao fim da vida.
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| A antiga cadeia de Ovar |
Na cadeia
dispunha de um quarto e um divã só para ela, assim como liberdade total para
sair à rua quando bem entendesse. Em boa verdade, a Aurora, que também ajudava
nas limpezas da cadeia, era uma espécie de moça de recados dos presos, que lhe
pediam para ir buscar tabaco, uma sandes ou bebida, compras que habitualmente
fazia nas lojas de mercearia do Serafim da Barateira ou do Zé Rico nos Campos,
levando no bolso um papel mata-borrão, com o apontamento das coisas a comprar.
“Com gente fina é outra coisa”
Nas décadas
de 1950 e 1960, na segunda-feira de Páscoa, era frequente realizar-se em Ovar
uma procissão com a presença das autoridades civis e religiosas. A procissão
terminava com uma visita aos enfermos acamados no hospital, e aos detidos na
cadeia de Ovar que, ao tempo, funcionava no Alto Saboga.
Acresce que,
a cadeia que funcionou ao longo de sensivelmente 60 anos, foi desativada em
Outubro de 1973 e seria demolida em Julho de 1975.
Nesse dia
especial, em que a procissão integrava figuras de certa importância, o almoço
então servido na cadeia, era substancialmente melhorado. E, a Aurora, com
alguma graça e ironia, comentava: – “Assim, sim, com gente fina é outra coisa!”.
A Aurora, que bem conheci, era uma das figuras típicas mais emblemáticas de Ovar. Quando ela imponente, com o seu ar majestoso passava na rua, ninguém lhe ficava indiferente. Era uma mulher bonita, de fala meiga e olhar doce um tanto misterioso. Alta, cabelo louro natural, rosto branco e faces levemente rosadas, olhos azuis-claros, brincos compridos e porte altivo, mais parecia uma rainha!
A Aurora, que bem conheci, era uma das figuras típicas mais emblemáticas de Ovar. Quando ela imponente, com o seu ar majestoso passava na rua, ninguém lhe ficava indiferente. Era uma mulher bonita, de fala meiga e olhar doce um tanto misterioso. Alta, cabelo louro natural, rosto branco e faces levemente rosadas, olhos azuis-claros, brincos compridos e porte altivo, mais parecia uma rainha!
Na década de
1950, andava eu na escola primária da Praça, e muitas vezes me cruzei com ela
no Jardim dos Campos.
A “Rainha”
gostava de vestir roupas de cores garridas como o vermelho. Serena e
imperturbável, lá ia ela fazer compras.
Às vezes
saía à rua de chapéu ou touca de lã encarnada, outras vezes com uma flor presa
no cabelo e uma fita vermelha ou amarela apanhada entre a nuca e a testa e, em
determinadas ocasiões, saía para a rua com uma coroa de flores silvestres na
cabeça. E daí, a origem de lhe chamarem “Rainha da Cadeia”.
Aurora de
Jesus, solteira e sem profissão definida, estivera alguns meses recolhida no
Asilo da Misericórdia de Ovar, onde viria a falecer a 1 de Setembro de 1973
aos 78 anos, vítima de acidente vascular cerebral.
Depois de
aturada pesquisa em diversos arquivos e contactos com cerca de uma dúzia de
pessoas, aqui fica em traços gerais a história da circunspecta “Rainha da
Cadeia”, uma das figuras populares mais interessantes de Ovar no século XX.
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de maio de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/a-rainha-da-cadeia.html
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| Antiga Cadeia, no Alto Saboga, com a procissão da visita aos enfermos e aos presos |
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2017/02/a-rainha-da-cadeia.html



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