19.10.16

O Baldim do Furadouro

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2003)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Quem, nascido depois dos anos 40, frequenta, hoje, a zona sul da praia do Furadouro, não faz ideia nenhuma de como era a paisagem e o ambiente que se vivia naquela época por essas paragens. Antes de surgir a toponímia em vigor – parte dela atribuída em finais do séc. XIX e outra posteriormente, até aos nossos dias, com a abertura de novos arruamentos –, a zona sul da praia era denominada “o Baldim”, nome mantido numa rua actual.
Era ali que estavam instalados os armazéns dos mercantéis, nalguns dos quais se preparava e comercializava o peixe, e noutros se tratava e se expunha, para venda, o escasso, adubo natural composto por restos do pescado.
Era também naquele local que se concentrava a maior quantidade de palheiros habitados pelos pescadores, os quais chegavam a ficar quase soterrados, com areia até ao telhado, quando os ventos mais fortes a sacudiam e a arrastavam contra eles. As abegoarias, onde as companhas guardavam o gado e os apetrechos da pesca, completavam a paisagem daquela zona piscatória, praticamente vedada a veraneantes.
A Rua das Companhas (antiga zona do Baldim), ao sul da Praia, nos anos 40. Repare-se
no piso de areia e no barco da Companha ali estacionado, para se proteger das marés vivas
A praia de lazer, essa era no norte, onde se situavam as barracas dos banheiros e se pescava com menos frequência, deixando os banhistas mais libertos do incómodo dos bois enquanto puxavam as redes, e do peixe estendido no areal. Essa azáfama acontecia no sul, onde as ruas que hoje conhecemos como Mercantéis, dos Lavradores, das Companhas, etc., a partir da Avenida Tomaz Ribeiro para o lado do mar, tinham como piso a areia da praia, e ali descansavam, muitas vezes, os barcos, refugiados das marés vivas que galgavam a praia e a fustigavam com as suas águas turbulentas.
No lugar onde se encontra a casa pré-fabricada da Capitania, perto do actual Café Concha, mas um pouco mais para junto do mar, que ao tempo estava bastante afastado da costa, havia uma grande elevação de areia formada por uma duna que tinha início em frente da actual Rua dos Mercantéis e se prolongava até ao elegante chalé do Sr. Matos. Esse sítio elevado era conhecido por Alto das Praças, por ali se encontrar um armazém do peixe dum conceituado negociante de pescado conhecido por esse nome.

Como numa gare de estação, onde as pessoas descansavam e conversavam enquanto não chega o comboio, também no Alto das Praças os mercantéis e mercantelas, as peixeiras e as mulheres que trabalhavam nas lotas da sardinha sentavam-se a conversar, enquanto não avistavam no mar as calas ou arinques que indiciavam a breve chegada da rede. Havia então conversas as mais variadas!... Falava-se de tudo ali. Dos negócios do peixe, de acontecimentos trágicos, de infidelidades conjugais. E contavam-se anedotas, algumas com muito sentido de humor, que causavam gargalhadas a muita gente. Lembro-me do Sr. Mendonça, um negociante de escasso que, quando se ria, fazia-o com tal intensidade que as suas gargalhadas contagiavam todos os presentes. Era mesmo frequente ouvir-se dizer: - “Ó mulher, parece que tens as gargalhadas do Sr. Mendonça!”.
Quando se aproximava a saída do lanço, e porque as conversas não chegavam ao fim, fazia-se a despedida com um “logo na rede eu te conto o resto!...”
Os armazéns da sardinha dos mercantéis – todos no sul e perto da praia, para que o peixe acartado pelas mulheres à cabeça levasse o menor tempo possível a transportar desde a lota – estavam distribuídos pelas Ruas do Comércio, dos Mercantéis, dos Lavradores e das Companhas. Nos anos 40, dois deles postavam-se em pleno areal da praia, onde actualmente só existe mar. Eram os armazéns de Eduardo Vilas e do Soares.
Ainda mais para sul, seguindo a mesma rota, e perto da costa, ficava o lindo palheirão do Palavra, construído em cima duma duna, rodeado de chorões.
Consumados os lanços com a venda dos lotes aos mercantéis, e depois de acartado o peixe para os respectivos armazéns, ecoava naquelas redondezas da praia uma enorme vozearia, cujos sons mais pareciam uma sinfonia musical. Era o falatório dos pescadores, o pregão das peixeiras, o murmúrio do mar, o toque das campainhas ao pescoço dos bois no seu contínuo labor, o tinir dos martelos repregando as caixas com a sardinha que saía dos armazéns em laboração, os pescadores cantando o “Bendito” no arribar dos barcos, o piar das gaivotas sobrevoando as redes. Esses momentos de magia, feitos de som e beleza, ainda hoje perduram na minha memória. Como perdura o sabor das sardinhadas que se realizavam em plena Rua dos Mercantéis, ao tempo Bartolomeu Dias, toda composta de areia.
Livro à venda na Secretaria da Paróquia de Ovar
Uma grande fogueira, que mais parecia a do São João, acesa e alimentada com canastras burriqueiras e caixas velhas usadas no peixe, servia para assar as sardinhas há poucas horas saídas do mar e que agora serviam de refeição para as pessoas que trabalhavam no armazém, saboreadas de mistura com a boroa do Jerónimo do Carregal e regadas com o vinho da loja do Couto e de outras tabernas do Furadouro.
Ao recordar a praia do Sul do Furadouro dos anos 4º, apetece-me dizer como o poeta António Nobre, numa época ainda mais distante, quando, em Paris, recordava as romarias e procissões da sua pátria: “Qu’é dos pintores do meu país estranho,/ Onde estão eles que não vêm pintar?”
Hoje, quem visitar ou frequentar esta zona do Furadouro, já não distingue a praia do Sul da do Norte, porque ambas se converteram em estância balneares que, no Verão, se enchem de gente, gozando o seu belo areal. Um areal com menos poesia do que outrora, já sem bois, sem barcos, sem redes, e sem o barulho mágico que ecoava e se esvaía no ar!...

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de junho de 2003)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/10/o-baldim-do-furadouro.html

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