3.8.16

Horácio Lopes – O Piquica

Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2016)
TEXTO: Orlando Caió

Horácio "Piquica" sentado numa pipa
na rua Júlio Dinis (década de 70)
Em Ovar era conhecido por “Piquica”, termo que habitualmente pro­nunciava, mas o seu verdadeiro nome era simplesmente Horácio Lopes, nascido em Ovar a 3 de Fevereiro de 1928, na rua Rodrigues de Freitas, filho de Manuel Maria Lopes e de Ana Antónia Moreira.
O Horácio era uma humilde figura de estatura mediana, rosto moreno e quase sempre descalço, com notória dificuldade em se expressar.
O seu vocabulário era bastante pobre. Poucas eram as palavras que conseguia articular com clareza, à exceção de algumas como, por exemplo, olá, pão, água, vinho, e mais três ou quatro palavrões.
Costumava vaguear pelas tascas existentes junto à estação dos cami­nhos de ferro, pela taberna e loja de mercearia do Zé Rico, junto ao Jardim dos Campos, pelas tascas da Arruela e Praça da República. Pelo caminho ia parando e cumprimentando as raparigas com um “Olá”, e se visse alguém a fumar dirigia-se à pessoa, pedindo um cigarro.
Com alguma frequência entrava no estabelecimento de almoços, vinhos e petiscos do Manuel Mal-Casado, do Gato Preto e do João Gomes, no intuito de encontrar uma alma cari­dosa que lhe pagasse um bolinho de bacalhau, uma isca de fígado ou, com muita sorte, uma sande de bacalhau frito e um copo de vinho.
Costumava ajudar em fretes que outras figuras populares faziam, e nas décadas de 1950 e 1960, era habitual vermos passar o Horácio ajudando a empurrar um carro de mão de rodas altas conduzido por outra figura popular, concretamente o João “Pata­chão”, pela então estrada de paralelo em frente à antiga fábrica de telhas e tijolos da SIOL, onde atualmente se situa a rua de Timor.
O Horácio era um fumador in­veterado. Por vezes, na Praça da República e a pedido de alguém, para obter um cigarro entrava em parceria com outra figura típica, o Zé Luta, o qual consentia em levar um ou dois “borrachinhos” aplicados pelo “Piquica” e, logo a cena se invertia, com o Piquica a encher a boca de ar e a consentir um ou dois “borrachinhos” aplicados pelo “Zé Luta”.
Pela demonstração recebiam dois tostões cada um, dinheiro que logo era gasto em cigarros.
Finalmente, na década de 1980, alguém se lembrou do Horácio, e em boa hora decidiram interná-lo no asilo da Santa Casa da Misericórdia de Ovar.
Terminava assim um longo período de carências de toda a ordem, das quais o Horácio seria o menos culpado.
Não é sem alguma emoção que recordo esta humilde figura, que bem conheci ao longo de quase 40 anos.
Horácio Lopes, o popular “Piquica”, faleceu em Ovar, na referida instituição que o acolhera, no dia 12 de Dezembro de 1991, com 63 anos de idade.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de julho de 2016)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/08/horacio-lopes-o-piquica.html

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