6.7.16

Fátima na Imprensa Vareira – Há 60 anos: o “milagre do sol”

Jornal JOÃO SEMANA (01/11/1977)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Em 13 de Outubro passado completaram-se 60 anos sobre a última das seis aparições da Cova da Iria. Entre os muitos milhares de peregrinos presentes às solenes comemorações, encontravam-se, segundo noticiou a imprensa, 30 testemunhas do célebre “milagre do sol”. Este fenómeno, ocorrido em 13/10/1917, concitou sobre Fátima, a atenção de Portugal inteiro, envolvido, então, na 1.ª Grande Guerra, e deu maior credibilidade aos acontecimentos que ali vinham ocorrendo desde 13 de Maio [1].
Por uma busca sumária que fizemos, ficou-nos a impressão de que o “João Semana”, jornal de formação católica, então com três anos de idade, foi o único periódico local a noticiar um assunto de tanto impacto popular e, mesmo assim, apenas em 28 de Outubro, 15 dias após a última aparição.
Os outros jornais vareiros de então – “A Discussão” (1895-1919), “A Pátria” (1908-1928), “O Ovarense” (1883-1921), e o “Ideal Vareiro” (1916-1918) – silenciaram, por completo, o acontecimento, decerto propositadamente, já que os ventos sócio-políticos da época eram manifestamente anticlericais, e porque as manifestações de Fátima logo foram interpretadas pelas forças republicanas como manobra reacionária.

Representação da aparição de Nossa Senhora aos pastorinhos (Lúcia, Francisco e Jacinta)

Admira tanta precaução do “João Semana” em relação aos fenómenos da Cova da Iria, ao constatarmos que deu razoável e imediata cobertura a umas pretensas aparições ocorridas no lugar do Barral, São João da Vila de Chã, concelho de Ponte da Barca, em 10 e 11 de Maio de 1917, vésperas, portanto, da 1.ª aparição de Fátima [2].
Teriam as novas de Fátima tardado em chegar aqui? Teria sopesado a favor do crédito do Barral o facto de o seu caso ter vindo a público no semanário católico “A Ordem”, do Porto, de 9 de Junho imediato? Seria apenas por acatamento às reservas impostas pela Igreja relativamente aos acontecimentos de Fátima? Ou um pouco por prudência, para evitar as críticas dos detractores, escandalizados por tantas manifestações do sobrenatural?
Certo é que os responsáveis do “J. S.” só se dispuseram a quebrar o silêncio depois de todo o País ter comentado, estupefacto, o “milagre do sol” através de reportagens da grande imprensa, nomeadamente do "Século" do dia 15 imediato [3].


Em 28 de Outubro, o nosso jornal não só noticiou, finalmente, as aparições, como ainda teceu solenes considerações, prevendo para Fátima aquilo que veio a acontecer mais tarde – transformar-se em grande centro internacional de devoção mariana.
Eis o curioso texto, não assinado, por certo escrito pela redação do “Mensageiro Parochial”, de Viseu, um dos semanários que se publicavam em duplicação com o “João Semana”:

Jornal "João Semana" (28/10/1917)
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O tema volta na semana seguinte (4/11/1917), na 3.ª página, na secção "Por aqui e por alli"
Depois de duas notas abordando, respetivamente, os maus jornais e as baixas alemãs na Grande Guerra, vem uma terceira nota nos seguintes termos:
"Falla-se muito em paz. Para que esta seja em breve uma realidade consoladora, devem todos os crentes orar muito.
Já deves ter ouvido fallar, caro leitor, nas apparições de Fátima. Affirma-se que uma creanças d'aquelle logar, tiveram a graça de ver e ouvir Nossa Senhora várias vezes.
Como a Senhora lhes havia annunciado que a última apparição seria no dia 13 d'outubro, ellas assim o fizeram constar, e n'esse dia uma multidão enorme, talvez 50 000 pessoas, vindas de todos os pontos do paiz, alli se reuniu para observar o prodigio.
As creanças dizem ter visto realmente a Senhora n'esse dia e ter-lhes ella recommendado algumas coisas e annunciado o fim proximo da guerra.
Será verdade?
O nosso dever de catholicos é aguardar os acontecimentos e as decisões da auctoridade ecclesiastica."

Oito dias depois, duas locais sobre o assunto. Uma na secção "Por aqui e por alli" e outra com o título "A propósito".
Diz a primeira:
"A Associação de Registo Civil vergonha da nação portuguesa, representou ou vai representar ao Governo para que jamais consinta casos como o de Fátima. / Ó Ceus! Aqqueles demonios um dia são capazes de pedir ao Governo que mande apagar o sol para que elle não allumie nem aqueça os que crêem em Deus! Que ferocidade e que estupidez!" 

Eis parte da segunda transcrição:
“A Propósito / Ora sempre hão-de fazer o favor de nos dizer se acreditar no milagre de Fátima será coisa mais criminosa que acreditar no bacalhau a tres vinténs”. (O Governo tinha prometido esse preço, embora o bacalhau custasse oito tostões…).
Como em números anteriores, em 18/11 um anúncio convidava os leitores a comprar postais ilustrados na Rua Júlio Dinis, 33. Desta vez, porém, avisa que vendiam “alguns com os pastorinhos de Fátima a quem Nossa Senhora apareceu”.
Talvez por censura interna do jornal (de Ovar? De Viseu?), o anúncio de 23/12, em vez de “apareceu” trazia: “se diz ter aparecido”.

NOTAS
[1] – As aparições com exclusão da de Agosto, tiveram lugar nos dias 13. A de Agosto foi a 19, data aproveitada em 1977 como comemorativa da elevação de Fátima a vila.
[2] – Em 01/07/1917 noticiava o “J. S.”:


Um rapazito de dez anos, chamado Severino Alves, pastor, filho duma pobre e virtuosa viúva, é o protagonista do caso".

E segue a transcrição de “A Ordem” de 09/06/1917, em que se narra ir o pequeno pastor, em dia da Ascensão, a caminho do monte, eram cerca das 8 horas da manhã, rezando o terço, quando um relâmpago o impressionou. “Dá mais uns passos, atravessa um portelo e defronta uma Senhora, sentada, com as mãos postas, tendo o dedo maior da mão direita destacado, em determinada direção. O seu rosto era lindo como nenhum outro, toda Ela cheia de luz e esplendor, de maneira a confundir a vista, cobrindo-lhe a cabeça um manto azul, e o resto do corpo um vestido branco. Logo que o pequeno vidente A viu, caiu para o lado surpreendido com tal acontecimento. Readquirido animo, levantou-se e exclamou: “Jesus Cristo”. Nesse mesmo momento desapareceu a visão”. (…)
No dia seguinte, à mesma hora e no mesmo local encontrou a mesma Senhora. “Nesse dia o rosto da Aparição despreendia-se em sorrisos. Quando A viu caiu de joelhos e disse um pouco surpeeendido (para não dizer assustado), o que o seu pároco lhe havia aconselhado: – Quem falou ontem fale hoje. Então a Aparição com uma voz que era um misto de rir e cantar, diferente do falar de todos os mortais que tem visto, tranquilizou-o dizendo-lhe: “Não te assustes. Sou Eu, menino. E acrescentou: “Dize aos pastores do monte que rezem sempre o terço, e que os homens e mulheres cantem a Estrela do Céu. E as Mães que têm filhos lá fora, que rezem o terço, cantem a Estrela do Céu e se apeguem comigo, que hei-de acudir ao Mundo e aplacar a guerra”. (…)
Depois de observar que, com a comoção, o pequeno não mais quis voltar ao local da aparição, “A Ordem” acrescenta: “A criança, apesar da sua extrema pobreza, tem uma aparência sadia, sem aspecto e antecedentes nervosos que permitam supor que fosse uma alucinação, aliás repetida. É uma criança que é considerada na freguesia, gozando fama de verdadeira, e não mentirosa”.
E a notícia continua, explicando que a “Estrela do Céu” é uma antiga oração já esquecida naquela terra e que o povo considerava a aparição como de Nossa Senhora.
Em 8/7, 15/7 e 22/7, “J. S.” volta ao assunto, a propósito da antífona “Estrela do Céu”, e na semana seguinte (29/7) afirma que a autoridade eclesiástica iniciou o processo e que, enquanto o arcipreste local concluía pela veracidade dos factos, milhares de pessoas citavam milagres e deslocavam-se ao Barral.
O probo historiador e professor universitário P.e Avelino de Jesus Costa, que se debruçou sobre o assunto, admite a veracidade dos factos:

[3] “O Século” do próprio dia 13, em 1.ª página, anunciava: “Em pleno sobrenatural! As Aparições de Fátima / Milhares de pessoas concorrem a uma charneca nos arredores de Ourém, para verem e ouvirem a Virgem Maria”.
O jornalista Avelino de Almeida foi, como enviado especial, disposto a fazer a reportagem da aparição e, como livre pensador, ia preparado para escalpelizar o anunciado “sinal” previsto para aquele dia. Do que observou escreveu com imparcialidade, logo no dia 15, em 1ª página, um artigo intitulado: “Coisas espantosas! Como o Sol bailou ao meio dia em Fátima. As Aparições da Virgem – Em que consistiu o sinal do Céu – muitos milhares de pessoas afirmam ter-se produzido um milagre – A guerra e a paz” e uma fotografia dos três pastorinhos (a única ilustração vinda na 1.ª página), acompanhava o texto.

Em 13 de Outubro de 1917: Grupo de pessoas olhando para o céu. Gravura gentilmente cedida pela “Voz de Fátima”. Esta mesma cena veio reproduzida na “Ilustração Portuguesa” de 29/10/1917, embora apenas com as personagens do lado direito (cf. Sebastião Martins dos Reis, “Síntese crítica de Fátima”). Não foi possível constatar se algum vareiro esteve nesse dia em Fátima entre as 50 000 testemunhas do “milagre do Sol”

A “Ilustração Portuguesa”, revista de grande tiragem, apresentou em 29 de Outubro, a páginas 353-356, uma reportagem do mesmo jornalista com nada menos que onze fotografias tiradas em 13 de Outubro. Do artigo, que tinha por título “O Milagre de Fátima” (Carta a alguém que pede um testemunho insuspeito”) transcrevemos a parte final: “E, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante do que essa rumorosa mas pacífica multidão animada pela mesma obsessiva ideia e movida pelo mesmo poderoso anseio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, à hora prenunciada, deixar de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro-rei – disco de prata fosca – em pleno zénite, aparecer e começar dançando n’um bailado violento e convulso, que grande número de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes cores revestiu sucessivamente a superfície solar… / Milagre, como gritava o povo; fenómeno natural, como dizem sábios? Não curo agora de sabê-lo, mas apenas de te afirmar o que vi… o resto é com a Ciência e com a Igreja…”
Outras publicações, mesmo humorísticas, comentaram e glosaram as aparições de Fátima, como “O Século Cómico” (Suplemento de “O Século”) de 29/10/1917.

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