19.4.16

A alquilaria Constantino

Jornal JOÃO SEMANA (01/10/2000)
TEXTO: Mário Miranda

A Alquilaria Constantino, situada no Largo da Estação dos Caminhos-de-ferro, tinha grande movimento no período da minha infância e até 1932/34, chegando a possuir duas parelhas de cavalos, bem tratados pelo seu cocheiro, José Loureiro, e sempre prontos para levar a Arada ou a S. Vicente os brasileiros que desembarcavam na estação, carregados de malas. O transporte era feito em “charabans”, como então se chamavam.
Por vezes, dada a quantidade de malas, estas tinham de ser bem amarradas, já que as estradas a isso obrigavam. E tudo, depois, lá seguia em ordem, sem que os passageiros tivessem de ficar em terra…
Ainda me recordo também de este tipo de carruagem ser utilizado para transportar o médico Dr. Salviano Cunha, pai do saudoso Dr. Mário Cunha, ao posto médico da estação da C.P.. Só que o Dr. Salviano, pouco tempo depois, veio a usar como meio de locomoção uma moto, que julgo ter sido a primeira a chegar a Ovar.
O Sr. Constantino tinha ainda duas “LANDAU”, fechadas com duas portas laterais e quatro lugares – sendo dois à frente e dois atrás  geralmente preferidas para casamentos.

A fina flor de Ovar no casamento do Dr. José de Almeida ("Dr. Almeidinha"), Administrador
 do Concelho e Conservador do Registo Civil, com D. Maria Emília Barbosa de Quadros, em
 16 de outubro de 1897, na Igreja Matriz de Ovar. Foto de Ricardo Ribeiro, pioneiro da Fotografia entre nós. Será este o mais antigo registo fotográfico de rua entre nós?

Os fins-de-semana estavam sempre ocupados com este género de serviço, havendo duas parelhas de cavalos, prevendo a hipótese de aparecer mais do que um casamento. Nunca era por falta de transportes que estes não se realizavam…
Aos cavalos jamais faltava comida, porque o Sr. Constantino transaccionava, em quantidade, fardos de palha. Era frequente receber na estação dos Caminhos-de-ferro vagões de palha vinda do Alentejo. (Mesmo depois de ter acabado com as carruagens, porque os automóveis lhe vieram estragar o negócio, a venda de palha continuou ainda durante anos).
Acompanhei muito de perto a azáfama da Alquilaria, tendo tido oportunidade de conversar, variadíssimas vezes, com o Sr. Constantino, que tinha sempre diversas histórias para contar acerca da sua movimentada vida, diariamente ocupada com os cavalos, as carruagens, os cocheiros.
Nas viagens mais distantes, muito além dos limites do concelho, quase sempre para estrangeiros vindos no caminhos-de-ferro, era ele que conduzia e quem fixava o custo.
Ainda hoje estão de pé os edifícios da sua residência e da Alquilaria, que não sofreram alterações.
Na altura, existiam ainda dois “charabans”: um do Realeiro e outro do Jerónimo. Só que os animais destes não apresentavam o aspecto físico dos do Constantino, e creio mesmo que não faziam grandes percursos.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de outubro de 2000)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/04/a-alquilaria-constantino.html

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