| Manuel Freire Foto: Fernando Pinto |
TEXTO: Fernando Pinto
Manuel Augusto Coentro de Pinho Freire, filho dos
professores João José da Silva Freire e Júlia Coentro de Pinho, nasceu em Vagos
em 25 de abril de 1942, mas veio viver para Ovar com os seus pais aos três anos
de idade.
No passado dia 19 de junho, o cantautor que imortalizou o
poema “A Pedra Filosofal” de António Gedeão encantou a plateia do “À Palavra no
Museu de Ovar”, evento dinamizado pelo vareiro Carlos Nuno Granja, atual membro
da Direção desta instituição ovarense.
“Poucas pessoas podem reivindicar o facto de terem
escolhido uma terra para si, e eu tive esse privilégio... Escolhi Ovar como
minha terra”, disse Manuel Freire no início de mais um À Palavra no Museu de
Ovar, evento literário que em setembro regressará, segundo adiantou Carlos Nuno
Granja, com mais novidades.
Nas duas horas e meia em que esteve à conversa com os
seus conterrâneos, muitos dos quais amigos de longa data, o Trovador de Abril quis
desenovelar algumas memórias da sua infância e adolescência que o marcaram
pela positiva: “Há bocado, os mais atentos devem ter percebido que houve ali um
pequeno momento de emoção ao abraçar o Zé Maia [foto], porque estou num
espaço que, como toda a gente sabe, muito deve ao pai dele... Eu acompanhei
esta construção desde muito novo. Tive uma tia que morou em frente e que
trabalhou aqui uma série de anos”, lembrou Manuel Freire.
Antes de a plateia entoar, no final da sessão do À
palavra..., a Pedra Filosofal, uma das mais belas cantigas da história da
música portuguesa, Manuel Freire falou dos seus pais que vieram lecionar para
Ovar (a mãe era de cá), da primeira casa onde moraram, na Rua Alexandre
Herculano, onde mais tarde funcionou o infantário Alvorada e a Escola de Música
Novos Sons, da sua escola primária, que ficava na Rua da Fonte, onde o seu pai
lhe ensinou as primeiras letras, da outra sua moradia que ficava na Rua Dr.
José Falcão, perto da Casa S. Luiz, onde o cheiro a Pão de Ló inundava as
divisões da casa, e talvez por isso continue a ser um apreciador dessa
iguaria vareira.
Manuel Freire recordou ainda do “bilhar russo” do Café
Parque, o tempo em que trabalhou no ateliê de Luís Ferreira de Matos e as
viagens a Itália que fez na companhia desse seu amigo escultor, e o GAV (Grupo
Atlético Vareiro), coletividade que ajudou fundar. “Era para se chamar Grupo
Académico Vareiro, mas o Académico era uma palavra que só podia ser usada por
associações de estudantes...Eu penso que aquilo que sou, o devo muito a esses
convívios no GAV”.
Ensaios no mar, ao luar
“Havia aqui um Sr. em Ovar, que tinha vindo de África.
Esse Sr. chamava-se Mário Cascais e levava-nos para o Furadouro para nos
inflamar a chama da Poesia e do Teatro. E dizia-nos versos à noite, em frente
ao mar”, contou o convidado do À Palavra..., com a saudade estampada no rosto: “Até
que surgiu a ideia de fazermos um espetáculo de teatro... Mário Cascais,
enquanto encenador, escolheu duas peças, A Ceia dos Cardeais, de Júlio Dantas,
e O Meu Caso, de José Régio”.
Manuel
Freire à conversa com o Diretor do “João Semana”
Foto: Fernando Pinto
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Os ensaios decorreram no chalé Matos, da família Lamy, ao
sul do Furadouro, que do lado do mar já não tinha parede. “Acho que o Augusto,
o António, a Estela, o Domingos, o João Natária, o Borges, acho que nenhum de
nós se pode esquecer daquelas noites. Estar ali, debaixo da lua, a ensaiar
teatro”, lembrou Manuel Freire.
Apesar das proibições da altura, a peça de José Régio
foi representada por este grupo de amigos no Cine-Teatro de Ovar em 9 de
janeiro de 1960.
“Pedra Filosofal”
“Eles não sabem que o sonho/ É uma constante da vida/ Tão
concreta e definida/ Como outra coisa qualquer (...)”.
Interpelado pelo jornal “João Semana”, Manuel Freire
revelou que decidiu cantar estes versos de António Gedeão porque eram fantásticos,
apesar de, curiosamente, António Gedeão não atribuir um grande valor literário
a este seu poema. “Ele diz, no livro de memórias, que escreveu aquele poema a
assobiar... E o meu comentário é que ele devia assobiar muito bem”.
Felizmente, Manuel Freire pensava o contrário, e achou
que esta letra dizia coisas muito importantes, de uma forma poética e subtil,
apresentando-a, em 1969, no programa televisivo Zip-Zip: “E tão subtil era,
que a Censura não pôs obstáculos nenhuns àquilo... Uma cantiga que fala de
“passarola voadora, para-raios, locomotiva!!!”
E a cantiga passou, ficou no ouvido das pessoas, que
continuam a achar que a mensagem de António Gedeão é intemporal.
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/02/manuel-freire-no-palavra-no-museu-de.html
"ELES"
(Letra e Música de Manuel Freire)
Ei-los que partem
(Letra e Música de Manuel Freire)
Ei-los que partem
Novos e
velhos
Noutras
paragens
Noutras
aragens
Entre
outros povos
Ei-los que
partem
Velhos e
novos
Ei-los que
partem
Olhos
molhados
Coração
triste
A saca às
costas
Esperança
em riste
Sonhos
doirados
Ei-los que
partem
Olhos
molhados
Virão um
dia
Ricos ou
não
Contando
histórias
De lá de
longe
Onde o suor
Se fez em
pão
Virão um
dia
Ricos ou
não
(...)
Virão um
dia
... ou não

1 comentário:
Conheço bem a os Cascais. Família curiosa e boa. Conheci o Senhor Mário. Era um belo cavalheiro, sempre muito bem vestido. A irmã, Dona Alice Cascais, gostava de ir nos barcos das Companhas, sentada à proa, dizia versos de António Nobre. Havia uma grande ligação entre as nossas famílias. Ainda há. Uma das minhas grandes amiga, a mais antiga, é a Doutora Deolinda Palavra (Cascais). Foi-me grato lembrá-los. Tinham um palheiro junto ao do Senhor Mattos. Quanto a Manuel Freire, vem de longe a minha admiração por ele, como artista e homem. Foi amigo de Hugo Colares Pinto, meu primo, já falecido. Tudo isto desperta em mim muitas lembranças e saudades.
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