2.2.16

Manuel Freire no Museu de Ovar

Manuel Freire
Foto: Fernando Pinto
Jornal JOÃO SEMANA (01/07/2015)
TEXTO: Fernando Pinto

Manuel Augusto Coentro de Pinho Freire, filho dos professores João José da Silva Freire e Júlia Coentro de Pinho, nasceu em Vagos em 25 de abril de 1942, mas veio viver para Ovar com os seus pais aos três anos de idade.
No passado dia 19 de junho, o cantautor que imortalizou o poema “A Pedra Filosofal” de António Gedeão encantou a plateia do “À Palavra no Museu de Ovar”, evento dinamizado pelo vareiro Carlos Nuno Granja, atual membro da Direção desta instituição ovarense.

“Poucas pessoas podem reivin­dicar o facto de terem escolhido uma terra para si, e eu tive esse pri­vilégio... Escolhi Ovar como minha terra”, disse Manuel Freire no iní­cio de mais um À Palavra no Mu­seu de Ovar, evento literário que em setembro regressará, segundo adiantou Carlos Nuno Granja, com mais novidades.
Nas duas horas e meia em que esteve à conversa com os seus con­terrâneos, muitos dos quais amigos de longa data, o Trovador de Abril quis desenovelar algumas memó­rias da sua infância e adolescência que o marcaram pela positiva: “Há bocado, os mais atentos devem ter percebido que houve ali um peque­no momento de emoção ao abra­çar o Zé Maia [foto], porque estou num espaço que, como toda a gente sabe, muito deve ao pai dele... Eu acompanhei esta construção desde muito novo. Tive uma tia que mo­rou em frente e que trabalhou aqui uma série de anos”, lembrou Ma­nuel Freire.
Antes de a plateia entoar, no final da sessão do À palavra..., a Pedra Filosofal, uma das mais be­las cantigas da história da música portuguesa, Manuel Freire falou dos seus pais que vieram lecionar para Ovar (a mãe era de cá), da pri­meira casa onde moraram, na Rua Alexandre Herculano, onde mais tarde funcionou o infantário Alvo­rada e a Escola de Música Novos Sons, da sua escola primária, que ficava na Rua da Fonte, onde o seu pai lhe ensinou as primeiras letras, da outra sua moradia que ficava na Rua Dr. José Falcão, perto da Casa S. Luiz, onde o cheiro a Pão de Ló inundava as divisões da casa, e talvez por isso con­tinue a ser um apre­ciador dessa iguaria vareira.
Manuel Frei­re recordou ainda do “bilhar russo” do Café Parque, o tempo em que tra­balhou no ateliê de Luís Ferreira de Matos e as viagens a Itália que fez na companhia desse seu amigo escultor, e o GAV (Gru­po Atlético Vareiro), coletividade que ajudou fundar. “Era para se chamar Grupo Académi­co Vareiro, mas o Acadé­mico era uma palavra que só podia ser usada por as­sociações de estudantes...Eu penso que aquilo que sou, o devo muito a esses convívios no GAV”.

Ensaios no mar, ao luar
“Havia aqui um Sr. em Ovar, que tinha vindo de África. Esse Sr. chamava-se Mário Cascais e levava-nos para o Furadouro para nos inflamar a chama da Poesia e do Teatro. E dizia-nos versos à noite, em frente ao mar”, contou o convidado do À Palavra..., com a saudade estampada no rosto: “Até que surgiu a ideia de fazermos um espetáculo de teatro... Mário Cas­cais, enquanto encenador, escolheu duas peças, A Ceia dos Cardeais, de Júlio Dantas, e O Meu Caso, de José Régio”.

Manuel Freire à conversa com o Diretor do “João Semana”
Foto: Fernando Pinto

Os ensaios decorreram no chalé Matos, da família Lamy, ao sul do Furadouro, que do lado do mar já não tinha parede. “Acho que o Au­gusto, o António, a Estela, o Do­mingos, o João Natária, o Borges, acho que nenhum de nós se pode esquecer daquelas noites. Estar ali, debaixo da lua, a en­saiar teatro”, lembrou Manuel Freire.
Apesar das proi­bições da altura, a peça de José Régio foi representada por este grupo de amigos no Cine-Teatro de Ovar em 9 de janeiro de 1960.

“Pedra Filosofal”
“Eles não sabem que o sonho/ É uma constante da vida/ Tão con­creta e definida/ Como outra coisa qualquer (...)”.
Interpelado pelo jornal “João Semana”, Manuel Freire revelou que decidiu cantar estes versos de António Gedeão porque eram fan­tásticos, apesar de, curiosamente, António Gedeão não atribuir um grande valor literário a este seu poema. “Ele diz, no livro de me­mórias, que escreveu aquele poema a assobiar... E o meu comentário é que ele devia assobiar muito bem”.
Felizmente, Manuel Freire pen­sava o contrário, e achou que esta letra dizia coisas muito importan­tes, de uma forma poética e subtil, apresentando-a, em 1969, no pro­grama televisivo Zip-Zip: “E tão subtil era, que a Censura não pôs obstáculos nenhuns àquilo... Uma cantiga que fala de “passarola voa­dora, para-raios, locomotiva!!!”
E a cantiga passou, ficou no ou­vido das pessoas, que continuam a achar que a mensagem de António Gedeão é intemporal.
Manuel Freire é um cantor de intervenção, Uma voz que soltou a liberdade, como escreveu Manuel Catalão na revista REIS de 2005, editada pela Trupe JOC-LOC [leia AQUI o artigo]. Frequentou a Universidade de Coimbra, na altura em que se cantava o fado coimbrão debaixo das varandas. “Respeito muito as canções que falam das flores, dos passarinhos, do sol, das estrelas e do luar, e da amada à janela, mas eu na altura em que comecei a cantar achava que havia coisas mais importantes e mais urgentes para cantar, e, portanto, escolhi poemas que tinham algum conteúdo... Não sou autor de praticamente nenhuns textos que canto. Fiz meia dúzia de textos, mais para Teatro e para Cinema do que propriamente para canção, tirando Eles, que foi a minha estreia no meu primeiro disco. Infelizmente, assistimos hoje a um movimento semelhante ao dos anos 60, em que as pessoas são obrigadas a sair do país para tentarem ter uma vida digna”, disse, a terminar, Manuel Freire.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de julho de 2015)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2016/02/manuel-freire-no-palavra-no-museu-de.html

"ELES"
(Letra e Música de Manuel Freire)

Ei-los que partem
Novos e velhos
Buscar a sorte
Noutras paragens
Noutras aragens
Entre outros povos
Ei-los que partem
Velhos e novos
Ei-los que partem
Olhos molhados
Coração triste
A saca às costas
Esperança em riste
Sonhos doirados
Ei-los que partem
Olhos molhados
Virão um dia
Ricos ou não
Contando histórias
De lá de longe
Onde o suor
Se fez em pão
Virão um dia
Ricos ou não
(...)
Virão um dia
... ou não

1 comentário:

Maria disse...

Conheço bem a os Cascais. Família curiosa e boa. Conheci o Senhor Mário. Era um belo cavalheiro, sempre muito bem vestido. A irmã, Dona Alice Cascais, gostava de ir nos barcos das Companhas, sentada à proa, dizia versos de António Nobre. Havia uma grande ligação entre as nossas famílias. Ainda há. Uma das minhas grandes amiga, a mais antiga, é a Doutora Deolinda Palavra (Cascais). Foi-me grato lembrá-los. Tinham um palheiro junto ao do Senhor Mattos. Quanto a Manuel Freire, vem de longe a minha admiração por ele, como artista e homem. Foi amigo de Hugo Colares Pinto, meu primo, já falecido. Tudo isto desperta em mim muitas lembranças e saudades.