Jornal JOÃO SEMANA (15/01/2015)
TEXTO: Fernando Pinto
Na edição de 1 de janeiro de 2015 visitámos a Tanoaria JOSAFER,
também conhecida por “Farramenta”. Hoje vamos até à Tanoaria Ramalho, outra
oficina que também faz parte da Rede Museológica de Ovar, e onde ainda se
trabalha à moda antiga.
TEXTO: Fernando Pinto
| Augusto Manuel Castro de Sá (Tanoaria Ramalho) Foto: Fernando Pinto |
Augusto Manuel Castro de Sá recebeu o jornal “João
Semana” na sua tanoaria, fundada em 1952 pelo seu pai, Manuel Augusto de Sá
(Manuel “Ramalho”).
Estamos na cidade de Esmoriz, perto da Junta daquela freguesia do Concelho de Ovar. Seguimos pela Avenida da Praia e entramos na Rua Abade Pinheiro. No n.º 304 esperava-nos Augusto Manuel Castro de Sá [na foto], gestor desta empresa familiar especializada no fabrico e reparação de barris e cascos para o armazenamento e envelhecimento de vinhos e whiskys.
A Tanoaria
Ramalho foi fundada em 1952 por Manuel Augusto de Sá, pai do nosso anfitrião,
que era conhecido na localidade por Manuel Ramalho. “Como o meu pai e os meus
tios ficaram sem pai muito cedo, eles eram conhecidos pelo apelido da minha
avó, que se chamava Rosa Rodrigues Ramalho. O meu pai, quando o meu avô Augusto
Manuel Chêdas faleceu, foi substitui-lo no seu local de trabalho. Como ele só
tinha oito anos, a minha avó, por ter ficado sem meios de subsistência, foi
pedir ao patrão para que o meu pai fosse trabalhar para lá. Um dia, no fim do
trabalho, o patrão pediu-lhe que levasse um gigo de retalhos de Gaia à Foz. O rapaz
encheu-se de brio e atirou os retalhos ao chão. Meteu-se no comboio e veio para
cá. E por aqui ficou”, conta o empresário.
Manuel Augusto
de Sá, como aconteceu com a maioria dos seus colegas tanoeiros, começou por
trabalhar primeiro num telheiro. “Depois o irmão casou e deixou o meu pai
ocupar junto aos Bombeiros um espaço para ele ir trabalhando. Entretanto,
começou a comprar isto, onde estamos. Eram terrenos onde se cultivava arroz,
arrozais... O meu pai começou aos poucos e poucos. Trabalhou depois com os meus
irmãos mais velhos. Um deles já faleceu e o outro ainda trabalha na tanoaria.
Vieram para aqui desde meninos. Queriam acabar com isto, por não ser rentável,
e eu, apesar de trabalhar noutro ramo, em contabilidade de custos numa
empresa, aceitei o desafio. Pedi uma licença sem vencimento e comecei a entrar
em contacto com os ingleses. E nunca mais larguei isto... Como pode ver,
precisamos de fazer algumas obras. Temos de dar um jeito ao chão da tanoaria,
pintar as paredes, colocar umas janelas, reparar o telhado, para que isto fique
mais airoso”, diz Augusto Manuel de Sá, apontando para a cobertura do velho
edifício.
Museu da
Tanoaria
“Com a
chegada do novo Presidente da Câmara Municipal de Ovar [Salvador Malheiro],
parece que surgiu a ideia de fazerem um museu da tanoaria. Se quiserem avançar
com a criação de um museu, os autarcas devem entrar em contacto com as duas
tanoarias que fazem parte da Rede Museológica de Ovar, de forma a ouvirem a
nossa opinião sobre o assunto”, refere Augusto de Sá, acrescentando: “Eu acho
que deviam criar antes um circuito turístico em que todas as instituições que
fazem parte da Rede pudessem entrar. Museus vivos já são as tanoarias...
Podíamos era construir uma loja para vendermos os nossos produtos, o artesanato”.
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| Tanoaria Ramalho, de Esmoriz - Foto: Fernando Pinto |
No
interior da Tanoaria respira-se uma atmosfera de outros tempos. Ouvem-se
marteladas na praça, na pedra redonda onde o barris e os pipos vão ganhando
forma [na foto].
“Neste
caso, estamos a fazer barris de madeira recuperada de carvalho, que se destina
a levar vinho de novo. Vão para a Coreia do Sul”, diz o Sr. Augusto,
explicando que esta encomenda surgiu através de uma parceria com uma empresa
sueca para a qual estão a fazer vasos de cortiça. Também fabricam celhas e
outras peças de decoração.
Esta arte,
na opinião do responsável pela Tanoaria Ramalho, requer sacrifício e
persistência: “Aprender, todos aprendem, o mais difícil é continuar nesta
profissão, porque as coisas nem sempre correm bem”. Segundo aquele gestor, os
produtores de vinho nacionais têm um papel fundamental na divulgação do
excelente trabalho realizado pelos nossos mestres tanoeiros. “Se pedirmos a um
francês para ele fazer um determinado barril, ele não o faz, porque os
franceses trabalham em série, como numa fábrica moderna. Os nossos tanoeiros
começam e acabam um barril. Mas hoje ninguém enriquece com este negócio, porque
há muitas alternativas ao barril, como as cubas de inox”, esclarece.
O Núcleo
Museológico da Tanoaria Ramalho pode ser visitado de segunda a quinta-feira,
das 8h às 12h e das 13h às 18h. À sexta-feira apenas abre da parte da manhã,
encerrando aos sábados, domingos e feriados.
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de janeiro de 2015)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/12/tanoaria-ramalho-esmoriz.html
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/12/tanoaria-ramalho-esmoriz.html

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