16.12.15

A RABOR dos Borges

Manuel Borges
Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2015)
TEXTO: Serafim de Oliveira Azevedo

A RABOR, uma joia, uma águia que levou o nome de Ovar a todos os recantos do mundo, conheci-a ainda embrulhada em pequenos e humildes trapos num sótão da rua Alexandre Hercu­lano, numa casa pertencente ao senhor Pinto, pai dos irmãos José e Eduardo Pinto, dois vareiros de bom quilate. O meu pai tinha um motor que precisava de uma reparação urgente, a minha mãe tratou de se informar da capacidade dos donos da oficina e como se tratava de um objeto de fácil transporte na bicicleta, lá vim eu a caminho da Rabor. Nesse dia, encontrei-me com um jovem a cujo apelido – Ramos – foi roubada a primeira sílaba, RA, para juntar à sílaba BOR – roubada ao apelido de outro jovem, Borges –, as­sim se obtendo o nome de guerra para o motor “Rabor”.

Família sempre unida
Quando voltei ao convívio da Rabor, ela já funcionava frente ao troço da 109 nas costas do Temido. Agora ela já só pertencia à família Borges, que nela empregou todas as suas economias, todo o seu sangue, todo o seu suor, toda a sua inteligên­cia.
O n.º 45 da Rua Alexandre Herculano.
Ali nasceu a Rabor
A Rabor era a filha dileta dos quatro irmãos e do cunhado, tam­bém ele Borges (cunhado do Ma­nuel Borges, por ser irmão da espo­sa deste, e, depois, cunhado de todos os três irmãos Borges por ter casado com o único elemento feminino dos três Borges).
Aquilo parece que foram esco­lhidos a dedo; e se alguém estava à espera de desentendimentos com a morte do pai, enganou-se redon­damente, pois eles mantiveram-se sempre unidos. Tal como os motores Rabor, que se transformaram numa só peça de real valia, também eles, embora quatro seres perfeitamente independentes e cada um com a sua missão, sempre se entenderam às mil maravilhas. E assim foi sempre. Nunca alguém se apercebeu de que houvesse birras entre eles, pois, se as houve, os interesses da firma e da família tudo superavam. Só lamento a venda da fábrica à ITT, em 1965, passando a chamar-se ITT/ Rabor, pois isso deu origem à cobiça daque­les que, pela sua incapacidade, aca­baram por trans­formar uma relí­quia, uma joia de Ovar, num montão de ruínas, depois de tudo terem su­mido. Foi pena, pois o esforço dos Borges primeiro, e da ITT até 1975, mereciam um fim mais de acordo com o esforço, a inteligência e o amor de quem tudo dava pelo en­grandecimento da nossa Rabor. Sim, digo nossa, por­que, como profes­sor em Cabanões, também ela con­tribuiu com os or­denados dos seus empregados para que os meus alunos tudo tivessem para uma aprendizagem capaz.

Rabor: uma casa vareira
Mas a Rabor não foi só o que fica exposto. Para mim, para os pro­fessores de Ovar, para os vareiros, a Rabor era muito mais: um abrigo, uma casa vareira. E eu que o diga: Manuel Borges, sempre que lhe batia à porta, por Ovar, era um coração (que o digam também as vetustas raízes do eucalipto de Cimo de Vila, junto à padaria Godinho, o leito do Rio Cáster junto à ponte da Rua Elias Garcia, o rio da Senhora da Graça, na Giesteira, a sirene dos nossos Bombeiros, e por aí fora); o Zé Borges, com a sua linda casa e o seu belo roseiral, e a sua explosão de alegria quando nos encontrávamos e ele me cumprimentava dizendo, alto e bom som: “Este foi o profes­sor do meu Manecas!” (e que bem isto me sabia!); o cunhado, Manuel Borges, com a festa que ofereceu a tanta gente quando da inauguração da sua casa (hoje Centro Médico da Praça); estando muito feliz, quis re­partir essa felicidade por um grande número daqueles que sabia serem seus amigos; o João, cuja filha, na década de sessenta, foi aluna de mi­nha mulher.
Claro que, quando se tratava de ofertas de mais valia, a oferta era de todos, e não apenas de um. Assim aconteceu na festa de homenagem à D. Margarida Coentro de Pinho. Foi tamanha a avalanche de inscrições, que graciosamente não se arranjava espaço para acomodar tantas pes­soas. Foi então que surgiu uma alma boa a sugerir o salão de festas da Rabor. Falámos à gerência, e logo as portas da Rabor se escancararam, permitindo que esta festa fosse mes­mo aquilo que era merecido pela elevada categoria da professora ho­menageada.

Rabor, Ovar

No seu auge, a Rabor chegou a ter 650 trabalhadores – muitos deles admitidos depois de terem passado pelas carteiras da escola de Caba­nões –, e que lá trabalharam até à sua reforma ou até perto de a alcan­çarem.

O descalabro
Em fevereiro de 1981, depois da intervenção estatal, que durou até agosto de 1980,a ITT Rabor passou a ser agregada à EFACEC da Maia, perdendo Ovar os serviços admi­nistrativos, ficando apenas com a produção. Em 1994 houve o despe­dimento coletivo de 17 trabalhado­res, e em 1999 a fábrica passou para a família Rica, com a designação EFACEC Universal Motors, nome que em 2002 mudou para Universal Motors, com o qual viria a morrer em 15 de julho de 2005, data em que foi decretada a sua falência.
Obrigado, Rabor! Recebe um abraço de ternura por quantos em ti trabalharam. Por mim, enquanto for vivo, quando por lá passo vejo a Ra­bor dos Borges, e não as ruínas do que foi um colosso.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de junho de 2015)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/p/textos-editados-neste-sitio-172.html

Fotos da revista "Reis" de 1994

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