3.11.15

Os veraneantes do Furadouro nos anos 50

Jornal JOÃO SEMANA (15/01/2014)
TEXTO: Dulcídio Pereira Vaz Pinto

Marc Boyer afirma que em França, após 1950, se assistiu a uma grande procura de praias até então ignoradas. De facto, a partir dessa época, a vulgarização do gozo de férias permitiu a um número crescente de habitantes gastar algum do seu tempo de lazer anual numa estadia na praia. Alain Corbin é da mesma opinião, lembrando que na França, Alemanha e Inglaterra, o número de famílias que partia de férias aumentou consideravelmente naquela mesma década, sobretudo devido à melhoria das condições de vida então registada.

Turismo interior
Os princípios de Boyer e Cor­bin parece-nos que os poderemos aplicar aqui.
Nos anos 50 do século XX nos meses de verão, a praia do Furadouro, à semelhança de tantas praias do Litoral Norte de Portu­gal, atraía muitos veraneantes às suas areias finas e quentes.

Veraneantes na praia do Furados. Anos 50

Longe das praias de eleição da Granja e de Espinho, “(…) o mo­vimento de turistas em visita à Ria e ao Furadouro cresce de dia para dia.” (Atas da Junta Turismo, 2 de julho 1953, livro 622, folha 82).
Ovar, terra de camponeses e pescadores, acolhia no Furadouro muita gente vinda de Oliveira de Azeméis e de São João da Madeira. De facto, as populações destes concelhos limítrofes começaram, nos anos 30, a passar uns dias de descanso nesta praia, cujos fre­quentadores mais assíduos eram, até então, os ovarenses.
Depois de concluídas as co­lheitas agrícolas, os lavradores da vizinhança frequentavam a praia desde o início de Outubro até finais de Novembro, na grande maioria dos casos vindos a pé, trazendo consigo alforges de farnéis para a estadia, passando o dia em barra­cas alugadas ou palheiros. Os de São João da Madeira e Oliveira de Azeméis vinham por Válega, chegando a Ovar por volta das 6,30 da manhã, a pé ou em grupo, cantando e dançando durante o caminho até ao Furadouro. Muitos destes veraneantes permaneciam no Furadouro quinze, vinte ou 30 dias.
Nos anos 40/50, a vila de Ovar assistia, maravilhada, à passagem de um grupo especial de intrépidos veraneantes que, regularmente, na época estival, vinha de Cucujães apeado e eivado de alegria, não deixando ninguém indiferente por onde passava.
Vestidos de preto e de bati­na solta, desinibidos, em passo acelerado, seguiam em “elevado número” (Jornal João Semana, nº 1, p.6, 2010), em direção ao Fura­douro. A população da vila parava para admirar a passagem daqueles alegres jovens que, aos olhos de quantos os viam passar, irradiavam frescura e boa disposição.

Os estrangeiros
Quanto a estrangeiros, ilustres industriais ingleses e suecos por lá passaram. Foi o caso, em 1951, dos “Sr. Otto Carlson, um dos prin­cipais diretores da Fagerata Bank Aklleboleg – talvez o maior con­sórcio de fábricas de aço da Suécia – e engenheiros Thomas Tyrar e Henry Carr, técnicos das importan­tes fábricas de aço de Jassop Savil­le, de Sheffield, Inglaterra, de cujas firmas era representante, no nosso país, a fábrica de Ovar F.Ramada. Talvez em consequência disso, os representantes do Hotel Mar e Sol receberam, nesse ano, uma carta dum importante industrial de Birmingham, Inglaterra, pedindo informações sobre alojamentos, para visitar o Furadouro no próxi­mo ano em Agosto, acompanhado de sua família (Jornal Notícias de Ovar, nº 123, p.3, 1951).

O Furadouro, a norte, com o Hotel Mar e Sol ao fundo. Mais a nascente, nasceria o
Parque de Campismo do núcleo campista de S. João da Madeira

Hotel Mar e Sol
Em 1955 a praia do Furadouro estava “a ser percorrida de norte a sul por uma extraordinária onda de turistas franceses e de outras nacionalidades.” (Atas da Junta de Turismo, 3 Outubro 1955, livro 623, folha 76). Em face disso, houve, por parte das autoridades locais, a preocupação de proibir a criação de porcos nos currais junto à praia, como vinha sendo hábito até então, dado que o cheiro nauseabundo que provocavam, era deveras incomodativo aos banhis­tas em geral.

A mendicidade
A praia, como local público, atraía gente de toda a condição, desde lavradores a pessoas de melhor condição económica, e até mendigos à procura de esmola (uns para matar a fome, outros para se embriagarem nas tavernas junto à praia).
Houve sempre a preocupação de banir estes pedintes, de forma a não causar má imagem à praia e não importunarem os banhistas. “Acabe-se com o triste espetá­culo que todos os dias se oferece aos olhos dos banhistas.” (Jornal Notícias de Ovar, nº 361, p. 2, 1955). Os pedintes eram, na sua grande maioria, pescadores, gente que passava fome quando a safra era fraca: “nada ali podiam fazer que lhe aguentasse a vida difícil.” (Maria Adelaide Godinho Arala Chaves, 2008). A situação era grave, em virtude de ser elevado o número de mendigos a “inva­direm” a zona do areal à procura de esmola, chegando ao ponto de a Junta de Turismo do Furadouro oficiar ao Capitão do Porto de Aveiro a solicitar “que seja feito o policiamento da zona destinada aos banhistas, geralmente invadida por pedintes e maltrapilhos.” (Atas da Junta de Turismo 11 de Julho 1947, Livro 621, folha 16).
Talvez para alterar esta ima­gem, que deixava tudo na mesma em relação aos pescadores, foi dada ênfase à célebre lei do pé descalço (Jornal João Semana, nº2356, p.4, 1959), que pugnava pela proibição de andar descalço na via pública a partir de Janeiro de 1958. O Dr. Francisco de Vale Guimarães, Governador do distrito Civil de Aveiro, assim o determi­nava, “à exceção dalgumas zonas entre as quais a ocupada pelos pescadores.” (Jornal João Semana, nº 2284, p. 3, 1957).
De qualquer modo, era grande a preocupação das autoridades locais ovarenses em promover as boas maneiras na população de Ovar, inclusive chamando a aten­ção para alguns indivíduos que, aos fins-de-semana, se embriaga­vam, e que, com linguagem obs­cena, importunavam quem junto deles passava. Numa clara alusão ao movimento turístico nessa al­tura, especialmente a praia, numa terra como Ovar, tão visitada, “por pessoas distintas, numa vila tão reclamada como região turística, não fica bem que alguns homens ofereçam o triste espetáculo de se exibirem embriagados nas ruas da vila.” (Jornal João Semana, nº 2293, p.4, 1958).
Estas achegas, de teor sociali­zante, evidenciam que já nos anos 50, na altura do Verão, Ovar era muito visitada por veraneantes dos concelhos limítrofes, e não só.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de janeiro de 2014)

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