Aquele estalido... Um vareiro... ultrassónico!
Jornal JOÃO SEMANA (15/01/2014)
TEXTO: Serafim Oliveira Azevedo
Estávamos no ditado, hora de silêncio absoluto. (Na hora
do ditado, até o zumbido das moscas perturbaria a nossa atenção). Àquela hora,
o Nelson, meu colega na escola de Tarei, na primeira e segunda classes, não
escutava a minha voz, ele que, muito mais tarde, a escutaria enquanto
aguardava clientes ao lado chafariz de Ovar, e que, depois, com a confiança da
velha amizade dos tempos de escola, me dizia: – fala mais baixo; a tua voz
ouve-se do lado de lá da rua.
Bom rapaz, o Nelson. Há muito que nos deixou.
Mas, voltando ao que aqui me dispus a contar: Se não fora
o que, pouco tempo antes, havia lido nas Seleções, a minha cara também
assustaria os meus alunos. Como essa feliz leitura me tinha preparado para uma
situação daquelas, a minha cara não os assustou. Só estava ansioso que chegasse
a hora do recreio para se confirmar o que na minha cabeça fervilhava: foi obra
do filho do senhor Freire… E foi. Mal se aproximou, disse-me o meu colega: –
Foi o meu Aníbal!
Fiquei tão radiante como ele. Naquele tempo, a alegria
era de quantos tinham Ovar no coração. E isso sentiu-se nas fábricas que se
abriram na zona industrial, na estrada da Ria; na que ligava a estrada da ponte
do Cavaleiros à da Ria; na estrada da Mata; na Avenida do Infante; na
iluminação das ruas de Ovar, cujo brilho chegava aos aviões. (Lá do alto,
sentíamos que sobrevoávamos a encantadora Ovar).
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| General Aníbal Freire |
Aquele estampido de avião supersónico era mais um feito
vareiro. Sim, o avião não era obra nossa; a mecânica não era vareira. Mas quem
o dominava, a cabeça e as mãos que impunham a sua vontade, a quem o avião
humildemente se sujeitava, eram vareiras, e o sangue que corria nas suas veias
era bem do distrito de Aveiro: era da freguesia de Veiros, pelo pai, e da
freguesia de Ovar, pela mãe. E ele quis brindar Ovar com um estampido não
comum, um estampido fora do vulgar, um estampido que ficasse na memória dos
seus entes queridos. E eu, ao recordá-lo, presto homenagem a um herói que, no
pós-vinte e cinco de abril, me tratou sempre com a mesma amizade, o mesmo carinho
de antes desse evento. Por sinal, esse evento e o facto de ter passado à vida
civil até me proporcionaram um maior convívio, e a dita de, em vez de ouvir o
seu pai falar de si, ter eu o privilégio e a riqueza de uma sã convivência e,
por esse facto, de confirmar pessoalmente o quanto de verdade havia nas
palavras de seus progenitores: Era um Coentro de Pinho a valer!
Aproveito a ocasião para envolver nesta minha singela
mas sincera homenagem ao General Aníbal Coentro de Pinho Freire (na foto), os
nomes da sua Exma. viúva, D. Irene Freire, e seus queridos filhos, pedindo-lhes
que em tudo façam por merecer a honra de serem seus filhos, por serem Coentro
de Pinho e Fidalgos.
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de janeiro de 2014)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/11/aquele-estalido-um-vareiro-ultrassonico.html
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