3.11.15

General Aníbal Pinho Freire

Aquele estalido... Um vareiro... ultrassónico!

Jornal JOÃO SEMANA (15/01/2014)
TEXTO: Serafim Oliveira Azevedo

Estávamos no ditado, hora de silêncio absoluto. (Na hora do ditado, até o zumbido das mos­cas perturbaria a nossa atenção). Àquela hora, o Nelson, meu colega na escola de Tarei, na primeira e segunda classes, não escutava a minha voz, ele que, muito mais tar­de, a escutaria enquanto aguardava clientes ao lado chafariz de Ovar, e que, depois, com a confiança da ve­lha amizade dos tempos de escola, me dizia: – fala mais baixo; a tua voz ouve-se do lado de lá da rua.
Bom rapaz, o Nelson. Há muito que nos deixou.
Mas, voltando ao que aqui me dispus a contar: Se não fora o que, pouco tempo antes, havia lido nas Seleções, a minha cara também assustaria os meus alunos. Como essa feliz leitura me tinha prepa­rado para uma situação daquelas, a minha cara não os assustou. Só estava ansioso que chegasse a hora do recreio para se confirmar o que na minha cabeça fervilhava: foi obra do filho do senhor Freire… E foi. Mal se aproximou, disse-me o meu colega: – Foi o meu Aníbal!
Fiquei tão radiante como ele. Naquele tempo, a alegria era de quantos tinham Ovar no coração. E isso sentiu-se nas fábricas que se abriram na zona industrial, na estrada da Ria; na que ligava a estrada da ponte do Cavaleiros à da Ria; na estrada da Mata; na Ave­nida do Infante; na iluminação das ruas de Ovar, cujo brilho chegava aos aviões. (Lá do alto, sentíamos que sobrevoávamos a encantadora Ovar).
General Aníbal Freire
Aquele estampido de avião supersónico era mais um feito vareiro. Sim, o avião não era obra nossa; a mecânica não era vareira. Mas quem o dominava, a cabeça e as mãos que impunham a sua vontade, a quem o avião humilde­mente se sujeitava, eram vareiras, e o sangue que corria nas suas veias era bem do distrito de Aveiro: era da freguesia de Veiros, pelo pai, e da freguesia de Ovar, pela mãe. E ele quis brindar Ovar com um estampido não comum, um estam­pido fora do vulgar, um estampido que ficasse na memória dos seus entes queridos. E eu, ao recordá­-lo, presto homenagem a um herói que, no pós-vinte e cinco de abril, me tratou sempre com a mesma amizade, o mesmo carinho de antes desse evento. Por sinal, esse evento e o facto de ter passado à vida civil até me proporcionaram um maior convívio, e a dita de, em vez de ouvir o seu pai falar de si, ter eu o privilégio e a riqueza de uma sã convivência e, por esse facto, de confirmar pessoalmente o quanto de verdade havia nas palavras de seus progenitores: Era um Coentro de Pinho a valer!
Aproveito a ocasião para envol­ver nesta minha singela mas since­ra homenagem ao General Aníbal Coentro de Pinho Freire (na foto), os nomes da sua Exma. viúva, D. Irene Freire, e seus queridos filhos, pedindo-lhes que em tudo façam por merecer a honra de serem seus filhos, por serem Coentro de Pinho e Fidalgos.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de janeiro de 2014)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/11/aquele-estalido-um-vareiro-ultrassonico.html

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