6.8.15

São Cristóvão de Ovar – O reavivar de uma tradição

Imagem (“de roca”) de S. Cristóvão, que até 1910 
tomava parte na procissão do Corpo de Deus
de Ovar FOTO: Manuel Pires Bastos
Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2015)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Num saboroso texto publicado no “Notícias de Ovar” em 10/11/1955, na secção “Saibam quantos…” estranhava o Dr. Zagalo dos Santos que o culto a São Cris­tóvão fosse tão pouco expressivo em Ovar. E perguntava: “Porquê esta ignorância do Dia do Orago da freguesia?”.

Usanças sancionadas por lei
A mesma questão já tinha sido levantada pelo Dr. João Frederico (1818-1870), o primeiro historia­dor vareiro, nas suas “Memórias e Datas para a história da vila de Ovar”, ao escrever, em meados do século XIX: “Vai para quatro anos que [a Câmara] não assiste à fun­ção da Páscoa, nem manda fazer a do Corpus Christi, parecendo deste modo apostada em acabar com tais usanças sancionadas por lei. Não se sabe com bastante clareza qual o motivo deste ruim procedimento, que nós atribuímos à descrença re­ligiosa, pecado da nossa época!”.
Zagalo dos Santos (1884-1957) esclareceu este assunto num cader­no manuscrito dos meados do sé­culo XX:
“S. Cristóvão há mais de um século que caiu em desuso, certa­mente quando o mesmo aconteceu à Irmandade que o tinha por patro­no. Mas em dia do Corpo de Deus fazia a Câmara a festa e expunha-o nos Paços o Concelho antes de o passear pelas ruas da vila, proces­sionalmente. Como era advogado – e continua a sê-lo – contra o fastio, que as terçãs trazem inevitavelmen­te, neste dia, d’empréstimo, muito feio, muito alto, muito sério, tendo ao colo o seu Menino Jesus e na dextra um pinheiro novo vindo da Estrumada, meia vila passava dian­te dele, rezava-lhe a sua rogatória ou agradecimento e dava com a re­gueifa doce as três voltas simbóli­cas ao seu braço hercúleo. À noite, no salão rico da Câmara, havia bai­le em sua honra e, com o chá, belas torradas oferecidas serviam-se aos convidados de circunstância, indo as sobras, no dia seguinte, para os presos das enxovias [no rés-do­-chão da própria Câmara]”.

O P.e Manuel Pires Bastos falando no dia 25 de julho de 2015 sobre o tema “O reavivar de uma tradição – a imagem de São Cristóvão na Procissão do Corpus Christi”, na presença
do Bispo do Porto, D. António Francisco dos Santos, e dos autarcas locais 
FOTO: João Elvas

S. Cristóvão de Cabanões
Mas recuemos no tempo, para melhor compreendermos o cenário em que desde há nove séculos con­vivem S. Cristóvão e Ovar.
Um documento de 1132 (15 anos antes de nascer Portugal) fala da “Igreja de S. Cristóvão de Ca­banões”, o que corresponde à exis­tência de uma comunidade rural com a sua Igreja (possivelmente no mesmo sítio da atual capela de S. João. A breve trecho, Cabanões passou a ser concelho e julgado, com sede administrativa no lugar de Cabanões, e com uma nova Igreja mo atual Largo de S. João, englobando toda a zona poente, já então chamada Ovar, e que, no sé­culo XVI, devido ao crescimento urbano, passou a chamar-se Vila de Ovar, atraindo para ali a nova Igre­ja, de uma só nave, mais espaçosa e com tal requinte que o “Catálo­go dos Bispos do Porto” de 1623 a considera “uma das mais fermosas Igrejas do Bis­pado”, passando a fregue­sia a chamar-se S. Cristó­vão de Cabanões da Vila de Ovar, abrangendo toda a corda litoral entre o mar e a ria, desde Ovar a S. Jacinto e, antes de haver a barra de Aveiro, com pri­vilégios até Mira.
Fixemo-nos agora em S. Cris­tóvão, o santo que os Cabaneiros do século XII já tinham como pa­droeiro, certamente por ser um dos 14 Santos Auxiliares, considerados protetores nos perigos, doenças e pestes. S. Cristóvão, pelo significa­do do seu nome – que transportou Cristo – ficou protetor dos embar­cadiços e dos carreteiros, mas tam­bém curador do fastio.

Imagem (“de roca”) de S. Cristóvão
FOTO: João Elvas
A “boa ordem” das Procissões
Porque após o concílio de Tren­to (1545-1563) a Festa do Corpo de Deus se passou a realizar com luzidos cortejos de exaltação da Eucaristia, e sendo as Juntas de Pa­róquia e as Câmaras os promotores oficiais dos festejos, com a colabo­ração de corporações de mesteirais, essas manifestações de fé depressa foram esquecendo a “boa ordem”, que diz respeito a precedências – homens leigos, religiosos, clérigos, regedores da cidade e mulheres –, mas também a comportamentos como não comer, não beber, não fazer jogos, não brigar, não usar ar­mas, não dançar, mas, pelo contrá­rio, irem “todos quietos e devotos, cantando e respondendo às lada­inhas dos santos e preces que nas ditas procissões houver”.

Monção, Feira, Coimbra
Na prática as coisas não se passavam bem assim, como se lê no “Almanaque de Lembranças” para 1867, citado por Teófilo Bra­ga acerca da procissão de Corpus Christi em Monção, onde se incor­porava um São Cristóvão gigante, e onde davam espetáculo, com suas lutas e facécias, S. Jorge e o dragão.
Na Vila da Feira, a expensas da Câmara, diz aquele Almanaque que saía a imagem de São Cristóvão, de roca, coberta por um saio de damasco vermelho, levando no seu bojo um homem parecendo que o Santo (que tem uns catorze palmos de altura) anda pelo seu próprio pé. Depois da procissão, o Santo grande era colocado em frente à Câmara, “onde vão muitas pes­soas comer sopas de pão e vinho, na firme crença de que ficarão por este meio livres de fas­tio. Vão outras depor na mão do santo regueifas, que ficam propriedade do homem que carregou com o Santo”.
Ainda na Monar­quia, em 1905, decidin­do a Câmara de Coimbra deixar de fazer a procis­são do Corpus Christi – a única que as Câmaras mantinham após os anos 20/30 do século XIX, entregando ao Asilo de Cegos e Aleijados a verba que seria suposto gastar, alguns munícipes queixaram-se ao Gover­no, o qual, considerando a procissão como uma obrigação ancestral das Câmaras, repôs a obri­gação camarária”.
Ovar, com as suas autoridades, não fugia à regra de organizar fes­tas populares, quer civis (quando de celebrações nacionais ou régias), quer religiosas.
Sobre a festa de Corpus Chris­ti, que deveria ser discreta como a da Feira, temos notícia de que na reunião (dizia-se conferência) de 5/6/1784, os oficiais da Câmara mandaram notificar os responsá­veis das Confrarias da Senhora do Rosário, da Sr.ª da Graça, de Santo António, do Coração de Jesus e da Confraria do Senhor para que des­sem parte aos seus mordomos para no dia do Corpo de Deus assistirem à procissão com suas opas e to­chas”, e avisassem para pegar nas varas do pálio no dito dia o Bacha­rel Zagalo e outros cinco cidadãos.

Quanto a pormenores, sabe­mos pelo Dr. Zagalo, no seu “Sai­bam quantos…” de 27/01/1949 que “somente no dia do Corpo de Deus, a Excelentíssima Câmara – como se deve chamar-lhe – expu­nha o Santo à veneração dos fiéis, festejando-o durante longos anos com toda a solenidade do ritual – missa cantada, sermão e procis­sões, seguidos de baile na sua sala nobre, onde os casados de então confortavam os buchos com chá, roendo as roscas doces torradas que os devotos deixavam ao advo­gado contra as maleitas”.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de agosto de 2015)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/08/sao-cristovao-de-ovar-o-reavivar-de-uma.html

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