18.6.15

Praia do Areinho – Da “terra negra” ao areal de prata

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/2013)
TEXTO: Dulcídio Pereira Vaz Pinto

A partir dos meados do séc. XX, a ria de Ovar começou a ser muito procurada pelos desportistas náuticos, e não só, porque muitos dos banhistas que passavam o seu tempo de ócio na praia do Furadouro optaram por incluir algum desse período no Areinho. De facto, a partir de meados do século XX, começou a “descoberta” do braço da Ria que liga Ovar a Aveiro, descoberta essa motivada, talvez pelo declínio do Hotel Mar e Sol e pela procura de mais segurança nas águas cristalinas da Ria, longe das turbulentas e ruidosas ondas do Furadouro.

Praia do Areinho, Ovar
“As belezas incomparáveis da ria”
Daniel Constant e Adelino Mendes, distintos jornalistas dos antigos diários “O Primeiro de Janeiro” e “O Século”, foram, indubitavelmente, “embaixadores” incansáveis das qualidades turísticas da então vila de Ovar, pondo em evidência, nos artigos que escreveram, “as belezas incomparáveis da Ria” (Adelino Mendes), contribuindo, assim, para a sua divulgação, impulsionada, por essa altura, pela Junta de Turismo.
Num dos artigos que escreveu no “Primeiro de Janeiro” por volta de 1960, Daniel Constant afirmou: “É de Ovar, precisamente, um dos braços da Ria que mais carinho tem merecido por parte das autoridades”.
Segundo a Junta de Turismo do Furadouro, que sempre se esforçou pela divulgação dos atrativos turísticos de Ovar, “devia-se fazer uma propaganda sensata e absolutamente de harmonia com o progresso atual” (Atas da Junta de Turismo, 1950). No início, os cartazes, escritos em português, francês e inglês, assim como a imprensa de S. João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Feira, foram da maior utilidade, visto que era desses concelhos vizinhos que vinha o maior contingente de banhistas. Nesse âmbito, Daniel Constant propôs à Junta de Turismo que se colocassem “algumas placas de propaganda do Furadouro e da Ria nos cruzamentos que davam acesso a Ovar” (Atas da Junta de Turismo, 1951). Esta sugestão foi muito bem recebida por todos os elementos da Junta, procedendo-se, de imediato, à aquisição de doze dessas placas. Esta decisão deu os mais lisonjeiros resultados, especialmente aos domingos: “contavam-se por dezenas os automóveis para a praia” (João Semana, 1951).

Praia do Areinho
FOTO: Arquivo do Museu de Ovar / OVARMEMÓRIAS

Ao jornalista Adelino Mendes, “o terrível editorialista” de o “Século”, segundo Marcelo Caetano (1954), e principal redator daquele diário, foi feito convite para passar um fim de semana na praia do Furadouro e, consequentemente, visitar a Ria de Ovar. Aparte a mestria da escrita, cujos contornos poéticos reforçavam as belezas naturais da então Vila vareira, adivinhava-se no ilustre jornalista o desejo pessoal de conhecer no terreno as maravilhas que tão bem descrevia, relatando, mais tarde, num outro artigo, esse “doce” fim de semana em terras vareiras…
Numa fase seguinte, a Junta de Turismo entendeu estender a propaganda do Furadouro a outros meios noticiosos, fazendo a devida publicidade na imprensa do país e promovendo passeios a jornalistas na Ria de Ovar, naturalmente com o intuito de dar a conhecer não só a importância da praia do Furadouro, como também as potencialidades da região.
Foi o caso do corpo redatorial do “Diário do Norte”, cuja visita foi benéfica na divulgação do Furadouro e da Ria de Ovar.
A partir daqui, ficou assente que outros eventos seriam realizados para representantes “de todos os jornais diários do Porto, Lisboa e Coimbra” (Atas da Junta de Turismo), bem como de todos os jornais julgados de interesse para atingir o fim em vista. Tal iniciativa requereu algum esforço económico. (Ao “Diário de Coimbra”, por meia página de propaganda publicada, a Junta de Turismo pagou quinhentos escudos).
Um dia passado no Areinho era repleto de sensações, eufórico e inolvidável.

Como da “terra negra” nasceu um areal de praia
O despertar da realidade turística na zona do Areinho pelas autoridades responsáveis do turismo revelava que a Ria era mais um motivo de atração em Ovar.
Em 1996, a Junta de Turismo, atenta ao crescente interesse dos banhistas pela Ria e em especial pelo Areinho, encetou diligências para a compra do terreno desse local aprazível, localizado no então conhecido “lugar da terra negra”. O proprietário pedia 50.000$00, quantia demasiado elevada para as reduzidas possibilidades da Junta, que no ano seguinte, por intermédio do Dr. José Augusto Carvalho da Silva, propôs uma oferta de compra no valor de vinte e cinco mil escudos, prontamente recusada. Em 1958 foi proposto novo valor, agora de 27.000$00, proposta esta que foi aceite pelos proprietários. Valeu a insistência no negócio por parte da Junta de Turismo, congratulando-se os seus membros por as diligências terem sido coroadas de êxito.
Realizada a escritura, seguiu-se a abertura do concurso de obras para a construção de uma praia artificial na margem da Ria. Das quatro propostas apresentadas foi deliberado entregar a execução das obras a Joaquim Pereira, residente em Válega, visto ter apresentado o valor de empreitada mais baixo: sessenta e nove mil escudos.

Praia do Areinho (anos 60)
FOTO: Arquivo do Museu de Ovar / OVARMEMÓRIAS

Estava lançado o projeto de valorização do Areinho, da autoria do Engenheiro Luís Vítor de Azevedo Félix. Em menos de um ano as obras estavam concluídas, e o pequeno terreno do velho Areinho passou a ser procurado por muitos banhistas, tornando-se uma magnífica praia, dotada de infraestruturas de boa qualidade, como chuveiros de água doce, um bar para comodidade de todos os banhistas, e um aprazível areal, oferecendo ao visitante tudo o que ele podia desejar para sua comodidade e conforto.

A Barra – para o bem e para o mal – As Regatas
De referir que os melhoramentos do porto de Aveiro, iniciados em 1949 e concluídos em 1958, teriam como consequência lógica a rápida construção da estrada entre Ovar e São Jacinto. O troço entre o Carregal e o Torrão de Lameiro, iniciado em 1955, incentivou a pretensão da aquisição dos terrenos do Areinho pelos responsáveis da Junta de Turismo, o que se conjugava com a reivindicação das populações locais, mormente do Torrão do Lameiro, que necessitavam de tão importante ligação para as suas deslocações diárias até ao Furadouro, e para permitir melhor acesso à vila de Ovar. Tão importante ligação abria excelentes perspetivas para o desenvolvimento do turismo da Ria.
Como corolário de todo o esforço encetado pelos responsáveis pelo turismo vareiro, ocorreu, nos dias 16 e 17 de agosto de 1958, um evento desportivo e turístico de enorme projeção na Ria: a primeira Regata de Vela entre Aveiro – Ovar – Aveiro, organizada por uma comissão de aveirenses e ovarenses. A Ria foi palco privilegiado de uma magnífica competição desportiva, na qual as velas brancas das embarcações, como que gaivotas evoluindo no espaço, ofereceram um “espetáculo único, surpreendente de beleza, uma espécie de bailado nas calmas águas da Ria em festa”.


O Furadouro e o pequeno “oásis” na Ria chamado Areinho passaram a constituir, a partir de então, um polo de atração mais apelativo tanto para os residentes de Ovar como para os banhistas dos concelhos limítrofes.
Só se lamenta que nas marés baixas, em virtude das sucessivas intervenções na barra e no porto de Aveiro, os desportos náuticos, particularmente a vela, tenham passado a ser afetados por condicionamento de horários das provas.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de fevereiro de 2013)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/06/praia-do-areinho-da-terra-negra-ao.html

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1 comentário:

Anónimo disse...

Boa tarde sebem que o monicipio de Ovar querem meter fim a concessao do Vela Areinho
com os actuais gerentes?