4.6.15

Pescadores vareiros no rio Tejo

Jornal JOÃO SEMANA (15/12/2012)
TEXTO: José de Oliveira Neves

No meu livro de poesia “Longa Caminhada” publiquei o poema “Povo Vareiro”, de que aqui transcrevo um excerto, em jeito de prólogo:
“Povo vareiro / Que na Régua vendeu sal / Que mandou peixe p’ró Douro/ Pescado no Furadouro, / E que a sul de Portugal / Pescou e foi fragateiro,/Habitou na Madragoa / E foi varina em Lisboa.”

Vila Franca de Xira. Barcos varinos na Borda d’Água, 
junto ao largo 5 de Outubro e Rua 1.º de Dezembro (1930)

Já escrevi neste jornal sobre a “Varina” (em 15/9/2005, 15/11/2006), “Fragateiros Ovarenses” (15/10/2006) e “Fragatas e Varinos do Rio Tejo” (1/11/2006).
Hoje vou recordar os nossos pescadores que, depois de terminada a safra na costa de Ovar (novembro/dezembro), se dirigiam para as terras do sul banhadas pelo Rio Tejo, no intuito de pescarem sobretudo o sável, mas também outras espécies de peixes. Eram conhecidos como vareiros, embora este apelido se aplicasse igualmente aos naturais das terras nossas vizinhas da bacia do Vouga, especialmente da Murtosa, Pardilhó, Aveiro e Ílhavo.
A propósito deste apelido, escreveu Maria Micaela Soares na revista “Varinos” (Lisboa 1989) que “no primeiro quartel do século XVIII, o termo não aparece ainda dicionarizado com o significado em questão, mas apenas como espécie de barco. E da primeira à sétima edição do Dicionário de Morais, datadas de 1789 a 1878, o termo não é também contemplado.
Só a partir da oitava edição de 1890 – 91, atingiu o atual valor semântico das formas masculinas e femininas – “o que é da costa marítima; vareiro”; “mulher de Ovar; ovarina; vareira”. Na décima impressão alarga-se o conteúdo da palavra a “filhos de Ílhavo”.


Vareiros em Vila Franca de Xira
Nos livros 6, 7 e 8 de Óbitos de Vila Franca de Xira, entre 1811 e 1816, encontram-se alguns assentos de pessoas falecidas naquela cidade que indiciam poderem ser varinos. Assim, em finais daquele último ano, consta que faleceu “na falua(1) da carreira de Valada”, com destino a Vila Franca, para cujo hospital se dirigia, um indivíduo natural da Vila de Ovar”.
A partir de 1825 começa a notar­-se a fixação da gente de Ovar em Vila Franca. Nos anos de 1832 e 1833, a epidemia (a cólera-morbus) vitimou muita população varina domiciliada nesta vila, incluindo ílhavos e murtoseiros.
Numa lista de enfermos res­peitante à admissão no Hospital de Beneficência da Terra consta elevado número de varinos, alguns mesmo com esta alcunha coletiva, e quase todos com a anotação de “moradores na vila”.

Cais de Vila Franca de Xira.
Varinos consertando redes
O caso mais expressivo é o de um assento de óbito feito em Azambuja no dia 27 de abril de 1833(2), onde ficou registado o seguinte:
“ (…) Faleceu quase repentina­mente e por isso sem Sacramentos, Manuel Pinto Nunes, casado com Maria de São João, natural da Villa de Var, termo da Feira e moradores nos limites do campo desta freguesia, à borda do Tejo, no sítio chamado de Corte dos Cavalos”.
Acrescenta-se ainda que no dia seguinte foi o extinto conduzido para aquela vila por seus companheiros na pescaria, os patrícios Ventura Pereira Ganço e João de Oliveira Paixão. Esta gente habitava fora da povoação (nos limites do campo), à babugem do rio, no dito sítio de Corte dos Cavalos, local assim identificado desde a Idade Média. É sabido pelos pescadores mais antigos que a “Vala da Azambuja” foi um dos lugares da Borda d’Água a serem mais cedo pisados pelos pés descalços destes marítimos, nas suas deslocações temporárias.
O investigador Hermínio de Frei­tas Nunes, que trabalha num Projeto de Candidatura da Cultura Avieira a Património Nacional e Material da Unesco, fazendo investigação na base de dados do antigo Hospital da Misericórdia de Santarém, encontrou três indivíduos de Ovar, que tudo indica terem sido pescadores do rio, a viverem nos barcos e a vaguearem pelo Tejo.
O amigo Hermínio teve a gen­tileza de me enviar os seus nomes e datas da sua entrada no hospital, conforme transcrevo:
“Aos 23 de Janeiro de 1859, deu entrada no Hospital José Rodrigues Cavado, de 32 anos, natural de Ovar, de profissão e residência desconheci­da, casado com Rosa Gomes. Entrou vestido com uns farrapos. Teve alta a 3 de Fevereiro”.
Aos 14 de Maio de 1860, deu entrada no Hospital, José de Olivei­ra, de 52 anos, natural de Ovar, de profissão e residência desconheci­das, casado com Maria da Piedade. Entrou vestido com calças, camisa, camisola, chapéu, manta, ceroulas, sapatos, tudo usado. Teve alto a 18 de Maio”.
“Aos 5 de Setembro de 1860, deu entrada no Hospital, António Pereira da Cunha, de 46 anos, natural de Ovar, solteiro, de profissão e resi­dência desconhecidas, filho de Pedro Fernando da Cunha e Catarina Pe­reira da Cunha. Entrou vestido com calças, colete, camisa, barrete meio usado, e um farrapo de cobertor. Teve alta a 13 de Setembro”.

A época sazonal do sável
Normalmente comentava-se que os varinos terão acostado às ribeiras do Tejo após a instalação do caminho-de-ferro do Norte (1864), com a ligação de Lisboa a Vila Nova de Gaia.
Todavia, pelo que se apurou, e embora esse acontecimento con­tribuísse bastante para um grande afluxo dessas migrações, a sua vinda, a princípio sazonal, ocorreu muito mais cedo.
Já o folheto setecentista in­ventariante das escaramuças entre “saveiros” e “algarvios” refere que os primeiros viviam a maior parte do ano aquartelados na enseada da Trafaria.
Na sazão do sável (entre janeiro e abril para a captura deste peixe) che­gavam os varinos após tormentosas e prolongadas viagens.
Já no Tejo, desciam até Paço d’Arcos ou metiam-se pelas imensas variantes do grande rio – Sacavém, Unhos, Frielas, Alhandra, Vila Fran­ca, Povos, Azambuja, Constância, Caramujo, Salvaterra, Coruche, Muge, etc.
Acabada a colheita, antes do São João, regressavam à sua terra, onde a família os esperava, levando nos bolsos os lucros acumulados à custa das maiores privações.
Meu pai, que foi fragateiro em Lisboa na primeira década do séc. XX, contava-me que ia várias vezes na fragata para alguns sítios das margens do Tejo onde pescadores do sável com quem contactava se queixavam de ser árduo aquele traba­lho. Ele dizia-me também que a vida nas fragatas era igualmente penosa, acrescentando que várias vezes, es­tando sentados no barco para tomar as refeições, costumavam comentar uns com os outros: – “As sopas estão boas, mas o pior é o Tejo…!”
Alguns fragateiros da mesma época disseram-me que viram muitos conterrâneos nossos com seus barcos (saveiros) na pesca do sável. Em Alhandra e na Praia do Ribatejo uti­lizavam nesse trabalho o sistema do “arrasto”, e em Vila Franca de Xira também usavam as redes saveiras de malha larga (pesca de emalhar), porque o peixe, ao sair do mar para o rio em sentido contrário, ficava emalhado, com a cabeça metida na rede. Noutros sítios, desde Sacavém até Azambuja, o método de pesca mais usado era o de “arrasto”, tipo “chinchorro”, sistemas de pesca mui­to conhecidos dos nossos pescadores vareiros, porque já os utilizavam na costa de Ovar e na Ria, ensinados pelas gerações anteriores.
Nas décadas de 20/30 do século passado, os barcos “saveiros” já eram construídos nos estaleiros de Vila Franca de Xira, onde havia carpinteiros de machado, e para sua conservação utilizavam uma tinta de breu, ficando, deste modo, todos pintados de preto.
Em Vila Franca, onde alinhavam os barcos nos esteiros, os pescadores utilizavam um resguardo característi­co, desenrolado à noite para se prote­gerem, já que faziam do barco a sua moradia, onde comiam e dormiam.

Varinos antes dos “avieiros”
No livro “À Descoberta de Por­tugal”, da Reader Digest, lê-se que, na 2.ª metade do séc. XIX, uma população oriunda principalmente da Beira-Litoral ocupou os baldios municipais da região compreendida entre Muge, Salvaterra e Coruche.
A Vila Franca chegaram, nessa mesma época, com as famílias, os “avieiros” (pescadores de Vieira de Leiria). Vinham nas próprias bateiras (labregas) que, depois de impróprias para a pesca, serviam para habitação. Assim, próximo da atual ponte, e a montante do porto fluvial, se esta­beleceu uma colónia de pescadores daquela região.
De acordo com o folheto sete­centista atrás descrito, os varinos terão pescado no Tejo muito antes dos “avieiros”, e em Vila Franca de Xira formaram igualmente um bairro constituído por casas de madeira (palheiros) e por barcos, ao longo do rio, entre a linha do caminho-de-ferro e a maré do Tejo, junto à atual Praça de Touros.
José Maria Fião, maquinista da Polícia Marítima de Lisboa a partir dos anos 30 do séc. XX contou-me que, nas suas idas pelo rio Tejo a Vila Franca de Xira, viu nessa época, com alguma admiração, fazerem a queima de Judas, tal e qual como se fazia em Ovar no sábado de Aleluia. Disseram-lhe as pessoas com quem falou que essa tradição tinha sido levada para aquela localidade pelos varinos.
“Pescador de torna-volta ou implantado nos burgos que escolheu para domicílio, o varino exerceu sempre grande fascínio sobre os ob­servadores, entre os quais se contava um “Núncio do Papa” na corte de D. Luís, que todas as manhãs ia ao Aterro maravilhar-se com o vaivém das varinas. Sobretudo as mulheres, os dois braços erguidos em prodígios de equilíbrio para segurarem a giga, semelhantes a esbeltas cantarinhas de duas asas, friso de “estatuetas rústicas e marinhas”, como escreve Fialho de Almeida(3).
O poeta António Nobre em 1885 (?), numa visita a Ovar para ver a Procissão dos Ramos, apreciou-as em traje domingueiro, diferente do que usavam no trabalho, tal como aquele com que as viu o “Núncio do Papa”, e descreveu-as assim:

“Varinas
Envoltas numa capa, esbelta criaturas,
Passam na rua atrás da lenta procissão
Tão brancas, tão gentis, tão calmas e tão puras,
Como o festivo andor erguido à multidão.
Medem o passo audaz na estrada de verduras,
Pelas palpitações do róseo coração…
E o Cristo vai no andor: não leva pisaduras,
Não fere os níveos pés, não roça os pés no chão.”(4)

Vila Franca de Xira já teve no pas­sado uma rua dedicada aos varinos, e ainda hoje os mais antigos moradores daquela artéria conhecem-na por esse nome, embora na nova toponímia a tivessem designado por Rua Luís de Camões.

Vila Franca de Xira. Rua Luís de Camões (antiga Rua dos Varinos)
Oxalá que todas as localidades banhadas pelo Rio Tejo, na 2.ª metade do séc. XIX não esqueçam esta gente que fornecia o peixe às suas popula­ções e que quando o rio não lhes dava o suficiente para sobreviver, vendiam criação, fruta, alhos, hortaliça, leite, marmelos assados no forno, etc.
Além disso, as varinas sobre pran­chas estendidas das fragatas, carrega­vam para terra sal, areia, tijolos, carvão, etc, vergadas pelo peso dos produtos que transportavam e, em ocasiões em que tanto a pesca e a venda como os outros empregos falhavam, ainda arrastavam o seu calvário pelas ruas da capital, mendigando.
E termino com outro dos nossos poetas, Fernando Pessoa:
“A memória é a consciência inse­rida no tempo…”

(1) Falua: “embarcação de vela, semelhante à fragata”.
(2) Primeiro Livro de Óbitos de Azambuja.
(3) “O Trabalho e as Tradições Re­ligiosas no Distrito de Lisboa – Expo­sição de Etnografia do Governo Civil de Lisboa”, 1991.
(4) António Nobre, “Primeiros Ver­sos”.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de dezembro de 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/06/pescadores-vareiros-no-rio-tejo.html

2 comentários:

Antonio Angeja disse...

Pois é... os pescadores da Ria de Aveiro pescavam no Tejo pelo menos desde 1790 como o refere um documento da altura e eu acredito que pode ter sido antes... Os Avieiros só apareceram no Tejo no sec XX e as aldeias que eles dizem ser avieiras eram na verdade dos povos da Ria com quem eles se misturaram... Os povos da Ria iam e vinham mas muitos ficavam por lá...

Antonio Angeja disse...

Errei no comentário.... o documento é de 1690.....