22.4.15

O Foral de Ovar, D. Duarte Nuno, os Huet, a Quinta do Búzio

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/2014)
TEXTO: Álvaro Ribeiro

D. Duarte Pio agradecendo ao Dr. Álvaro Ribeiro a entrega
de um livro histórico que este tinha em sua posse
Levou a efeito, no dia 10 de Fevereiro passado, a Câmara Municipal de Ovar a cele­bração solene dos 500 anos dos Forais Manuelinos de Ovar, Pereira Jusã e Cortegaça, tendo como convidado de honra sua Alteza Real D. Duarte Nuno, descendente da ilustre família da Casa de Bragança.
Tal presença suscitou-me, de imediato, inúmeras razões para estar presente.

Deparando com as palavras de seu pai, enternecido, fixou-as com os olhos e, abrindo os lábios, pronun­ciou as seguintes palavras: “O meu pai tinha uma escrita muito bonita”.
De seguida, fixando-me, sur­preso, porque o tempo urgia, não esperei perguntas e interroguei: – “Lembra-se de Ancede? Casa de Penalva? Azaredos? (Pronunciei outros nomes que no momento foram lembrados).
– “Claro que sim”, responde ele. “Lembra-se das férias ali passadas com seu irmão, e do contacto com a minha pessoa? Num desses contac­tos, esqueceu-se V. Alteza deste missal, que há dois anos, numa remodelação do escritório, encon­trei e guardei com carinho, à espera de uma oportu­nidade para lho entregar. A opor­tunidade chegou e, por isso, aqui estou e lho entre­go, graças à sim­pática atenção do ilustre Presidente da Câmara”.
Seguidamente, entreguei­-lhe, com uma dedicatória adequada, o livro que escrevi e que daí a dias seria publi­camente apresentado sobre a minha terra: “Maceda – Um Marco Histórico”.
Assisti à sessão de manhã e, no final, após agradecer ao Sr. Presidente da Câmara a oportunidade que me pro­porcionara, fui abordado por elementos da Casa Real, que me pediram dados relaciona­dos com os encontros dessa época. Entregando-me um cartão, prometeram-me breve contacto, confirmado por sua Alteza num cumprimento final.
As voltas que a vida dá! Então recordei épocas distantes! A perda da nossa Independência (1580), o domínio Filipino, a Restauração e o espírito latente de libertação, bem co­nhecido de Filipe III de Portugal (IV de Espanha) que, prevendo a revolta, prendeu e mandou para o exílio, em Milão, o primogénito D. Duarte.
E agora o intrigante: Em Milão teve D. Duarte como aio o bretão Cláudio Huet, que serviu devota­mente o seu senhor até à sua morte, e a quem o mesmo dedicou grande afeto, oferecendo-lhe diversos benefícios e, sobretudo, sendo padrinho do seu Crisma, a pedido do interessado, e dando-lhe, nesse sacramento, o seu próprio nome, passando o aio a chamar-se Duarte Cláudio Huet.

Capela de S. António, da Quinta do Búzio, Paços de Gaiolo, Marco de Canavezes,
que foi da família Huet e que hoje pertence ao autor deste texto

Morto o seu padrinho, Duarte Cláudio Huet acompanhou o seu féretro a Portugal, já de novo país independente, tendo como rei seu irmão, que o cumulou de bens em várias terras, sobretudo em Riba­douro, Resende, São João de Fon­toura, Anriade, Aregos, etc., bem como no Marco de Canavezes, em terras de Beira-Rio, com as Quintas de Portela, Búzio e Alijó.
E, agora, vejam os leitores: a Quinta do Búzio é hoje propriedade do autor deste texto, comprada, em 1972, a José Duarte Huet Sousa Pinto Cochofel, um dos herdeiros de D. Maria Brígida Huet Pinto.
Dá ou não dá, caro leitor, a vida muitas voltas? Para o confirmar, é bom lembrar que os Huet Bacelar são personagens nobres e ilustres, alguns dos quais viveram na sede do nosso concelho, Ovar, bem como nas terras vizinhas de São Vicente de Pereira e Souto.
Fiquemos por aqui, com a intenção de voltar ao tema, so­bretudo tendo em atenção o nome do Doutor António Luís Gomes, também ligado à Casa de Bragan­ça e fundador da obra social de S. Martinho da Gândara, cujas crian­ças vinham passar férias ao edifício então chamado Centro Vidreiro, no Furadouro, já destruído, e onde o autor se relacionou com aquele benemérito.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de março de 2014)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/04/o-foral-de-ovar-d-duarte-nuno-os-huet.html

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