14.2.15

Os “americanos”, a Escola do Castelo e o Carnaval

Jornal JOÃO SEMANA (15/02/2014)
TEXTO: Serafim Oliveira Azevedo

Quando eu, em miúdo, me dirigia para o Colégio Castilho, em S. João da Madeira, deparava
com grandes casas revestidas de lindos azulejos, e logo associava cada mansão a um afortunado “brasileiro” que tivesse abanado a árvore das patacas. Levava-me a isso o que me contavam do velho Inácio Monteiro e do Conde Dias Garcia – este de S. João da Madeira, aquele de Souto – e as ricas quintas do Sol e do Brandão, no alto de Cucujães, ladeando a estrada a nascente e a poente, cujos donos caprichavam no seu embelezamento.

Saído eu de S. João da Madeira, e passando a trabalhar em Ovar, os “brasileiros” desapareceram, e, em seu lugar, para minha sur­presa, apareceu-me o Euclides, uma amorosa criança cujos pais viviam na América do Norte. Vinha frequentar a escola de Cabanões, e aprendia muito bem, pois era uma criança fora de série, mas não chegou à quarta classe, pois ficou pelo caminho, atacado que foi por grave doença. (Acompanhámo-lo à sua última morada.)
Mas os “americanos” surgiram­-me em catadupa quando desci até ao centro de Ovar e passei a lecionar na escola Conde Ferreira. Aí, sim, senti a febre que atacava os que pretendiam melhorar o seu modo de vida: era a ida para os Estados Unidos que os atraía, pro­curando ligar-se a alguém que lhes proporcionasse a ida para aquele El Dorado.
Mas havia uma zona preferida pelos emigrantes de Ovar, Estar­reja e Murtosa: era o Estado a que pertencem as cidades de Elizabeth, Newark e Jersey City. Podia dizer­-se que tal Estado era o “distrito de Aveiro” mais próximo de Nova Iorque.
1.º Carnaval vareiro de Elizabeth, em 1975,
num salão  de festas da cidade
No Carnaval, Elizabeth pri­mava pelo Carnaval vareiro, que durante meses mantinha ocupadas, física e intelectualmente, as mulhe­res nascidas em Ovar e, mesmo, as já luso-americanas, e até, por vezes, algumas estranhas que, nada tendo a ver com o sangue vareiro, gostavam de tomar parte nos bailes, nos trabalhos e no cortejo carnava­lesco organizado pelos vareiros, que, idos de Portugal, tinham na sua mente os Carnavais vividos em Ovar antes de emigrarem para os Estados Unidos.
Era assim nos tempos do Ber­nardino Silva e dos seus cunha­dos, daquele grupo a quem presto uma sincera ho­menagem por tudo quanto fizeram para manter viva, no seu por­tuguesismo, a alma sau­dosa da sua Pátria. E isso não passou despercebi­do aos que geriam os destinos da sua Ovar. De facto, Eliza­beth mereceu a visita, em­bora em épocas diferentes, dos se­nhores presidente da Câmara e do Pároco de Ovar, respetivamente Dr. Fernando Rodrigues e Dr. Manuel Pires Bastos.
Já agora, aproveito para saudar os meus ex-alunos Joaquim Correia Dias e António Nunes, que ainda por lá andam, e o Serafim Silva, dos Campos, e o Jorge Santa, já regressados à sua terra, por terem honrado a sua escola e a sua terra nos lugares distantes que habitaram.
Mas há dois irmãos que foram meus alunos, e que merecem uma menção especial, pois, em anos diferentes, mas na mesma sala, frequentaram a mesma escola. Pri­meiro, nada estranhei, pois pensei que a família estivesse de passa­gem e o pusesse na escola a fim de não prejudicar os seus estudos. Mas o rapaz foi ficando e acabou por fazer a quarta classe comigo. Ao despedirmo-nos, desejei-lhe um bom futuro.
Mas isto não terminou assim. Teve até um final que ainda hoje me aquece o coração: é que, uns anos depois, apareceu-me em Ovar um outro irmão, o que cons­tituiu grande surpresa para mim. Procurando descobrir a causa de tal procedimento, foi-me dito que os pais tinham motivos para isso, pois o mais velho, ao ingressar na escola americana, em Matemática, e, salvo erro em ciências, avançara dois anos. Foi isso que os pais ti­veram em conta para se separarem do filho durante os quatro anos de escolaridade em Ovar. Era assim a vida de quem nela queria vingar.
Mas a vida, lá, era boa, rela­tivamente à que vivíamos aqui, pois, para viver, tínhamos de suar as estopinhas.
Agora, lá, segundo me contou a Rosa Capoto, viúva do Bernardino Silva, a vida é mais difícil, mais exigente, e afinal, os vareiros já não estão tão juntos quanto eu pensava: eu agrupava-os à volta de Elizabeth e, pelo que ouvi da boca de antigos emigrantes, agora estão espalhados por todos os Estados Unidos.
Mais: já não há Carnaval varei­ro, e está a perder-se a ligação que tão familiarmente nos unia.
É preciso acordar. E utilizar meios de comunicação para nos ajudarem nisso: a internet, o in­tercâmbio de jornais, as cartas dos familiares, tudo se pode prestar para manter vivo por todo o mundo este sonho de Portugalidade.
Adeus, vareiros de todo o mundo! 

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de fevereiro de 2014)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/02/os-americanos-escola-do-castelo-e-o.html

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