17.1.15

Onde ficava a viela dos cavalos

Jornal JOÃO SEMANA (15/10/2014)
TEXTO: Joaquim Fidalgo

Largo dos Combatentes, ao tempo do Quartel,
e do antigo Teatro Ovarense
O largo dos Combatentes, localizado a nascente da cidade de Ovar, no antigo bairro de S. Pedro, onde se situava o Teatro Ovarense, era, no princípio do século XX, ponto de encontro das famílias vareiras na correria para o folguedo domingueiro.
Folheei a Monografia de Ovar do Dr. Alberto Lamy, fiz um périplo imaginário pelo bairro, e respirei história. Sentei-me num banco do jardim e, recuando no tempo, olhei em redor. O largo estava cercado por um conjunto de edifícios que denunciavam o desenvolvimento económico e cultural da vila, dividida em dois grandes polos. No primeiro, localizado junto da Câmara Municipal, centrava-se o poder político e económico. No segundo estava edificado um conjunto de equipamentos que promoviam e prestigiavam a vila. O Colégio Ovarense, fundado por António Dias Simões (1918-1929), o hospital, fundado pelo vigário João de Sequeira Monterroso e Melo (1814-1911), a fonte do hospital (1814), o Teatro Ovarense (1875-2000), a residência paroquial e o passal (1769-1853), a capela do Calvário (1872), e, por fim a residência do médico João José da Silveira, o João Semana das “Pupilas do Senhor Reitor”.
A minha ida ao largo partiu da necessidade de ir no encalço de uma viela outrora famosa, mas hoje desconhecida dos vareiros: a viela dos cavalos.

De Hospital a Quartel

A viela dos cavalos, por tradição oral chegada aos nossos dias, ficava localizada no Largo dos Combatentes da Grande Guerra, não existindo re­gistos documentais sobre ela. Pessoas idosas da cidade, interpeladas por mim, já nem se lembram de, no espaço ocu­pado pelo atual centro educativo, terem estado aquartelados, nos princípios do século XX, os soldados do 3.º batalhão do Regimento 24 de Aveiro. Mas há quem recorde histórias contadas à lareira pelos seus antepassados acerca dos exercícios militares executados no largo, a que a população assistia com regozijo.
Aquele edifício, que nos princípios do século XIX (1814) fora construído para servir como hospital, transitou provisoriamente, em fevereiro de 1911, por cedência da Câmara, para a Santa Casa da Misericórdia.
Em 1911, após a mudança do hos­pital municipal para a nova casa, que até 1910 fora Colégio das Religiosas Doroteias (1911), a Câmara Municipal, disponibilizou as antigas instalações do largo para ali instalar o quartel, indo ao encontro do governo, a quem, para estender e enraizar no território o ideal republicano, interessava a descentrali­zação dos quarteis pelo país.
Uma vez colocados em Ovar, militares e oficiais, sacudiram a Vila com o novo estilo de viver o dia-a­-dia. Um dos ecos chegados até nós a propósito desse viver, foi uma vaga referência a uma viela dos cavalos, que ouvi há cerca de quarenta anos e há pouco acordada em mim pelo casal António e Albertina num al­moço de amigos em sua casa, na rua Rodrigues de Freitas, onde me deram a conhecer um troço da viela, e, a par­tir daí permitiu o reconhecimento de todo o seu percurso e da sua história.

À direita da Capela do Calvário, junto à sineira, situava-se a entrada da viela dos cavalos

A viela dos cavalos compreendia o trajeto que os militares, saídos do quartel com suas montadas, efetuavam entre o portão lateral da capela do Calvário e o rio das Luzes. Imaginamos vê-los sair do quartel, atravessar, em fila, a estrada que vem da Arruela, apontarem ao cimo do Calvário, passando junto à residência do Dr. João José da Silveira (mais tarde barbearia e sapataria Mendon­ça), serpenteando, seguidamente, pelas traseiras das habitações até descer ao rio das Luzes, onde hoje está localizada uma moderna ponte de madeira. A ruína da viela, hoje sem o movimento dos equídeos, pode ser visitada nas traseiras do mercado municipal.

Alguns testemunhos

Conversei com algumas pessoas daquela área, sobre a existência da viela, e registei alguns apontamentos.
José Almeida (Baeta), nascido em 1928, recorda conversas com seu pai Zeferino Almeida, que assentou praça em 1917 no quartel do 3º ba­talhão, não tardando a marchar para a Flandres (França), para combater contra os alemães. O militar Zeferino Almeida foi um militar polivalente, fruto da aprendizagem na escola da vida, pois substituiu os números e as letras pela “escola” da Mercantil de Ovar, que, multidisciplinarmente, abarcava várias artes e ofícios. Ali especializou-se na arte de serralha­ria, o que lhe valeu na chancela do passaporte marchar das trincheiras para as oficinas. As horas que lem­brava desses dias distantes, longe da família, eram as dos dias em que o estômago se colava às costas. O Sr. José Almeida revive, ainda hoje, algumas lamentações do seu pai: a falta do abastecimento obrigava-o a colher produtos hortícolas pelas terras da região para saciar a fome, e os guisados de ervilhas, cozinhados com os enlatados de corn beef que os ingleses enviavam para os seus mili­tares produziam “estrelas Michelin”.
Maria da Silva Mendonça Pei­xoto, nascida em 1926, era filha de João Maria Pereira Mendonça e de Maria Silva Mendonça, proprietários da Barbearia e Sapataria Mendonça. (O prédio era da família Silveira, que ocupava o piso superior). Recorda que o tio Manuel Silva, irmão da mãe, militar no quartel, certo dia solicitou aos camaradas levar a montada até ao rio. Aceite o pedido, subiu para o cavalo como mandam as regras. Pés nos estribos, rédeas nas mãos, cavalo e cavaleiro lá seguiram em sincro­nia perfeita a caminho do rio. Mas como no pelotão muita “mordomia” deixava a desejar e as brincadeiras animavam o grupo, de repente o seu cavalo, refreado, assustou-se, empinou-se e galopou, a grande velocidade, pela viela, em direção ao rio. Não segurando a montada, e como a viela é estreita, o tio militar foi projetado contra a parede, tendo chegado ao rio todo arranhado.
D. Maria Mendonça recorda ain­da, da sua infância, os dias passados na sapataria. O pai cortava os sapatos, a mãe gaspeava, e o oficial fazia o acabamento. Continuando a lembrar factos da sua adolescência, conta que o passal, a que chamavam palacete, e que tinha sido residência paroquial, expropriado pelo regime liberal, foi vendido em 1912 em hasta pública, tendo sido comprado por seu pai João Mendonça, já não se recorda a quem. À morte deste, e tendo necessidade de realizar dinheiro para dar tornas aos seus irmãos, a viúva vendeu a propriedade à família Bonifácio.
Com a morte do João Mendonça, o filho António Mendonça (Toneca), que já trabalhava com o pai como barbeiro, seguiu o mesmo ofício, encerrando a sapataria.
D. Maria refere ainda que seu irmão, o António “Toneca”, que estava sempre pronto para a brinca­deira, num dia empacotou cabelo de clientes em onças simulando tabaco, colocando-as em lugares estratégicos, para enganar os mais incautos.
João Mendonça, filho do Toneca e sobrinho de Maria Mendonça Pei­xoto, que nasceu em 1930, não se lembra da viela, mas recorda-se dos armazéns que existiam no terreno do Passal, com os seus rendeiros, e recorda as filhas do Dr. João Semana, que o vestiam com as suas roupas de fidalgas e lhe colocavam um coco na cabeça.
Maria dos Anjos da Silva, viúva do Sr. Abílio Santos, nascida em 1930, recorda conversas em que o seu pai, Bernardo Pinto Garranas, militar no quartel, contava que o pelotão re­alizava exercícios físicos no exterior do quartel, e que ele próprio levava os cavalos ao rio.
José Matos, alfaiate reformado, nascido em 1928, e Joaquim Pereira, que foi empregado do Toneca Men­donça, reformado, nascido em 1927, relatam uma história que circulava na barbearia. O comandante do Ba­talhão, capitão Zeferino Camossa, deu a seguinte ordem aos militares do batalhão:
– Amanhã, o comandante do Exército vem visitar o quartel, pelo que os militares devem apresentar a melhor roupa.
O Ti Zé Catita, militar, morador no lugar da Marinha, rapaz bastante cómico e irónico, apresentou-se de fraque, cartola e pinguelim, e formou na retaguarda do pelotão. Sendo interpelado pelo comandante sobre a indumentária apresentada na presença do comandante do exército, exclamou :
– Oh! Sr. Major; não mandou trazer a melhor roupa na visita do comandante do exército? É a melhor que tenho!...
Joaquim Fernandes Monteiro
Por fim, uma lembrança contada pelo meu avô Joaquim Fernandes Monteiro (1899-1978), que assentou praça no exército em 1919, um ano após o fim da Grande Guerra.
O episódio ocorreu por altura da guerra da Traulitânia, ou Monarquia do Norte. Os movimentos dos milita­res afetos ao regime monárquico ain­da fervilhavam no Norte de Portugal. Os militares formavam a primeira barreira da defesa do jovem regime republicano, sendo colocados por locais estratégicos, para controlarem as entradas de Ovar.
Certo dia, ainda os ponteiros do relógio marcavam as primeiras horas do dia, os militares estavam distribuídos por grupos, em pontos estratégicos da vila. No grupo do militar Joaquim Monteiro o silêncio imperava quando, de repente, foi interrompido por um barulho que cortava a noite e se ia aproximando. Os soldados mantinham-se atentos e a tensão aumentava a cada segundo. Finalmente vislumbraram um vulto de mulher. Era uma pessoa idosa, que abriu um diálogo com os militares.
– Que horas são?
– Oh! Minha santa, aonde vai a esta hora?
– Vou para a missa das almas….
– Volte para a cama, que ainda é muito cedo!
O quartel do 3.º batalhão do Regimento de Infantaria 24 manteve­-se em Ovar, até ao fim da Primeira República (1926).

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de dezembro de 2014)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2015/01/onde-ficava-viela-dos-cavalos.html

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