22.12.14

Caça ao pato na Ribeira de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/10/2014)
TEXTO: Fernando Pinto

“Um dia é da caça, o outro do caçador”

Nos dias 7, 21 e 28 de setembro o jornal “João Semana” acompanhou a aber­tura da caça às aves aquáticas em Ovar. Nesses três domingos convivemos com dezenas de caçadores, vindos do norte e centro do país, e pudemos constatar que Ovar tem neste desporto, que ainda é visto com algumas reservas pela opinião pública, uma fonte de turismo a explorar.

O bucólico lugar da Ribeira, em vez de despertar com o habitual can­to do galo, acordou, na manhã de 7 de novembro último, dia da abertura da caça às aves aquáticas em Ovar, com os tiros dos caçadores.
“Aquela placa retangular, a vermelho e branco, quer dizer que ali para dentro é um santuário, que não se pode caçar”, disse um dos caçadores veteranos ao jornal “João Semana”, quando se prepa­rava para guardar na mala do carro a espingarda e as peças de caça que tinha abatido.
“A sinalização venatória é para ser cumprida, porque a caça rege-se por leis bem específicas e, se o caçador não as seguir à ris­ca, sujeita-se a uma coima”, lem­brou António Alcides Sousa, pre­sidente do Clube de Caça e Pesca de Ovar (CCPO), em entrevista ao nosso jornal.
Alguns caçadores facilitam e não cumprem as leis, mas o verda­deiro caçador, segundo o Presiden­te do CCPO, não anda por aí aos tiros a tudo o que lhe aparece pela frente. “No caso dos patos, nós, caçadores, quando ferimos um e não o apanhamos, preferíamos ter falhado o pato”, assegurou Antó­nio Alcides Sousa. “Estou conven­cido de que os erros que são co­metidos por alguns caçadores são por ignorância, daí a importância de a GNR e o ICNF [Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas], irem também para o terreno sensibilizar as pessoas para determinadas ações, em vez de ficarem apenas pelas coimas aos caçadores que prevaricam, que transgridem as regras”.
A zona de caça em Ovar tem o n.º 3870, e é municipal. Ainda não há caça associativa.
“Nós não passamos nenhuma autorização de caça se o caçador não estiver legal, se não tiver li­cença de caça e uso de porte de arma. E para tirar a licença tem de ter seguro de caça. Se quiser ser sócio do CCPO, a joia de inscri­ção é de 100 euros e depois paga por ano 42 euros de quotas”, ex­plicou Alcides Sousa.
“Temos caçadores de Gaia, Barcelos, Anadia, Covilhã, do norte e do centro do país”, disse o jovem Frederico Muge, vice-presidente do CCPO, também ele caçador.
Francisco, carteiro da Ribeira, uma das pessoas responsáveis pela logística e pelo repasto ao ar livre, é uma espécie de anfitrião dos ca­çadores que nos visitam nesta altu­ra do ano. Da sua horta biológica, regada pela água da chuva e do rio Cáster, colhe os legumes que plan­tou e que irão servir de acompanha­mento às febras na brasa. “Durante o almoço convivemos uns com os outros, há muita camaradagem”, disse aquele caçador.
“Nós, aqui em Ovar, temos a preocupação de só caçarmos até à uma hora da tarde, para que as aves regressem ao seu habitat”, escla­receu Frederico Muge, apontando para a zona do sapal, santuário que abriga, para além dos patos, garças, flamingos, maçaricos, entre outras aves aquáticas, algumas das quais se encontram em perigo de extinção, como é o caso da garça-vermelha.
Aos magotes, os caçadores vão saindo do meio dos caniçais, en­vergando o tradicional camuflado, com as peças que caçaram presas à cintura. O pato é a ave mais apete­cida, mas podem caçar o galeirão, a galinha-d’água, a narceja, a ta­rambola, entre outras espécies.
Para caçar na zona de Ovar, o caçador terá de fazer a respetiva inscrição dentro dos prazos estabe­lecidos. “Tem de vir cá dois dias antes, ou na véspera, e levantar a respetiva credencial, uma braça­deira de identificação. Se não a tiver consigo, está ilegal”, expli­cou o presidente do CCPO, acres­centando: “Os proprietários dos terrenos têm benefícios ao fazerem a sua inscrição, desde que as suas propriedades estejam dentro da zona de caça, como as da Ribeira e Marinha, por exemplo”.
Durante muitos anos, as pes­soas iam ao armeiro, compravam uma arma, e davam uns tiros, por­que o caçador não tinha de pagar o local onde caçava. Hoje tem de pagar tudo. Para se ser caçador é preciso gastar cerca de 2 mil euros.


As malhas da lei começaram a apertar desde 2005. Na caça em zonas húmidas não se pode caçar com munições de chumbo, para que as águas não fiquem contami­nadas. Os cartuchos são carrega­dos com granalha de metais como o aço, bismuto e tungsténio.
Se o caçador vier com uma peça de caça e não trouxer o respetivo cartucho vazio, é autuado. Há tam­bém regras para o abate das respeti­vas espécies. Cada caçador só pode caçar cinco patos por dia, e é permi­tido ir à caça uma hora antes do nas­cer do sol, embora a jornada possa ser preparada a partir da meia noite, e, ao fim do dia, a recolha acontece uma hora depois do pôr do sol.
Em novembro, o pato-real vol­ta a estar na mira dos caçadores e os tiros voltarão a ecoar lá para os lados da foz do rio Cáster.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de outubro de 2014)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/12/caca-ao-pato-na-ribeira-de-ovar.html

Sem comentários: