22.9.14

Histórias da Vela na Ria de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2003)
TEXTO: Helder Ventura

2 – Ventos do Norte
O Prof. José Hermano Saraiva no seu périplo pelos Horizontes da Memória passou por Ovar, e deste modo lá tivemos direito a umas tantas palavras do nosso melhor diseur da História.

Barcos normandos do século X (tapeçaria)
Os Normandos – Vikings
Esquecendo as imprecisões dos moios[1], que nas palavras do Prof. passaram de sal a arroz, mas que são efectivamente de sal, este identificou-nos como descendentes de Normandos.
De facto, confirmou o que já sabíamos, pois, ao deambular pelo Furadouro, ao Sul, pelo Lamarão, pela Rua Velha ou pela Ribeira, os nossos olhos confirmarão repetidas vezes, pelo porte, estatura, olhos e cabelos das pessoas que por ali vivem, a presença dos nossos ascendentes nórdicos.
No ano de 2000, ao visitar o pavilhão da Alemanha na feira de Hanover, deparei subitamente com um Drakkar. Confesso que me detive, imóvel, uns segundos. O lançamento da proa ao alto, as linhas e as proporções não me eram estranhas. Fazia-me lembrar um barco da arte xávega, daqueles com quatro remos. Sem dúvida um barco preparado para o embate com as ondas do Atlântico.
É também verdade que os Vikings subiram o Arade e invadiram Silves no ano de 937. Naturalmente, estes navegantes também por aqui pernoitavam, aventurando-se, terra dentro, para cumprirem os seus rituais de saque e pilhagem. Um destes périplos ficou mesmo registado na nossa história[2].

Documento original de 1026 que regista um acto de pirataria dos Normandos Vikings, que por aqui andavam há cerca de 2000 anos. (Dona Meitil e sua filha Gondina resgatados por Octício.
Torre do Tombo (cópia de M. Pires Bastos)

Mais interessa referir que estes navegadores ocuparam o lugar e as rotas para o Sul deixadas livres pela decadência do final do império romano. Os bárbaros não vieram só por terra.
Por estes tempos, com a decadência do comércio de longo curso e das viagens costeiras, com alterações de clima decorrentes de transformações na corrente quente do golfo[3], com a consolidação do Cristianismo na Europa e do Islão, emergente, via Norte de África, num contexto social e político em transição acelerada, sedimentavam-se novos rituais e hierarquias.

Os Árabes
Do Sul, no entanto, continuavam as influências, desta vez através dos árabes, com a sua poesia, música, tecnologia e “design”[4], e as técnicas de transformar a água em sal.
Por esta altura, Ovar já teria os seus primeiros habitantes instalados nas dunas junto à foz do Rio: o porto Obar. Verificou-se uma “transurbanização”[5], de Cabanões, S. Donato, Muradães, até à borda de água. Tal como aconteceu em relação ao Furadouro, mas aí por volta do séc. XVI. Consolidavam-se as viagens regionais ao longo da costa, até Esgueira, Aveiro, Águeda, Ílhavo. Surgia a carpintaria naval e o comércio do sal. A olaria andava por perto. O aproveitamento dos cursos de água para a moagem de cereais consolidava-se com a introdução de novas tecnologias. Os mercadores, agora com raízes e interesses mais regionais e locais, mercavam.


Árabe utilizando a cegonha para rega dos campos
Iniciava-se o comércio ribeirinho, complementando com o comércio agrícola. Estamos estrategicamente localizados numa área de múltiplas influências decorrentes das culturas marítimas e agrícolas, entre o Norte e o Sul, com a água a servir de elemento agregador, por muito paradoxal que pareça. A nossa religiosidade demonstra claramente este contexto. Não é por acaso que temos um padroeiro S. Cristóvão, e uma Senhora de Entre-Águas. E ainda um chafariz de Neptuno. E lendas de Senhoras que aparecem sobre penedos, junto às praias. Mas também um S. Donato com barbas e chapéu, de livro na mão.
Lentamente, sob as águas, as areias depositavam-se sobre os fundos lodosos da larga baía. Geravam-se correntes e contracorrentes. O clima agora era mais frio e chuvoso, os rios assoreavam, e a navegação tornava-se cada vez mais cautelosa…
O mar oceano iniciava assim o seu fulgurante processo de se afastar de nós, criando primeiro uma barreira arenosa, depois um mar interior…
No entanto, de tempos em tempos, lá vem ele, com saudades dessa antiga intimidade, lembrando-nos que já andou por ali, ao lado da Senhora da Graça…

[1] “Moio” era uma medida utilizada no comércio do sal.
[2] O episódio de Dona Meitil e sua filha Gondina, a quem venderam, como recompensa, a quarta parte de uma herdade em Cabanões e outra em Muradões, junto ao rio Ovar – Dr. Alberto Lamy, “Monografia de Ovar”, 2.ª ed. vol. I, pág. 41.
[3] A corrente quente do golfo influencia decisivamente o nosso clima, as correntes marítimas, a energia das ondas… Creio que a formação da Ria está intimamente relacionada com oscilações de direção e temperatura neste “rio oceânico”.
[4] Os “árabes” eram exímios artesãos. Criaram peças de uma enorme utilidade, como o almofariz, a alabarda… E sabem dar um enorme valor à água, pois têm falta dela.
[5] Transurbanização – processo de transferência urbana que, com a consolidação de certas funções pode assumir o papel de “novo Centro”. Este fenómeno ocorreu na formação da freguesia de Ovar, cujo porto veio a consolidar a sua importância. Como sabemos este é um dos temas mais fascinantes da nossa história local, pois não sabemos qual o núcleo mais antigo que por cá se consolidou. Quem teria primeiro pisado as areias de Ovar? Os navegadores Fenícios, ou os primeiros Hassaliotas?

(continua)

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Março de 2003)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/09/historias-da-vela-na-ria-de-ovar.html

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