20.5.14

Onomástica Fatimita em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/1976)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Pormenor de um postal antigo
sobre a aparição de N.ª Sr.ª de Fátima aos pastorinhos
Achamos de interesse analisar um aspeto curioso relacionado com o culto de Fátima no concelho vareiro, como contribuição parcelar para estudos de mais vasto alcance.
Reportamo-nos ao impacto de Fátima na Onomástica (estudo dos nomes próprios) de Ovar.
Como é sabido, as aparições na Cova da Iria, freguesia de Fátima [1], deram-se entre 13 de Maio e 13 de Outubro de 1917, e logo a sua fama invadiu o país inteiro. Porém, dado que as autoridades eclesiásticas puseram, durante os primeiros anos, muita reserva na sua aceitação como facto sobrenatural, e ainda porque as autoridades civis, numa época de grande inconstância política interna e externa, atribuam à reacção essas manifestações religiosas, é lógico pensar-se nas sérias reservas postas por essas mesmas autoridades em registar oficialmente qualquer criança com nomes ligados às aparições.
Apesar da introdução de uma gama muito variada de nomes profanos na Onomástica Portuguesa, a partir da implantação da República, era ainda vulgar a atribuição de nomes cristãos, incluindo os que designavam atributos da Virgem Maria. Daí, que os primeiros “crentes” no “milagre de Fátima” logo desejassem à imitação dos devotos de N.ª Sr.ª de Lourdes, apropriar-se da designação topográfica (lugar da aparição) e passá-la para o nome dos recém-nascidos (antroponímia).
Só em 1922, porém, é que o nome “Fátima” entrou na Onomástica Vareira, através de uma criança do sexo feminino, Fátima Pais Guedes, nascida em 24 de Janeiro no lugar da Regedoura, freguesia de Válega, filha de Alfredo Alves Guedes e de Rosa Augusta Pais, e casada, em 08/04/1944, com José Fernando Bento de Lemos. [2]
De anotar é o facto de o topónimo (nome do lugar) se ter transformado em antropónimo (nome de pessoa), sem passar, como seria mais natural, pelo nome designativo “de Fátima”.
Foi esta, portanto, a primeira Fátima do concelho de Ovar, a fazer-nos crer que o povo de Válega se adiantou às outras freguesias na sua devoção à Senhora aparecida na Serra de Aire.

E mais curioso ainda é o facto de se ter antecipado, nesta afirmação pública de credibilidade nas aparições, à própria voz da Igreja, que só em 3 de Maio seguinte se pronunciou oficialmente sobre o assunto, através de uma Provisão do Bispo de Leiria, que então nomeou uma comissão para estudar o caso. Nesse documento se diz que a capelinha feita no local (na foto), após as aparições, com as esmolas dos fiéis, fora destruída à bomba em Fevereiro desse mesmo ano (1922), e que “a autoridade civil tem empregado todos os meios, inclusive as perseguições, prisões e ameaças de toda a ordem para acabar com o movimento religioso naquele lugar”. (Luíz Fischer, “Fátima à Luz da Auctoridade Eclesiástica”, Lisboa, 1932, pág. 40).
Terá havido, por parte daquele casal cristão de Válega, ao dar tal nome ao seu rebento, a intenção de um piedoso desagravo? E como deve ter sido tolerante o Ajudante do Oficial do Registo Civil em exercício, sr. Joaquim José dos Reis, ao aceitar de bom grado o que então lhe deveria parecer uma pretensão bem bizarra! [3]
Em 1923 surge a segunda Fátima do concelho de Ovar: Maria de Fátima Alves da Silva, natural da vila, onde nasceu em 9 de Junho, na Rua Alexandre Herculano, filha de António Alves da Silva, natural de Lisboa, e de Elisa Cândida da Silva, de Alcoentre, concelho de Azambuja, que veio a casar com António Garcia Frazão, falecido em 1973. (Será que terá influído na escolha do nome o facto de a mãe ser de uma terra próxima de Fátima?) [4]
A terceira Fátima ovarense só aparece em 1928, o que leva a concluir que recrudesceu, pelo menos em Ovar, a má vontade contra as aparições da Cova da Iria. Trata-se de Maria de Fátima Soares, de Esmoriz, filha de Augusto Pinto Ferreira e de Hermínia Dias Soares, nascida em 9 e Setembro. [5]
Em 13 de Dezembro de 1929 nasceu a quarta FátimaMaria de Fátima Marques dos Santos, filha de Maria José Marques dos Santos, da Rua do Loureiro, Ovar, e em 3 de Agosto de 1930 a quinta, Maria de Fátima Rodrigues da Silva, da Rua Camilo Castelo Branco, da mesma vila, filha de Francisco da Costa e Silva e de Antónia Rodrigues da Silva. [6]
Para concluir estes apontamentos, eis a sequência do “fervor” fatimita manifestado através da onomástica do concelho vareiro até há 25 anos: 1932, 1937 e 1939 – 1 cada; 1934, 1935 e 1941 – 2 cada; 1945 – 3; 1938 e 1943 – 4; 1940 e 1944 – 5; 1942 e 1946 – 6; 1947 – 10; 1948 – 16; 1949 – 17; 1950 – 12; 1951 – 22.
Só em 1944, 22 anos após o registo da primeira, aparece uma nova criança registada apenas como “Fátima”, portanto sem o nome de Maria, desta vez na paróquia e vila de Ovar. [7]
Se tomarmos em consideração apenas a freguesia sede do concelho, até há poucos anos formando uma só paróquia (São Cristóvão) e hoje desmembrada em três em três comunidades paroquiais (S. Cristóvão, S. Pedro e S. João de Ovar), foi o seguinte o movimento de Baptismos de Marias “de Fátima” registados entre 1930 e 1950: - 1933, 1943 e 1946 – 1 cada; 1930, 1935, 1938 e 1941 – 2; 1944 e 1950 – 3; 1940, 1942 e 1947 – 4; 1948 -5; 1949 – 6. Nos restantes anos não há qualquer assento com esse nome ou designativo, inclusive no de 1923, ano em que, como vimos, aparece um no Registo Civil.
Ainda em S. Cristóvão de Ovar, aparece, em 1944, uma Fátima, como já foi referido, e em 1946 uma Lúcia de Fátima e em 1949 uma Emília de Fátima. [8]

A 1.ª imagem que se fez de
Nossa Senhora de Fátima
(1920)
Notas:
[1] - O nome Fátima dado à freguesia do concelho de Vila Nova de Ourém, evoca a influência árabe na região. Chamava-se Fátima uma filha de Maomé, fundador da religião muçulmana, e de sua mulher Cadija. Muito virtuosa, faleceu em 632 da nossa era, com 27 anos, tendo deixado três filhos de seu marido , o Califa Ali, julgando-se que dela descendeu a dinastia Fatimita.
[2] - cf. Livros do Registo Civil de Ovar, 1922, n.º 109.
[3] - O Oficial do R. C. de Ovar era então, e desde 1911, o Dr. Pedro Virgolino Ferraz Chaves, bastante ligado a actividades políticas. Teria aceitado aquele nome se acaso estivesse no exercício da sua função, uma vez que não era cristão praticante?
[4] - cf. Livros do R. C. de Ovar, 1923, n.º 468.
[5] - cf. Livros de Registo Civil de Ovar, 928, n.º 642.
[6] - cf. Livros do Registo Civil de Ovar, 1930, n.os 11 e 501, respectivamente.
[7] - À volta de 1930 a população do concelho de Ovar era, segundo a “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira”, de 30657 habitantes, assim distribuídos pelas suas 7 freguesias: Arada 2200; Cortegaça, 2011; Esmoriz, 4729; Maceda, 1938; Ovar, 12799; São Vicente de Pereira, 1761; Válega, 5343.
[8] - Sendo os progenitores da M. de Fátima Alves da Silva do sul do País (o pai era ferroviário), e não aparecendo nos anos seguintes qualquer assento religioso que se lhes relacione, é natural que tenham, entretanto, mudado de residência.

M. Pires Bastos
Ovar, Maio de 1976

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de junho de 1976)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/10/jeronimo-alves-vieira-identificacao-de.html


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