21.5.14

Barcos da Ria: A hecatombe

Jornal JOÃO SEMANA (01/12/1990)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Num dos últimos dias de Outubro assistimos, pesarosos, junto ao cais da Ribeira, a um ritual inglório, digno de dó, já pela forma como foi concretizado, já pelo que significa em relação aos valores tradicionais de Ovar.
Tratou-se do carregamento, para um grande camião, de um barco mercantel, “embarcado” tão sem jeito, assim tão prosaicamente, a caminho de Setúbal.
Era um dos últimos mercantéis ainda em actividade na Ria de Ovar, todos pertencentes a José Marques de Oliveira, negociante de sal com armazém naquele lugar ribeirinho.

Barco mercantel a caminho do Sado

Com 18 metros de bica a bica, o A684T (=Aveiro 684 Tráfego) foi construído há 20 anos em Pardilhó, encontrando-se ainda em bom estado, já que foi reparado recentemente (1989).
O seu valor actual, acordado entre o vendedor e um particular de Setúbal, que o utilizará como meio de transporte de materiais para a reparação das marinhas da foz do Sado, rondou os 400 contos, bem mais do que custou há 20 anos – 12.500$00 – e muito menos do que o preço actual de um exemplar novo – cerca de 2.500 contos.
Como causas da diminuição da quantidade destes barcos típicos da Ribeira de Ovar, José Marques de Oliveira, que chegou a ter uma frota de 8 unidades, aduziu, para além do seu preço actual, o desaparecimento progressivo do sal de Aveiro (10% do existente há 20 anos) e a opção por transportes terrestres.


Foi doloroso para nós ver partir, daquela maneira, um mercantel ainda válido. Como foi doloroso descobrir dois outros a desfazerem-se, debaixo de água, do outro lado do cais.
Isto leva-nos a recear pelo futuro dos três exemplares que sobrevivem à hecatombe que se abateu, desde há anos, sobre os mercantéis da Ribeira, que desde há séculos foram, com os moliceiros, reis e senhores da Ria, transportando, desde Mira e Aveiro, pessoas e mercadorias, num vai-vem que se escoava, através da Rua Direita, a caminho de Ovar, daqui seguindo, pela Feira, para o Norte do País.

Cais da Ribeira de Ovar na época áurea dos mercantéis.
O sal chegava de Aveiro e daqui partia já tratado. 
É tempo de se olhar com realismo para os valores patrimoniais em risco de se perderem. Há que agir, e depressa, sob pena de contribuirmos, nós também, para a hecatombe total.
Salvem-se, ao menos, os barcos que restam. Não se deixem apodrecer no lodo da Ria.
Quando haverá, no Museu de Ovar, instalações suficientemente espaçosas para se acondicionarem e se preservarem, em ordem ao futuro, alguns exemplares de todos os barcos típicos que encheram de vida e de beleza a nossa Ria?

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Dezembro de 1990)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/05/barcos-da-ria-hecatombe.html

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