18.3.14

Arquiteto Domingos Tavares – Insigne personagem ovarense

Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2014)
TEXTO: Manuel Catalão
         
Arquiteto Domingos Tavares
No declinar da soalheira tarde do Outono que se repete, enxotando as obstinadas e pálidas folhas que atapetam a calçada, subsidiariamente tocada pelo salino perfume da brisa marítima e pelo agreste aroma proveniente do misto de sargaço e algas dormentes, que navegam, perdidas, na crescente aridez da nossa ria, ainda vestida de um apreensivo azul, quase no exato ponto em que a ruralidade do Torrão do Lameiro abraça a pacata murtoseira Quintas do Norte, fomos ao encontro do Sr. Professor Arquiteto Domingos Manuel Campelo Tavares, insigne personagem ovarense. 

O berço e a urbe

Por meados de uma primavera que permitia antever fortes e dramáticas convulsões – corria o dia 15 de Maio do ano de 1939 –, vinha ao mundo Domingos Tavares, terceiro e único varão na cronologia de uma prole de quatro filhos com que seus progenitores foram mimoseados. A já então vetusta rua Padre Ferrer foi palco engalanado na receção ao recém-nascido, espaço dos primeiros sorrisos e dores, e local também para as preliminares projeções de um futuro próximo que não caberia na urbe que o viu nascer.
Por força da condição profissional de seu pai, funcionário judicial de carreira, Domingos Tavares aprendeu a dar as primeiras passadas na linda cidade beirã de Castelo Branco e na laboriosa cidade de Fafe. Cumprido o ciclo do primeiro quinquénio de vida, e porque se aproximava o início do percurso de formação escolar, regressou a Ovar, para um tempo de descobertas várias, a nível da construção do grupo de brincadeiras de rua, nas sinuosas vielas periféricas… Na saudosa escola primária de Conde Ferreira – onde, na atualidade, se situa o Tribunal Judicial de Ovar –, cumpriu o primeiro e segundo ano de escolaridade, vindo a completar o curso básico na vila de Amarante, para onde seu pai, novamente por incidência da opção profissional, houve de se deslocar. De regresso ao seu torrão natal, tem oportunidade de refazer o círculo de amizades locais e de articular consensos pessoais e familiares quanto à prossecução do ciclo estudantil, acabando por rumar à cidade de Aveiro e ao seu prestigiado Liceu. Na verdura dos dez anos de idade, manhã cedo, tinha encontro marcado com a velha e lenta locomotiva a vapor, prenúncio rotineiro da quotidiana viagem para a cosmopolita capital do distrito, indiferente à frescura matinal que se confundia com a espessa fumarada que se espraiava e lhe envolvia o corpo esguio.
Aluno diligente, com alicerces assentes na liberdade e na responsabilidade transmitidas pela praxe familiar, foi fomentando sólidas e cúmplices amizades, promovendo díspares atividades de natureza lúdica, cultural e desportiva.

Associativismo vareiro 
No Carnaval de Ovar,
ao lado da Miss Furadouro

Curioso será referir que, de um furtivo e coletivo banho nas então ainda não poluídas águas da ribeira do Cáster, sob a protetora vigilância das lavadeiras que a coloriam de sabão azul, nasceria o gene da formação do Grupo Atlético Vareiro, que viria a tomar forma legal a 2 de Abril de 1956. Domingos Tavares, dotado, desde cedo, de mão firme para a representação pelo desenho, com a multifacetada disponibilidade para brincar de forma séria e responsável, foi, reconhecidamente, desde a adolescência, um elemento fundamental na dinamização e na consecução dos superiores objetivos que nortearam a criação de uma coletividade que marcaria, muito positivamente, as gerações dos anos sessenta e setenta. Havia ainda espaço para ousadias sensatas que passavam pela frequência de todas as romarias confinantes, pela animação cultural traduzida em múltiplas personificações de figuras trazidas da literatura popular, pelas tardes e noites de cinema, pela prática de desportos náuticos na buliçosa Ria de Aveiro, enfim, pelas experiências de um jovem que amava a vida da sua terra. Em terra de carnaval, Domingos Tavares, não abdicando do seu perfil sóbrio, foi figura crítica do regime político autoritário então vigente, participando em vários corsos carnavalescos, aos quais chegou a concorrer na condição de aspirante a “Miss Carnaval”!!

Arquitetura como vocação

Concluída a formação liceal, indecisões vocacionais vencidas, optou pelo ingresso no curso de arquitetura da Escola de Belas Artes do Porto, mergulhando afincadamente no estudo metodológico em artes, em consonância com a inata aptidão para transformar em música o seu distinto traço de desenho livre e geométrico. Cumpridos os anos curriculares exigidos, foi convidado para integrar o quadro docente da EBAP na condição de Assistente, dando assim voz aos conhecimentos científicos adquiridos. Corria o ano de 1967 quando contraiu matrimónio com Maria Augusta, contemporânea do tempo liceal e licenciada em filologia, de quem provieram dois filhos, ele também arquiteto, ela, gestora. Simultaneamente, no espaço compreendido entre os anos de 1969 e 1973, colaborou com os conceituados Arquitetos Fernando Távora, Jorge Gigante, Francisco Melo, Alcino Soutinho e Rolando Torgo, vindo, ainda em 1973, a integrar a experiente equipa de Percy Johnson – Marshall na elaboração do Plano da Região do Porto, elemento fundamental para a clarificação estratégica, sob o ponto de vista urbanístico, da cidade invicta. Concluída a licenciatura no ano de 1973, passou a integrar o quadro docente da EBAP na qualidade de Professor Catedrático, vindo, com a naturalidade e a capacidade pedagógica que o caracterizam, a ser figura proeminente e fundamental na transformação da ESBAP em Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, participando também, e de forma bastante ativa, na criação do Departamento de Arquitetura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, da qual viria também a ser Professor Convidado. Docente das áreas de Teoria e História da Arquitetura, transmitiu aos seus muitos discentes os factos históricos e científicos mais relevantes dos períodos da arquitetura universal, desde o neolítico até ao contemporâneo. Resultante da enorme paixão pela arquitetura, o ovarense e Professor Arquiteto Domingos Tavares tornou-se uma figura incontornável não só na produção de obras arquitetónicas, que constituem fontes de informação, mas ainda de diversas obras escritas que são referenciais de aprendizagem nas escolas de outros continentes, tais como “Da rua Formosa à Firmeza”, “Miguel Ângelo, a aprendizagem da arquitetura”, “ Francisco Farinhas, realismo moderno”, a coleção de “Sebentas de História da Arquitetura Moderna”, entre outras obras e ensaios técnicos e científicos.

Um saber partilhado
Arquiteto Domingos Tavares

Tem sido também orador convidado em múltiplos seminários, colóquios e eventos da sua especialidade em variados países europeus, americanos e asiáticos, prestigiando, dessa forma, o nome da cidade de Ovar. Atualmente, na condição de Professor Jubilado, quase cinco anos depois de ter ministrado a sua derradeira aula como Professor Catedrático da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, Domingos Tavares prossegue de corpo e alma na sua entrega à causa das artes, colaborando com a Academia, em estreita ligação com o Departamento Autónomo de Arquitetura da Universidade do Minho, onde é membro do Conselho Consultivo, bem como com o Departamento de Arquitetura da Universidade de Coimbra, onde é Professor Convidado, e com a sua Faculdade de Arquitetura do Porto, aqui coordenando o projeto de investigação no Centro de Estudos de Arquitetura e Urbanismo. Vida tamanha em tamanho corpo de homem, dá-se ao mundo através da arte, do estudo, da palavra, da visão de um futuro mais verde, mais colorido e adequado à condição humana. É este o homem que, na plenitude dos seus setenta e quatro anos de idade, ruma semanalmente à sua Ovar, preferencialmente em manhãs soalheiras, buscando nas tendas do mercado municipal a frescura verdejante da hortícultura artesanal e o contacto com o seu povo de sempre. Sendo um homem de relacionamento fácil, desde que aprofundado e verdadeiro, adaptou-se bem à rotina citadina, tendo aprendido a gostar do Porto como cidade e como polo de toda a sua intensa atividade profissional. Convictamente democrata e ativista de esquerda nas campanhas da oposição democrática nos anos sessenta e princípios da década de setenta, permanece fiel aos seus ideais, tendo sido recentemente candidato à Assembleia da República pelo distrito do Porto, integrando a lista da CDU.

Saudades de Ovar

No recanto da sua moradia, na extremidade sul do lugar do Torrão do Lameiro, onde procura descanso retemperador, colhe a inspiração para mais uma ou outra obra a publicar, acolhe os amigos com a mesma alegria e espontaneidade de há sessenta anos, luta com a nostalgia de uma ria que desfalece, enfim, vive a felicidade de estar em Ovar, a sua terra. Convidado a pronunciar-se sobre a Ovar de hoje, entende que se trata de uma comunidade que se encerra em si mesma, orgulhosa, passiva e tendencialmente resistente à mudança, defendendo, em contraponto, a mobilização em torno da participação ativa nas grandes decisões locais e na estratégia do futuro. Defensor das tradições em tudo o que elas contêm de belo, de cristão ou profano, não deixa de referir que, na sua grande maioria, perderam a autenticidade que as caraterizava, não sendo, nos dias de hoje, um militante seguidor das mesmas. Instado a pronunciar-se sobre as obras do mais recente investimento público na nossa cidade, refere o Parque Urbano da cidade como algo que pode ajudar a transformar a vivência citadina, não deixando de ser particularmente crítico face ao excesso de circulação automóvel nas vias centrais da cidade, geradora de graves perturbações a nível ambiental e na livre circulação das pessoas. A penumbra caiu. O curso lagunar reflete ainda, e só, os pequenos pontos de luz da margem nascente, adivinhando-se o esventrar do cordão dunar pela agitação das vagas marítimas próximas. Despedimo-nos do nosso interlocutor com a elevada satisfação de termos estado com uma verdadeira figura vareira, com um distinto embaixador cultural da nossa terra, com um emérito professor e profissional, com um testemunho vivo da intelectualidade ovarense, com um homem que, por detrás de uma aparente austeridade, se nos revela como um referencial do passado, do presente e do futuro.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de março de 2014)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/03/arquiteto-domingos-tavares-insigne.html

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