6.2.14

S. Vicente de Pereira – Uma terra com dois nomes?

Igreja de S. Vicente de Pereira
Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2004)
TEXTO: António Pinho Nunes

No foro civil, chama-se “S. Vicente de Pereira Jusã”, no eclesiástico “S. Vicente de Pereira”.
Deve ser caso único no país. E, não sendo conhecido, poderá causar problemas desnecessários. Se, por exemplo, um cidadão de S. Vicente de Pereira, ao indicar, num documento oficial, a freguesia de sua residência, não escrever “S. Vicente de Pereira Jusã”, esse documento não é aceite. Assim, também a um padre que, não conhecendo ocaso, envie para a Conservatória do Registo Civil um duplicado de acta de casamento em que conste, como sempre tem constado desde há quase mil anos, que um dos nubentes é natural da “freguesia” de S. Vicente de Pereira e foi baptizado na “paróquia” de S.Vicente de Pereira, é-lhe devolvido o documento para correcção. Faltou “Jusã” na freguesia…
Como se sabe (e muito se tem escrito a esse respeito), S. Vicente de Pereira é só isso, e nada mais. Não pode ir buscar a Válega o “Jusã” (= de baixo) que pertencia à designação do antigo concelho de Pereira Jusã, cuja sede era nessa freguesia, a juzante do outro lugar de Pereira (existente mais acima).
É daqui que nasce o erro, o qual, se não é anterior, vem, pelo menos, de 1853, data do decreto de extinção do concelho de Pereira Jusã, que se diz, no artigo segundo, que “as duas freguesias de Pereira Juzam e Santa Maria de Vallega, que constituíam o concelho suprimido, são incorporadas no concelho de Ovar.”
S. Vicente de Pereira (sem mais) foi assim chamado desde tempos muito remotos. O documento mais antigo, conhecido, que se refere a esta terra data de 978 (séc. X). Trata-se de uma doação feita  ao mosteiro de Lorvão por Gogilli Bellida, de “meas varzenas que habeo in uilla de Azevedo… et sunt ilico hereditates in terra de sancta maria ad ille porto de sancto vicenti de peraria”. (Mesmo quem não estudou latim entende estas três últimas palavras.)
No domínio muçulmano, no ano de 1002 (princípio do séc. XI), há uma outra doação, feita a Lorvão por um certo Ariano, de uma metade que tinha na igreja de S. Vicente de Pereira (“ecclesia sancti uicenti de peraria”)…
(Estas doações são referidas por A. Nogueira Gonçalves no “Inventário Artístico de Portugal, Distrito de Aveiro, Zona Norte, X, Lisboa, 1981”)
Quando, quem, porquê o acrescento de “Jusã” ao topónimo de S. Vicente de Pereira, topónimo que, quando muito,  poderia ser “Susã” (= de cima), tal como vem designado nas Inquirições de D. Dinis de 1288 e nas suas Sentenças de 1290, porque já havia outra “Pereira” mais a Poente, a juzante.
Foi neste lugar de Pereira, de Válega, que teve sede o Concelho de Pereira Jusã. À falta de qualquer referência histórica, creio poder dizer que o termo “Jusã”, aplicada ao nome do concelho, datará da sua criação.
S. Lourenço - Retábulo da capela
Segundo fotocópia que possuo, em 1953, o Padre Miguel de Oliveira escreveu ao Instituto Nacional de Estatística a esclarecer essa entidade sobre alguns erros referentes a freguesias, que constavam no Tomo I do Censo de 1950. É claro que também apontou S. Vicente de Pereira. A resposta daquele instituto rezava assim: “Por último, e no que diz respeito à freguesia de S. Vicente de Pereira Jusã informa a Câmara Municipal de Ovar no seu ofício de 4 do corrente (Abril) que essa denominação é a exacta. Acresce ainda que é a que figura no Código Administrativo”.
Deve sublinhar-se que, pelo que atrás se diz, já figurava mal nesse Código.
Admito como muito provável que o Padre Miguel tenha feito compreender à Edilidade de Ovar que, apesar de a referida freguesia estar assim denominada no Código Administrativo, tal facto não significava que a denominação estivesse exacta, até porque todos os departamentos do Estado a referiam apenas como S. Vicente de Pereira.
Não sei que mais se passou. Uma coisa, porém, é certa: a Câmara Municipal de Ovar de então informou mal o Instituto de Estatística e devia ter corrigido o erro.
Apesar de tudo, ainda hoje é possível fazê-lo. O processo terá naturalmente, de começar pelo Presidente da Junta de S. Vicente de Pereira Jusã. Transitará, seguidamente, para a Câmara Municipal, que lhe dará a formulação adequada e o encaminhamento para a entidade governativa competente.
De resto, atente-se na facilidade com que hoje algumas terras alteram o nome. Casos exemplares de há poucos anos e bem próximos de nós são os da Vila da Feira, que passou a chamar-se Santa Maria da Feira, e o de uma pequena freguesia quase perdida nas serranias de Arouca que, não se dando bem com o nome que tinha, tratou do problema pelas vias competentes e passou a chamar-se “Albergaria da Serra” em vez de “Albergaria das Cabras”.
Creio que os habitantes da simpática freguesia de S. Vicente de Pereira (“sancti uicenti de peraria”) ficarão contentes e agradecidos no dia em que vier de Lisboa um decreto que diga mais ou menos o seguinte: “A freguesia de S. Vicente de Pereira, do Concelho de Ovar, terá este nome, e só este, enquanto o mundo for mundo…”

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Julho de 2004)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/02/s-vicente-de-pereira-uma-terra-com-dois.html

Pereira Jusã, Cabanões e Ovar

A sede administrativa de Ovar, antes da actual, esteve repartida pelas vilas de Cabanões e de Pereira Jusã (estando associado a esta, durante algum tempo, o centro de Cortegaça).
Tendo mudado, no século XVI, a administração de Cabanões para Ovar, ainda a de Pereira Jusã se manteve por mais 3 séculos, nela estando englobados o lugar de Guilhovai e a parte poente de S. Vicente de Pereira (Zona da Torre).
Note-se que Pereira Jusã (Villa Peraria na Idade Média) constituía a parte norte do Rio Negro, ribeiro que divide a meio a freguesia de Válega, ficando para sul a villa de Dagarei, que teria a sua sede no lugar de Vilar (ver mapa anexo), estendendo-se até à Ria, onde já no século X se exploravam, no sítio de Cabedelo, marinhas de sal.
Baseando-se em alguns destes dados históricos, colhidos nas obras do historiador Monsenhor Miguel de Oliveira, o artista Marcos Muge pintou um sugestivo painel cerâmico que esteve recentemente exposto no stand da Autovar, na Rua Ferreira de Castro, e que actualmente se encontra patente em Válega, no prédio destinado à Biblioteca – Pólo daquela vila.

Painel da autoria do artista vareiro Marcos Muge
Nesse registo em azulejo reproduzem-se os edifícios do Tribunal e da Câmara de Pereira Jusã (esta com a cadeia, o pelourinho e, em frente, a capela de assistência aos presos), as marinhas do Cabedelo (Válega),o brasão municipal de Pereira Jusã, que passou a integrar a bandeira de Ovar, o Chafariz Neptuno, bem como os antigos Paços do Concelho de Ovar e a Capela de Santo António, o Cais da Ribeira (com o estaleiro de  construção de barcos que aí prosperou).
Há ainda uma referência ao Foral de Pereira Jusã (1514).
(Jornal "João Semana", 15/07/2004)

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