4.2.14

JUSÃ: Um enxerto espúrio em S. Vicente de Pereira

Jornal JOÃO SEMANA (01/01/2004)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Acaba de ser aprovado oficialmente o brasão de armas e a bandeira da freguesia de S. Vicente de Pereira, ali designada S. Vicente de Pereira Jusã.
O que deveria ser motivo de orgulho para a freguesia, torna-se ocasião para avivar uma ferida que desde há, pelo menos, um século e meio, rói o seu corpo, sem que apareça cirurgião capaz de a cicatrizar.
Mas vamos aos factos.
No concelho de Ovar há dois locais com o nome de Pereira. Ficam a poucos quilómetros um do outro, na direcção nascente-poente. Chamemos-lhe Pereira de cima (a nascente, onde se situa a Igreja de S. Vicente de Pereira), e Pereira de baixo (a poente, em Válega, onde teve sede um antigo concelho).
Era mesmo assim, com este realismo, que os antigos os nomeavam e distinguiam. Só que usando as designações então em voga: Pereira Susã (= de cima) e Pereira Jusã (= de baixo).
Comprovam-no documentos de há muitos séculos, com mais persistência em relação a Pereira Jusã, pelo estatuto administrativo que este lugar manteve, como vila e sede de concelho, até quase ao fim do século XIX.

A primeira Igreja de S. Vicente de Pereira situava-se neste local do lugar de Pereira Suzã,
 bem próximo da actual Matriz. Ao fundo o cruzeiro da antiga Igreja (1668)

O termo Susã cedo deixou de ser utilizado, em proveito do antropónimo S. Vicente, padroeiro da Paróquia, cuja Igreja sempre se situou no referido lugar de Pereira com a designação de S. Vicente de Pereira, topónimo que continua a ser o único que legitimamente deverá usar.
Pormenor do cruzeiro da antiga Igreja
de S. Vicente de Pereira (1668)
Por um equívoco qualquer, motivado por desconhecimento da história e da geografia locais, começaram a surgir publicações, inclusive um mapa cadastral do Exército, em que à Freguesia de S. Vicente de Pereira é ligado o sobrenome de Jusã, epíteto que, como escrevemos atrás, pertence, por direito próprio, consignado em séculos de história, ao lugar de Pereira, de Válega, a cujo concelho pertenceu a parte poente da freguesia de S. Vicente (mas nunca o seu lugar de Pereira que, a ter um designativo dessa natureza, teria de ser, pelos motivos históricos e geográficos atrás aduzidos, de Susã.)
Já em 26/8/1873, 21 anos após a extinção do concelho de Pereira Jusã, o vice-presidente da Câmara de Ovar, Francisco Joaquim Barbosa de Quadros, querendo acabar com o equívoco, explicava ao escrivão da fazenda: “Se nas repartições públicas se tem chamado a S. Vicente de Pereira Jusã é isso devido a trocarem um nome por outro. Na freguesia de S. Vicente existe também um lugar chamado Pereira, que fica superior ao lugar de Pereira da Freguesia de Válega e como os dois termos Susã e Jusã significavam de cima e de baixo, é provável que à Pereira Susã (S. Vicente) alterassem o nome, e lhe chamassem Pereira Jusã, que é de Válega.” (cf. A. Sousa Lamy, Monografia de Ovar, vol. I, pág. 416.)
O probo historiador Monsenhor Miguel de Oliveira, natural de Válega, saiu também à estocada em defesa da sua dama, Pereira Jusã, publicando um texto lúcido e persuasivo, na tentativa de repor a ordem no assunto. Fê-lo num número especial do “Notícias de Ovar”, quando do seu 25.º aniversário.
O seu protesto caiu em saco roto, e o erro continuou a figurar no tal mapa, cheio, aliás, de outros erros crassos, como o de trocar o leito dos rios Ul e Antuã!

Se durante muitos anos esta situação não trouxe graves consequências práticas, o tempo encarregou-se de mostrar o perigoso desajustamento entre a denominação comum e secular da freguesia – S. Vicente de Pereira – e o intrometido Jusã do mapa “oficial”.
Pedidas, na década de 60 do século passado, pelo Ministério da Justiça, informações a entidades de Ovar – Registo Civil e Câmara – foi dado como resposta que a designação da freguesia era S. Vicente de Pereira. Jusã. Certamente por influência do mesmo famigerado mapa.
E foi assim, com toda esta “ciência” e com toda a facilidade, que aquele Ministério praticou uma injustiça de todo o tamanho!
Outros textos vieram, entretanto, a lume, no “João Semana” (M. Pires Bastos e A. Almeida Fernandes),chamando à realidade os pouco escrupulosos seguidores de tal dislate, mas sem qualquer resultado.
E o mais caricato – será assim que se fabrica justiça em Portugal? – foi saber-se que os serventuários do Ministério aduziram, como razão para não voltarem atrás na decisão tomada, o facto de já estar assim registado no computador… (Como se quem carregou mal o computador não soubesse corrigir o lapso!..)
Mesmo sabendo-se que os outros Ministérios – o da Educação, por exemplo – continuavam a manter, ao longo dos anos, o nome correcto de S. Vicente de Pereira, o da Justiça foi obrigando os cidadãos vicentinos a aceitarem nos seus bilhetes de identidade um nome que não lhes pertence, pois está acrescentado de uma excrescência que lhe é alheia e que só atrapalha.

Para cúmulo, e dentro de solenes comemorações dos 1700 anos do mártir S. Vicente, acaba de permitir-se que o nome sagrado da freguesia apareça, com aquele enxerto espúrio, gravado no seu brasão e desfraldado no pano da sua bandeira.
Isto é desdizer a História.
Será esta a missão da Justiça em Portugal?
Que o Ministério da Cultura nos valha!

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de janeiro de 2004)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/02/jusa-um-enxerto-espurio-em-s-vicente-de.html

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Pereira de Susã e Pereira Jusã (A. de Almeida Fernandes)

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