1.2.14

A revolta de Arada em 1870

Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2013)
TEXTO: Manuel Malícia

Entre 28 de março e 23 de abril de 1870, Arada assistiu a cenas de violência e de morte como não há memória na sua história. Curiosamente, o tempo apagou os acontecimentos, e hoje não há tradição oral que nos conte o que se passou há 143 anos. Por isso, nas próximas edições deste jornal vamos ressuscitar algumas cenas desta tragédia do nosso passado coletivo. Os jornais daquele tempo dedicaram ao assunto muita tinta e muitas sugestivas primeiras páginas: “Os fuzilamentos de Ovar”, “Os assassinatos de Ovar”... O Governo teve que responder no Parlamento por aquilo que aqui se passou, e o Administrador do Concelho foi obrigado a justificar-se perante os seus superiores e opinião pública. 

O que aconteceu em Arada?
Para nós, neste momento, torna-se difícil perceber exatamente o que -se passou nesta terra, quase há um século e meio. Mas não partilhamos da opinião do Dr. Alberto Lamy em atribuir as desordens apenas à ignorância e analfabetismo dos nossos antepassados. Apesar de reconhecermos tanto o pouco civismo dos nossos antigos como os seus baixos níveis de escolaridade, não subscrevemos, na totalidade, que estes acontecimentos “foram essencialmente, e talvez unicamente, devidos ao analfabetismo da quase totalidade do povo de então da freguesia de Arada: homens rudes, ignorantes, incapazes de entenderem as realidades e faltos de compreensão e civismo”.
Não subscrevemos estas duras palavras sobre os nossos pais e avós, apenas porque outras terras ditas mais civilizadas também se revoltaram, como foi o caso de Amarante. É certo que lá não houve mortes – mas há registos de auscultação das pessoas discordantes – e, desde logo, o método foi diferente. Aqui, a resposta foi a “voz grossa” e o envio de uma centena de soldados armados que colocaram a freguesia em estado de sítio. Gente rude, tratada com mais rudeza, só poderia ter um resultado: violência. Condenável aos nossos olhos e, certamente, também aos olhos do tempo.
Será que as pessoas se sentiram ameaçadas com avaliações prediais e consequentes aumentos de impostos que punham em causa a sua sobrevivência? Será que foram instrumentalizadas por alguém? Ou tratou-se de uma revolta genuína contra a injustiça? Nunca o saberemos. Se calhar foi um pouco de cada uma dessas causas, associado à rudeza popular.

Capela do Calvário (S. Lázaro)
(Foi no largo do Outeiral (Capela do Calvário) que teve início
a refrega entre a população local e as forças policiais,
dando origem ao morticínio de 1860)

O arrolamento de todos os prédios
Vamos um pouco atrás, para percebermos melhor. Em 18 de Agosto de 1863, terminou o governo Reformista e entraram os Históricos, passando a dirigir o país o Duque de Loulé. O Rei era D. Luís I, e a presidência da Câmara de Ovar estava, desde 1866, nas mãos do Reformista Manuel Arala, que foi presidente até 1887.
O novo governo, mal entrou em funções, chegou à conclusão de que precisava de mais dinheiro para assegurar os compromissos do Estado. De imediato, tal como os governantes de hoje estão a fazer, decidiu a avaliação dos prédios para aumentar os impostos e arrecadar receita.
Através do Ministério dos Negócios da Fazenda e Tesouro Público, Direção Geral das Contribuições Diretas, fizeram sair um decreto aprovado em 30 de Dezembro de 1869 e publicado no Diário do Governo de 7/1/1870, onde se assume que “é de urgente necessidade dar a este serviço indispensável direção e unidade, para que dele se possa colher a descrição mais exata da riqueza coletiva do país” e considerando que pelos trabalhos já encetados no distrito de Aveiro, “se conhece que os métodos neles seguidos (…) fornecem os elementos necessários para melhorar e aperfeiçoar a organização das matrizes”. Posto isto, o governo decidiu que se devia proceder “em cada freguesia dos Concelhos do Continente e Ilhas Adjacentes a um arrolamento geral de todos os prédios situados na mesma freguesia”.
Em cumprimento do referido decreto, a Câmara de Ovar constituiu uma comissão de avaliação e iniciou os trabalhos de arrolamento predial e pessoal no dia 21 de Março. A respetiva “comissão comarcã” era constituída por 6 elementos, a saber:
Agrimensor - Joaquim Apolinário da Costa Neves;
Louvados - Bernardo António da Graça e Manuel Marques Pires;
Informadores - João Ferreira Mendes e Manuel Nunes Valente;
Regedor - Manuel Francisco de Assunção

Arada no centro da política do país…
O que é curioso é que, em escassos meses, o descontentamento da população para com o governo era enorme, certamente causado por esta e outras medidas impopulares. Isto mesmo reconheceu, diz-se (segundo a versão relatada por Alberto Lamy na sua Monografia), um membro do governo de então quando colocou Arada no centro da política nacional como nunca aconteceu. O governante em causa era José Luciano de Castro, que disse: “o governo estava apoplético, cairia, se não fosse a sangria de Arada”. A ser verdade o dito, o governo do Duque de Loulé estaria em tal descrédito que D. Luís o faria substituir se os assassinatos de Arada não tivessem ocorrido.
Julgamos que o Rei não quis desautorizar o governo e subscreveu, pela omissão, o esmagamento da revolta de Arada através da força militar. A substituição do Duque de Loulé seria entendida como uma crítica à ação política do governo e um reforço para os Aradenses, que “expulsaram” do seu território os avaliadores. Se o Rei tivesse censurado o uso da força militar na freguesia, provocaria decerto tumultos em todo o país. Terá sido esse o seu medo? Assim, independentemente da justiça ou não das reivindicações dos nossos antepassados e da retidão das suas ações, o que aconteceu nesta freguesia ditou o rumo político do país.

Jornal JOÃO SEMANA (15/04/2013)
TEXTO: Manuel Malícia 

Como vimos, a entrada em funções governamentais do partido dos Históricos, no verão de 1869, originou uma lei de avaliação das matrizes que acabou por provocar, de acordo com os dados disponíveis, tumultos no concelho de Ovar, polémica em Amarante, e um “motim em Castro Daire” (JN, 20/4/1870). No mesmo dia um outro diário do Porto, O Primeiro de Janeiro, vai mais longe e interpreta a reação dos povos como uma clara contestação ao Governo: “o sistema dos arrolamentos pode ser útil, excelente, justíssimo. Tem porém o defeito de origem. O país não acredita nos homens que ocupam os lugares do poder, olha para eles com profunda desconfiança”.

Contra o arrolamento
É este o contexto social e político que nos permite enquadrar uma agitação popular que se deveu à implementação de uma lei de avaliação predial sem diálogo, imposta à força das baionetas. Assim o documenta um correspondente vareiro do Jornal de Notícias: “Os arrolamentos principiaram há dias na freguesia de Arada, deste concelho, sem oposição alguma do povo. Vendo porém este que os louvados se excediam brutalmente, e como de propósito, no valor das propriedades, cujo terreno é notavelmente fraco, pediram que fossem substituídos por outros mais conhecedores do terreno, a fim de se lançarem os impostos que fossem de justiça. O escrivão da fazenda trava polémica com o povo”, e ameaça-o com o uso da força militar.
Mas não adiantemos os factos, e sigamos a cronologia dos acontecimentos.
De 21 (segunda-feira) a 26 de Março de 1870 (sábado), os trabalhos de avaliação predial decorreram com toda a normalidade, tendo o seu início no lugar da Murteira. No domingo, certamente depois das conversas de fim de missa no adro de S. Martinho, e de vizinho com vizinho, gerou--se uma onda de “reação contra o arrolamento e os empregados dele”, no dizer de José Manuel Ferreira da Silva Fragateiro, Administrador do Concelho de Ovar.
Na segunda, dia 28, de manhã, os louvados saíram de Ovar para continuar os trabalhos, mas, tendo tomado conhecimento de que a freguesia estava em rebuliço, regressaram à sede do Concelho.

O agrimensor Joaquim Apolinário, que vinha de outra localidade, sem saber o que se estava a passar em Arada, dirigiu-se para a freguesia quando foi recebido por populares, cerca de 60, que “exaltados diziam que não queriam, nem consentiam o arrolamento”.
Os trabalhos foram suspensos e, à tarde, José Fragateiro, acompanhado por António da Costa Morais, Escrivão da Fazenda, deslocou-se à Murteira para tentar resolver o diferendo. Previamente, convocou para uma reunião o Abade da Paróquia, o Regedor, o Juíz Eleito, João Ferreira Mendes, Manuel Leite e outros, para que “acolhessem e fizessem acolher com agrado o serviço de arrolamento”. Como a elite aradense prometeu tudo fazer para garantir a normalidade, o Administrador do Concelho deu ordem para se continuarem os trabalhos, o que ocorreu nos dias 29 e 30.

Devassa às famílias
Em ofício de 29 de Abril, classificado como confidencial, remetido ao Governador Civil, o Administrador considera “imprudente deixar de prosseguir nos trabalhos começados”, julgando “preferível fazer-se o serviço com cem ou duzentos alqueires de rendimento colectável inferior ao rendimento real, à suspensão dos trabalhos ou alteração da ordem pública. E pelo que respeita ao arrolamento de pessoas e gados, principal causa da aludida excitação, ordenei que moderadamente se fizesse, e em último extremo fosse provisoriamente suspenso, pois é fácil remediar esta falta por informações confidenciais, rol de confessados e outros recursos.” Com base neste excerto, podemos concluir que a altercação popular se devia não apenas à avaliação das propriedades, mas também, e sobretudo, ao entendimento da população de Arada que os arroladores se estavam a exceder, procurando saber mais sobre a constituição das famílias e o gado existente em cada casa. Acresce que se terá criado um certo mal-estar entre a população quando se aperceberam de que tinham vindo fazer o arrolamento em Arada sem concluir o de Válega. Isto mesmo o reconhece o administrador do Concelho no referido ofício: “E por último digo a Vª Exª que concorre para esta excitação o mau passo de remover para a freguesia de Arada o serviço do arrolamento, sem que se finalizasse o de Válega, onde tinha começado”.

Vitória do povo acaba em turbulência...
Os ânimos aqueceram de novo e deu-se um levantamento popular contra os arroladores que, fugindo de Arada, se apresentaram em Ovar. No relatório remetido ao Governo Civil, o Administrador afirmava que os arroladores, “desanimados e muito receosos por motivo da crescente exaltação dos povos, abandonaram o serviço; porquanto os proprietários, reunindo-se ao toque de buzinas, não toleravam que se escriturasse o razoável rendimento, querendo uns ser os próprios informadores, outros que não se avaliassem os seus prédios e chegando finalmente alguns a ameaçar as vidas dos empregados.”
Perante isto, no dia 1 de Abril José Fragateiro alertava o Governador Civil para a gravidade da situação e apelava à “conveniência de substituir os louvados”.
José Borges Pacheco Pereira, Governador Civil, acedeu ao pedido, e solicitou ao Inspetor-geral para que enviasse outros arroladores.
Entretanto, o Administrador do Concelho conseguiu, em segredo, que alguns Aradenses identificassem os agitadores populares e chamou 5 indivíduos à Câmara Municipal para os admoestar. Como as denúncias tinham sido obtidas “à boca pequena”, não conseguiu obter provas e não instaurou qualquer processo. Resultado: os advertidos perceberam a impotência do Administrador Fragateiro e reforçaram a criação de obstáculos ao arrolamento.

Hoje, se calhar abusivamente, podemos concluir que o povo de Arada começou a gritar vitória e a achar que era possível vergar o poder do Estado. Na verdade, tinha razões para isso: pararam os trabalhos de avaliação dos prédios, conseguiram forçar a substituição dos louvados, insurgiram-se contra a aplicação de medidas do Estado, e não tiveram quaisquer consequências criminais, porque não houve abertura de processos contra os agitadores. Com isto, chegou aos ouvidos do Administrador do Município “ que pessoas turbulentas de algumas freguesias do Concelho da Feira tencionavam cooperar com os povos desta (Arada) para impedirem o arrolamento”.

Jornal JOÃO SEMANA (1/05/2013)
TEXTO: Manuel Malícia 

Continuamos a contar, passo a passo, os acontecimentos daqueles dias de Abril do distante ano de 1870 e que, na época, foram classificados como selvajaria: “horríveis as cenas de selvageria estúpida, que os povos dos concelhos de Ovar e Feira viram desdobrar infamemente ante seus olhos e que vitimaram um punhado de crianças e mulheres” (O Primeiro de Janeiro, 20/4/1870)

Como os protestos do povo conseguiram suspender os trabalhos de avaliação dos prédios e os louvados abandonaram o serviço na freguesia, chega a Ovar, no dia 6 de Abril, Sebastião de Sá Barreto, comissionado pelo delegado do tesouro e portador de ofício do Governador Civil, para “tentar a continuação do serviço, sem recorrer a meios extraordinários”. Enganou-se. A 8 de Abril tudo se complicou. Pela manhã, apresenta-se um dos novos louvados, Constantino António Jorge, e a comissão decidiu “não demorar os trabalhos”. À tarde, a freguesia fica de novo em polvorosa. O Escrivão da Fazenda e o Administrador do Concelho dirigiram-se à Murteira, para onde José Fragateiro havia mandado comparecer os informadores, mas à sua espera tinham o povo de Arada que saía das casas e dos campos “ ao toque de buzinas – sinal de rebate para ajuntamento”.
As autoridades da Câmara Municipal e os avaliadores foram recebidos com insultos e ameaças. Bem tentou o Administrador do Concelho José Manuel Ferreira da Silva Fragateiro deter um indivíduo que se destacou na arruaça. Segundo disse, não conseguiu “ logo capturá-lo, por falta de forças”. Perante tal situação de absoluta desordem pública, o Administrador telegrafou, no dia seguinte, ao Governo Civil para que fossem enviadas forças militares, pois “sem auxílio de força armada não podia continuar a desempenhar o serviço”.
Esta leitura dos acontecimentos resulta da consulta de um Relatório datado de 28 de Abril, e da autoria do administrador Fragateiro, tornado público após a tragédia mas cuja versão não parece ser totalmente coincidente com a correspondência trocada entre as autoridades de Ovar e de Aveiro. Acresce que o ofício comprova que Arada não era caso único de tumultos públicos de rejeição dos arrolamentos, como alguns historiadores atestam. Veja-se:
N.º 6 – telegrama – ao excmº sr. Governador civil de Aveiro – Do administrador do concelho de Ovar. – Falhou nova tentativa em Arada. Vou proceder contra um agitador. Ou vª excª tem de mandar para ali força ou renunciar ao serviço. – Ovar, 9 de Abril de 1870 – João Manuel Fragateiro
Nº.1 – Ofício - Administração do Concelho de Ovar – 3ª repartição – nº 3 confidencial
Illº e excº sr.
Em cumprimento das determinações de Vª exª, fui ontem pelas 4 horas da tarde à freguesia de Arada, levando em minha companhia o escrivão da fazenda, agrimensor e um dos louvados (não tendo até agora aqui aparecido o outro) e estando a conferenciar com dois informadores da freguesia, ouvi que, a alguma distância do sítio em que me achava, tinham tocado um búzio. Corri logo na direção que o som me indicava, mas não me foi possível encontrar o tocador, nem, ao menos, saber o nome das diferentes pessoas a quem o perguntei. Ordenei em seguida a continuação dos trabalhos e eu mesmo fui ao campo em companhia do pessoal. E como próximo do dito campo se tivessem reunido trinta e cinco pessoas aproximadamente, homens, mulheres e crianças, as últimas das quais, de cima do muro do prédio em que andávamos, faziam grande algazarra, fui em direção ao grupo dos homens, quatro ou cinco passos afastados das crianças – por cujo motivo entendi as instigavam àquela algazarra – e admoestei-os para que dispersassem ou, ao menos, não promovessem assuadas. Não corresponderam, porém, ao meu pedido e, expondo-me algumas queixas, que imaginavam contra os arrolamentos, tentei convencê-los de que não tinham razão, nem mesmo motivo para isso, por enquanto ao menos. Corria animada a discussão, como v. excª bem deve imaginar, quando Manuel Fernandes Oliveira, almocreve, do Monte da dita freguesia, chegando ao grupo com um pau grosso na mão tentou bater no cocheiro de um carro em que tínhamos ido, levantando para ele sem motivo o pau e intimando-o que se retirasse, dando gritos subversivos da ordem pública, e incitando o povo contra os arroladores por imitação, segundo dizia, do que tinha visto em Castro Daire. Em seguida dirigiu-se a mim com insultos iguais, ameaçando-me com o pau: e só depois de grandes esforços, foi que o regedor, escrivão da fazenda, eu e o pessoal dos arrolamentos pudemos conseguir agarrá-lo e tirar-lhe o pau, empregando a força, no meio da indiferença quase ameaçadora do povo da freguesia!
Confirmo portanto o meu telegrama de hoje: ou fazer o serviço empregando a força, ou renunciar a ele. Constou-me há três dias que os povos de Arada esperam, para seus distúrbios, apoios das freguesias limítrofes à sua – Maceda, Rio Meão e Travanca do concelho da Feira. Preveni desta notícia o respetivo administrador e ignoro se ele providenciou. Em todo o caso, e prevenindo a probabilidade de tal começo, bom será que a força seja em número suficiente para estar a coberto de qualquer ultraje.
Deus guarde a v. excª.
Ovar, 9 de Abril de 1870
O administrador do concelho, João Manuel da Silva Fragateiro

A correspondência deixa claro que as autoridades ponderaram abandonar os trabalhos para evitar tumultos, colocando esta hipótese em alternativa ao uso da força. No entanto, esta opção contraria as suas verdadeiras intenções, pois a 7 de Abril escreveu o administrador, de forma maquiavélica e tacticista (como hoje se diz), num ofício confidencial: “Ocorre-me, porém uma ideia, que julgo aproveitável e submeto portanto à esclarecida apreciação de v.excª: -principiar e seguir simultaneamente o serviço dos arrolamentos nas freguesias de Arada e Válega deste concelho, enviando para esta última o pessoal necessário, quando vier o de Arada. Sei que isto se afasta das instruções existentes, mas entendo que o sossego de Válega seria ótimo exemplo para Arada, que seria coagida pela força, se ainda assim tentasse impedir o serviço. V. excª , porém, ordenará o que julgar conveniente.”


Jornal JOÃO SEMANA (15/05/2013)
TEXTO: Manuel Malícia 


A 22 de Abril de 1870, o Jornal de Notícias considerava que “a resistência aos arrolamentos limitados a duas comarcas não pode considerar-se imponente manifestação da vontade nacional”, mas alertava para a possibilidade de se estender ela “a mais distritos”. E concluía o diário do Porto: “não queira o governo continuar a ter a autoridade em conflito sanguinário com o povo.”

Breve síntese dos factos antece­dentes a 1870
1. O governo do Duque de Ávi­la tomou posse em 18 de Agosto de 1869 e chegou à conclusão de que precisava de mais dinheiro para as­segurar os compromissos do Estado. Mandou avaliar os prédios em todo o país e aumentou a receita dos im­postos.
2. Quando os louvados e agri­mensores se instalaram em Arada, o povo enxotou-os e o Governador Civil mandou outros para acalmar os ânimos.
3. A chegada de novos avaliado­res não foi suficiente para acalmar os ânimos, e a ação impositiva de José Manuel Fragateiro causou es­caramuças com alguns aradenses. Por ofício de 9/4/1870, o poder polí­tico de Ovar apelou ao uso da força.

Tropas à chuva e ao sol...
Na tarde desse dia 9 de Abril de 1870, por ordem do Governador, chega à freguesia uma força militar constituída por “40 baionetas do regimento de infantaria 18. Esta força foi estacionar em Arada, e não pôde ser aboletada pelo estado de agitação da freguesia e inconveniência de ficar dispersa”. Quando se diz que os soldados não foram aboletados isso quer dizer que, contrariando a lei, nenhum aradense disponibilizou a sua casa para acolher os militares e lhes garantir um teto (nem nos cobertos, aidos ou alpendres) e condições mínimas de manutenção. Todos se recusaram, e diz-se que corria uma ameaça: se alguém receber as tropas em sua casa, os seus bens serão incendiados. Conclusão: tropas à chuva e ao sol, e, se quisessem mantimentos, que fossem a Ovar buscá-los. Tudo indica que optaram por aquartelar em redor da Capela do Calvário, no lugar do Outeiral.
Nem o facto do dia seguinte ser o Dia do Senhor – domingo, 10 de Abril –, amoleceu o coração desta gente. O comandante das tropas bem tentou o aboletamento só para durante o dia, mas “em presença da excitação e oposição do povo, receando qualquer insulto à força, teve de desistir desta medida até ulteriores providências”, que foram pedidas ao Governador Civil.
Segunda-feira de manhã: é preciso retomar os trabalhos e responsabilizar os autores dos tumultos, terá decidido o Administrador do Concelho. Se bem o pensou, melhor o fez. Piorou ainda mais a situação. Deslocou- -se à freguesia acompanhado pelo escrivão da Câmara “para proceder a investigação sobre os factos ocorridos, levando juntamente o escrivão da fazenda e a comissão arroladora para continuarem os seus trabalhos.” Na carta que envia ao Governo Civil a explicar o que sucedera, escreve: “Foi de espanto para nós, quando ao passarmos por algumas ruas da freguesia, muitos grupos de pessoas, encostadas às portas ou nos muros e todas mais ou menos armadas, nos dirigiram provocações. O uso da nossa prudência evitou ainda por então cenas desagradáveis, que o povo desafiava. Chegamos com felicidade ao pé da força estacionada no Calvário”. Quando se encontra com os militares, José Fragateiro dá ordem para que todos se dirijam para o lugar da Murteira “onde tinham de continuar os trabalhos”. Então os sinos começam a tocar a rebate e as autoridades civis e militares são cercadas, em poucos minutos, por centenas de aradenses que ali acorrem. O desfecho será terrível...

Duas versões dos factos
Segundo “O Campeão das Províncias”, um jornal que se publicava em Aveiro, “ quando a Comissão comarcã estava nos trabalhos de arrolamento, na freguesia de Arada, tocaram os sinos a rebate, reunindo todo o povo da freguesia e mais de oitocentas pessoas dos lugares de Travanca, Souto, Maceda e Esmoriz, do Concelho da Feira. A comissão estava guardada apenas por dois soldados porque tudo fugiu em presença da grande massa popular, que não fez coisa alguma mais do que estorvar que o arrolamento prosseguisse, retirando-se todos depois de verem desaparecer os arroladores.”
Confrontemos agora essa notícia com a versão do Administrador do Concelho: “tinham concorrido àquele sítio mais de 1000 pessoas. De um lado achava-se a força armada a fim de proteger os empregados no serviço e manter a ordem. Do outro, estava a populaça que para ali havia convergido das freguesias de Arada, Espargo, Feira, Travanca, Rio-Meão e outras, munidas de paus, fouces, machados, etc. desenfreadamente amotinada, revolucionada até e resolvida a impedir o serviço por todos os meios. Destacou o sr. Comandante uma força para que, à distância de 50 metros da praça principal, fizesse dispersar o povo, que sobre esta vinha crescendo. A custo, porém, é sentido, e não pôde conseguir-se fazê-lo dispersar ou ao menos afastar. Ordeno a captura de um cidadão, que mais se obstinava na desobediência, e não consigo intimidar os outros! Mandava ainda a prudência que não mais insistisse. Dizendo-me o escrivão de fazenda que se não podia dar princípio aos trabalhos por falta dos informadores locais, são escolhidos interinamente três indivíduos apropriados e a comissão vai para o campo, a pouca distância, acompanhada não só desses indivíduos, mas também do mesmo escrivão da fazenda e de dois soldados expressamente encarregados de pedirem socorro à força, se a comissão fosse agredida.
Empregava-me eu, no entanto, em aconselhar o povo à obediência e à ordem, quando imensa gritaria nos fez conhecer a existência de agressão contra o pessoal do arrolamento. Corro com a força em auxílio e não encontro os empregados. Pouco depois aparece o escrivão da fazenda com os dois soldados, tendo o agrimensor e louvados fugido por montes e vales em direção a Ovar, onde chegaram arquejantes, algumas horas mais tarde, cada qual por seu caminho, por onde melhor pode, para evitar a perseguição que por muito tempo sofreram.”

No dia seguinte, tudo iria recomeçar...
Perante tamanha resistência e como se tornou impossível encontrar os avaliadores, que fugiram da freguesia a sete pés, o comando militar resolveu fazer descansar as tropas. É preciso lembrar que ninguém fornecia qualquer alimento aos soldados ou guarida para pousar a cabeça. Imagine-se o estado de exaustão em que se encontraria “a tropa, que, desde manhã, estava em armas”. Sem alojamento e sem comida, não restou às autoridades senão uma alternativa: enfiar os soldados “em dois cabanais próximos, mandando-lhes desta vila o preciso para o seu sustento, pois que os habitantes da freguesia, dizendo sempre que não faziam mal aos soldados, não só nada lhes davam, mas ameaçavam de morte e casa queimada a quem lhes desse ou vendesse alguma cousa.”

No dia seguinte, tudo iria recomeçar, só que a morte já espreitava atrás da capela do Calvário...

Jornal JOÃO SEMANA (01/07/2013)
TEXTO: Manuel Malícia 


“O escrivão da fazenda, agrimensor e lou­vados retiraram-se deste concelho. E a força estaciona aqui até ulteriores ordens”. É deste modo que o Administrador da Câmara de Ovar, José Manuel da Silva Fragateiro, informa José Borges Pacheco Pereira, Governador Civil, no dia seguinte aos “assassinatos de Arada”. Através de ofício de 13 de Abril, ficámos a saber que os avaliadores abandonaram a freguesia e, consequentemente, as avaliações foram suspensas. O povo tinha conseguido travá-las, mas com sangue e violência. Poderia ter sido evitado? É muito difícil responder sem termos na nossa posse todos os dados.

Ovar, 11 horas da manhã, Domin­go, 10 de abril de 1870
Nem ao domingo José Manuel Fra­gateiro descansa da luta que trava com os aradenses e alerta, por telegrama, o Governador Civil de Aveiro: “A força foi mal recebida em Arada. Há fermen­tação. Recusam quartel e alimento. O capitão pede providências para rancho. Convém dar-lhe instruções extraordiná­rias e reforçar a diligência.”
Este reforço da diligência deu para o torto. Cerca de 1000 pessoas cercaram a tropa na segunda-feira e os louvados fugiram pelos campos até Ovar, perseguidos por alguns populares. Vejamos o testemunho de José Fragateiro:

Segunda-feira, 11 de abril de 1870
“Hoje de manhã chegou uma força de quarenta praças, que reuniu à que já se achava em Arada. Fui com o escrivão desta administração àquela freguesia para investigar os factos ali ocorridos, e juntamente a comissão encarregada dos arrolamentos para os continuar; e procurando a força já estacionada em Arada para a colocar mais convenientemente e próxima dos trabalhos do arrolamento, fomos continuamente insultados, na distância de mais de um kilómetro, por mulheres e homens que estavam pelos caminhos, estando os homens todos armados de enxadas, engaços, foices e grossos paus. Pouco depois que chegamos tocaram a rebate os sinos da igreja e capelas e começou a afluir sobre a força grande multidão de gente…”
Foi este o relato de José Fragateiro perante a resistência dos aradenses à imposição das avaliações. Não se percebe a razão que terá originado esta deliberada atitude de confrontação e de uso da força, quando havia sinais claros de crispação violenta com consequên­cias imprevisíveis. A documentação disponível não nos deixa dúvidas sobre a responsabilidade do Administrador do Concelho na má condução da crise. Torna-se indiscutível a sua vontade férrea de vergar o povo e impor a lei. Do ponto de vista da autoridade, faria sentido, mas os “senhores de Ovar” não conheciam o espírito aradense de antes quebrar que torcer.

Terça-feira, 12 de abril de 1870
No dia seguinte (12 de abril), o Administrador do Concelho dirige-se a Aveiro para informar de viva voz o Governador Civil sobre o desenrolar dos acontecimentos e, decerto, receber orientações para debelar tão grave crise. Por seu lado, o escrivão da fazenda e o comandante da força militar, em vez de avaliarem a fermentação do povo, to­mam uma decisão de alto risco: regres­sar à freguesia com a comissão arrola­dora e “fazer prosseguir o arrolamento protegidos de perto por 40 praças”. José Fragateiro desresponsabiliza-se dos acontecimentos, mas julgamos que tanto o comandante como o escrivão não teriam tomado tal decisão de forma iso­lada. Vejamos a sua versão dos trágicos acontecimentos:
“Faltando todavia à comissão os informadores da localidade, pediu o escrivão da fazenda ao Sr. Comandante da força uma escolta de 8 soldados que o acompanhassem a casa do regedor, para por intermédio deste os obter. Como neste tempo se tocasse a rebate no sino da capela do Calvário, a pouca distância do sítio em que se achava aquele empregado, lembrou-se ele de obstar no toque de alarme. Nesse intuito dirigiu-se com alguns soldados à capela, e pouco depois se encontrou moribundo, junto da mesma, um indiví­duo por nome José Francisco da Silva e ferido levemente um outro por nome Bernardo Luís dos Reis…
Exacerbando-se mais o espírito do povo com o que acabava de suceder, começou a perseguir sinistramente o escrivão da fazenda, que, para salvar a vida, procurou com os soldados, que o acompanhavam, a força principal, o povo atribuindo-lhe a morte e ferimento daqueles dois indivíduos avançava para a força e pretendia vingança. Havia-se reunido de diferentes freguesias muito mais populaça que no dia anterior. O comandante da força reconhece a necessidade de conduzir a esta vila o escrivão da fazenda e empregados do arrolamento, cujas vidas estavam em risco. Nesta condução é a força seguida por mais de 2000 pessoas sempre em grandes gritos e algazarra. A distância já de cinco quilómetros e ao entrar na vila, é a força apedrejada, e são contusos alguns soldados, recebendo ferimento grave na cabeça o sargento aspirante licenciado Francisco de Castro, daqui natural e que de Arada, para sua segurança, vinha no meio da força. O comandante manda que a divisão da retaguarda carregue à baioneta. Não ouvindo distintamente a voz do comando (pela distância em que estava do comandante que vinha na frente da coluna e pela algazarra do povo) dispara alguns tiros e são feridos oito indivíduos, homens e mulheres.”

A Imprensa
Por seu lado, o jornal Campeão das Províncias narra os acontecimentos com dramatismo, calculando a perseguição não em 2 mil pessoas, mas em cinco mil. Enquanto Fragateiro omite a au­toria dos disparos, a imprensa da época imputa responsabilidades ao escrivão da fazenda:
“Ontem, porém, com a aparatosa aparição da Comissão acompanhada de muita força armada, deram sinal de rebate na torre da freguesia de Arada e informaram-nos que o escrivão da fazenda disparara um tiro sobre o infeliz que tocava o sino, o qual caiu logo mor­to. Nas torres das freguesias limítrofes tocou-se também a rebate e em pouco tempo compareceram mais de cinco mil pessoas armadas de paus, enchadas e chuços pedindo a cabeça do assassino.

A autoridade intimou o povo para que se retirasse, mas a massa enorme, provocada pelo assassinato de um filho do povo cresceu para o lugar onde se achava a força armada dando vivas à tropa e morras ao escrivão da fazenda”.


Jornal JOÃO SEMANA (15/12/2013)
TEXTO: Manuel Malícia 

Retomemos a fatídica história de Arada nos idos de Abril de 1870. Impôs-se uma pausa nestas crónicas porque uma pergunta continua sem resposta: por que é que esta tragédia se apagou da memória coletiva dos Aradenses? Fomos à procura dos registos paroquiais, e adensou-se ainda mais a desconfiança. Normalmente, os párocos tudo registavam, e muito mais ao pormenor quando havia mortos resultantes de tragédias. Em Arada não foi assim. Porquê? Confessamos que ainda não sabemos. Será que podemos concluir que o pároco não deixou testemunho histórico com pormenores por ter responsabilidades administrativas na freguesia? Recear consequências? Por que razão não elenca todos os mortos? Omite um: Manuel Pereira Rezende. Infelizmente, não sabemos a razão, porque os registos paroquiais não o dizem. Lá havemos de voltar para ver melhor e cruzá-los com outros documentos.


As vítimas mortais
As fontes paroquiais relativas a 1870 não referem nada de especial sobre a tragédia, mas, em 12 de Abril, há 3 assentos que chamam a nossa atenção. O primeiro refere que no espaço em frente à Capela do Calvário do Outeiral, pelas 10 h, José Francisco Silva, natural de Poços, residente no Olho Marinho, de 29 anos, jornaleiro, recebeu os sacramentos a toda a pressa; o segundo, uma rapariga lavradeira de S. Martinho, Ana Pereira Valente de 19 anos, faleceu no Outeiro, às 11 h, sem sacramentos, pois finou-se repentinamente, e, por último, às 6 da tarde, no Hospital de Ovar, faleceu Ana Fernandes, lavradeira, de 17 anos, da Preguiça. Como se vê, se o massacre foi de manhã, então estes dados têm fundamento: foram consequência dos acontecimentos. Reitera-se que parece haver cuidado em silenciar o caso, e as omissões são óbvias e gritantes, quando confrontamos outros documentos e versões. (Em situações muito menos graves outros assentos paroquiais referem as causas e não “esquecem” todos os intervenientes).
Felizmente, conseguimos aceder à relação das vítimas de 12 de Abril de uma forma mais completa do que o faz o registo paroquial, mas com “nuances” diferentes. Eis a listagem de mortos e feridos que consta do relatório elaborado pelo Administrador do Concelho de Ovar, José Manuel Ferreira da Silva Fragateiro, e remetido ao Governador Civil em 18 de Abril de 1870:
1.ª José Francisco da Silva, casado, jornaleiro, de 29 anos, do lugar de Olho Marinho, freguesia de Arada. Foi ferido no lugar do Calvário e faleceu uma hora depois, em casa da mãe, Mariana Francisca, dos Poços.
2.ª Bernardino Marques dos Santos, solteiro, serrador, de 40 anos, do lugar do Lourido, freguesia de Espargo, do concelho da Feira. Foi ferido na Mota desta vila, e morreu logo.
3.ª Ana Pereira, solteira, de 19 anos, filha de João Jorge, do lugar de S. Martinho, freguesia de Arada. Foi ferida e morreu logo, na Mota desta vila.
4.ª Ana Fernandes, solteira, de 17 anos, do lugar da Preguiça, freguesia de Arada. Foi ferida em uma perna na Mota, e faleceu no Hospital desta vila poucas horas depois.
5.ª Manuel Pereira de Rezende, solteiro, proletário, de 67 anos aproximadamente, dos Poços, freguesia de Arada. Foi ferido na Mota, e na manhã do dia 14 faleceu no Hospital desta vila.
6.ª Bernardo Luís dos Reis, solteiro, bufarinheiro, do Outeiral, freguesia de Arada. Foi levemente ferido no lugar do Calvário e acha-se quase restabelecido. Terá 22 anos de idade.
7.ª Maria Joaquina, mulher de João Lopes de Rezende, do lugar da Preguiça de Arada. Foi ferida na Mota e acha-se em perigo de vida no Hospital desta vila.
8.ª Maria Soares Jorge, mulher de António Baptista Ferreira, de 32 anos, do lugar da Murteira de Arada. Foi ferida na Mota, levemente, e acha-se em curativo no Hospital desta vila.
9.ª José Rodrigues da Assumpção, do lugar da Igreja, freguesia de Travanca, do concelho da Feira. Foi ferido na Mota, levemente, e cura-se em casa.
10.ª Manuel Francisco Moreira, do lugar da Laranjeira, freguesia de Espargo, do concelho da Feira. Foi ferido na Mota, levemente, e cura-se em casa.

Relatório oficial dos acontecimentos
Este relatório oficial, ainda que possa ser parcial, é uma preciosidade histórica, porque nos dá a dimensão e os pormenores da revolta, bem como a dimensão humana dos “fuzilamentos” ou “assassinatos”, nas palavras da imprensa da época. Para memória futura e como contributo para futuros investigadores, aqui fica um excerto da versão do político responsável pela Administração do Concelho:
Cumpre-me levar ao conhecimento de vª excª desagradáveis acontecimentos que neste concelho se deram, a propósito do serviço dos arrolamentos de Arada. Ontem (12 do corrente mês) voltou o pessoal dos arrolamentos para aquela freguesia, a fim de prosseguir nos trabalhos. Como, porém, não aparecessem os informadores, nem pessoas que pudessem substituí-los, pediu o snr. Escrivão da fazenda (que daqui tinha acompanhado o agrimensor) ao snr. Comandante da força oito soldados que o acompanhassem ao lugar dos Poços, onde esperava encontrar por intermédio do regedor os informadores indispensáveis. Não podendo consegui-los por não encontrar aquele magistrado, e estado de completa revoltação da freguesia de Arada e limítrofes, lembrou-se de passar a uma capela próxima para evitar o toque de sino a rebate (repetição de igual procedimento do dia anterior), admoestando primeiro e capturando em último recurso a pessoa que tocava o sino. Aconteceu, porém, que reagindo aquele agitador, empregando o uso de um machado contra os soldados, foi vítima da sua agressão, sendo aquele morto, como é público, em justa e legítima defesa. Não posso contudo declarar a v. exª o nome do perpetrador, pois que uns a atribuem aos soldados agredidos e outros (quase a totalidade do povo) ao escrivão da fazenda, cuja morte pediam incessantemente. Nestas circunstâncias, não podendo fazer-se o serviço na falta de informadores e estado revolucionário do povo, entendeu o snr. Comandante da força dever acompanhar o escrivão da fazenda e pessoal dos arrolamentos, significando no povo que os vinha entregar nas cadeias desta vila, e ver se deste modo impedia que aqueles amotinados o seguissem.
Baldada esperança: pois na distância de cinco quilómetros foi seguido, sem solução de continuidade, por mais de duas mil pessoas, soltando sempre os mesmos gritos de morte contra o escrivão da fazenda e outros, instigando os mais afastados aos mais próximos da força para que entrassem pela fila e fossem no meio dela assassinar os que indigitavam. Não mencionarei a v. excª a inimitável prudência que o digníssimo comandante da força armada usou para demover o povo dos seus criminosos intentos. Por último, e já na estrada desta vila, repetindo-se as agressões já praticadas pelo povo contra os empregados que a força acompanhava, enviando-lhe pedradas, de que resultou acertarem algumas em soldados e ter uma delas feito um ferimento grave na cabeça de um sargento aspirante, desta vila, que tinha ido a Arada em visita a um dos oficiais, seu condiscípulo, ordenou o comandante à divisão da retaguarda que calasse baioneta para deste modo fazer dispersar o povo. Esta medida, quando mesmo aquelas provocações se não tivessem dado, tinha suficiente razão de ser na necessidade de impedir que aqueles revolucionários viessem agitar esta povoação, onde alguma fermentação começava já a divisar-se. O resultado foi que os soldados, não distinguindo bem a voz de comando, talvez em virtude da grande algazarra dos amotinados, não carregaram à baioneta e dispararam alguns tiros (oito ou dez) de que resultou morrerem duas ou três pessoas, e receberem ferimentos mais três. Os revoltosos dispersaram instantaneamente. O sossego restabeleceu-se e tudo entrou na ordem. O escrivão da fazenda, agrimensor e louvados retiraram-se deste concelho. E a força estaciona aqui até ulteriores ordens de v. excª.…
13 de Abril de 1870”

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/2014)
TEXTO: Manuel Malícia 

Se a agitação de Arada provocou “sério conflito entre a tropa e o povo, do que resultou ficarem mortos 5 homens, além de muitos feridos”, os tumultos fizeram eco no país através da imprensa da época. Naqueles dias de amotinação popular e de tiros à queima-roupa sobre os mais desafortunados, O Campeão das Províncias de Aveiro e O Primeiro de Janeiro do Porto dedicaram muita tinta à revolta contra os trabalhos de arrolamento na freguesia de Arada. Dediquemos então alguma da nossa atenção aos efeitos mediáticos que “os assassinatos” causaram na opinião pública e na política nacional.

Paus, enxadas e chuços
Da leitura dos periódicos de Abril de 1870, sobretudo dos remetidos ao prelo no final do mês, pode-se ficar com a ideia de que o povo de Arada estava a ser vítima do ódio e de um complot montado pelos dirigentes locais e se encontrava encurralado pela violência gratuita da tropa e dos poderes políticos. Regista o jornal aveirense: “No dia 11 do corrente, quando a comissão comarcã estava nos trabalhos de arrolamento, na freguesia de Arada, tocaram os sinos a rebate, reunindo todo o povo da freguesia e mais de oitocentas pessoas dos lugares de Travanca, Souto, Maceda e Esmoriz, do Concelho da Feira.
A comissão estava guardada apenas por dois soldados porque tudo fugiu em presença da grande massa popular, que não fez coisa alguma mais do que estorvar que o arrolamento prosseguisse, retirando-se todos depois de ver desaparecer os arroladores. Ontem, porém, com a aparatosa aparição da comissão acompanhada de muita força armada, deram sinal de rebate na torre da freguesia de Arada, e informaram-nos que o escrivão da fazenda disparara um tiro sobre o infeliz que tocava o sino, o qual caiu logo morto. Nas torres das freguesias limítrofes tocou-se também a rebate e em pouco tempo compareceram mais de cinco mil pessoas armadas de paus, enxadas e chuços pedindo a cabeça do assassino.
A autoridade intimou o povo para que se retirasse, mas a massa enorme, provocada pelo assassinato de um filho do povo cresceu para o lugar onde se achava a força dando vivas à tropa e morras ao escrivão da fazenda.”
Tal relato é deveras esclarecedor da posição do jornalista a favor da população de Arada. Com a distância temporal que nos separa daquela época, confessamos alguma dificuldade em separar o trigo do joio. Por isso, julgamos importante confrontar a versão oficial do Administrador do Concelho (como temos vindo a publicar), que imputa a responsabilidade das mortes à desobediência civil e agressividade do povo de Arada para com as autoridades, com o outro olhar que nos transmite a imprensa. O excerto acima transcrito procura colocar as autoridades como carrascos de uma execução pública de inocentes: classifica o escrivão da fazenda, António da Costa Morais, como “assassino” e o morto como “infeliz que tocava o sino”. Por seu lado, o povo apenas reage ao incidente (“a massa enorme, provocada pelo assassinato”) na defesa “de um filho do povo”. Aqui está, usando abusivamente uma terminologia marxista, um confronto resultante da luta de classes: povo/poderosos. Querendo, decerto, transmitir o sentido de justiça reinante no seio popular, em contraste com o de injustiça dos dirigentes, o “povo cresceu para o lugar onde se achava a força dando vivas à tropa e morras ao escrivão da fazenda.” Não podemos esquecer que os jornais da época tinham o hábito de reproduzir mutuamente artigos publicados em outros periódicos, dando aos acontecimentos uma visibilidade que hoje temos dificuldade em avaliar. Sabemos, sim, que essa reprodução originava maior divulgação e consequente formação da opinião pública.

Caçadores e cavalaria...
Assim se percebe, aliado ao claro posicionamento político e de fação que caracteriza a imprensa do século XIX, que o mesmo sentimento de injustiça seja veiculado em “O Primeiro de Janeiro” quando afirma: 1) o povo tem sido esmagado e sofre; 2) o administrador João Fragateiro é um tiranete dominador e vingativo; 3) o administrador atua como atua para acertar contas com outros agentes políticos e não se dá por satisfeito.
Mas vejamos o excerto publicado em 23 de Abril de 1870:
“Parece que retira a infantaria que estaciona em Ovar, ficando permanente um destacamento de caçadores e cavalaria. O povo daquela vila tem sido esmagado com os boletos desta força. Quem ali domina é o administrador do concelho e o comandante da força o Tenente-Coronel Queiróz foi mandado colocar às ordens daquela autoridade.
Todos os meios empregados pela Câmara Municipal para aliviar o povo do vexame que sofre, procurando quartel para a tropa, têm sido baldados, porque o administrador quer-se vingar na população, que o odeia, por isso não segue a política dominante. Apesar de toda a votação ter sido unânime no sr. Assis, o administrador ainda não está satisfeito. Pois em verdade o sr. Assis é um excelente deputado para Ovar e senão haja vista o quanto ele em duas legislaturas tem propugnado em prol dos seus eleitores.”
Confessamos que a leitura deste artigo (ressalve-se a distância temporal e a dificuldade de entrarmos no contexto) deixa-nos com “a pulga atrás da orelha”: afinal o discurso oficial “pretensamente limpinho e rigoroso” que encontramos nos relatórios do administrador Fragateiro, e que é repetido no processo judicial que entretanto decorrerá, pode merecer outros contornos que assaltavam a política local e nacional. Também deve ser equacionada, porque o cronista assim o indicia ou então trata-se de uma mera atoarda, algum episódio ocorrido entre João Fragateiro e o deputado João Carlos Assis Pereira de Melo que derrotou o Presidente da Câmara Manuel Arala nas eleições para deputados pelo círculo uninominal de Estarreja e Ovar (nº 33) e que ficaram conhecidas como as eleições dos rijões. Parece-nos estranho, porque Alberto Lamy indica,na sua Monografia, que o deputado Assis “era protegido no concelho pelo dr. João Manuel Ferreira da Silva Fragateiro, Administrador do Concelho, e pelos regedores de Arada e Ovar”. Ou será que o cronista se queria referir a Manuel Arala e confundiu os cargos? Se assim for, então começa a ganhar lastro a “maquinação” de Manuel Arala e o seu dedo invisível na manipulação dos agentes da contenda. Estranha-se, no entanto, que seja completamente ignorado em todas as notícias que consultámos (até ao momento). Estranha-se também, a ser verdade a acusação contra Manuel Arala (figura de proa do partido reformista na oposição) de ter “mexido os cordelinhos” para o levantamento popular em Arada, que João Fragateiro nunca o refira implícita ou explicitamente nos seus telegramas e ofícios confidenciais.

Imprensa dividida na polémica...
Regressemos às nossas pesquisas. A partir de um artigo-resposta que encontrámos no referido periódico do Porto, percebemos que a imprensa nacional se dividia na polémica. Uns diziam que os causadores das mortes eram o Governo e os seus apaniguados, outros culpavam o povo de Arada, como o assumia um jornal que se publicava na época – A Revolução de Setembro. No calor da polémica, uma conclusão é indesmentível: naquela época, a freguesia de Arada e o concelho de Ovar estiveram no centro do debate político e jornalístico em Portugal.
No artigo publicado na sexta-feira, 22 de Abril, e com o curioso título “As vítimas que queriam assassinar”, O Primeiro de Janeiro, socorrendo-se de um tom irónico, defende Arada e as vítimas de Ovar contra os ataques do poder, cuja voz oficial seria pretensamente dada por A Revolução de Setembro. Do artigo percebemos que os Aradenses eram acusados de serem os responsáveis pelos seus próprios assassinatos, ao que o jornalista do Porto contrapõe, sarcasticamente, que os que morreram afinal procuravam o descanso eterno com a sua revolta. Vejamos o excerto:
“Magoará a uns, e causa de certa estranheza a todos que a Revolução de Setembro estigmatize assim com o epíteto ignominioso de assassinos as vítimas de Ovar. As mulheres que rolaram no pó varadas pelos intrépidos campeadores de Arada; o rapaz que trespassaram as baionetas heroicas dos mantenedores da ordem (..) o povo queria assassinar, provocava a desordem e a rebelião e recebia justamente em troco a pena de talião que era a sua morte!
Isto escreve-se na Revolução de Setembro, aplaude-se ali, batiza-se com o nome de governo forte, da lei respeitada, de autoridade com prestígio”.


Jornal JOÃO SEMANA (15/10/2014)
TEXTO: Manuel Malícia 

Através dos artigos da imprensa de 1870, pudemos assistir a um coro de protestos dos povos de antanho e vimos passar diante dos nossos olhos revelações que ajudam a perceber os meandros dos fatídicos acontecimentos ocorridos em Arada. Cada leitor foi escrutinando, ao seu jeito, as verdadeiras razões que motivaram o morticínio que temos evocado. Eis o momento para assistirmos ao debate nas cortes.


Arada no Parlamento
Chegou então a hora do debate político nos mais altos areópagos da nação: o Parlamento, na época Cortes. Em 21 de Abril, o deputado Bandeira Coelho faz uma intervenção, afirmando que era “necessário que o estado anormal em que estão aquelas povoações acabe”. Tal exigência terá, decerto, “obrigado” o então “Primeiro-Ministro”, Duque de Loulé (na altura designado Ministro do Reino), a pronunciar-se sobre Arada.
A relevância do documento que a seguir se transcreve reside sobretudo no facto de, pela primeira e julgamos única vez, Arada ter sido objeto de análise e de debate político na Câmara de Deputados e o que aqui ocorrera se ter tornado matéria de interesse nacional. Acresce que a revolta aradense conseguira não só a adesão dos jornais à sua causa, mas dava já também sinais de colher adeptos no mundo da política, como se pode confirmar através das palavras dos deputados Ferreira de Melo e Carlos Bento (“que também se declarou contra o sistema de arrolamentos”)
“Sessão de 23 de Abril de 1870)
Presidência do Sr. Palmeiro Pinto
Abertura à 1 hora e um quarto da tarde. Presentes 46 deputados.
Ordem do Dia
Interpelações dos Srs Ferreira de Melo e Carlos Bento sobre o sistema de arrolamentos e acontecimentos de Ovar.
O Sr. Ferreira de Melo - declarou não aprovar que o povo se insurja tumultuariamente contra qualquer medida, mas também não podia concordar com o emprego de força senão em casos extremos.
(...) O Sr. Ministro do Reino – informou a Câmara de que em Arada o sossego é já restabelecido e que hoje não existe ali força alguma. Quanto às mortes que houve ali está-se procedendo a investigação e oportunamente a Câmara será informada.”
Como tudo isto termina, veremos em próxima edição quando a matéria transitar para outro plano: o Tribunal.

(Continua…)

Artigos publicado no jornal JOÃO SEMANA (15/03/2013, 15/04/2013, 01/05/2013, 15/05/2013, 01/07/2013, 15/12/2013, 01/02/2014 e 15/10/2014)
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