1.1.14

Os vareiros são como os pardais...

De inverno, são humildes e submissos;
de verão, não conhecem vivalma…

Jornal JOÃO SEMANA (15/02/2013)
TEXTO: Serafim de Oliveira Azevedo

Era assim que o meu Pai de­sabafava, depois de ter autorizado aquele homem, descalço e vestido de maneira diferente, a apanhar pinhas, durante mais um ano, no pinhal da casa.
Era eu pequeno, criancinha ainda. Mas aquele dito de meu Pai caiu mal no meu goto e, a partir daí, sempre que surgia uma oca­sião, logo eu procurava descobrir a razão de tal máxima, observando atentamente as pessoas de Ovar, e a melhor maré foi quando o Adalber­to Murteira, com permissão de seus pais, me convidou para passar uns dias com ele e com a mãe na sua casa do Furadouro. Foram uns dias em cheio: um fartote de praia. De norte para sul, tudo foi bem obser­vado, minuciosamente espiolhado. Mas faltava-nos uma coisa: ir no barco com os pescadores, observá­-los na sua espinhosa lide.

Uma aventura no mar
Combinámos comprar um Português Suave cada um, e, antes de começarem a sua faina, oferecê­-los àquele que nos parecesse ser o manda-chuva da companha, e pedindo-lhe se nos deixava ir com eles no barco. E a coisa foi mais fá­cil do que se esperava. Apetrechos em ordem…, e lá chegou o nosso embarque. Foram três momentos marcantes: a saída do barco, o momento do retorno, e a chegada. Que impressionante o remar do barco no retorno: tudo tão certinho, aqueles músculos retesados, aquele cântico de louvor a Deus… Aquilo não era um cântico, era uma oração cantada em voz tão alta, que, de certeza, era ouvida no Céu.
Quando contei isto à minha Mãe, ela aproveitou para me di­zer: – “Quem quiser amar a Deus, não diga que não tem tempo. Pode andar no seu serviço e trazer Deus no pensamento”. Como era uma mulher incansável, aproveitava todos os motivos para me pôr do lado de Deus. Tenho de lhe agra­decer essa dádiva.

Anos 40. Apetrechos em ordem... e lá chegou o nosso embarque

Mas voltemos ao trabalho, àquilo que nesse dia nos levou à praia, à concretização do nosso sonho. Metidos no barco, breve­mente começámos a assistir à sua invasão: foram 46 homens – que, para a nossa idade, para o nosso tamanho, eram autênticos gigantes –, que logo se dirigiram aos seus lugares e se prepararam para a ultrapassagem do mar de banco, pois o barco já estava bem à beira mar, para aí levado com o engenho e a força dos homens do mar e dos homens de terra.
Tivemos sorte, pois o barco venceu, de uma vez, o mar de ban­co. Depois, foi ver correr a corda e a rede até que esta chegasse ao saco. Lançado este ao mar, era chegado o momento do regresso a terra.
Tem graça que nunca nos pas­sou pela cabeça o receio de um desastre. Aqueles homens inspira­vam-nos tanta confiança, que nada nos assustava. A apreciação que eu tinha ouvido do meu pai, essa é que se afundou na parte mais profunda do trajeto daquele lanço.

A festa do regresso
Já de volta, foi um regalo ver as boias a flutuar, as gaivotas a perseguir-nos, atraídas pela fartura de peixe a saltar dentro da rede bem cheia.
Chegados a terra, o bulício foi outro. Homens, mulheres, crianças, tudo apareceu, tudo concentrou a sua atenção no recheio da rede puxada para fora das águas por ho­mens e bois alheios a todo este bur­burinho. Enquanto uns pescadores iam juntando a corda que ia saindo da água, outros iam recolhendo o peixe mais grado.
Saco fora da água, foi a hora da lota, do leilão. Concentrei toda a minha atenção no leiloeiro, mas não apanhei nada. O homem des­fiava uma cantilena e entregava o peixe. Mas só ele e o comprador se entendiam, sem os protestos de ninguém.
Que lindo dia, que bênção do céu foi mais este dia passado com o meu colega de carteira, meu amigo para sempre, o Adalberto Murteira!
Este episódio foi o prelúdio da minha entrega ao povo de Ovar. Isto e o convívio com o Boaventura e o Pacheco, na Repartição das Fi­nanças da Feira, o António Sanfins e a Maria Judite, o Zeferino e o José Cerejeira, estes na tropa, e os pais dos meus primeiros alunos, os da escola de Cabanões. Estes foram os alicerces. O resto do edifício foi acabado com os pais dos alunos das Escola n.º 1 da sede do concelho e com os industriais que puseram de pé a cantina que aqueceu e saciou os estômagos das crianças necessitadas da sede do concelho. Bem hajam!

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de fevereiro de 2013)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/01/os-vareiros-sao-como-os-pardais.html

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